Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

The Descendants (2011)




‘The Descendants’ é um filme sobre a perda. Há muitos filmes sobre a perda, a morte da mulher/do marido, de um filho, de um amante. ‘The Descendants’ não é mais nem menos que a maior parte destes filmes (a ser, é menos), e isto resume o filme muito simplesmente.
Ontem, sentado na sala de cinema, numa das muitas partes morosas do filme, pus-me a pensar na personagem de Clooney, que recentemente ganhou o globo de ouro de melhor actor e é forte candidato ao Oscar (será que a Academia vai ter coragem de votar no francês Jean Dujardin?!). Pensava eu o que estava Clooney a dar a este papel? Clooney estava a falar exactamente da mesma maneira que fala em todos os seus filmes. Clooney estava a ter os trejeitos de cara que tem em todos os seus filmes. Em suma, Clooney estava a ser Clooney. Portanto, Clooney está a ser homenageado pela sua performance ou pelo seu papel? Ou seja, é por chorar por a mulher estar a morrer que dizemos que ele está a ser um bom actor, ou é porque efectivamente está a chorar da maneira que nos convence? Estamos a dar prémios ao papel, à personagem do argumento, ou ao actor? Infelizmente, em muitos casos, e este não é excepção, estamos a dar o prémio ao papel, não ao actor, visto que Clooney está igualzinho a ele próprio, incluindo até demasiado ligeiro em cenas em que não o devia ser. Claro que chora. Claro que a câmara o apanha de frente em que podemos ver o seu olhar triste e a lágrima a cair. Mas isso é a câmara e o argumento que ditam, e não o actor. ‘The Descendants’ é todo ele construído sobre estas premissas de argumento que a câmara depois não efectivamente traduz.
Um exemplo. No início do filme há uma voz off insuportável de Clooney em que ele explica os seus sentimentos tintim por timtim (a sua mulher teve um acidente de barco, está em coma e está prestes a morrer). São minutos e minutos de voz off (cerca dos 10 primeiros). Mais parecia que Clooney estava a ler passagens do romance em que o filme é baseado. Um realizador europeu dispensaria a voz off e explicaria os sentimentos de Clooney por imagens (o cinema é imagens antes que texto). Aqui, forçada e artificialmente, somos sugados para o seu sofrimento. E tirando as cenas no hospital em que a família chora sobre a doente, na realidade pouco parecem sofrer por ela. Clooney mexe-se e fala como um homem despreocupado (à Clooney). As palavras têm sentimento. Não as imagens nem a forma como as palavras são ditas.
Basicamente Clooney e as suas duas filhas tentam lidar com a perda da mulher/mãe. Por um lado Clooney tem que dar a notícia aos familiares e amigos próximos, para que possam ir ao hospital despedir-se antes das máquinas serem desligadas. Por outro, sobre ele está assente a responsabilidade de venda de uns terrenos belíssimos e virgens numa das ilhas do Hawaii. Se os vender, ficará rico, mas a beleza natural perder-se-á. Esta linha de argumento parece existir para encher. Nada se relaciona com a morte da mulher, e tudo gira à volta das convicções de Clooney. E o desfecho, em face do argumento, não é difícil de adivinhar. Este tipo de filmes segue uma linha clara. A iminente morte de um familiar faz com que as pessoas à sua volta reavaliem as suas prioridades. Em ‘The Descendants’ estas prioridades são egoístas, e nada se relacionam com a morta. Mas neste caso, o filme terá razão, pois assim é na vida.
Tomemos outro exemplo. O filme perde imenso tempo em dar o desenvolvimento da personagem da filha mais nova. Contudo, quando a filha mais velha regressa do colégio privado o interesse cambia todo para ela e até ao fim do filme a filha mais nova diz apenas mais cerca de 5 frases, se tanto. Mais situações forçadas para explicar personagens. As personagens não se explicam. Filmam-se.
A catarse para a redenção final vem sobre a forma de uma odisseia em que Clooney, depois de descobrir que a mulher afinal era infiel, leva as 2 filhas e um amigo da filha mais velha (não se percebe bem porque é que esta personagem entra na história) para outra ilha do Hawaii, à procura deste indivíduo para o confrontar. A situação é digna de uma comédia (é só ver Clooney a correr pela rua quando descobre – o público partiu-se a rir, eu inclusive). Mas de novo, tudo isto é sobre Clooney. É uma personagem egoísta que procura a catarse para a sua própria redenção. Desde o início assume a morte da mulher e pouco parece afectá-lo. Está mais preocupado com o seu próprio futuro e como vai tomar conta das filhas. Claro que quem parte não interessa, e os problemas residem com os que ficam, é certo, mas o filme envia mensagens estranhas e contraditórias, para além de forçar emoções no espectador. ‘Agora esta cena é para rirem’. ‘Agora esta cena é para puxar a lágrima’. ‘Agora façam favor de sentir simpatia por esta personagem que não merece’. ‘Agora ouçam a voz off para perceberem os meus sentimentos muito bem’.
Quando leio as críticas de que este é o filme do ano e é forte candidato aos óscares dá-me vontade de rir. É um filme para as massas, certo. Não é demasiado intenso que fira susceptibilidades nem seja demasiado complicado de gerir (ideal para todos os públicos), nem é demasiado superficial para que perca a sua qualidade. Mas está num meio termo banal. Filmes sobre a perda como ‘La Stanza do Figlio’ (2001, vencedor da Palma D’Ouro) ou até a obra prima americana ‘Ordinary People’ (1980, vencedor do Óscar de Melhor Filme), atingem notas muito mais profundas e lidam com sentimentos de uma forma muito mais real. São primeiro boas histórias e depois bons filmes. Já ‘The Descendants’ parece talhadinho para todos os públicos, sem se decidir o que quer ser.
O próprio Alexander Payne realizou um filme sobre a perda melhor, ‘About Schmidt‘ (2002) ao mesmo ritmo deste filme, mas com uma personagem muito mais cativante e cujos sentimentos passam para além da tela para nós (provavelmente o talento de Jack Nicholson tem alguma coisa a ver com isso). Em ‘The Descendants’ está tudo na tela e é tudo muito bonito lá. Mas pouco passa para cá. Sentimos simpatia por Clooney, sentimos simpatia pela filha mais velha. Mas não passa de uma simpatia superficial. Queremos lá saber da morta, queremos lá saber da filha mais nova que deixa de aparecer 15 minutos depois do filme começar.
No final de contas, ‘The Descendants’ tem poucas camadas. É o que aparenta ser, é o que apresenta. É uma história ligeira sobre a perda, engraçada e até comovente nalguns momentos. Mas não é um daqueles filmes que ficam, nem de perto nem de longe. E Clooney vale pelo papel, não pelo actor. Eu destacaria Shailene Woodley, que interpreta a filha mais velha. Eis uma jovem actriz que tem espaço para crescer.
Saí muito desapontado de ‘The Decendants’. Primeiro porque é um filme cuja ideia se esgota aos 50 min e depois arrasta-se até ao final que parece nunca mais chegar. Segundo porque, apesar de não ser nada de muito mau, não era nada como os media o andam a anunciar. Marketing? De certeza. Acabei de ler mais uma crítica de um jornal americano. Fala em complexidade emocional. Please, não me façam rir.

Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

Tinker Tailor Soldier Spy (2011)




David Cornwell, mais conhecido como John LeCarré, escreve romances de espionagem desde os anos 60. O que só se soube muitos anos mais tarde é que Cornwell era ele próprio um agente. Daí os seus romances estarem impregnados de realidade e dureza. Contudo, são também construídos com uma exagerada inteligência, e ao reflectirem a realidade do espião da guerra fria (informação, contra-informação, segredos falsos, jogo psicológico) tornam-se eles próprios demasiados confusos. São jogos de superfície. Há sempre segredos, há sempre intrigas, mas a maior parte delas nunca são reveladas nem explicadas, porque ninguém é quem aparenta ser, e todos jogam os seus próprios jogos secretos. Foi isso o que tornou o filme de DeNiro ‘The Good Sheppard’ (2006) enfadonho até dizer chega, visto que em 3 horas há sempre suspense que nunca é saciado e que resulta em nada no final. É isto que sucede a ‘Tinker Tailor Soldier Spy’. É o risco de adaptar um livro de Carré, a estrutura intrincada e o suspense na página não se adapta a uma fórmula visual de 2 horas. Os dois últimos filmes baseados nas obras deste escritor dividiram-se. ‘Tailor of Panama’ (2001) foi muito fraco. ‘The Constant Gardner’ (2005) resultou muito melhor, mas a história era muito mais adequada e tinha um desfecho. Tinker estará talvez no meio termo. É um filme cinematograficamente bem construído, mas os desfechos ficam aquém do ritmo lento, e o filme termina no mesmo tom, sem dar uma única surpresa.
A história pode ser resumida em duas frases. No mais alto departamento da espionagem britânica, um de 4 homens é de certeza um agente duplo. Gary Oldman, um agente semi-retirado, é chamado para descobrir qual deles é. Esta premissa podia levar o filme para muitos patamares, mas não leva. Oldman tem tantas falas como Schwarzenegger em ‘Terminator’. Vai de sítio em sítio, de pessoa em pessoa ouvir de forma impassível as suas confissões e histórias, o que dá azo a inúmeros flashbacks. Como está retirado e ninguém sabe que está a investigar, o trabalho sujo é feito por Benedict Cumberbatch, que protagoniza as cenas de maior tensão do filme, quando tentar roubar documentos do próprio MI6. Há muitas ramificações, muita areia para os olhos, mas, por incrível que possa parecer, pouca relacionada com os 4 homens sobre suspeita. Chega ao ponto de parecer que o próprio Oldman é o agente duplo (o que seria um twist, não genial por previsível, mas interessante). Mas a realidade é que não é, por isso não se percebe o que é que o filme andou a insinuar. A verdade é que um dos 4 é, realmente, o agente duplo, mas não há nenhuma investigação para o apanhar. Há a história que rodeia os segredos que são passados entre o KGB e o MI6, há a morte de pessoas que sabem quem é o ‘infiltrado’, mas há muito pouco relacionado com o infiltrado em si. E no fim este é revelado sem qualquer surpresa, sem qualquer entusiasmo.
É uma história nostálgica sobre os serviços secretos, na pele de Oldman, que mesmo com poucas palavras tem uma performance muito subtil e interessante. Mas no final de contas, por muitas voltas e camadas semi-inteligentes que possa ter, o filme acaba por ser um ‘whodunit’ absolutamente banal, sem pistas nem surpresas para o público.
A questão aqui é se é o problema do romance original ou do filme. O filme é realizado por Tomas Alfredson, o sueco de ‘Let the Right One in’ (2008), e é ponderado, artístico, e subtilmente construído e actuado, ao estilo do gentleman espião inglês. Mas o argumento pouco revela em 2 horas. É uma antítese que sabe a pouco. Não tive oportunidade de ver a mini-série de 1979 em 7 episódios com Alec Guiness, nem de ler o romance original, mas pela amostra de esta obra de 2011, a história é, na realidade, pouco interessante, pelo menos para um pacote relâmpago de entretenimento de 2 horas. 

Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

Carnage (2001)





Vamos esclarecer uma coisa logo à cabeça. ‘Carnage’, o novo filme de Polanski, é genial. É uma ‘tour de force’ de actuação, com um argumento muito bem construído (baseado na peça de teatro com o mesmo nome da escritora Yasmina Reza que ganhou o Tony de melhor peça original em 2009), e só se pode compreender que esteja fora da presente época de prémios pelo facto de ainda não ter estreado em Inglaterra e só ter tido uma distribuição praticamente limitada a festivais nos Estados Unidos. É uma pena, pois daqui a um ano, na próxima época de prémios, já ninguém se lembrará que este filme existe (é a sina dos filmes estreados em Janeiro e Fevereiro, tal como o brilhante ‘Gran Torino’ que não foi nomeado para um único prémio importante), e estava aqui um potencial melhor filme, melhor actor e melhor actriz.
Filmes baseados em peças de teatro (muitos filmados ostensivamente como tal) foram comuns em Hollywood praticamente até 1980, mas depois com o aumento da espectacularidade das produções caíram em desuso. Já em 1966, ‘Who's Afraid of Virginia Woolf?’, da peça de Edward Albee, vencedor de 5 Óscares, fica para a história por ter os seus únicos 4 actores nomeados para o óscar (as 2 mulheres ganharam). Na realidade não é bem assim visto que havia mais meia dúzia de actores em papéis minúsculos (empregado de café, etc). Filmes baseados em peças de Neil Simon (Barefoot in the Park, Odd Couple) ou até ‘Dial M for Murder’ de Hitchcock, funcionam com poucos actores e com a acção praticamente confinada a uma única divisão. Não deixam de ser grandes filmes, e para funcionarem precisam de 2 coisas: de grandes actores que consigam cativar, e de um realizador inventivo que consiga criar infinitos planos de câmara numa pequena sala.
Pois bem, ‘Carnage’ tem 4 actores geniais (ou melhor 3 mais 1, visto que John C. Reilly está um passo atrás de Jodie Foster, Kate Winslet e do glorioso Christoph Waltz – como foi possível esperar 25 anos de carreira para o resto do mundo fora da Alemanha saber que existia um actor assim!). E para além disso tem um realizador que sabe muito bem o que faz e um argumento que literalmente fala por si. Com apenas 75 minutos, o pacote é incrível e não há um momento em que o público perca a atenção.
Tirando os créditos iniciais, em que vemos ao longe uma discussão de dois miúdos de 10 anos num parque e em que um por fim acaba por agredir outro, todo o filme se passa num apartamento e com apenas 4 actores. Foster e Reilley são os pais da criança agredida. Winslet e Waltz são os pais da criança agressora. Encontram-se para que Winslet e Waltz assinem uma declaração amigável de culpa e de pagamento dos tratamentos dentários. Contudo, a progressão da conversa impede-os de ir embora, uma vez tratados os documentos. Primeiro é a decência e a conveniência social que os impede de sair. Depois, algo comicamente, ostensivamente querem ir-se embora. Chegam até a ir até ao elevador 2 ou 3 vezes. Mas um ponto qualquer da conversa, uma discussão que não pode ficar a meio, faz com que regressem sempre ao apartamento e que a conversa continue.
Inicialmente a conversa é algo cliché, o ‘fazer sala’. Depois os ânimos vão-se exaltando, e aí sim o argumento ganha ritmo, a qualidade dos actores vem ao de cima, e a discussão vai muito mais além dos miúdos e de quem tem a culpa, para se infiltrar directamente nos pais e na sua própria maneira de ser, das suas crenças e convicções. Foster é uma dona de casa obsessiva com ideias nobres de ajudar as crianças em África, e noções muito estereotipadas do bem e do mal. Reilley é um pau mandado que trabalha na indústria dos equipamentos do lar. Winslet é de famílias ricas, mas Waltz é o mais brilhante de todos, como o advogado que não consegue largar o telefone, e que tem um olhar cínico sobre toda a situação. Em linguagem corrente ‘é o rei de toda aquela macacada’. À medida que a situação e a discussão entram em proporções épicas (com alguns escapes cómicos inesperados e realmente engraçados) cada um dos 4 capitula ao seu verdadeiro eu e resignam-se uns aos outros…
‘Carnage’ é um espectacular estudo de personalidade, da forma como as pessoas evoluem e se tornam máscaras na sociedade, da forma como uma série inesperada de eventos pode revelar a sua verdadeira forma de ser, e da forma como as conversas mais banais podem denegrir muito facilmente, com uma frase mal colocada, uma palavra errada. Ver ‘Carnage’ é ver 4 actores a demonstrarem as suas melhores qualidades. Mas, felizmente, não é só um estudo verbal e de argumento. Os escapes cómicos e as situações inesperadas que se passam dentro do apartamento, à medida que a forma de ser social das personagens se degreda, são suficientes para satisfazer o público que não tenha ‘estofo’ para as convencionais ‘teatralidades’.
Um êxito em todas as vertentes.

Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

Mission: Impossible - Ghost Protocol (2011)



‘A tua missão, Tom, caso decidas aceitá-la, é, agora que já não tens carreira e vives da tua reputação, fazer um filme da Missão Impossível de 5 em 5 anos, sempre que quiseres ganhar uma pipa de massa e que o público se lembre que tu ainda estás vivo’.
A coisa mais extraordinária do primeiro filme da Missão Impossível foi tornar o herói de 143 episódios da famosa série de televisão num vilão, só para que a personagem nova de Tom Cruise pudesse ser o herói e continuar a fazer sequelas por aí fora. Só há partida isto denigre qualquer ligação com a série original, mas os filmes da MI foram evoluindo e, sinceramente, tornando-se cada vez melhores. O primeiro (1996), de Brian dePalma, tentou ser um intrincado e inteligente thriller de espionagem, que acabou por ser demasiado confuso e complicado. O segundo (2000) para balançar, tinha uma história banalíssima, e os momentos altos vinham apenas das cenas de acção artísticas coreografadas pelo reputado realizador John Woo. O terceiro (2006), do guru televisivo J.J. Abrahams, foi um filme que resultou muito melhor, não só porque tinha muito menos pretensões artísticas, mas também porque dava ao público aquilo que ele queria, acção, acção e acção. E da boa. Não é por acaso que o melhor pormenor de todos do terceiro filme é o facto de nunca se saber o que é o ‘rabitt’s foot’, o segredo que todos querem roubar. Isso na realidade não interessa. O que interessa é a acção e a tensão que o rodeia. É o conceito do ‘McGuffin’ de Hitchcock levado ao extremo máximo. A melhor cena surge quando Ethan vai roubar a rabbit’s foot. Não se vê o assalto, e isso vai contra toda a suposta premissa estipulada nos filmes anteriores. Não há cá cabos, nem computadores, nem máscaras. Ethan vai roubar o artefacto, e a câmara acompanha a tensão dos membros da equipa à sua espera. 2 minutos depois Ethan aparece num salto, já com o rabbit’s foot. Genial.
O quarto filme parece que se esqueceu desta construção, e na realidade os piores momentos do filme são os primeiros 20 minutos, e os últimos 10, em que a ‘plot’ tem de ser muito bem explicadinha. Isto, claro, dá azo a incongruências para o espectador que pense. Pelo meio existem 3 grandes ‘set pieces’ de acção, em Moscovo, no Dubai e por fim em Bombaim, que misturam a explosividade e ritmo acelerado bondiano do período Daniel Craig, com os clássicos estratagemas, infiltrações e mascaradas da MI. É nestas três sequências que está concentrado todo o interesse do filme, especialmente quando a história se torna irrelevante e o que interessa é a acção. O momento mais cativante do filme é a escalada de Cruise pelo exterior do maior edifício do mundo no Dubai. O que ele vai roubar não interessa. A tensão da escalada, isolada, é suficiente para agarrar o público às cadeiras. E isto repete-se, em maior ou menor escala, o que dá pontos ao filme, mas não o torna exactamente em algo propriamente brilhante.
A história tenta pegar nas estratégias clássicas da MI e perguntar: e se falharem? Há uma primeira missão que corre mal, uma traição de certeza, e o Kremlin explode. Portanto, a frase clássica ‘se algum dos seus membros for apanhado, o governo não reconhece a vossa existência’ finalmente torna-se realidade, e a equipa que sobra, Cruise, Renner, Simon Pegg (que vem da MI 3, e que é o escape cómico do filme), e Paula Patton (a menina produzida que sempre tem que existir nestas coisas), ficam sozinhos, sem apoio, sem retirada, e sem material. Contudo, a ameaça do lançamento de mísseis nucleares continua iminente, portanto sozinhos têm que salvar o dia, saltando entre 3 continentes. Mas mesmo assim o filme tenta enganar sem conseguir. Supostamente estão sem apoio, dinheiro, e são abandonados pela agência. Contudo, Cruise só tem que fazer um telefonema a ‘amigos’ da candonga e logo arranja o equipamento e uma pipa de massa para as máscaras, o material ultra-sofisticado, e arrendar suites no hotel mais caro do mundo. Estão ‘queimados’ mas mesmo assim conseguem arranjar convites para festas, as plantas de tudo o que é palácio ou fábrica, e entrar e sair de condutas de ar sem problemas. Bem, são os luxos de Hollywood, e na realidade estas partes muito mal explicadas não interessam. Vá, a máquina de fazer máscaras não funciona, por isso têm que ir sem elas. Mas de novo, o enfoque tem que ser a acção. E essa, MI 4 dá-a muito melhor que qualquer MI anterior.
MI 4: Ghost Protocol, tem muitas incongruências, o argumento é previsível e algo banal, e a construção das partes mais emocionais não é grande coisa (como explicar a não existência da mulher de Cruise, que foi o centro do filme 3). Mas o que MI 4 dá é acção, e pela acção vale muito. Mais, a introdução de Renner é algo interessante (Renner foi contratado e a sua personagem foi criada do zero para substituir Cruise para o dia em que ele se farte de fazer de Ethan Hunt), embora, mais uma vez, haja muitos buracos na psicologia desta nova personagem. Pegg (o cómico de Shaun of the Dead, Hot Fuzz e Paul), tem aqui muita mais liberdade para os seus escapes cómicos do que teve no filme 3. E não vale a pena falar de Tom Cruise, está fiel ao seu eu.
MI 4 pode não é um grande filme, mas é bom entretenimento. Surpreendente se soubermos que foi o primeiro filme com ‘pessoas’ realizado por Brad Bird, o menino da Pixar que realizou ‘The Incredibles’ e ‘Ratatouille’ (e ganhou 2 oscars de melhor filme de animação por estes). Que transição estranha, mas interessante, e que ajuda a explicar a por vezes super teatralidade das cenas de acção, e também do genérico inicial.

