Domingo, 27 de Junho de 2010

Mr. Título

Esta semana dediquei 12 horas da minha vida a algo que nunca tinha visto: as versões expandidas em DVD da trilogia do “Senhor dos Anéis”. Até aí tudo bem. Quando uma pessoa expande, desde que não seja para os lados, geralmente é bom sinal.

Contudo, este visionamento despoletou em mim um trauma que já tinha assomado à superfície da minha pele aquando do visionamento das versões originais de cinema e da leitura dos livros. E esse trauma é o seguinte: porque diabo é que o Sam insiste em chamar Mr. Frodo ao Frodo mesmo após onze horas e meia de aventura? Mesmo após ter-lhe salvo a vida n vezes, mesmo após terem atravessado a Middle-earth de uma ponta à outra, mesmo após terem-se deparado cara a cara com os fogos de Mordor, ainda se ouve Mr. Frodo para cá, Mr. Frodo para lá. Sinceramente, há limites.

Quer dizer. Tomemos o Gandalf. Mithrandir, sábio, feiticeiro, mais de 3 mil anos, detentor de segredos milenares, em sintonia com todas as criaturas da Terra, o dom da visão do futuro, hábil com a espada e com o bastão, etéreo. Alguém lhe chama Excelentíssimo Gandalf? Gandalf, sua eminência? Supremo Feiticeiro Gandalf? No mínimo Mr. Gandalf? Não! É Gandalf e é se queres. “Ó Gandalfo… Gandalfo!, anda cá dar uma massagem à avó que as varizes estão a chateá-la!”

Tomemos o Aragorn. O herdeiro de Isildur. Empunhador da Anduril, espada mítica. Líder dos Homens na batalha derradeira. Rei da Middle-Earth. Orc-slayer. Bad-ass warrior. E acima de tudo um tipo extremamente cool. Mr. Aragorn? Rei Aragorn? Excelência Aragorn? Sua Majestade Aragorn? DJ A. R. Agorn? Não, para quê? Ele percebe que se está a falar com ele.

Mas o Frodo… Ah, o Frodo é outra tinta. Um lavrador adolescente duma terriola qualquer no meio de nenhures? Ui, ui, Mr. Frodo, Mr. Frodo. Mas que é isto, pá? Sam, andas a brincar com as pessoas ó quê? O que é que ele fez que os outros não fizeram para ter direito ao Mr.? Apanhou um anel do chão? O Bilbo também mas chamam-lhe Bilbo, não Mr. Bilbo. O Smeagol também e esse ainda é pior. Não só não lhe chamam Mr. Smeagol, como ainda gozam com uma deficiência que o jovem tem ao nível da fala e chamam-lhe Gollum. Não pode ser. Estamos na escola primária? Aí sim havia o “perneta”, o “quatro olhos”, o “tipo com a mancha no braço” e o “cabelo esquisito”. Agora na Middle-Earth? Como é?

Mesmo assim o pior não é isso. O pior é como é que o homem continua a chamar-lhe Mr. Frodo depois de tudo o que passaram juntos. Quer dizer, o Sam salva o tipo da morte mil vezes. O Sam cuida dele, dá-lhe de comer, dá-lhe as últimas gotas de água do seu cantil. O Sam volta atrás mesmo depois do Frodo berrar com ele e mandá-lo embora. O Sam protege o anel quando acha que o Frodo está morto e volta a devolvê-lo quando o reencontra. O Sam pronuncia uns discursos lamechas de incentivo e faz reminiscências da sua terra natal ao som de uma música heróica. O Sam, na realidade, é o verdadeiro herói desta história. O Frodo que faz? Nada. Apanha o anel do chão e depois é sempre apaparicado, sempre a chatear toda a gente e a tornar-se um tipo mesquinho e inconveniente. No fim nem atira o anel para o fogo. Dois mil anos antes o rei que tinha tirado o anel ao Sauron fez o mesmo. Foi lá acima, ameaçou atirar, não atirou, veio-se embora e o mal persistiu. Ai esse já é um humano mauzinho e os “corações dos homens são facilmente corrompidos”. Se virmos bem, o Frodo faz exactamente a mesma coisa. Vai lá acima, vai a atirar, não atira e volta para trás. Se não fosse o Gollum e o Sam, e depois o Gollum a tropeçar, o Sauron ganhava e o mal consumia a Terra. E é o Frodo é mauzinho e “os corações dos Hobbits são facilmente corrompidos”? Não! É Mr. Frodo e “os Hobbits são criaturas maravilhosas e heróicas” e “you should bow to no-one my friends”. Quer dizer. Acho isto de extremo mau gosto e até um certo racismo para com as outras criaturas da Middle-Earth.

