Já vos deve certamente ter acontecido estarem sentados num café num final de tarde ameno portuense quando um amigo vos interpela da seguinte forma: “Crês que o manifesto uso de recursos estilísticos e de linguagem de erudito foro sentimental, sublinhada por uma subtil vertente de surrealismo, é uma opção vantajosa no que concerne à inevitável sucessão de sussurros que intercala a pueril troca de carícias posterior ao acto sexual?”
Nestas alturas, nas quais há a clara tendência para ter o croissant com fiambre aquecido a meio caminho entre o prato e a boca, sou forçado a pousar dito croissant de novo no prato, para insatisfação do paladar, que já o saboreava através do agradável cheiro, e responder cheio de eloquência: “Oh pá, não me chateies!”
Numa ocasião particular, o indivíduo estava deveras insistente e não se demoveu da sua demanda. Com um novo suspiro voltou a interpor-se entre mim e o croissant: “Sinto-me inapto a iniciar uma intercalação linguística quando me vejo despojado de toda a minha vitalidade corporal. E a gentil criatura necessita de apaziguamento verbal, portanto sinto que não posso deixar transparecer ociosidade ou falta de talento comunicacional, senão receio que tal vivência não se repercuta”.
E eu, céptico de que qualquer exacerbada capacidade literária pudesse ser um magnetismo para a atracção e sedução de meninas jeitosas (geralmente) do sexo oposto, principalmente após o acto já ter sido consumado, voltei a encher-me de capacidade oratória para retorquir “Eh pá, está calado!”
Contudo, o indivíduo insistiu que apenas eu podia proporcionar-lhe a inspiração necessária para a sua oração, e suplicou-me que lhe desse algumas dicas discursivas para que delas pudesse fazer uso aquando da sua próxima contenda. Desculpou-se entre dentes: “Sabes que misturar sensações nunca foi a minha chávena de chá.”
Nunca fui gajo para ver um homem adulto banhar-se em lágrimas e bajular-me sem me comover. Exasperado respondi: “Eu dou-te a chávena de chá.”
E dei-lhe. E sabia assim:
“Não são as melodias do meu subconsciente que me vão fazer parar de sussurrar a glamorosidade da tua presença perto de mim. Algures um poema se escreve através das penas suaves da juventude. O calor azulado da chama não apaziguada encontra o seu destino no olhar da crina do cavalo celeste, quando as dunas ancoradas nos relvados da tua mansão ancestral se condensam na generosidade daquilo que és.
Quantas eras terão de passar para que tu existas? Quantos clamores tenho de pronunciar para que tu sejas em mim não apenas o rosto da palpitação do meu órgão vermelho mas a emoção pueril do meu desejo tocado, do meu sabor salgado em pele de sereia. Dulcineia atenta, Inês da minha perdição, Helena divina que ascendes com tanta compreensão pelas ondas do lençol. Ruminam estrelas no céu entrelaçado. Contam poesias pirilampos na mesa-de-cabeceira, de mansinho apagando-se para nos deixar na nossa intimidade, de mansinho fechando o Mundo pelo lado de fora, pela afinidade de rebeldes cristais da realidade, de um pavimento salpicado de folhas vividas que não quero conceber, que não anseio manjar.
Deixa-me ficar preso contigo, amarrado à madeira, ao pilar da tua conquista. Porque nunca serei eu a vacilar, nunca as minhas garras afiadas se erguerão para derrubar o sonho que pintas nas minhas sombras. Deixa-me arfar, deixa-me expelir o cansaço de viver, deixa-me conhecer as mancas concepções do que nunca foi, do que nunca será, do que se perde no eixo da consciência e ofusca a sobriedade da criação.
Conta comigo, esfrega-te na minha pele, soerga a folha onde hesitam os versos da conquista, partilha a telepatia de ser, e com o raiar do teu olhar ofusca o meu, pois serão de novo os ecos que se abaterão sobre os sussurros, pois será de novo o beijo que engolirá o prazer do mundo, pois serão as dedaladas das vertentes primorosas que tecerão os contornos enroscados sobre a almofada, e te encontro, sobre um manto de cabelos, explodindo através dos contrastes promíscuos da palete ancestral.
Encontra-me a meio caminho da loucura da minha insanidade, e revela-me os corais escondidos nas florestas do teu corpo, enquanto ergo as minhas mãos em concha para te penetrar, e sorver a profundidade celeste que há em ti, com cada sopro subtil, com cada sufocante toque de suavidade.
Uma a uma a susceptibilidade das pétalas douradas desabrocham, uma a uma murcham todas elas com o passar do brilho, mas agora acho conforto no alvo universo que não cessará, enquanto colidirem dia e noite nesta cápsula de vidro molhado, enquanto sentir o teu calor vivo adensado nas minhas entranhas, mordendo um a um os poros da minha pele, enquanto conquistar a delícia de te ter aqui, vibrando o prazer da minha realidade, enquanto me embalares, e eu ser, e eu sentir, e eu desbravar o contorno do teu eclipse.
E respirarás, momento a momento, e eu estarei a balouçar, subtilmente, de mansinho, ondulando para cima e para baixo, abraçado ao movimento do teu corpo.”
Andas a ler muito D. H. Lawrence ;)
ResponderEliminarnunca na vida li nada dele... 100% M.M. Saraiva
ResponderEliminarI normally do not watch blockbuster movies, therefore I avoided Avatar, but I read that Cameron's last film is strongly inspired by an Italian animation film called "Aida degli alberi".
ResponderEliminarI do not know if it is plagiarism, but you can check this confrontations (http://www.focus.it/Tecnologia/speciali/avatar---aida-due-film-e-...tante-analogie.aspx#lista) or on youtube, and give yourself an answer.