Domingo, 31 de Outubro de 2010

23-19

Longe vão os tempos em que havia números que provocavam azar e incutiam medo no comum dos mortais. A maior parte das superstições foram já ultrapassadas, uma relíquia perdida de uma era decente em que eram os números a amedrontar-nos, e não a perspectiva de mais uma notícia sobre o Justin Bieber, ou um novo filme com o Rob Schneider. Agora está tudo muito evoluído, há mais telemóveis do que pessoas, uma criança de 4 anos joga farmville e percebe mais de computadores do que eu, e o Benfica até consegue ganhar jogos... portanto, quem precisa de superstições?

Longe vão os tempos em que o 666 amedrontava. O diabo apareceria nas trevas da noite com uma comichão nos cornos e levaria para a sua fornalha do Inferno todos aqueles que ousassem gozar com a capa vermelha algo efeminada com que se apresenta regularmente. Ontem fui ao Lidl e comprei precisamente uma embalagem de fiambre fatias finíssimas (1,49 euros), dois garrafões de água (1,18 euros) e uma embalagem de bife pojadouro (3,99 euros). Se o leitor for tão perspicaz como a caixa registradora, certamente se aperceberá que a conta dá precisamente 6,66 euros. Estou com o recibo na mão neste preciso momento em que teclo estes devaneios. E o que é que me acontece de mal? Já me queimaram o cabelo todo? Não, ainda hoje de manhã o lavei. Já me apareceram cicatrizes no corpo todo e sinais que só um padre nos Andes consegue compreender? Não, pelo menos que eu tenha notado. Já me destruíram o clube de futebol do coração? Bem, já... mas isso já foi há dois anos e eu só ontem fui ao Lidl, portanto os eventos não devem estar relacionados. Na realidade, o pior que me pode acontecer é ter mesmo que voltar a ir ao Lidl...

Longe vão os tempos em que o 13 também metia algumas pessoas de sobreaviso. E passar por baixo de escadas. E ver gatos pretos. E partir espelhos. Bem, eu faço anos no dia 13, moro numa rua cheia de gatos e costumo andar de elevador. E até sou minimamente feliz. Verdade que uma vez parti um espelho no teatro, mas ainda a semana passada a última peça em que entrei foi um sucesso...

Estes números já não interessam, são "tão século 20", são para aqueles que não têm conta de facebook ainda estando na barriga das mamãs. Nos dias de hoje, só um número atemoriza, só um número faz parar uma nação, faz tremer como varas verdes todo e qualquer indivíduo e respectivos respectivos que se pavoneiam por esse país fora. E esse número é o 23-19.

Esta semana diz que houve qualquer coisa que se passou às 23h19min. Deve ter sido qualquer coisa de muito importante sem dúvida, visto que a hora foi repetida até à exaustão em todos os meios noticiosos conhecidos deste universo e de todos os circundantes. Observando semelhante espectáculo, e o número de vezes que se insistiu em reportá-lo, só posso passar, como bom português que sou, a fazer um minuto de silêncio a essa hora de hoje em diante, todos os dias da minha vida, na saúde e na doença, até que a morte me impeça de prosseguir. A morte ou o sono, se por acaso me deitar antes dessa hora. Nesses casos certamente porei o despertador para as 23h18 e acordarei somente para respeitar esse minuto de silêncio, e depois, de consciência tranquila, regressarei ao meu prazenteiro dormir.

Rapidamente me vêm à memória todos aqueles eventos marcantes que a população mundial sabe a hora na ponta da língua. A assinatura da declaração da independência. A hora de abertura do primeiro McDonalds em 1940. As horas a que o Marco Fortes geralmente sai da caminha... O quê? Não sabem? Se não sabem deviam saber! E as horas a que o Neil Armstrong pisou a Lua? Sabem? Eu não. Mas aqui é duvidoso, pode-se dar um desconto. A Lua tem uma órbita diferente da da Terra, portanto o conceito "hora" fica mais dúbio. Infelizmente, há um país no planeta Terra em que o conceito de "hora" é igualmente dúbio.

Mas o que os portugueses não sabem é que o 23-19 tem um significado muito mais profundo. Os números não são um mero acaso. Não são uma simples desculpa para tirar uma fotografia foleira. Deve ser da crise de certeza, porque em condições normais políticos desta envergadura teriam telemóveis com uma objectiva de muita maior resolução. Lamento viver num país em que há um telemóvel e meio por habitante, mas em que ambos, telemóvel e habitante, têm pouca resolução nos seus objectivos e objectivas.

