Domingo, 28 de Fevereiro de 2010
Andarilho
Encontra-me naquele gordo horizonte
Onde as plumas do monte gracejam
Não descalces as tuas asas
Não percas o teu desejo
O dia só agora começa
O olho no céu só agora se abre e brilha
Pega na minha mão e puxa-me, leva-me contigo
Eu e tu
Andarilhos no trilho do vento
Choviscando intensamente contra as marés
Chamando, sentindo
Os versos escondidos atrás das colinas
A poesia escondida em cada dia
Abre os olhos
Abre os espelhos da tua alma
Abre os olhos e respira o Mundo
Abre os olhos e vê-te ao espelho
Quem és tu realmente?
É o rosto que vês reflexo daquilo que és?
Quem és tu realmente?
Qual é o teu paradigma de beleza?
Qual é o som que sussurras no meio do silêncio?
Onde estás?
Que escondes?
É a tua face a realidade, ou apenas um ornamento?
Os teus olhos são a verdade ou apenas interlúdios de prazer?
Conheces-te?
Conheces-te ou estás embrenhada na ilusão daquilo que és?
Consegues mergulhar a tua mão nos poemas da tua alma?
Ou apenas chapinhar na superfície de algum sonho perdido?
Conheces o teu rosto?
Conheces quem és?
Conheces quem eu sou?...
Sou o homem das mil caras
Sou o homem dos mil sonhos
Perdi a conta de qual é a minha cara
Mudou-a constantemente ao sabor da brisa
Luto e cada vez que descanso encontro-me num sítio diferente
Sigo luzes num universo de escuridão
Desenho pegadas em superfícies estéreis
Tenho longas unhas que arranham os vestígios da vida
Sorrio a uma pessoa desconhecida num espelho desconhecido
Faço caras estranhas a reflexos ousados
Mas não perco a fé
Não, não perco a fé
Porque em gordos horizontes gritos solitários encontram-se
Porque a escuridão é só outra face da luz
Porque a insanidade é só outra face de um sorriso
Porque os teus olhos são deliciosas estrelas
Porque o teu corpo é um labirinto de liberdade
Conheces o teu rosto?
Conheço eu o meu?
Se endoideceres, eu endoidecerei contigo
Se te perderes, cairemos juntos no abismo
Se gritares, eu abanarei os alicerces da montanha com o meu rugido
Se passares para o outro lado, caminharei sobre as águas
Quebrarei o espelho e verei o sangue escorrer pelos meus pulsos
Desafiarei a sanidade, conhecerei o epíteto da loucura
Sofrerei, serei, contigo… contigo
Se endoideceres, endoidecerei contigo
Mas não perco a fé
Porque um dia saberei o que é o reflexo e o que é real
Pois um dia saberei distinguir o que é escuridão e o que não é
E arrancarei as raízes da minha alma
E possuirei os odores do pânico
E a fragrância da insanidade
Para conquistar
Para ser
Eu sou o homem dos mil rostos
Dos mil fluxos da realidade
O meu coração explode em mil pedaços
Que semeio, que divulgo
Que são guardados em arcas, e nunca me são devolvidos
Chego às praias montado em dragões na crista das ondas
Incendeio a areia e conquisto a fortaleza
Reconheço as chamas na faísca dos nossos olhares
E grito, e expludo, e perco a razão
E declaro longos poemas durante a noite
E fujo e sinto e fujo e sinto e fujo e sinto outra vez
Enquanto não sou eu próprio mas outro, outro qualquer
Não importa quem, não importa durante quanto tempo
Até descobrir, até perceber
Até penetrar no Sol
E bafejar algum indício de qualquer coisa que remotamente possa ser uma vida
Que remotamente possa ter alguma lógica
No meio do nada
No meio de rostos desconhecidos e irreconhecíveis
Vagamente familiares
Vagamente poéticos
Vagamente belos
Conheces-me e eu conheço-te?
Que vês no espelho, consegues reconhecer-te?
Ou a máscara esconde algo profundo, que ainda não se quis mostrar
Que está aí tímido, pronto a surgir?
Quem és tu realmente? Alguém que eu conheço?
Ou somos somente estranhos que se encontram pela primeira vez?
Sem compromissos, sem remorsos, sem consequências
À procura de descobrir, à procura de conhecer, à procura de saber
À procura do voo do dragão
À procura de engolir a escuridão
De penetrar no coração
À procura de um sinal de reconhecimento num rosto efémero
Mutável, sempre mutável, sempre perdido
Se endoideceres, endoidecerei contigo
Se gritares, gritarei contigo
Sou uma sombra num mundo de escuridão
Mas no fim tenho esperança
E declaro sempre aquele poema:
Encontra-me naquele gordo horizonte
Onde as plumas do monte gracejam
Não descalces as tuas asas
Não percas o teu desejo
O dia só agora começa
O olho no céu só agora se abre e brilha
Pega na minha mão e puxa-me, leva-me contigo
Eu e tu
Andarilhos no trilho do vento
Choviscando intensamente contra as marés
Chamando, sentindo
Os versos escondidos atrás das colinas
A poesia escondida em cada dia
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