Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

O início do sexo e da violência

Se está a ler estas palavras, caro leitor, então certamente saberá que eu tenho um blog. Se não sabe aconselho-o a consultar o seu médico de família, ou a não faltar a mais consultas no psiquiatra.

Se sabe, não só é um crédito às suas capacidades dedutivas, como certamente também saberá que esse blog está cheio dos chamados “posts”, dos quais o presente é meramente um exemplo. Estes posts existem por vários motivos, o principal dos quais para alimentar o meu sobrevalorizado ego, mas de uma forma geral para dar um efémero prazer à meia dúzia de indivíduos que do alto da sua graça abençoam estas linhas com o seu tempo e olhar atento.

Uma das coisas mais difíceis de alcançar na vida é popularidade. Dinheiro é fácil. Perguntem aos arrumadores. São populares? Não. Têm guito ao fim do mês? Sim. Saúdinha também lá se vai arranjando. Há sempre meia dúzia de comprimidos que resolvem a coisa. Se não resolverem sempre há comprimidos de outra natureza que se podem injectar para a veia. E se tudo falhar sempre temos as agulhas dos nossos amigos chineses. Se as agulhas falharem significa que já estamos na campa e aí já nada há a fazer, a não ser, talvez, arranjar um bom esteticista.

Mas a popularidade… ah, a popularidade é mais complicada. Ou fazemos parte dos concorrentes do “Secret Story”, ou casamos com o Tom Cruise, ou então esquece. Não há popularidade para ninguém. Já há quase um ano que debito parvoíces com uma periocidade mais ou menos quinzenal e ainda não fui entrevistado pela TVI. Nem pela Rádio Festival. Pior, não fui entrevistado pelo Destak. E encho estas páginas com críticas de filmes em estrangeiro, e ainda não tive o Mourinha, nem o Tendinha, a bater-me à porta. Se eu fosse ao Augusto, mudava de novo para Augustinha, para não me sentir deixado de fora. E ainda há os poemas que aparecem de quando em quando. E ainda não tive um realizador a seguir-me durante 4 anos para fazer um documentário sobre para que lado é que mastigo a comida quando a meto à boca. O grande crítico de cinema Gene Siskel (1946-1999) gostava de perguntar sobre os filmes maus: “será este filme melhor que um documentário sobre os mesmos actores a comerem?”. No caso do “José e Pilar” o homem havia de ter um dia em grande.

Mas este paleio todo sobre popularidade por que motivo? Estará o caro leitor interessado em saber, por mero acaso, quais os posts mais populares deste blog? Estará o caro leitor tão curioso ao ponto de saber quais os posts que têm mais cliques, quais aqueles que esses leitores de todo o Mundo tanto procuram quando acham esta minha humilde página nos seus motores de busca? Estará o caro leitor ansioso por saber se coincidem com os seus próprios interesses, e se o próprio alguma vez também os pesquisou? Se não, então até para a semana que escusa de ler mais. Se sim, então, se fizer o favor e sem cansar muito a vista, salte para o parágrafo seguinte.

Os três posts mais lidos deste blog são…. (tambores), as críticas de filmes do “Iron Man 2”, do “The Expendables” e do “Wild Things Foursome”. Aha, está com um sorrisinho na boca? Está? Admita-o! Ou não faz ideia do que isto seja?

