Quarta-feira, 14 de Julho de 2010

Como Arrancar uma Pen Drive de um Bloco Quadrado Inconexo e transformá-lo numa FEUPVILLE


Em 2005, ano esse em que o Cristiano Ronaldo ainda não tinha um filho, estava eu sentado numa aula de Estruturas de Betão 1, disciplina deveras interessante para todos aqueles que estão em coma ou que acabaram de sair de uma lobotomia, quando uma loira de olhos azuis que estava na cadeira à minha direita se virou para mim e disse: “Miguel, este ano vens para o teatro comigo”.

Bem, sei por experiência própria que recusar propostas de loiras de olhos azuis não é boa política. Se a isso juntarmos o facto de que eu não estava a perceber nada do que se estava a passar no quadro à minha frente, o facto de que estava com sono e que aquela foi a proposta mais tentadora que me fizeram naquele dia, o facto de haver um magnetismo quase animal na dualidade ariana do loiro e do azul, e por fim o facto desse magnetismo provir de uma grande amiga, então é com naturalidade que se entende a minha resposta sorrateira e eloquente, entre cópias arfantes do quadro para o caderno: “OK”.

A minha única experiência teatral até à data tinha ocorrido gloriosamente na 4ª classe, com tenros 8 anos de idade. Fazia de “árvore morta” numa adaptação do clássico “Hansel e Gretel” e tinha uma única fala que dizia com a segurança de um mestre: “coitados dos pobres pequenos”. Melhor do que isso, a minha segurança era tanta, o meu à vontade em palco tão épico, que após dizer a frase, que era logo no início (quando os rebentos se perdem na floresta), e após me ter instalado no fundo da cena, onde encostado à parede estaria agachado até ao final da peça, escondido pelo cartão que era a árvore que segurava, adormeci! Adormeci e acordei mesmo no fim, a tempo de ouvir as 2 últimas falas e me levantar para os agradecimentos. Era um génio!

Em Fevereiro de 2006 já tinha ganho mais um pouco de eloquência e resistência ao sono, e estreei-me numa pequena comédia em mosaico intitulada “Perdi a Minha Pen Drive, mas Não Perdi a Memória”, onde fiz 6 papeis diferentes, no decurso de 70 minutos descritos como “uma mistura de Revista Portuguesa com Morangos com Açuçar”, citando uma sardenta e es-pec-ta-cu-lar amiga que ganhei neste processo. Esta pequena comédia teve um sucesso desmesurado nos meandros FEUP. Fizemos duas noites, e nas duas vezes tivemos o auditório a abarrotar pelas costuras. Ainda hoje se sussurra sobre esta peça na FEUP. Mas, por mais que eu tente dizer que fiz de director, de político, de tipo que quer comprar exames na candonga, ninguém me liga um xavelho. Para sempre vou estar amaldiçoado pelo papel de empregada da limpeza. “Então não te lembras de mim como político?”. “Não! Fizeste de político? Não me recordo! Mas Miguel, aquela empregada da limpeza era de chorar a rir...”. Enfim.

No ano seguinte tive uma experiência mais séria. A peça era “O Arranca Corações”, baseada no livro surrealista de Boris Vian. Enquanto que a Pen era do Comissariado Cultural, o Arranca era um menino do grupo oficial de teatro da FEUP, o Engenharte. O Arranca foi diferente, foi trabalho de quase um ano, uma coisa com princípio, meio e fim, pés e cabeça, sério, profundo, na índole do teatro mais moderno. Foi árduo, mas recompensador pelo processo e pela união ao grupo. E claro, a maior regalia foi, por fazer o papel de carpinteiro, passar metade da peça a berrar e a bater nas pessoas, o que faz sempre bem ao colestrol.

