‘The Descendants’ é um filme sobre a perda. Há muitos filmes sobre a perda,
a morte da mulher/do marido, de um filho, de um amante. ‘The Descendants’ não é
mais nem menos que a maior parte destes filmes (a ser, é menos), e isto resume
o filme muito simplesmente.
Ontem, sentado na sala de cinema, numa das muitas partes morosas do filme,
pus-me a pensar na personagem de Clooney, que recentemente ganhou o globo de
ouro de melhor actor e é forte candidato ao Oscar (será que a Academia vai ter
coragem de votar no francês Jean Dujardin?!). Pensava eu o que estava Clooney a
dar a este papel? Clooney estava a falar exactamente da mesma maneira que fala
em todos os seus filmes. Clooney estava a ter os trejeitos de cara que tem em
todos os seus filmes. Em suma, Clooney estava a ser Clooney. Portanto, Clooney
está a ser homenageado pela sua performance ou pelo seu papel? Ou seja, é por
chorar por a mulher estar a morrer que dizemos que ele está a ser um bom actor,
ou é porque efectivamente está a chorar da maneira que nos convence? Estamos a
dar prémios ao papel, à personagem do argumento, ou ao actor? Infelizmente, em
muitos casos, e este não é excepção, estamos a dar o prémio ao papel, não ao
actor, visto que Clooney está igualzinho a ele próprio, incluindo até demasiado
ligeiro em cenas em que não o devia ser. Claro que chora. Claro que a câmara o
apanha de frente em que podemos ver o seu olhar triste e a lágrima a cair. Mas
isso é a câmara e o argumento que ditam, e não o actor. ‘The Descendants’ é
todo ele construído sobre estas premissas de argumento que a câmara depois não
efectivamente traduz.
Um exemplo. No início do filme há uma voz off insuportável de Clooney em
que ele explica os seus sentimentos tintim por timtim (a sua mulher teve um
acidente de barco, está em coma e está prestes a morrer). São minutos e minutos
de voz off (cerca dos 10 primeiros). Mais parecia que Clooney estava a ler
passagens do romance em que o filme é baseado. Um realizador europeu
dispensaria a voz off e explicaria os sentimentos de Clooney por imagens (o
cinema é imagens antes que texto). Aqui, forçada e artificialmente, somos
sugados para o seu sofrimento. E tirando as cenas no hospital em que a família chora
sobre a doente, na realidade pouco parecem sofrer por ela. Clooney mexe-se e
fala como um homem despreocupado (à Clooney). As palavras têm sentimento. Não
as imagens nem a forma como as palavras são ditas.
Basicamente Clooney e as suas duas filhas tentam lidar com a perda da
mulher/mãe. Por um lado Clooney tem que dar a notícia aos familiares e amigos
próximos, para que possam ir ao hospital despedir-se antes das máquinas serem
desligadas. Por outro, sobre ele está assente a responsabilidade de venda de
uns terrenos belíssimos e virgens numa das ilhas do Hawaii. Se os vender,
ficará rico, mas a beleza natural perder-se-á. Esta linha de argumento parece
existir para encher. Nada se relaciona com a morte da mulher, e tudo gira à
volta das convicções de Clooney. E o desfecho, em face do argumento, não é
difícil de adivinhar. Este tipo de filmes segue uma linha clara. A iminente
morte de um familiar faz com que as pessoas à sua volta reavaliem as suas
prioridades. Em ‘The Descendants’ estas prioridades são egoístas, e nada se
relacionam com a morta. Mas neste caso, o filme terá razão, pois assim é na
vida.
Tomemos outro exemplo. O filme perde imenso tempo em dar o desenvolvimento
da personagem da filha mais nova. Contudo, quando a filha mais velha regressa
do colégio privado o interesse cambia todo para ela e até ao fim do filme a
filha mais nova diz apenas mais cerca de 5 frases, se tanto. Mais situações
forçadas para explicar personagens. As personagens não se explicam. Filmam-se.
A catarse para a redenção final vem sobre a forma de uma odisseia em que
Clooney, depois de descobrir que a mulher afinal era infiel, leva as 2 filhas e
um amigo da filha mais velha (não se percebe bem porque é que esta personagem
entra na história) para outra ilha do Hawaii, à procura deste indivíduo para o
confrontar. A situação é digna de uma comédia (é só ver Clooney a correr pela
rua quando descobre – o público partiu-se a rir, eu inclusive). Mas de novo,
tudo isto é sobre Clooney. É uma personagem egoísta que procura a catarse para
a sua própria redenção. Desde o início assume a morte da mulher e pouco parece
afectá-lo. Está mais preocupado com o seu próprio futuro e como vai tomar conta
das filhas. Claro que quem parte não interessa, e os problemas residem com os
que ficam, é certo, mas o filme envia mensagens estranhas e contraditórias,
para além de forçar emoções no espectador. ‘Agora esta cena é para rirem’. ‘Agora
esta cena é para puxar a lágrima’. ‘Agora façam favor de sentir simpatia por
esta personagem que não merece’. ‘Agora ouçam a voz off para perceberem os meus
sentimentos muito bem’.
Quando leio as críticas de que este é o filme do ano e é forte candidato
aos óscares dá-me vontade de rir. É um filme para as massas, certo. Não é
demasiado intenso que fira susceptibilidades nem seja demasiado complicado de
gerir (ideal para todos os públicos), nem é demasiado superficial para que
perca a sua qualidade. Mas está num meio termo banal. Filmes sobre a perda como
‘La Stanza do Figlio’ (2001, vencedor da Palma D’Ouro) ou até a obra prima
americana ‘Ordinary People’ (1980, vencedor do Óscar de Melhor Filme), atingem
notas muito mais profundas e lidam com sentimentos de uma forma muito mais real.
São primeiro boas histórias e depois bons filmes. Já ‘The Descendants’ parece
talhadinho para todos os públicos, sem se decidir o que quer ser.
O próprio Alexander Payne realizou um filme sobre a perda melhor, ‘About
Schmidt‘ (2002) ao mesmo ritmo deste filme, mas com uma personagem muito mais
cativante e cujos sentimentos passam para além da tela para nós (provavelmente
o talento de Jack Nicholson tem alguma coisa a ver com isso). Em ‘The
Descendants’ está tudo na tela e é tudo muito bonito lá. Mas pouco passa para
cá. Sentimos simpatia por Clooney, sentimos simpatia pela filha mais velha. Mas
não passa de uma simpatia superficial. Queremos lá saber da morta, queremos lá
saber da filha mais nova que deixa de aparecer 15 minutos depois do filme
começar.
No final de contas, ‘The Descendants’ tem poucas camadas. É o que aparenta
ser, é o que apresenta. É uma história ligeira sobre a perda, engraçada e até
comovente nalguns momentos. Mas não é um daqueles filmes que ficam, nem de
perto nem de longe. E Clooney vale pelo papel, não pelo actor. Eu destacaria Shailene
Woodley, que interpreta a filha mais velha. Eis uma jovem actriz que tem espaço
para crescer.
Saí muito desapontado de ‘The Decendants’. Primeiro porque é um filme cuja
ideia se esgota aos 50 min e depois arrasta-se até ao final que parece nunca
mais chegar. Segundo porque, apesar de não ser nada de muito mau, não era nada
como os media o andam a anunciar. Marketing? De certeza. Acabei de ler mais uma
crítica de um jornal americano. Fala em complexidade emocional. Please, não me
façam rir.





