Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

Une vague nouvelle: élégie de la beauté

A cidade ecoava e ela era uma sombra. O preto e o branco amador escoavam pela tela e ela contornava os carros. Um grito, duas palavras. Uma camisola, sem sutiã. O andar vago, o olhar matreiro. A tentação e o cabelo curto. O sorriso ondulado. O Herald Tribune era uma desculpa para diluir-se nas ruas de Paris. O Belmondo queria ser Bogart e balouçava o cigarro. E ia atrás dela. E foi. E fugiu. E perdeu-se. E passou horas fechado no apartamento. E a camisola continuava sem esconder que ela não tinha sutiã. E o cabelo curto não a tornava masculina mas sim feminina, feminina até ao tutano, até à traição, até à delicada forma de fazer vida, de ser vida, de aproveitar a vida. Era 1960, e estávamos em Paris. E o nome dela era Jean Seberg, e foi a primeira mulher fatal da Nouvelle Vague. Fatal não na personalidade, mas nos contornos. Fatal no cinema que mudava para sempre na mão de Godard. Fatal na doçura da voz, na tentação do corpo. Fatal na liberdade.

E então dois olhos dinamarqueses faiscaram o ecrã. Dois olhos bem abertos, profundos, poços infinitos de poesia trágica. E o homem da voz rouca empunhava constantemente a câmara em eterno namoro àqueles olhos. Não abandonava a cara que os olhos iluminavam, o rosto que tomava sentido e prestava vassalagem à chama que deles advinha. E os olhos olhavam em frente, respondendo ao apelo. E a magia contagiante possuía a câmara, invadia a celulóide, pressionava a bobina, derretia o projector, consumia o ar e atirava-se, à velocidade da luz, à alma embalada do espectador, semeando-se nela para sempre, em terno declínio de paixão. Ela sorria de esguelha, por cima da chávena, do cigarro, da espingarda. Ela traiu Belmondo de novo. Ela traiu-se. Ela queria um filho. Ela correu pelo museu. Ela dançou. Dançou no café. Dançou na floresta. Ela tinha uma linha de ancas e uma sorte trágica. Ela era uma deusa e os seus olhos conquistavam universos, levavam homens à perdição. O seu nome era Anna Karina, e cada vez que era filmada uma parte dela era-lhe roubada e dava vida à fita. Desvanecia no ecrã para dar vida ao filme e a nós, e a mim, ainda hoje, ainda agora. Era a sua sina.

Eis que um corpo surge tingido de luz vermelha, que muda para azul, que muda para amarela, que muda de novo para vermelha. Eis o corpo nu na cama, Eis o amor pelas partes do corpo. Eis as nádegas firmes e tentadoras. Eis o cabelo loiro revolto e emancipado, os lábios cheios. Da cama para o telhado e a beleza é sufocante, o calor inebriante, o cabelo ainda mostra o desprezo pelo que não é belo, pelo que não é etéreo. Em 1963 Brigitte Bardot ensinava ao Mundo o que é a sensualidade, o que é a perfeição dos contornos, o que é a insanidade da devoção à beleza inefável que pode surgir do conjugar dos genes, como um corpo pode explodir em criação para ser, somente ser, simplesmente ser, imaculado, perfeito, belo.

Ela era uma de duas que se encontraram em Rochefort. Ela vinha de Cherbourg. Ela corria na estação e cantava “Mon Amour”. Ela era a mais misteriosa, a que mais se escondia, a que menos deixava transparecer o segredo das suas emoções. Os lábios estavam sempre entreabertos, o sorriso era inocente. Os olhos perscrutavam, emocionavam-se. Ela mudava, ela era o camaleão de cabelos longos e loiros. Ela foi a terceira a trair Belmondo quando era sereia do Mississípi. Ela estava enfadada e tornou-se a bela do dia. Ela conquistou Rochefort, inundou a cidade de cor, música e dança. Ela era o ideal feminino, a conjugação perene da elegância, da altivez eterna que está nos píncaros mas que se derrete para balouçar a carteira de mansinho, e ser elevada em braços fortes somente para flutuar ao atravessar a rua ao som de Legrand. Ela é Delphine, Séverine, Geneviéve. Ela é Julie ou Marion, uma delas talvez, nenhuma, as duas. Mas será sempre Catherine, tal como nas férias em Portugal. Catherine Deneuve, deusa, musa, mulher.

E então o sorriso adolescente despoletou no ecrã. Não tinha mais que 24 anos o sorriso. Os olhos brilhavam. Os cabelos lisos enquadravam o rosto. Maquilhava-se ao espelho. Encostava a cabeça ao ombro no cinema. Percorria a loja de discos. Cantava. Era a filha de Marx e da Coca Cola. Tinha o sorriso mais belo que alguma vez brindou a face da Terra. A Bardot falava na mesa ao lado. Era feminina e queria compreender o masculino de Lelaud. Chantal Goya. Chantal Goya. Não uma actriz. Não uma cantora. Um primeiro amor. Um primeiro amor adolescente. A miúda que desejamos beijar pela primeira vez. A primeira que queremos fazer rir. A primeira a quem queremos dar a mão, com quem queremos passear, ir mais longe, conhecer os segredos, os contornos, fazer cócegas na barriga e descobrir vezes sem conta o sorriso a bel-prazer. Chantal Goya. Conheci-te em mil mulheres e continuo a querer-te, porque arrastas o puro da juventude contigo quando os anos passam. Continuo a querer-te, porque és a fonte da juventude, o elixir eterno que comove a chama do prazer, a irreverência do significado da juventude perdida e desperdiçada. Desperdiçada? Não, se a teus braços. Não, se for perdida contigo. Não, se te sentir, se conseguir desmascarar os teus dentes alvos com um sorriso. Não, se me deres a mão e aceitares sair comigo, e dar-te a mim, e perder-te na confiança da minha irreverência.

