Domingo, 13 de Junho de 2010

Bastardos Gloriosos, “Bifana Bifana” e outras desportices

Como alguns de vós caros jovens saberão, existe uma equipa de basquetebol americana chamada Boston Celtics. Ora, os Boston Celtics têm uma história muito curiosa. Primeiro ganharam 11 títulos em 13 anos… isto entre 1957 e 1969. A sua equipa tinha lendas do basket como Bill Russell e K.C. Jones e, basicamente, era a maior do planeta. Infelizmente, a dinastia acabou e a divindade dos Boston Celtics perdeu-se. Passaram a ganhar o ocasional título (apenas 2 nos anos 70), até que apareceu um tal de Larry Bird, o melhor jogador branco que o basket alguma vez conheceu, que os levou 3 vezes ao título em 5 anos, lá para o meio dos eighties. Após esta retomada glória, os Boston Celtics voltaram a ser uma equipa mediana, e só 20 anos depois, em 2008, é que voltaram a ganhar um título.

Duas coisas me incomodam nesta história. A primeira é que durante todos estes 50 anos nunca ouvi os telejornais desportivos americanos começarem sempre com os Boston Celtics. Nunca ouvi durante todos os anos de interregno dos seus títulos as pessoas sussurrarem que os Boston Celtics eram, são e sempre serão os maiores. Não entendo porque é que nos anos 90, em que os Chicago Bulls com o Michael Jordan, Pippen, Rodman e companhia ganharam 6 títulos (3 mais 3 separados por 3 anos, os anos em que Air Jordan esteve no basebol, tão deliciosamente retratados no filme “Space Jam”), ninguém disse “eh pá, os Bulls ganham, mas os Celtics é que são os melhores de sempre! Porquê?! Então não ganharam 11 títulos em 13 anos nos anos 60!”. Pior, ninguém diz que os Bulls (que não voltaram a ganhar nada, aliás, são agora das piores equipas), são ainda os maiores porque tiveram o Jordan há 20 anos. A segunda coisa que me incomoda é a semelhança destas histórias a certo e determinado clube de futebol português. O que nos leva a uma terceira coisa que me incomoda: porque é que então nem os Celtics nem os Bulls são os maiores agora, se ganharam no passado tão fantasticamente? Vendo o exemplo do Glorioso, não entendo. Da maneira como o meu cérebro foi lavado neste país, pensei que era prática comum mundial.

Mas se ainda fosse só e apenas o Glorioso a usufruir da vitória “em antes” dos eventos, da divindade do passado para a sua bajulação presente, eu ainda deixava passar. Vá, coitadinhos, têm que viver em Lisboa, falar com sotaques esquisitos, arriscar-se a cruzar-se com o Sócrates, ver a equipa a perder todos os anos nas várias competições, e já tiveram como presidente o Vale e Azevedo… enfim, é complicado, e eu até tenho pena. Agora quando este bicho passa para a selecção nacional, já fico mais espevitadito.

Eu sei que o Glorioso é o clube oficial do Estado, e como em todos os outros países mundiais esse clube oficial é a selecção, é normal que no nosso país haja o mínimo de confusão. Mas a selecção não precisa destas gloriosices, e creio que é por isso que nunca chega a lado nenhum.

Que gloriosices, perguntais vós?

Gloriosice 1) Serem campeões em antes. Portugal é um país abençoado. Se pensarmos bem, as grandes potências mundiais de futebol são países poderosos: Alemanha, Itália, França, Inglaterra, ou então países predestinados por Deus para o futebol: Brasil, Argentina, tal como os Quenianos são predestinados para a corrida. Nós somos piquinitos, fraquitos, pacatos aqui no nosso canto ibérico. Damos graças por termos tido três dos maiores jogadores da história (Deusébio, Figo, Chris Rooney… como quem diz Cristiano Ronaldo)? Damos graças por de vez em quando termos uma boa geração? Damos graças por termos clubes que já ganharam competições europeias? Não! Temos a mania. Queremos mais. Somos obcecados. Temos três jornais diários de futebol (a Itália, esses malucos da bola, não têm tantos). As notícias mostram os jogadores em todo o lado menos na casa de banho (já faltou mais!). Fazemos piqueniques ao som do Tony Carreira. Pusemos bandeiras na janela quando um brazuca mandou, mas não levantamos um dedo para ajudar com a crise. Não largamos as vuvuzelas. E tudo por quem? Por uma equipa que nunca nos deu nada, nunca ganhou nada e só armou confusão em provas importantes! Na realidade acho muito bem o apoio fanático, mas acharia ainda melhor fazerem o mesmo, e mais, quando os jogadores regressam derrotados. Isso sim é patriotismo. Os ingleses cantam desalmadamente quando a equipa está a perder. Nós só cantamos quando estamos a ganhar no mínimo por três.