Escutem com muita muita atenção, e depois digam-me se os mações andam ou não ainda aí a fazer das suas traquinices.

Recorramos à Bíblia, o livro sagrado. No livro dos "Números", capítulo 23, versículo 19, está escrito: "Deus não é mortal, para mentir, nem filho de Adão para mudar de opinião; porventura, Ele fala e não mantém o que diz? Ou afirma e não cumpre?". Reflectamos sobre estas palavras. Diz-nos o livro sagrado que Deus não mente, nem muda de opinião. Diz-nos o livro sagrado que Deus cumpre tudo o que afirma e que mantém a sua palavra. Palavras sábias estas. Palavras que ensinam muito e nos dão a conhecer o caminho da humildade. Nenhum homem é Deus. O único que conheci chamava-se Chaplin e morreu em 1977. Certamente nenhum político português é Deus. Acho eu! Portanto, de acordo com a própria Bíblia, o Homem não pode ser como Deus, portanto mente, muda de opinião, e afirma e não cumpre. O que é preciso dizer mais? Querem falar nas 7 pragas do Apocalipse? Para quê, se o livro dos Números, 23-19, resume em duas linhas com tanta clareza o nosso maior problema? Os políticos portugueses seguem à risca a Bíblia. São bons Cristãos. Não são Deus. Portanto não podem fazer o que Deus faz. Eles não têm culpa. São meros praticantes.

Recorramos ao filme de 2001 "Monsters Inc.". Vários são os momentos de humor na fábrica dos monstros em que se berra "23-19!!! Temos um 23-19!", lançando o pânico pelas fileiras destes monstros outrora assustadores e poderosos. E qual o motivo do 23-19? Qual o motivo do pânico generalizado? Qual o motivo da crise? Uma criança! Um 23-19 é o código de alerta para quando um monstro é contaminado por uma criança. Observando filmagens das longas reuniões do parlamento, ouvindo atentamente os comentários diariamente ejaculados por estes mânfios com as unhas limadas, só tenho a concluir uma coisa. Estes monstros foram efectivamente contaminados por crianças. Quando éramos crianças é que estávamos sempre a apontar o dedo ao colega. Quando éramos crianças é que gostávamos de dizer mal sem saber porque é que estávamos a dizer mal. Quando éramos crianças é que podíamos berrar a tarde toda atirando as culpas à volta da fogueira, e fazíamos birra quando não nos faziam a vontade. Quando éramos crianças é que o tamanho dos pópós dos nossos papás eram sinal da nossa virilidade. Quando éramos crianças falávamos muito, e dizíamos pouco, e fazíamos ainda menos, e quanto mais alto fosse o nosso berro mais próximos estávamos de ser o maior do nosso bairro. Público português, berrem bem alto "23-19! Temos um 23-19!". Pode ser que alguém nos venha salvar desta creche que se apoderou do Parlamento. Se ao menos ainda fossem os tomates assassinos do filme "O Ataque dos Tomates Assassinos", isto ainda podia ser minimamente governado. Assim sendo...

Recorramos, quando tudo o resto falha, à matemática, porque a matemática é nossa amiga. 23 menos 19 dá precisamente 4 (que não é para me gabar mas tirei 20 no exame nacional de matemática, no longínquo ano de 2002, quando os exames não eram dados, mas sim feitos). 2 mais 0 mais 0 mais 2 também dá 4. 23 mais 19 dá 42, cujo primeiro algarismo é 4. 23 vezes 19 dá 437 cujo primeiro algarismo também é 4. 23 a dividir por 19 dá 1,21, cuja soma dos algarismos também dá 4. Curiosamente 4 é o número de neurónios que aquela gente lá de Lisboa partilha entre eles.

Face a todas estas circunstâncias estou ciente de que o 23-19 vai influenciar as nossas vidas num futuro muito próximo. Infelizmente, são precisos 5 números para jogar no euro-milhões, e as estrelas só vão de 1 até 9. Portanto, não creio que esta influência seja por motivos muito positivos.

Assim sendo, apenas me resta rezar que o asteróide 2319 Aristides, que circula entre Marte e Júpiter a uma velocidade orbital média de 17,47662748 km/s, não se lembre de entrar em rota de colisão com a Terra. Se o fizer, espero que caia algures para os lados de São Bento, enquanto eu me refugío com o Bruce Willis na região de New South Walles, na Austrália, que possui precisamente o código postal de 2319.

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