Esta história bonita ajuda-nos a constatar a grande, vá, estupidez, que existe na atribuição de títulos às pessoas. Quando me licenciei (digamos, mestrei) comecei a trabalhar numa empresa onde no início me insistiam a chamar Eng. Miguel, desde as secretárias aos colegas. Logo no primeiro dia disse “Só Miguel, por favor”, e o assunto morreu imediatamente ali. Contudo, não estava ainda salvo destas distinções, pois os clientes da empresa eram Câmaras Municipais, portanto passei grande parte do meu tempo a lidar com funcionários públicos. A questão é que a maior parte destes indivíduos está demasiado ocupado nos seus diversos afazeres para perder tempo em saber que título dar a certa e determinada pessoa, por isso vai tudo a “doutor”. Portanto, para as Câmaras, eu, um paspalho que acabara de fazer 24 anos, que não percebia patavina de nada do que estava para ali a fazer, tornei-me o Dr. Miguel. O que me leva a uma única conclusão óbvia. Muito se diz mal dos funcionários públicos, mas as pessoas esquecem-se que este séquito, tal como o Gandalf, têm um poder muito especial, o poder da visão. Eles sabiam, sabiam, que eu daí a um ano iria ser convidado a tirar o doutoramento. Daí a sua cortesia no tratamento da minha pessoa.

E porque estamos numa época futebolística, porque não reflectir um bocado sobre a política de atribuição de títulos nestes meandros? Primeiro temos os jogadores, classe medíocre e pouco importante que se pode tratar com o desprezo dos escravos. Porquê? Bem, é só escrever-lhes um nome nas costas a tinta branca e toda a gente passa a tratar-lhes por “tu” e por esse nome. Esse nome pode ser de família, como por exemplo “Figo”, e os jornalistas passam então a dizer: “Figo, diz-me, o jogo correu bem!”. Ou pode ser alcunha, e aqui tudo o que vem à rede é peixe: “Martelinho, estás contente com a vitória?”. Jesus. Se o meu nome fosse Joaquim Silva e a alcunha para os meus amigos fosse “Martelinho”, não queria que um tipo seboso que nunca vi na vida se chegasse à minha beira com um micro e me tratasse não só por tu como por “Martelinho”.

Depois temos os treinadores, e aqui já há mais respeitinho, excepto se o treinador se chamar Toni. O nacionais ou são “professores” (Prof. Neca, Prof. Carlos Queiroz, Prof. Jesualdo Ferreira), ou ao menos têm direito aos dois nomes, ou no mínimo ao apelido, Mourinho, Jorge Jesus. Mesmo os mais fraquinhos, mesmo os ex-jogadores, por serem treinadores já têm direito a mais respeito. Mas se for o Toni é só Toni e não há cá mariquices. Se for estrangeiro já tem direito ao Mister, Mister Boloni. Sinceramente não sei se preferia ser mister ou professor. Talvez ambos. Mister Professor Miguel. Imaginem se o Frodo era treinador do Benfica. Mister Mister Frodo seria o seu nome. Mas, apesar de tudo, o Toni continua só Toni. Não entendo. Ao menos mostramos respeito pelos estrangeiros, fazemo-los sentir bem vindos, respeitamos a sua diversidade cultural. Excepto se for brasileiro, aí não há diversidade nenhuma a respeitar. Mister Scolari? Professor Scolari? Na… Felipão!