Gloriosice 2) Ter uma visão distorcida da história. Se pensarmos bem, nos primeiros 70 anos da competição “Mundial”, só fomos lá duas vezes. Numa tínhamos o Deusébio e chegamos ao 3º lugar. Na outra tínhamos as putas mexicanas, 4 treinadores, jogadores em greve e perdemos contra Marrocos e a Polónia. Quem somos nós para acharmos que somos bons? Respeitinho é muito bonito e recomenda-se. Aliás, a nossa geração de ouro (a que ganhou o mundial de juniores em 1989 e 1991) não conseguiu chegar lá nos anos 90. Claro que os treinadores são de culpar (entre eles um tal de Carlos Queirós), mas qualquer que seja a razão o facto a reter é que não chegamos lá. Só fomos agora em 2002 e 2006 (até os EUA foram a mais Mundiais que nós), e em 2002 nem passamos da 1ª fase. Portanto, hello?! Sou eu o único a achar que a nossa história e as nossas prestações recentes não justificam o acharmos que somos os maiores. Ok, perdemos uma final de um Euro em casa e ficamos em 4º em 2006… mas mesmo assim… títulos zero! Até a Grécia tem um. Até a Grécia!

Gloriosice 3) A culpa é sempre do macaco. Mas é mesmo? Desde 1994 que nos acontece sempre qualquer coisa. Em 1994 a coisa que nos aconteceu chamava-se Carlos Queirós. Em 1996 foi o golo do Poborsky. Em 1998 foi o Marc Batta a expulsar o Rui Costa quando ele ia a ser substituído, por demorar muito tempo a sair. Em 2000 foi a mão do Abel, e a minha preferida: o Rui Bento a baixar o braço ao árbitro. Em 2002 podemos ficar aqui até amanhã: foi o Oliveira a treinador, foram os Beach Boys e as putas de Macau, foi o soco do João Pinto, foi o Baia jogar depois do Ricardo ter jogado todos os jogos de qualificação e o de treino em Macau, foi o empate servir contra a Coreia, e o Jorge Costa e o Fernando Couto passarem 2/3 do jogo (até sofrerem o golo, claro está) a passarem a bola um ao outro na defesa. Em 2004 foi a coisa mais inglória da nossa História, e estou a incluir batalhas medievais perdidas e músicas do festival da canção. Havia um tal de Ferreirinha e o facto de acharmos que estava no papo, mesmo depois da UEFA ter assinado o papel secreto a dizer que esse ano o canudo era nosso. Em 2006 foi o cabeçudo Zidane, e em 2008, por incrível que pareça, acho que não se passou nada de mais. Estou ansioso por saber a escandaleira deste Mundial. Já temos uma: Nani, drogas ou lesão? Mas prefiro uma em campo… já estou a ver: “pá não nos conseguíamos concentrar com o som das vuvuzelas”…

Gloriosice 4) O nome. Uns são gloriosos. Outros, ora são os “tugas”, ora são os “navegadores”, ora são não sei o quê. Eu cá imitava a equipa da casa, os “Bafana Bafana”, mas optava por uma sonoridade mais portuguesa. Se eles se chamassem “Bifana Bifana” não só elevava a moral, como elevava as exportações de carne portuguesa para o estrangeiro, ajudando assim com a história da crise. Cristiano Ronaldo, o Bifana Bifana. Soa bem.

Gloriosice 5) Só o futebol é que conta. O Benfica acabou com inúmeras actividades e fechou até o futebol júnior de alguns escalões. As notícias e os jornais só vomitam futebol. O Comité Desportivo de Portugal só dá massa ao futebol. Os conselheiros fiscais deles devem ser os Lehman Brothers ou o Maddof. Porquê continuar a apostar numa modalidade que há 114 anos ainda não nos deu um único título? Porque não apostar no atletismo, que parcas alegrias nos dá… mas dá-nos! Um décimo da massa dada ao futebol injectada no atletismo transformava este país numa máquina de fazer corredores e saltadores. Só o dinheiro gasto nas putas em Macau dava para este país formar corredores que batiam os quenianos ao pé coxinho. Só me vem à cabeça o desaire dos últimos Jogos Olímpicos como exemplo desta mentalidade. Portugal ganhou na sua história 22 medalhas, 4 delas de ouro. Só o Phelps sozinho, por exemplo, ganhou 16 medalhas, 14 delas de ouro. Aliás, o jovem em 24h ganhou o dobro das medalhas de ouro que Portugal em 114 anos. É triste. Mas mesmo assim, à partida para Pekin, de quem é que ouvíamos falar? Dos futebolistas e dos que já tinham ganho qualquer coisa em antes, porque claro, tirando o futebol, só nos interessam os campeões. Os outros esquece. Mas, sinceramente, se tirei 20 a matemática no 11º ano, quem me diz que vou tirar no 12º? Se fui para a cama com a Maria ontem, quem me diz que consigo ir para a cama com ela hoje? Portanto, porquê só apoiar os vencedores do passado? Mas em Pekin todos estes desgraçados falharam e então, toca a arranjar bodes expiatórios. Mas quais? Os do futebol? Não, claro que não! Intocáveis! Obikwelo? Não! O moço é estrangeiro e treina em Espanha, não se pode ferir os seus sentimentos. A Naide Gomes que tanto prometia e nem se qualificou? Na… Vamos lá culpar os desgraçados que nem eram favoritos à partida… Vá, o Marco “Caminha” Fortes podem culpar, mas o homem também foi para lá sem nenhuma expectativa, e só pronunciou essas declarações sobre pressão, porque as supostas glórias nacionais falharam todas na véspera. Recordo o desgraçado do Gustavo Lima, da vela, um verdadeiro herói nacional, algo que alguém tipo Nani nunca será. O homem ficou em 6º em Sidney, em 5º em Atenas e em 4º em Pekin. Com um pouco de ajuda ia às medalhas em Londres. Mas não! Só o fazem chorar acusando-o de falta de amor à camisola, levando ao desgraçado anunciar que se vai retirar…. Portanto o que se faz? Vão feitos loucos aos novos vencedores, tipo Nelson Évora, e transformam-nos nos novos heróis… É bonito e estranhamente cíclico…

