*
Encontra-me naquele gordo horizonte
Onde as plumas do monte gracejam
Não descalces as tuas asas
Não percas o teu desejo
O dia só agora começa
O olho no céu só agora se abre e brilha
Pega na minha mão e puxa-me, leva-me contigo
Eu e tu
Andarilhos no trilho do vento
Choviscando intensamente contra as marés
Chamando, sentindo
Os versos escondidos atrás das colinas
A poesia escondida em cada dia
*
Encontra-me nesse gordo horizonte
Desfia lentamente o novelo do tempo
Rodopia em círculos de braços abertos
Deita-te aconchegada ao meu lado na relva
Vira as páginas, uma a uma
E dança com os olhos nas folhas pintadas
Pois eu dançarei contigo
Onde quer que estejas
*
Deixa-me dizer-te quem sou
Agora que os teus cabelos se entrelaçam na relva
Agora que o sopro dos meus lábios beija o teu ouvido
Deixa-me dizer-te quem sou
Deixa-me dizer-te o meu nome, a minha forma, a essência do meu eco
Deixa-me revelar-te a ti sobre este nevoeiro de pólen e de luz
Para que me possas reconhecer em qualquer lado no escuro
Para que me possas chamar sempre que me quiseres sentir
Eu sou uma flor, delicado, frágil, colhido pela tua mão
Sou um mastodonte, cavalgando poderosamente pela planície
Sou uma onda, revolto, incerto, ondulante, explosivo
Sou uma esfinge, deitado na areia séculos infinitos
Olhando sempre para o horizonte, olhando sempre para ti
Eu sou um peregrino, a minha missão é simples, a minha fé inabalável
Sou uma pena, deslizo ao sabor de cada corrente, sou leve e livre
Sou um poema, cada palavra uma espiral de beleza, cada significado profundo
Sou uma sombra, sempre reflectindo a minha luz
Sempre seguindo nas tuas pisadas
Sou somente eu, este espírito com asas, este nome perdido no vento
Sou somente eu, estes mil rostos, mudando com as estações
Eternamente fiel a cada dia
Eternamente fiel à canção que cantas
Em mim
*
Deixa-me dizer-te o que vejo
Agora que os nossos corpos estão tão juntos
Que os teus olhos são os meus olhos e vice-versa
Agora que o desfile de luzes reflecte o paladar da manhã
E as formas dos animais se tornam pegadas sobre a relva
Deixa-me dizer-te o que vejo
Para que os teus olhos possam beijar os meus olhos e ver o mesmo
E as nossas chamas juntas gerem a dança do sonho
Que daqui até onde a vista consegue alcançar o vento leva em grãos de cor
Eu vejo o tornado das folhas de Outono, como pairam no ar ameno
Vejo castelos encantados em todas as colinas próximas e distantes
Vejo jardins secretos nas orlas de cada esquina, de cada coração
Vejo a mosca a beijar o dragão no sopé da cascata
E os sorrisos que até nas rochas mais duras estão desenhados
Eu vejo milhares de espelhos no céu reflectindo a nossa beleza
Vejo Homens andando em pleno ar ensinando-nos aquilo que somos
Vejo almas a cantar no topo de edifícios à sombra de enormes árvores
Vejo flores de fogo espirradas pelo vulcão em erupção
Que agarro sem me queimar e te ofereço
A ti, que vejo mais que todas as coisas
Pois o teu rosto está pintado nos meus olhos
E o teu corpo é desenhado pelo vento
Na manhã ternurenta
*
Deixa-me dizer-te o que cheiro
Agora que todos os poros do Mundo se abrem
E todos os paladares olfactivos se entrelaçam na minha pele
Deixa-me dizer-te o que cheiro
Agora que as fragrâncias rebentam com as ondas
Agora que as essências são colhidas nos campos silvestres
Para que os possas sentir a envolver-te, a penetrar-te, a possuir-te
Para que possas saber o teu caminho quanto tudo o resto é escuridão
Para que os nossos cheiros se fundam a esses tornando-se um só
Eu cheiro a essência molhada do oceano em búzios de mil cores
Cheiro a crina agreste da minha montada que salta de estrela em estrela
Cheiro a ressonância única e inabalável da poesia que escoa suada pelos corpos
Cheiro os reflexos brilhantes em espelhos que rodopiam rumo ao infinito
E pontilham o ar do perfume sufocante de olhos intensos e penetrantes
