Favorece o espírito este eixo atormentado de sinuosas glórias nunca passadas. Favorecem o espírito encaracolados caminhos que se enrolam segregando o sopro da beleza, o soro de uma realidade admoestada, o sono de uma poesia amedrontada que desliza sem nunca conhecer o dom do toque de uma fé ao rubro. Favorece o espírito a voluptuosidade da presença indígena da virgindade outonal nos contornos da pele ornada que se revela de mansinho. Favorece o espírito a eloquência graciosa que mímica a aura ardente celeste, que sorve o instinto montanhoso de uma perfuração delicada na savana encaixotada, na prisão esticada, perdida no tempo.
Amanhã ou passado, o momento dissolve-se, as esferas colidem, as gotas retrocedem no dorso apaixonado da criação. Amanhã ou passado, o meu corpo etéreo é eterno e eléctrico, os meus olhos vagueiam e sintetizam, os meus pés dançam ansiando derreter-se no solo e verter raízes, as minhas mãos faíscam nenúfares desenhados na escuridão. Amanhã ou passado, o rugido arranha o ar que me rodeia, estonteia a partícula que me segue, fumega-te violentamente contra a parede na histeria da comoção. Amanhã ou passado, não acredito no tempo, não confio no espaço, não tenho fé na realidade. Amanhã ou passado, a invisibilidade da semente transgride a lógica, a indivisibilidade da sensação apoquenta as marés de calor, a temeridade da palavra finge muralhas serpenteadas.
Sou distante do esguio corredor molhado e profundo. Sou distante do veludo aninhado no verso, do requinte faminto e sôfrego do aspirante ao sopro de vida. Sou distante do gladiador compacto, da lateral obtusa, da promiscuidade derradeira que sorri. Sou distante da brutalidade amorfa do suor da terra, repudio os minerais pálidos que bocejam e depois desabrocham. Sou distante da harpa pincelada, da sumptuosidade estrutural, do arrastar mecânico do ritmo. Sou distante do retrato que não envelhece, do conceito da pluralidade, do escoar do fluído nocturno, da batida sufocada na dicotomia da claridade. Sou distante do estímulo da personalidade, da integridade do sentimento.
Amanhã ou passado, mendigo as sombras da floresta, decomponho a veracidade, abraso o que nunca foi. Amanhã ou passado, rasgo as ondas do tempo, dedilho o molde imperfeito, acaricio a perfeição abotoada. Amanhã ou passado, as íris confluem, as faces envolvem-se, as palmas emocionam-se. Amanhã ou passado, o espelho revela-se e a personagem ascende, as garras apoderam-se dos conflitos, os ecos beijam exponencialmente o trautear da perfeição. Amanhã ou passado, a palma aberta penetra o ventre palpitante, o vento desenha o nome, os lábios repartem-se e partilham a sua inocência.
Amanhã ou passado, o andarilho erguido na crista da montanha ruge rusticamente a revelação amorosa, expele do coração os exércitos poéticos que sufocam a palavra sentida. Amanhã ou passado, a doce perfeição feminina favorece o espírito do ser distante com o brilho do segredo sussurrado. Amanhã ou passado, as máscaras arrancam-se, os espelhos despem-se, o ser indefeso posa solene perante a estátua derretida. Amanhã ou passado, estou aqui, precário no limbo do tempo, perdido no cosmos do teu olhar perene, vivendo na chama de ti. Amanhã ou passado, chamo por ti, grito, rujo, expludo, sufoco, erguido na vassalagem da emoção, e aguardo, ardendo, o retorno do eco. Amanhã ou passado, olho e não fujo, abro e sinto, sou e derreto, incendeio e sofro, vivo e aguardo… por ti.
0 comentários:
Enviar um comentário