Gloriosice 6) o feeling. Temos sempre o feeling que vamos ganhar e surpresa, surpresa, nunca ganhamos. Eu cá não tenho feelings. Eu cá não acredito em vencedores à partida. Eu cá não acredito que os atletas são bons pelo nome que têm na camisola, mas sim pelo suor que deixam em campo. A minha camisola pode dizer CR7, mas se eu no campo não jogar à CR7 então é igual à ovelhinha mémé. Cada competição é uma competição. Pode haver favoritos, ou tipos em melhor forma, mas não há vencedores à partida. Tipos que pensam assim geralmente falham. E é por isso que Portugal falha sempre.

Sou um adepto ferrenho. Vejo os jogos religiosamente, berro, salto, e sou meio deficiente porque devo achar que a televisão me responde. Quero como os demais que os portugas ganhem. Mas façam-me um favor. Não exerçam pressão nos atletas. Já pensaram que eles falham porque não saem de cima deles, sempre a fazer perguntas estúpidas e a segui-los para todo o lado? Já pensaram que eles falham porque não lhes dão tempo para se concentrarem tão em cima deles estão? Caros amigos, façam o que quiserem e o que bem entenderem. Mas despois, ok? Façam a reportagem normal em antes. Só despois é que façam lá os piqueniques todos que quiserem. Ganhem ou não ganhem. Isso é a marca do verdadeiro adepto. Neste momento, os atletas só se sentem amados quando ganham! Não é isso mau para a sua moral? Que o diga o Gustavo Lima!

Um Glorioso já nos chega, e até faz bem. É assim tipo mascote nacional, que metade do país pode idolatrar e a outra gozar saudavelmente. Agora deixem os “Bifana Bifana” e o resto dos atletas portugueses em paz. Mudem a mentalidade e pode ser que tenham resultados no sapatinho.

Os “Bifana Bifana” estreiam-se na terça. Força Portugal! Tenho um feeling? Não. Podia ter um feeling? Podia, mas não seria a mesma coisa. Porquê? De momento defendo as cores da selecção, mas não defendo o conteúdo. O conteúdo tem de convencer para ser amado. Os jogadores têm que merecer o respeito e não assumir que o têm à partida. Como tudo na vida, diria eu. Glorioso só há um. A ele as Gloriosices. Os outros devem debater-se com sangue, suor e lágrimas. Mesmo! E o povo deve estar pronto para um novo piquenique, Tony Carreira, João Baião e tudo, mesmo que os meninos percam na 1ª fase. Os campeões não crescem de geração espontânea. Criam-se. Que os digam os Boston Celtics, que antes dos 11 em 13, estiveram os anos 50 todos a criar a equipa lentamente. Que o diga o Porto na era Zé Mourinho. Que o digam os chinocas que gastaram milhões em promover tudo o que eram actividades desportivas não praticadas na China para ganharem mais medalhas. E não é que ganharam mesmo?! Capice? Ah, e já agora….esqueçam filmar os desgraçados a jogar bilhar ou Playstation, ok?

Força “Bifana Bifana”!

1 comentários:

  1. Ora agora é que disseste tudo (e isto vindo de um glorioso adepto :P)!!! Fico sempre com a impressão que a selecção acaba muitas vezes por "underperform" muito por culpa da gigantesca pressão que os nossos media lhes colocam nos ombros - tvi24, sic noticias e rtpn (embora esta última de uma forma um pc mais light) permanentemente em actualização na África do Sul, relatando o dia-a-dia da selecção - SERIOUSLY? QUE ME INTERESSA SABER QUE O RONALDO JOGA BEM MATRAQUILHOS E TÉNIS DE MESA??? Que assegurem mas é as transmissões dos jogos do Mundial, ISSO SIM é televisão pública - vergonhoso sermos o único país europeu onde um canal de tv privado consegue os direitos de transmissão de uma competição desportiva como esta, à frente da televisão estatal. RIDÍCULO!

    ResponderEliminar