Eu cheiro os licores da natureza que embotam todos os sentidos
Cheiro as lágrimas comoventes que respiram pelas telas de obras de arte
Cheiro néctar de lábios alados que encontram a sua verdadeira vocação
Cheiro as explosões de luz que caracterizam o amor, a liberdade, a vida
Que inspiro e expiro com a sofreguidão de um homem viciado na verdade
Pois a única verdade és tu
E todos os cheiros são somente o teu cheiro
O cheiro dos teus cabelos ao vento
Que me agasalham, para sempre
*
Deixa-me dizer-te o que ouço
Agora que já não há limites para o som do silêncio colorido
Agora que a liberdade é ensurdecedora enquanto andamos de mansinho lado a lado
Deixa-me dizer-te o que ouço
Agora que a orquestra da vida conquista o cerne dos objectos inanimados
Agora que coros de vozes acordam de um longo sono
E com os seus pincéis erguidos esboçam no ar a doçura do seu timbre
Para que possas vibrar com as passadas dos gigantes na superfície do ar
Para que possas reconhecer o meu rosto quanto te chamar
Eu ouço o som dos tambores distantes ensinando-me a dançar
Ouço a potência de gerações que confluem para me ensinar a viver
Ouço o arrastar sublime de todas as letras do alfabeto para desenhar versos imortais
Ouço as sinfonias que ecoam nos teus belos olhos
E que só eu possuo, porque os teus lábios mas sussurram com um sopro delicado
Eu ouço a maré rebentar e estilhaçar-se em mil lágrimas tentadoras
Ouço o chamamento de todas as luzes que brilham sozinhas na noite
Ouço o bater do silêncio que é engolido pela boca do vento
Ouço a canção que nunca conseguirei parar de cantar
Pois os teus lábios ma ensinaram com um beijo
Pois a tua mão ma entoou ao enrolar-se na minha
E todos os sons se resumem a essa canção
A canção que é tua
A canção que é nossa
*
Deixa-me dizer-te o que sinto
Agora que todos os sentidos estão despertos e vivos e nada escapa à prisão do universo infinito
Agora que cada superfície é regada pela luz e desabrocha e cresce e faz cócegas
Deixa-me dizer-te o que sinto
Agora que nada sou mais que partículas que arrefecem os poros da tua pele
Agora que derreto a lava que penetra no molde do meu abraço
Para que possa envolver-te para sempre na cúpula das minhas apaixonadas emoções
Para que possas retribuir cristalizando em sóis todos os teus pequenos sorrisos
Para que te possas exprimir, gritar e obrigas as nuvens a moldar-se à tua forma
Eu sinto rodear-me um espectro envergonhado de imensidão e beleza e fantasia e eternidade
Sinto uma gota de verdade chamuscando a periferia estridente destes risos ao relento
Sinto o palpitar saltitante de animais perdidos indicando-me o caminho
Sinto o atrito comovente de duas peles entrelaçadas no calor do paraíso
Enquanto o hálito das palavras conquista os nossos poros abertos à criação
Eu sinto as convulsões das sementes da terra, as espumas efervescentes dos corpos
Sinto as tentações, as seduções, os beijos do demónio que nego
Sinto o sabor de ti, a linha do teu cabelo, a curva dos teus olhos, o anel de luz
Sinto que sou, que cheiro, que ouço, que sinto, que sonho, que sei
Pois qualquer que seja o poema que a minha língua possa tecer
Qualquer que seja o poema que o meu coração possa ditar
Sei o que sinto, e o que sinto és tu
Tu, a rima de todos estes versos hiperbólicos
A magia de todas as entrelinhas
*
Encontra-me nesse gordo horizonte
Desfaz o vento que redemoinha entre nós
Beija os meus lábios endiabrados
Afaga as asas que nos ajudam a rebolar pela encosta
Diz-me quem és e dança e voa
E eu seguirei nas tuas pisadas
Pois os versos escondidos espreitam um dia
Tímidos sorrindo através da relva
E as folhas pintadas baptizam um livro sem fim
Que eu consumo eternamente nos reflexos da tua pele
Que eu impregno num horizonte esfomeado
Saciando andarilhos apaixonados nas florestas da Terra
E em todas as galáxias das areias do tempo.
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