Domingo, 31 de Janeiro de 2010

Miguel, you lucky son of a bitch

Como poderão ou não saber, eu sofro desde a pré-adolescência de uma doença intestinal pseudo-incurável e de uma síndrome que afecta o fígado. Estas duas coisas bonitas são presentemente causa de muita consternação na minha vida, mas repudio com desdém qualquer comentário do género: “Ai ai, coitadinho do Miguelinho” ou “Lá vai o marmelo doentinho” ou “Lá está o indivíduo com desordens de foro gastro-intestinal a pavonear-se pela calçada. Deixai-me afastar um bocadinho não vá a dita doença ser contagiosa e estragar-me a maquilhagem”.

Na realidade sou um “gaijo” com muita sorte. Deixem-me expurgar os meus pecados de uma forma lúdica, enquanto vos explico porquê.

Primeiro, isto de ser incurável não é tão mau quanto isso. Se é para ter qualquer coisa incurável, ao menos que seja uma doença. Ser adepto do Benfica. Incurável, não há retorno possível, o desgraçado fica irremediavelmente perdido. Já ter lido um livro da Margarida Rebelo Pinto. Incurável, impossível deslê-lo. O desgraçado acordará a meio da noite com pesadelos até ao fim da sua vida. Queda de cabelo. Incurável, por mais capachinhos e loções que se use, nunca será a mesma coisa. Cantar Graciano Saga num karaoke. Incurável. Traumas para a vida inteira. E pior que tudo, ser portador de, e passo a citar, “estupidez”. Incurável. Felizmente não tenho disso.

O meu sindromezinho de fígado chama-se Gilbert ou Gilbert-Meulengracht. E ainda bem que assim é. Para começar na sua forma longa é completamente impronunciável. Na sua forma breve dá-nos a ideia de um rapaz pacato que nunca se mete em sarilhos. Quem é Gilbert afinal? Rima com Dilbert, esse indivíduo simpático que para além de ter piada é “inginheiro”! Lewis Gilbert foi o realizador de três filmes do James Bond, e Gilbert Keith Chesterton (o grande G.K.), escreveu romances policiais com o simpático padre/detective Father Brown. Tudo gente de bem que não incomoda ninguém. Agora se fosse Síndrome Sócrates, ou Síndrome Manuel Luís Goucha, ou Síndrome Manuela Moura Guedes aí tínhamos problemas. Já viram que era andar na rua e ser apontado como o tipo que tinha o Síndrome Manuel Luís Goucha? Auuu….

Agora há alturas em que não me consigo pôr de pé, nem trabalhar, devido às dores. É como se um vulcão tivesse entrado em actividade a meio do intestino delgado. Noutra metáfora inteligente, é como se tivesse comido um bolo de querosene com recheio de gasolina e depois tivesse enfiado um fósforo pela goela abaixo. Mau, certo? Errado. Bem bom. E isto porquê? Para começar tenho uma desculpa para me esgueirar de tudo o que seja evento social de qualidade dúbia: “Ai e tal dói-me a barriga, não posso ir contigo ao Portugal dos Pequeninos ver o concerto do Mickael Carreira”. Depois, na eventualidade de ser alvejado, esfaqueado, pontapeado, ou acoplado violentamente a um instrumento maciço (taco de basebol ou tubo de aço), por um indivíduo na rua que não gosta do modo como a minha camisa combina com a minha camisola, estou já acostumado a limiares elevados de dor, podendo assim recompor-me facilmente e ripostar com um ataque verbal que o deita por terra e o deixa à minha mercê: “Ai é?! Não gostas da minha camisa? Já olhaste bem para ti? Tens o brinco à Cristiano Ronaldo na orelha errada! Ahahah”. Contra armas fortes como esta não há argumentos.

Relativamente ao número elevado de vezes diárias em que tenho de me deslocar à casa de banho, tenho a dizer que continuo e continuarei a ser bafejado pela sorte. Imaginem que era à loja do cidadão, e não à casa de banho, que me tinha de deslocar esse número de vezes. Na casa de banho estou sentadinho, sossegado, por vezes usufruindo de material de leitura, o único cheiro nefasto é aquele que eu próprio produzo e, nas abençoadas ocasiões em que não estou a tremer e a gemer com dores, até consigo passar um bom bocado. Na loja do cidadão todos estes privilégios se perdem. Raramente estou sentado. Nunca estou sossegado porque há sempre uma senhora do bairro do Aleixo que se decide a contar em plenos pulmões todos os seus dilemas existenciais respeitantes à sua última odisseia no sistema de transportes públicos da cidade. O único material de leitura de que posso usufruir é a senha que se encontra a 247 números da sua vez. O cheiro nefasto provém de tudo o que é sovaco. Estou sempre a tremer e a gemer, reflexo de uma alma em súplica. Conclusão, nunca passo um bom bocado.