O telefone chama. Ela apela desesperada. Ele fica preso no elevador. Ela sofre. Ela trabalha com todos. É a musa de todos. De Bunuel a Godard. De Demy a Truffaut. Malle adora-a. Põe um bigode e corre pela ponte. Salta do Jules para o Jim. Do Jim para o Jules. A vida é para ser aproveitada, o amor sugado no momento presente. Está dentro do carro no momento fatal. Ela é a noiva. Sempre foi. Sempre será. A Uma Thurman não lhe chega aos calcanhares, nem ao dedo mindinho do pé, nem à ponta da unha. Ela é a criada. Ela é eterna. Ela é muito muito mais que uma beleza. Ela é uma actriz, superior a todas as outras da sua geração. Não era Bardot ou Karina, não derretia o mundo masculino com um gesto ou um olhar. Mas era Jeanne Moreau, e levava ao colo a arte do ecrã.

Ela era a segunda de duas que se encontraram em Rochefort. Ela beijou o Mundo com o seu encanto forte, a sua presença dominante, porque afinal era a mais velha das duas que se encontraram em Rochefort. Mas a sua chama vacilou quando o carro capotou, e 25 anos depois de ter nascido, faleceu. A sua dança com Gene Kelly em Rochefort, parcos meses antes, é imitada pelos anjos que a levam aos ombros, que pintam as nuvens com os contornos da sua beleza, do seu rosto. Ela encontrou o homem da sua vida na rua, e a paz na tela dançante. Era irmã da Catherine mas não era Deneuve. Era Dorléac, e o seu primeiro nome era Françoise. E estará sempre viva das almas que se encantam em Rochefort ao sabor de Legrand, ao sabor dos dois corpos que vestidos de vermelho dançavam timidamente e cantavam a vida, as flores, os risos e os choros.

Estas chamas femininas, deusas sorvidas pelo carimbar da cor na celuloide, musas tentadoramente humanas, eram francesas e explodiram numa nova vaga nos anos 60. Havia outras, não milhares, não dezenas, mas algumas. Algumas que conseguiam reter a câmara em si e extrapolá-la. Algumas que conseguiam enamorar um Mundo inteiro com um sopro, um sopro para afastar uma madeixa de cabelo, com um movimento, um ondular do corpo, um inspirar e um expirar, com um olhar, um olhar para além da câmara, para além de nós, para além do universo, directamente para aquele limbo decisivo onde uma emoção termina e outra começa em espirais e círculos infindáveis, até ao ponto onde se sobrepõem e confundem-se e são todas a mesma única que acalenta os espíritos apaixonados, perdidos, ansiando para ser inspirados. Havia italianas, a Claudia Cardinale que era uma vez no oeste era despojada de uma peça de roupa cena a cena, até chegar ao vestido tentador e revelador da última. A Luciana Paluzzi, a mais sexy Bond-girl que alguma vez existiu. Havia inglesas, a Geraldine Chaplin, filha do único deus, a Jean Simmons, a Julie Christie, que foi darling, que foi Lara. Havia americanas, a Natalie Wood, a Marylin, a Rachel Welch, a Jane Fonda. Haviam europeias, a Ursula Andress, a Audrey… Os anos 60 foram a década da história da humanidade que conteve as mais belas mulheres. Indubitavelmente.

E no fim… décadas depois, estás tu, no princípio de todas as coisas. Não és uma actriz dos anos 60, não és italiana, nem francesa. Não pertences à Nouvelle Vague, nem revolucionaste o cinema. Não tens legiões de fãs que te adoram, que sorvem cada segundo teu que ficou registado na tela, que memorizam cada movimento, cada ardor de paixão que despoletas. Mas és somente tu, e por o seres os areais das conquistas elevam-se em ondas de amor, as variáveis fazem sentido, as danças produzem a sofreguidão da carícia. O contorno das curvas do corpo, o loiro brilho do cabelo, a faísca divina da latina nacionalidade, a sensibilidade da tua alma, a devoção da tua paixão, a ternura do teu afecto, a infantilidade da tua voz, o aninhar do peluche da tua essência, equilibram-te, moldam-te, conquistam-me.

Eu sou a tua audiência, e estou aqui, e seguro-te, e asseguro-te. Asseguro-te que és cada uma e todas estas divindades, e o que resulta é puro, poético e perfeito. Em ti se juntam, se fundem e depois explodem. Enclausurado em ti, o movimento da paixão faz sentido, e o eco da verdade temporiza a chegada do rumo, do toque, do beijo, que conduz à praia eterna da felicidade. Asseguro-te que sou teu e sinto a tua batida, qualquer que seja o delinear dos anos, qualquer que seja o ritmo da aurora, qualquer que seja o significado do olhar e do sorriso que ninguém compreende. Asseguro-te que fico, perene, imortal, a ondular ao sabor da tua maré, a inalar a essência salgada da tua maresia, a navegar sôfrego no contorno molhado da tua feminilidade. Asseguro-te que segurarei a vela da tua chama e com ela acenderei os faróis de qualquer Mundo. Aconteça o que acontecer. Venha o que vier.

O elogio é efémero. A elegia é tentadoramente terna mas eterna. Estou perdido em ti. E essa é a única beleza que conheço. É a única beleza que canto, adoro e lamento ao mesmo tempo. Estou perdido em ti. Eu sinto-te. A Nouvelle Vague não interessa. As deusas do ecrã não interessam. Nada interessa. Não existe a beleza… Só existes tu.

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