2008 foi o ano dos workshops temáticos. O Engenharte começou a dar as últimas, o velho grupo começou a desfazer-se, mas ainda arranjou gás, devido à força de vontade de gente de bem, para num último fôlego erguer-se e apresentar, em Dezembro de 2007, Fevereiro e Maio de 2008, três pequenas performances de meia hora, expondo respectivamente os blocos de Movimento, Escrita Criativa e Expressão Plástica. Foi um ano de altos e baixos, de memórias, afectos e dores. No “Bloco de Memórias” a performance foi filosófica e mais para nós do que propriamente para o público. Mas nunca irei esquecer o processo, os ensaios, o convívio, a magia, pois nesses meses descobri alguém que sempre vou manter a bater no meu coração, uma pequena chama que por momentos me destapou o véu da perfeição e os portões do paraíso. O “Inconexo” foi a oportunidade de pela primeira vez escrever algo que teve materialização física. Acabei por escrever a maior percentagem do texto e vê-lo a ganhar forma em cena fez-me sentir vivo. Claro que de novo tive que ficar com o papel do outsider, o cientista louco. Miguel, o character actor, o Daniel Day-Lewis versão Portugal dos Pequeninos… Foi das poucas vezes que fiquei realmente chateado. “Queres o outro papel? Eh pá, mas não há ninguém que consiga fazer de cientista louco como tu. Tens de ser tu”. É sempre bom ouvir alguém dizer isto de ti. São comentários que sempre guardarei próximo do coração. Por fim, já depois de não fazer parte da FEUP e estar a trabalhar numa empresa, a cenografia foi explorada ao máximo no “Quadrado”. Mas outra coisa foi explorada ao máximo. O meu problema de saúde, que me obrigou a abandonar o processo como actor. Mantive-me fiel até ao fim, nos bastidores, a ajudar, mas à frente da cortina tornou-se impossível, nos piores meses da minha vida em termos de saúde.

E não de uma forma muito agradável, no final do primeiro semestre de 2008, o Engenharte desvaneceu-se, e com ele as minhas aventuras teatrais. Pensei que tinha terminado. 5 espectáculos em 3 anos pareceu-me bem. Tinha outros peixes para fritar… e para ficarem mais bem fritos (piada para aqueles que viram a Pen Drive).

Um ano depois de ter saído da FEUP voltei para me doutorar (oh yeah). O grupo de teatro continuava sem existir. No final de 2009 arrancou de novo, sem eu fazer parte do processo. No início de 2010, o Comissariado Cultural da FEUP pediu para se reunir comigo e com outros conspiradores argutos. O objectivo? Fazer retornar o encenador José Carretas à FEUP e produzir uma espécie de “Perdi a Minha Pen Drive 2”. Estaria interessado? E estar desta vez envolvido não só como actor, mas na produção e na escrita? Humm… hesitei. Hesitei muito. Ficar outra vez conhecido para sempre como empregada da limpeza… ou pior?! Não, na realidade hesitei porque tinha medo. Já lá iam 2 anos desde que abandonara a ultima peça por motivos de saúde. Fá-lo-ia? Primeiro disse que não, que só ficaria nos bastidores. Depois disse que sim.

Teatro é como andar de bicicleta. Teatro é como droga. Bastou um cheirinho para regressar e ficar viciado. E verdade seja dita, gosto de estar no controlo (defeito, eu sei, mas que querem?!). E o resto é história.

É uma história que se revela nos próximos dias 19 e 20 de Julho, no auditório da FEUP. Pesa uma “boa dose de sorrisos” e mede cerca de 1h15 min. É do sexo feminino e nasceu com os dedos todos. É a menina dos olhos dos vários papás e tem-nos deixado acordado noites nas últimas semanas. É exigente e está sempre a precisar que lhe mudem a fralda. Às vezes olha-me com olhos de bambi e inspira-me qualquer coisa apaixonada, às vezes faz caretas e repugna-me. Chama-se FEUPVILLE e, embora inspirada pela raça escaganifobética dos engenheiros, é para todos. Todos os que não se importam de rir de piadas até com alguma graça e de ver tipos a fazer figuras tristes. Para gozar e aproveitar. Para aparecer e recordar.

Eu estarei lá, no meio de novas pessoas a quem me deixar dar, a fazer figura de urso como os demais.

É as 21h30. Apareçam....

4 comentários:

  1. Assisti a essa tua primeira experiência nas artes teatrais e posso garantir, com toda a certeza, que estávamos na presença de um predestinado, eheheh...

    Agora uma coisa é certa, não foi a única ou não te recordas da tua magnífica interpretação como Anjo numa certa adaptação do Auto da Barca do Inferno? Ou mesmo um certo papel como ajudante de um cientista louco? Tudo papéis importantíssimos em peças de teatro que ficaram para a história...

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  2. Certamente, certamente... mandar o cartão do Gabi pela janela foi certamente um momento alto na minha carreira. Mas não conto esses... eram nas aulas de português e contavam para a avaliação! estou a falar de coisas sérias obviamente! Bem que podias ter ido ao FEUPVILLE meu desgraçado. Foi um sucesso! E será repetido em Outubro já a pedido dos upa upas!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Achas que sim, my friend? Ir ao FEUPVILLE? Pá, para comédias já me basta a minha vida (not kidding)... como o alinhamento dos astros não estava muito favorável, resolvi não ir. Mas pronto, eu prometo (cross my heart and hope to die) que eu apareço lá em Outubro. Não tenho como hobby ver amigos meus a humilharem-se em público, mas já que insistes tanto, lá terá que ser ;)

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