Claro que sou um drogado inveterado. Tomo todos os dias comprimidos para a regulação intestinal (já experimentei várias marcas, vários tipos), tomo comprimidos para as dores (abençoados analgésicos dose de cavalo), tomo comprimidos para a renovação da flora intestinal, tomo comprimidos para a flatulência, e até, numa época negra, tomei anti-depressivos. Mas ao menos nunca tomei, nem nunca vou tomar, a vacina da gripe A! Na realidade há coisas bem piores em que se pode ser viciado: músicas dos Onda Choc, filmes do Steven Seagal, partido monárquico, filmes do Chuck Norris, “Project Runway”, conduzir na auto-estrada a 20 km/h de boina, pôr pisca para a esquerda e virar à direita…

Agora falemos do “comere”. Já disse adeus ao leite e aos seus derivados há muito tempo. Caldo verde nunca mais. Pizza e carbonara como, mas fico morto nos dois dias seguintes. Francesinha dá-me intoxicação alimentar. Álcool é complicado, condimentos torturam, entre outras coisas. Coitado, dizem vós? Sortudo, digo eu. Primeiro mantenho esta esbelta e elegante constituição física sem o mínimo de esforço. Depois poupo na conta do supermercado que é uma loucura. E por fim, fico detentor de uma arma muito poderosa. Quando se tem de enfrentar senhoras de meia-idade que quando recebem visitas em sua casa não ficam saciadas até estas comerem todo o conteúdo do frigorífico, da dispensa e do supermercado da esquina (“Eu sei que o menino ainda está com fome”, “Então não gostou da comida?”, “Coma, coma, está muito bom”), outros vacilam e são obrigados a empanturrar-se contra toda a vontade do seu corpo. Eu apenas digo “A saúde não me permite”, e o assunto morre ali.

Médicos?! Não me falem em médicos. Visto ser uma doença cuja causa específica ainda não foi determinada, estes indivíduos articulam com escárnio há mais de 10 anos: “Ó jovem, tenha cuidado com o stress, tenha cuidado com o que come e não beba álcool”. Alguns variam e dizem “Ó sr. engenheiro, tenha cuidado com o stress, tenha cuidado com o que come e não beba álcool”. Dou crédito a uns por irem mais longe: “Ó sr. engenheiro, não beba álcool, tenha cuidado com o stress e tenha cuidado com o que come”. Mais eloquente que eles só mesmo os comentários do João Vieira Pinto e o tipo que escreve os avisos do condomínio no elevador do meu prédio: “Tomamos a humilde liberdade de que queiramos avisar suas excelências através do obséquio dos mesmos dos supracitados que no presente na hora citada se procederá à efectuação da limpeza da garagem”.

Está cada vez mais complicado viver e trabalhar. As dores há anos que são literalmente ininterruptas, as crises estão cada vez menos espaçadas no tempo.

O meu nome é Miguel Saraiva, tenho 25 anos, sou engenheiro civil, e sofro de IBS e de síndrome de Gilbert. Mas felizmente não sofro de estupidez e tenho boa higiene pessoal. E, neste Mundo, isso já cobre praticamente tudo o que importa.

4 comentários:

  1. Miguel... muito espírito de humor! Ri-me muitas vezes, não concordei com essa crítica aos grandes hits dos "Onda Choc" ou às pessoas que fazem pisca para a esquerda e viram à direita (até porque, a qual das esquerdas te referias? toda a gente sabe que só 50 % da população mundial é que distinge a esquerda da direita e esse grupo geralmente coincide com o que pouco mais sabe para além disso...).
    Mas fiquei preocupada... Não haverá mesmo nada por esse mundo fora que melhore a situação?
    Um beijinho grande!!!

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  2. Filipinha!!! Se eu me lembrasse das tuas aventuras ao volante não tinha escrito isso... Agora relativamente aos onda choc... estás a tentar confessar alguma coisa?? :) Relativamente à tua última questão, a minha resposta é "don't know, don't care. not anymore". Dá novidades tuas! Bj

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  3. Parabéns, a melhor crónica até agora.
    Já agora, segundo esse manancial de informação que é a wikipédia diz lá que tens menos riscos de problemas na artéria coronária e ateriosclerose. Portanto, tens mais possibilidades de ir ao WC do que de ter um ataque cardíaco. Nada mau!

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  4. a partir de agora, abstenho-me então de fazer qualquer comentário :p

    boooolaaas

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