Domingo, 8 de Janeiro de 2012

2011 - um ano a ver cinema


Em 2011, pela primeira vez, decidi contabilizar os filmes que vi. Pois bem, de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro de 2011 vi nada mais nada menos que 371 filmes. Vá, vi 369 mais duas mini-séries que, em exibições épicas, podem ser consideradas como longas-metragens, se se tiver o estofo para as ver seguidas – as sete horas de ‘Os Mistérios de Lisboa’ (2010) e as dez horas do polaco ‘Dekalog’ (1989) (ou quase, pois, na realidade, ainda me faltam 3 episódios). A estes acrescem todas as séries, curtas-metragens e extras de DVDs e Blu-Rays que ainda fui vendo. Porque na verdade a minha vida não é isto (bem que podia ser mas ainda não arranjei o tacho), e há dias em que não há tempo para ver 2 horas de filme, portanto 20 minutos têm que servir para saciar o vício. Em suma, muitas horas passei em frente do ecrã.

A maior parte destes filmes vi-os no conforto de minha casa (sou um cinéfilo casívoro). 2011 foi um ano generoso, em que troquei o meu LCD HD-ready por um LED FULL HD 3D e um Home Cinema 5.1 Blu-ray 3D, e em que comecei a apostar no mercado dos blu rays. Contudo, felizmente, estou ciente que a qualidade de exibição não é tudo, e os muitos filmes que tenho nos velhos VHS ainda me saciam (porque são bem bons!). Pouco mais de 30 vezes saí de casa para ir ao cinema (como quem diz ao shopping, agora que o Nun’Alvares voltou a fechar) mas isso na realidade não me tira o mérito, até porque o que actualmente chega às salas de cinema em geral (e às portuguesas em particular) poucos contributos dá à História do cinema. É mais estatística do que propriamente memorável.

O que eu gosto mesmo é de alternar filmes que já vi (muitos que conheço bem), com novas descobertas, e explorações de realizadores/actores/géneros a que ainda me falta ‘pôr o visto’, percorrendo toda a história do cinema, que, a pouco e pouco, preencho na minha cabeça e, a pouco e pouco, deixa de ter segredos para mim. Por motivos óbvios (ida ao cinema, exposição ao mediatismo) a década de 2000 (incluindo 2011) é aquela na qual foram feitos a maior parte dos filmes que vi. Foram 133, pouco mais de 1/3. Mesmo assim, vi cerca de 30 filmes por década desde os anos 20, umas décadas mais (1920, 1960), outras menos, consequência dos ciclos que fiz e dos realizadores que quis explorar ou rever neste ano.

Em 2011 vi 125 filmes que já tinha visto pelo menos uma vez antes. Os restantes (mais de 250) vi-os pela primeira vez. Para além disso, houve 3 filmes que vi duas vezes, primeiro no cinema e depois em casa (por curiosidade foram eles o ‘Black Swan’, o ‘Rango’ e o ‘Love and other drugs’).

Foi um ano em que debrucei sobre os poucos realizadores que me faltavam conhecer. Vi o meu primeiro Fuller, o meu primeiro Ophulus, o meu primeiro Chabrol, o meu primeiro Lelouche, e não me desapontaram. Contudo, outros primeiros desapontaram (Kiarostamis, Téchiné). Foi também o ano em que revi muito da comédia muda. A minha obsessão por Chaplin é famosa e conheço bem toda a sua filmografia, mas este ano vi praticamente todas as curtas-metragens e filmes de Harold Lloyd, um trabalho que desconhecia quase totalmente, e revi a maior parte dos filmes de Keaton. Fiz ciclos de clássicos velhos conhecidos (Capra) e tive primeiros encontros (a maior parte dos filmes da Greta Garbo). Vi os preferidos que tento rever todos os anos (‘Quiet Man’, ‘Arsenic and Old Lace’), e tentei tirar a teima de filmes ‘famosos’ que na primeira visualização não me tinham saciado (‘Avatar’, ‘Fight Club’), ambos sem sucesso. Revi muita animação (o meu ‘guilty pleasure’), da Pixar, da Disney, dos estúdios Ghibli, e acabei o ano com Don Bluth. Vi (os poucos que me faltavam) e revi muitos dos restantes filmes que ganharam Óscar de Melhor Filme. Até arranjei tempo para ver os clássicos de ficção científica dos anos 50 (‘Invasion of the body snatchers’ é brutal) e os 4 filmes do Matt Helm (imaginem!). E no Verão comecei a (re)ver todos os filmes do Hitchcock, um por semana, por ordem cronológica. Ainda vou a meio da sua carreira, mas os filmes que me faltam já os conheço bem. Hitchcock tornou-se o segundo realizador de carreira extensa, depois de Woody Allen (qualquer um consegue ver todos os filmes de Leone, Mallick ou Kubrick), do qual eu já vi todos (e eu quero dizer todos) os filmes.

