Era uma vez um jovem rapaz traquina com umas aragens na boca por estar em transição entre tipos de dentes, que em tenra idade, no início dos nineties, se deslocou à Disneyland Paris para responder a uma dúvida pertinente: que raio de coisa é o Pluto?! Senão vejamos, o Mickey é um rato que fala. O Donald é um pato que fala. O Pateta é um cão que fala. Portanto, porque diabo é que o Pluto só tem direito a ser um mísero cão igual aos outros? Onde está a magia do Pluto? Porque é que o Pateta tem inteligência, fala, e basicamente age como um humano, enquanto que o Pluto tem que andar a lamber os passeios de quatro patas? Quando estas duas personagens interagem dá-se aquela coisa esquisita de um cão estar a passear outro cão! Quê? O Pluto não pagou as cotas e despromoveram-no? É racismo para com aquele pedigree? Acho que o Pluto devia lutar pelos seus direitos. Ah, já agora, esse jovem também viu, pela primeira vez, um filme em 3D nessa ida à Disneylandia.
Um par de anos mais tarde, em 1993, esse jovem foi vítima de um elaborado estratagema de marketing aquando da saída do filme “Jurrasic Park”. Este filme tornou-se o maior êxito de sempre da bilheteira, sendo ultrapassado em 1997 pelo “Tánico” e agora pelo “Avatar”, três filmes que, obviamente, partilham entre si o facto de serem sobre dinossauros. Esse jovem lembra-se distintamente de ter um livro do filme, completo com óculos de 3D, onde se via os animaizinhos, desgraçados, a saírem da folha para a delícia dos seus olhos inocentes.
Saltamos para 1996, quando numa noite em que chovia levemente, este jovem chega a Orlando, no estado americano da Florida, a tempo de ver a Gloria Estefan na televisão a cantar “If I Could Reach” na cerimónia de fecho dos jogos Olímpicos de Atlanta. Desde então, o jovem quando chega a uma cidade nova liga a televisão esperançado, mas não voltou a ouvir a Gloria. Talvez seja melhor assim. Nos dias seguintes o jovem visitou os vários parques temáticos que existem nos arredores de Orlando. Primeiro foi à Disneylandia, mas a dúvida relativa ao Pluto manteve-se. Talvez essa dúvida seja desfeita quando visitar as outras duas Disneylandias no planeta Terra, a de Los Angeles e a de Tokio. Depois foi também ao EPCOT Center (o primeiro grande parque mundial de ciência e tecnologia), ao Universal Studios (parque temático de cinema) e ao Seaworld. Em três deles viu filmes em 3D e num deles viu golfinhos, o que é quase a mesma coisa.
Após esta experiência, o jovem cresceu e viveu feliz, até que há cerca de um ano ouviu dizer que tinham inventado uma coisa que ia revolucionar o cinema chamada “tecnologia 3D”. Humm, certamente estariam a falar dos gémeos Dionísio, Dorleano e Dédem, malabaristas pernambucanos. Não? Ok, então certamente estariam a falar da tecnologia Dolby Surround aliada ao Digital aliada ao Deep Space 9 ou qualquer coisa assim. Não? Ah estavam a falar da disjunção de imagens que criam a ilusão da profundidade aquando do uso de uns óculos especiais? Certamente havia ali marosca, um 3D HD ultra digital em que um gajo mete implantes pelo ouvido e entra para dentro do filme! Mas não, era exactamente a mesma coisa de que ele se lembrava da sua juventude. Suspeito…
A existência do 3D nos nineties estava comprovada por experiência própria. Mas na realidade, o jovem sabia que o 3D foi massificado nos anos 50, numa época em que, coitadinho, o cinema perdia clientela para a TV e precisava desesperadamente de chamarizes. O formato mais alargado foi inventado. Experimentou-se com a cor. As megas produções com mega estrelas tornaram-se um lugar comum. E alguém se lembrou de que seria interessante dar estilo aos James Deans da altura e pôr-lhes uns óculos às cores no focinho. Filmes como o “Dial M for Murder” de Alfred Hitchcok, do ano de 1954, foram filmados com câmaras próprias de 3D e postos no cinema em 3D. Como todas as modas, esta não demorou muito, e o 3D foi renegado para parques temáticos ou salas de espectáculo 4D (onde se acrescenta cadeiras vibratórias ou efeitos como chuva, vento, etc) comuns em vários países que não este. Não sei, se calhar a Bracalância tinha um.
Mas o 3D persistiu. Nos anos 60 podia estar desaparecido, mas eles tinham outro D, o LSD, que dava o mesmo efeito. Nos anos 70 os cabelos eram tão grandes que duvido que conseguissem pôr os óculos. Nos anos 80, as provas de que o 3D fazia parte da vida dos jovens estão bem patentes no filme “Regresso ao Futuro”, em que um dos três capangas do Biff ostentava sempre os seus óculos de 3D. Uma pesquisa rápida permite-me ver que a personagem se chama mesmo 3D! (não acreditem vão ver ao imdb). Parece-me então incontestável que foi um dos outros capangas do Biff, interpretado pelo actor Billy Zane (que 10 anos mais tarde faria o papel do mau no Tánico), que se virou um dia para o James Cameron e lhe disse “olha lá, se o meu colega conseguiu fazer 3 filmes do Regresso ao Futuro com aquilo, tu também consegues, ó meu supremo senhor e líder”.