Se pensarmos bem, só se dá títulos pomposos a quem quer dar ares. O Felipão está-se a cagar se lhe chamam Prof. ou não. Já o Queiroz é mais picuinhas. Mas sinceramente, num Mundo em que uma empregada da limpeza passa a ser uma profissional de higiene, os restaurantes passam a ser restauro, e um lojista passa a ser um técnico de vendas, é um Mundo onde eu, um humilde eng. civil especializado em Planeamento do Território, quero ser um Sr. Dr. Salvador Universal da Humanidade Nobel da Paz Distribuidor da Boa Vontade Construtor Exemplar Criador Urbano Apaziguador Social Temerário Guerreiro do Equilíbrio Sustentável e do Desenvolvimento Etéreo da Riqueza Espiritual. E os engenheiros por esse mundo fora sabem bem de que é que eu estou a falar. E os planeadores urbanos ainda mais! (piscar de olho subtil).

Na realidade, o meu nome é Miguel e é só isso que eu quero que me chamem. Os meus amigos podem ir mais longe e chamar-me, mais carinhosamente, de Mike. Mas não passa daí. O valor está no nome e no que ele representa. As pessoas podem tremer ao som de Miguel, podem sentir-se quentes pela tremenda amizade que a memória do meu nome faz surtir nelas, podem repugnar-me, odiar-me, respeitar-me, idolatrar-me. Mas será pelo Miguel, e nunca pelo Eng. que vêm atrás.

As pessoas não se dirigem aos empregados de bar e dizem “Ó sr. empregado de bar, dê-me duas caipirinhas”. Não se dirigem às lojistas e dizem “ó sr.lojista, tem um nº 37?”. Não se dirigem a um trolha e dizem “Desculpe, sr. Trolha, tem o rêgo a ver-se”. Não se dirigem a um funcionário do cinema e dizem “Desculpe, sr. Funcionário do cinema, não encontro a minha namorada… a sala está muito escura”. Então porque diabo é que dizem Sr. Engenheiro a um engenheiro, Sr. Arquitecto a um arquitecto e assim por diante? Porque são profissões de respeito? O respeito esteve, está e sempre estará na pessoa, no ser humano, no mister vá, e não na profissão. E tenho dito!

3 comentários:

  1. Peço antecipadamente desculpa pela intromissão.

    Vim parar a este blog graças ao blog do Diogo ("um gajo desocupado"), jovem que apenas me foi apresentado pois em boa verdade é um amigo de uma amiga. Resumindo: o mundo dos blogs é pequeno e aqui vim parar. :P
    Como cinéfila acérrima fiquei atenta aos posts anteriores mas comento este, pois além das boas gargalhadas que me proporcionaste, não poderia estar mais de acordo contigo relativamente às nomenclaturas e aos post-its que nos colam na testa assim que acabamos uma licenciatura, ou um mestrado ou um doutoramento. Ok, para ser franca... foi essencialmente devido às boas gargalhadas! :P
    Continuarei a visitar e a comentar se tal não for do teu incómodo ;)
    Keep up with the good work! ;)

    Bruna Jil

    ResponderEliminar
  2. Ola Jil... bem vinda! Estás à vontade, comenta o que quiseres, lê o que quiseres. Não estás a intrometer-te, isto é livre. Cinéfila e gargalhadas soa bem. Sofro do mesmo... embora os acérrimos às vezes façam mal ao colesterol. Obrigado pelos comentários, fico contente. :) Bj

    ResponderEliminar
  3. Esquece... colesterol a 280: totalmente incurável! Isto para não me referir dos altíssimos níveis de triglicerídeos! :D
    Obrigada pela simpatia :) Bj *

    ResponderEliminar