Foi um ano de (poucas) surpresas e de (muitas) desilusões. O filme ‘The Dresser’ (1983) de Peter Yates foi a maior e melhor surpresa, um filme absolutamente brilhante e poderoso que entrou directamente para o meu top dos melhores de sempre. Obras como ‘Vivre pour vivre’ (1967) ou ‘Man of the West’ (1958) foram filmes que vi pela primeira vez e que eram tão bons, mas tão bons, que me ficaram marcados. Vi pela primeira vez outros filmes muito bons como ‘Harold and Maud’ (estranho mas num patamar incrível), ‘Little Big Man’ (hilariante), ‘The Lodger’ (tecnicamente perfeito), ‘Salaire de la peur’ (o filme que (re)inventou a tensão), ‘Moon’ (boa estreia de um realizador contemporâneo), ‘Don’t look now’ (inquietante), ‘Dead of Night’ (Ealing nunca desaponta), ‘Kiki’s delivery service’ (uma pérola escondida de Miyasaki) ou ‘Bedazzled’ (o original dos anos 60, claro, para quem aprecia o bom humor inglês). Vi também a filmografia completa de Wallace and Gromit. Numa palavra: genial.

Outros foram uma decepção enorme. O filme ‘Bullit’ (1968), tão reputado e que eu, por uma razão ou por outra, nunca tinha visto, mas pelo qual sempre havia ansiado, provou ser um enorme e valente cura para insónias, com uma ‘famosa’ cena de perseguição automóvel que, nas palavras da minha namorada, ‘parecia um par de velhinhas a conduzir’. O filme ‘Winter’s Bone’, nomeado para os Óscares em Fevereiro de 2011, foi outra decepção, dengoso, moroso e com muito pouco conteúdo (ai academia, academia…). Outros filmes péssimos que vi este ano foram ‘Vertical Limit’ (diálogos para atrasados mentais), ‘Sherlock Homes’ (deturpar um clássico com falta de qualidade e, pior, com falta de classe), ‘Dinossaur’ (forte candidato ao pior filme da Disney), ‘The Fighter’ (meu deus, que cambada de clichés para americano ver), ‘Mistérios de Lisboa’ (actores péssimos, filme filmado como um livro, história incompreensível), ‘Caramel’ (é sempre mau um filme que me obrigara a fazer outras coisas enquanto o estou a ver pelo canto do olho), ‘Caravagio’ (uma coisa é arte, outra coisa é nada) ou ‘Jumper’ (o quão baixo Hollywood pode ir). E para não me acusarem de dizer mal só de filmes modernos, tenho a dizer que vi dois filmes do grande realizador Fritz Lang, cujo trabalho adoro (M, Metropolis, Woman in the Window), que eram péssimos. Verdade que foram os últimos da sua carreira, 20 anos depois das suas obras-primas, mas mesmo assim eram horríveis. ‘Der Tiger von Eschnapur’ e a sua sequela ‘Das indische Grabmal’ (ambos 1959) são filmes que certamente não reverei.

Por outro lado encontrei surpresas onde nunca esperaria, cortesia das novas tecnologias. Rever ‘The Sound of Music’ em Blu-ray, em full HD e com som 7.1, foi uma experiência única e fabulosa. Parecia que estava a ver o filme pela primeira vez. ‘Dr. No’, nas mesmas circunstâncias (substituindo o meu velho VHS original comprado há mais de 10 anos), provou ser uma incrível experiência visual. Outros filmes já não os revia há tanto tempo que praticamente me tinha esquecido o quão bons eram. ‘American Tail’, um filme que já não via desde a minha infância, foi uma experiência lindíssima, que só o cinema pode proporcionar.

E quanto aos filmes portugueses o nível baixo mantém-se (‘Second Life, ‘Outra Margem’, ‘Mistérios de Lisboa’). Vá, tive uma boa surpresa com ‘Call Girl’, mas foi pequenina.

Por fim falo dos filmes de 2011. Como disse, fui cerca de 30 vezes ao cinema. Não é muito, mas tentei ver os supostos grandes êxitos do ano, embora recentemente pouca vontade tenho de me deslocar até um cinema. A qualidade americana decresce cada vez mais, e do que as nossas salas estão cheias é desta suposta qualidade, que na realidade é medíocre. É o chamado nivelamento por baixo. Pior ainda é chegar agora à época de prémios e ver filmes banais como ‘Idles of March’ nomeados para melhor filme! E ver ‘Cars 2’ nomeado para melhor filme de animação é um ataque à inteligência, das crianças e dos adultos!

Sim, este ano teve obras primas, mais precisamente 4 (poderá eventualmente ter tido mais, como disse nem uma vez por semana fui ao cinema): ‘Tree of Life’, ‘Black Swan’, ‘La Piel que Habito’, e ‘Drive’. Estes são os filmes do ano. Quatro é um número patético, para uma indústria que se auto congratula pela sua qualidade. Mas já deixei de me preocupar. Porque posso chegar a casa e pegar num dos meus 1500 VHS, DVDs ou Blu-rays e maravilhar-me com uma pérola feita há 60 anos que poucos agora sabem que existe. Mas eu sei. E isso é suficiente. E se puder compartilhar um pouco desse conhecimento com aqueles à minha volta que não se importam de me aturar, até durmo um pouco mais feliz.