E então o Cameron terá reflectido, reflectido muito. E então o Cameron matutou arduamente. E então o Cameron aguardou 12 anos, a criar uma mística, a tentar arranjar uma maneira de reciclar uma coisa com mais de 60 anos e chamar-lhe a maior inovação da história da humanidade. E não é que o sacana conseguiu?
E o jovem, herói desta nossa história, assistiu no Inverno passado a um dos maiores engodos alguma vez criados. Bem, na realidade não é bem um engodo. O 3D digital é um conceito mais avançado, tal como os efeitos especiais de agora são mais avançados que os de há 50 anos. Por outro lado, a inovação tecnológica do Avatar não está no 3D, mas na câmara dual que consegue sobrepor a imagem real captada à imagem criada digitalmente. Contudo, talvez por isto ser difícil de explicar e não ser palpável, tal como o 3D é, não foi assim que o bicho foi vendido. E aí está toda a diferença desta fantochada.
O jovem, eu claro está, humilde escritor deste devaneio, teve há pouco tempo uma discussão digital com um reputado bloguer português de cinema, que referia que “a invenção do 3D é a terceira grande reforma no cinema depois da invenção do som e da cor”. Primeiro, o reputado senhor não percebe nada de cinema. Segundo, eh pá, há alguma coisa que me está a escapar. Acho muito bonito o 3D, e que com a crise dos últimos meses as companhias de cinema tentem sacar o maior número de euros que conseguirem por bilhete. Até aí tudo bem. Toda a gente tem filhos para alimentar. Chamem-lhe tecnologia, melhoramento de qualidade, como o IMAX ou o Blu-ray ou o Digital, chamem-lhe uma experiência diferente, como levar com a água dos golfinhos no focinho no Seaworld, que por mim tudo bem. Eu também prefiro comprar DVDs a sacar da net, se houver orçamento para tal. Ok, é um melhoramento da experiência de visionamento. Fixe. Fim de história. Agora virem-me com paleios filosóficos de que o 3D é muito importante porque se quer uma aproximação à realidade, uma interacção maior com o público, que o público sinta a acção e as personagens, que o cinema caminha para a abolição de barreiras entre a imagem e os actores, e tudo isto é feito, não pelos motivos financeiros, mas pelo bem da humanidade, eu digo, espera aí! Personagens reais, noção de profundidade, proximidade actor-público… é verdade que isto me lembra qualquer coisa, mas o quê? Ah, já sei. Não me estava a recordar porque também é uma invenção relativamente recente. Só existe há cerca de 3 mil anos. É aquela coisa chamada Teatro… que da última vez que vi estava a sobreviver de subsídios do estado, os seus actores a morrem de fome e as salas às moscas.
Portanto o jovem repudia todos aqueles que são vítimas de mais uma manobra de marketing. Hoje é o 3D que está a ser maximizado, com TVs e portáteis a aderirem e o cinema a encher os cofres. Amanhã será outra coisa qualquer passada a ser reciclada. Espero que sejam os Pega-monstros da minha infância. Pode ser também uma série de filmes do D’Artacão com o Johnny Deep no papel principal. Já faltou mais para se fazer um filme a P/B e as pessoas acharem que é uma inovação tecnológica. Já faltou ainda menos para se fazer um filme mudo e as pessoas ficarem de boca aberta a pensar como é que se conseguiu tal efeito. O primeiro filme do Chaplin vai fazer 100 anos daqui a quatro e nenhum 3D lhe daria mais um grama de magia. O jovem sente-se pesaroso e nostálgico.
Porquê? Oh pá, porque este ano dos muitos filmes que viu no cinema apenas se deparou com dois de jeito, o “Shutter Island” e, principalmente, o “Edge of Darkness”. E os outros não eram ok, passa, bom entretenimento. Não. Eram todos mesmo muito maus. Quando se inventou o som, meu caro bloguer, continuou-se a fazer filmes de jeito. Quando se inventou a cor também. Agora querem é cobrar 7 ou 8 euros pelo bilhete, de preferência na sexta e no sábado de estreia antes das críticas saírem, e está feito. A produção em massa do 3D podia ser feita com a minha bênção, desde que fosse acompanhada por produtos de qualidade. A tecnologia tem qualidade. O produto deixou de a ter. O “Avatar” é o exemplo perfeito disso. Filme de, e peço desculpa pelo termo, MERDA. Mas que lá os efeitos eram bons eram.
Nesta altura só me resta suspirar por não ter uns óculos 3D comigo quando vi a Gloria Estefan naquela noite de Agosto de 1996. Aí sim tinha dado jeito.
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