Apresento o ranking de todos os filmes que fui ver ao cinema em 2011, por ordem decrescente de qualidade.

1. Tree of Life 2. Black Swan 3. La Piel que Habito 4. Drive 5. Midnight in Paris 6. Rango 7. Habemos Papam 8. Transformers 3: Dark of the Moon 9. Tropa de Elite 2: O Inimigo agora é outro 10.Winnie the Pooh 11.Rise of the Planet of the Apes 12.Love and other Drugs 13.Hereafter 14.Colombiana 15.Johnny English Reborn 16.Tower Heist 17.Puss in Boots 18. X Men: First Class 19. The Adventures of Tintin: the Secret of the Unicorn 20. Kung Fu Panda 2 21. Source Code 22. 127 Hours 23. Rio 24. King’s Speech 25. The Idles of March 26. A Dangerous Method 27. Scream 4 28. Pirates of the Carebean 4: On Stranger Tides 29. Captain America: the First Avenger 30. Morning Glory 31.Cars 2 32. You Will Meet a Tall Dark Stranger

2012 entra com poucas promessas. A maior parte dos filmes em carteira são sequelas. Duas prometem, o terceiro Batman de Nolan e o ‘Hobbit’. E a estes acresce ‘The Artist’, que já estreou pelo Mundo mas não em Portugal. É triste quando se entra num ano com a expectativa de ver apenas 3 filmes no cinema. Bem, no ano passado entrei com a expectativa de ver apenas 2 (Tree of Life e Black Swan) e descobri mais 2. Portanto, pode ser que no fim deste ano a contagem já suba para 6. Isso já me faria feliz. Mas faz-me ainda mais feliz saber que ainda tenho maravilhas para descobrir nos quase 100 anos do Cinema. Falta-me descobrir poucos é verdade, mas mesmo quando esses acabarem há uma coisa que nunca me faz perder a fé. É sempre bom rever um bom filme. E um bom filme é sempre bom.

Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

Puss in Boots (2011)


Quem viu ‘Shrek 2’ (2004) certamente nunca se esqueceu da fantástica entrada da personagem do gato das botas, com os seus olhos fofos e a voz de Zorro. Uma hilariante e fascinante criação (notando o poder e o realismo que a animação por computador pode atingir), teve desde então um filme próprio em carteira na Dreamworks, primeiro pensado como directo-para-DVD, e finalmente retrabalhado para o grande ecrã.
O filme, do mesmo realizador do terceiro ‘Shrek’ (curiosamente o pior da saga), existe no mesmo universo dos filmes do ogre. O tipo de animação e o desenho das personagens segue os mesmos traços, e o tipo de história segue o mesmo padrão, ou seja, o de retrabalhar contos de fadas e torna-los modernos e com estilo, embora tomando demasiadas liberdades com as suas origens. O que eu quero dizer é que a piada resulta para quem conhece as histórias originais, mas as crianças de hoje que entram em contacto com estas histórias pela primeira vez não as vão ouvir correctamente. Será isso justo?
Aqui, três histórias clássicas intersectam-se, a do Gato das botas, a do Humpty Dumpty e a do pé de feijão e da galinha dos ovos de ouro. A primeira dá-nos o herói e a segunda o vilão, mas é a terceira que consome a grande parte da história.
Puss é-nos apresentado ao mais belo estilo latino (ou a visão que os americanos têm dos latinos), um dançarino, sedutor e lutador, mas que, diga-se em abono da verdade, é também extremamente fofinho! Este Zorro com pêlo permite que o filme tome o ar de um western (o segundo este ano de animação depois de ‘Rango’), e as cenas iniciais gozam um pouco com o género. Mas é quando Puss sabe que um casal de capangas (um deles com a extraordinária performance vocal de Billy Bob Thornton) estão na cidade com os três feijões mágicos, que a aventura começa. Puss tenta roubar os feijões (estão de alguma forma ligados ao seu passado), e é no roubo que se depara com Kitty (Selma Hayek), que tenta roubar os mesmos. Ela trabalha para Humpty (voz de Zach Galifianakis), outrora bom tornado mau, e quando Puss descobre há um flashback para a infância de Puss e Humpty, onde eram amigos. O mau deste flashback é que é a única parte morosa e com menos piada do filme. O bom deste flashback é que podemos ver um pequeno Puss, que, muito sinceramente, é a coisa mais adorável que alguma vez foi projectada numa tela de cinema.
Puss, Humpty e Kitty partem na busca da galinha dos ovos de ouro, Puss com motivos altruístas (salvar a cidade da sua infância) e os outros com motivos mais financeiros. O resto é fantasia/aventura, com twists clássicos e que um espectador mais experienciado vai facilmente detectar de antemão.
Puss é mais um filme de acção/aventura do que propriamente uma comédia. Está nas linhas das sequelas do Shrek, sem o escape cómico do Donkey. Mesmo assim resulta e é uma experiência de animação compensadora. Repito, só as imagens do Puss em pequeno valem o preço do bilhete. Os contornos são previsíveis mas não morosos, os bonecos são adoráveis, Banderas é rei e senhor da voz, e o filme (tirando o flashback), tem ritmo, ao som de uma banda sonora de western passado no México. Não está aqui o vencedor do Óscar de Melhor Filme de Animação, mas está uma experiência leve e por vezes engraçada para um sábado à noite, com um 3D fabuloso (o melhor que vi este ano), e que está acima da maior parte dos filmes de animação que saíram este ano.

Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

Drive (2011)




‘Drive’ consegue atingir um feito de certo modo notável. Parte de um modelo típico de filmes de acção não muito bons dos anos 80 e transforma-o numa obra cinematográfica com excelência, mesmo que essa excelência seja algo forçada.
‘Drive’ é uma história típica de um homem calmo, misterioso, de poucas palavras, que devido a um conjunto de circunstâncias toma a luta contra um ‘mal’ nas suas próprias mãos e faz despoletar os horrores do inferno contra aqueles que fizeram mal a si e às pessoas que ama. Ryan Gosling (está na moda o homem!) é esse homem, um duplo de cinema com uma capacidade invulgar para conduzir carros, e que às vezes participa como condutor de carros de fuga em assaltos. A cena inicial é particularmente excitante, mesmo que de uma forma contida (ou melhor é ainda mais excitante porque é contida), e funciona perfeitamente para estabelecer o carácter da personagem. Nunca se percebe bem porque é que Gosling participa em assaltos de quando em quando. Pela adrenalina talvez. Ele não é ‘mau’. Nota-se isso logo no início, e ainda mais se prova quando ele fica muito amigo do filho da vizinha, e da própria vizinha (interpretada por Carey Mulligan), cujo marido está na prisão. A relação entre ambos podia acabar na sexual, mas nunca acaba, o que mais prova o carácter erecto de Gosling, como se fosse o homem sem nome dos velhos westerns (aliás o seu nome nunca é pronunciado, ou é Driver, ou é the Kid).
Quando o marido da sua vizinha sai da prisão e regressa com dívidas a mafiosos e é obrigado a fazer um assalto para as saldar, Gosling oferece-se como condutor. Tudo dá para o torto e a vingança dos mafiosos aproxima-se de Mulligan e do seu filho. É aí que Gosling sai do seu estado sempre calmo e passivo e entra numa senda de vingança para proteger a mulher e a criança…
Estas histórias de vingança urbana num sub-mundo de capangas mafiosos, com uma personagem principal enigmática e sem nome, são comuns no cinema. Aliás, o argumento de ‘Drive’ é análogo a vários filmes do género. O que o distingue é o estilo visual. Os americanos não estão habituados a estes tipos de filmes no modelo europeu e ‘Drive’ já está a ser aclamado como uma obra prima. ‘Drive’ tem muito poucas falas. ‘Drive’ tem pausas gigantescas em que as personagens ficam a olhar umas para as outras. ‘Drive’ tem planos de câmara artísticos. ‘Drive’ tem sequências em câmara lenta ao som de música. ‘Drive’ tem momentos de violência excessivamente ‘gore’ que, supõe-se, funcionem como contraponto chocante ao ritmo lento da construção do filme. Isto torna o filme, senão bom, pelo menos melhor, mas um experienciado em cinema fica sempre com a sensação que estes planos não surgem naturalmente, mas forçadamente, e muito do ‘artístico’ parece excessivo. Tudo no cinema é deliberado, obviamente, mas quando é deliberado demais também não resulta. Não há necessidade para tanto sangue nas cenas ‘gore’. Contrasta com o resto do filme é certo, salientando-se, mas ao mesmo tempo não se enquadra. Não há necessidade para as cenas iniciais entre Gosling e Mulligan, quando mal se conhecem, haver tantas pausas e tantos olhares e tanta musiqueta. Não há necessidade para nalguns ‘ataques’ aos mafiosos Gosling usar a sua máscara de duplo, enquanto noutras não. A diferença é que nalgumas fica bem artisticamente ele chegar em slow motion com a máscara…
Mesmo assim ‘Drive’ é bom. Comparando com os recentes filmes americanos, uma pessoa pode dizer até que é muito bom. Gosling encarna bem a personagem (muito melhor do que seria Hugh Jackman inicialmente contratado para o papel) e o rol de personagens secundários também. A crítica está a destacar Albert Brooks. Eu destacaria Bryan Cranston. Depois de o ver como pai na série cómica ‘Malcolm in the Middle’ é surpreendente o seu papel de xoninhas deficiente.
Enquanto estava a ver o filme os paralelismos ao modelo artístico de ‘No Country for Old Man’ não me saiam da cabeça. Se a academia deu 4 Oscares a No Country, incluindo Filme e Realizador, então ‘Drive’ mereceria muitos mais. Mas tal não vai acontecer. No Country era dos irmãos Coen, no pico da ‘moda’ dos irmãos Coen. Este é de Nicolas Winding Refn, desconhecido, e cujo último filme foi ‘Valhalla Rising’ (2009). Mas uma coisa é certa. O público em geral poderá não perceber o modo artístico e europeu em que ‘Drive’ foi filmado, mas mesmo assim, e mesmo sabendo que se não houvesse pausas, nem planos artísticos e houvesse muito mais enfoque na acção isto era um filme do Steven Seagal, ‘Drive’ é mil vezes melhor que o ‘King’s Speech’. E se o ‘King’s Speech’ ganhou Óscar Melhor Filme, então o ‘Drive’ merecia entrada directa para a biblioteca do Congresso.