Reflictamos um pouco sobre estas entradas. As minhas críticas de filme estão em inglês, possuem uma imagem do poster do filme, e depois meia dúzia de parágrafos a pigarrear sobre o dito, que no caso deste triunvirato de películas é pigarrear roçando ligeiramente o insulto, pela má qualidade que as três demonstram. Portanto estamos a falar de leitores internacionais, que provavelmente buscam só as imagens e não lêem o que escrevo (facto que obtenho pelos tempos de duração na página), e que se interessam por filmes de má qualidade do ano de 2010, que mais que certo pretendem sacar, e acham que a minha página o pode proporcionar. Interessante. É sempre bom saber que os leitores do meu blog são tipos contemporâneos, estrangeiros, iliteratos e com mau gosto. Vá, ao menos são contemporâneos…

E que tipo de mau gosto, pergunta o caro leitor? O “Iron Man 2” era simplesmente mau, com uma história que não fazia sentido e não levava a lado nenhum. Posso dar o desconto pelo facto do “Iron Man 1” ser um bom filme, e um leitor honesto querer procurar saber se a sequela vale a pena. Que fique firme. Não vale. Mesmo com a Scarlett usando um vestido justo de cabedal preto. O “The Expendables” é um filme de acção nu e cru, que peca pelo facto de demorar mais de uma hora numa história chachenta e sentimental que basicamente não presta até chegar aos últimos 15 minutos de qualidade explosiva. O “Wild Things Foursome”, basicamente é um remake dos três anteriores Wild Things, que acrescenta mais nudez, mais sexo e mais lésbicas à mesma história do costume.

Portanto, caro leitor, é simples: sexo e violência. O leitor procura filmes de acção ou filmes de sexo, independentemente da qualidade. Eis que noto claramente, nesta época natalícia, que estou no ramo errado. Ou vá, estou no ramo certo, mas a investir nas vertentes erradas. Se a partir do dia de hoje começar só a fazer críticas a filmes de acção do Van Damme, do Chuck Norris, do Stallone, do Steven Seagal, a fazer críticas a blockbusters de acção baseados em banda desenhada: Iron Man, Transformers, X-Men, e a fazer críticas a filmes de erotismo ou sexo, então estou garantido. Então terei entrada garantida no Secret Story. Então o Tom abandonará a Kate Holmes e declarar-se-á a mim no topo da Torre Eiffel (eu declinarei porque não sou desses, causando-lhe um grande desgosto). Então a TVI assediar-me-á. Então vou passar a ser comentador residente da Rádio Festival. Então vou cumprir o sonho de uma vida e aparecer na capa do Destak. Então vou mudar o meu nome para Saraivinha (ou Miguelinha). E então vou finalmente ser filmado a tirar catotas do nariz, para deleite do público de um conceituado festival de cinema internacional.

A imortalidade aguarda-me. O sexo e a violência vão ser os meus bastiões a partir de agora, o meu passaporte para a fama. O episódio piloto do primeiro show dos Marretas, em 1975, intitulou-se “Sex and Violence”, onde os bichinhos passavam o episódio todo a proclamar, sem sucesso, o fim do sexo e da violência da televisão. Sejamos sinceros, se os Marretas não conseguiram, que hipóteses tenho eu? E toda a gente sabe que a internet é muito mais poderosa que a televisão. Eu sei-o. Ouvi-o dizer na televisão!

Nesta semana em que se celebra o Natal, em que os nossos ouvidos vomitam de tanto ouvir o George Michael, os Queen, o Live Aid, e agora até os Coldplay, a cantar os seus êxitos de natal, “all I want for Christmas” é voltar a carregar no sitemeter do meu blog e aperceber-me que se deixou de pesquisar tanto sexo e violência. Mas isso nem é para mim o pior. Que os meus leitores permaneçam estrangeiros, que os meus leitores permaneçam contemporâneos, que os meus leitores permaneçam iliteratos. Mas que não pesquisem filmes maus. Eu acho que até consigo viver com sexo e violência. Inclino-me até mais para o primeiro. Mas não consigo viver com filmes maus. Sexo e violência sim senhor. Mas em filmes bons.

1 comentários:

  1. Olha Miguel, há uns tempos li um livro "Porque amamos" ou qualquer coisa do género. A cara investigadora, ia sugerindo que o amor é uma mistura acçao-reacçao hormonas-cerebro mas o que me tocou realmente foi quando conclui que toda a capacidade de articulaçao de palavras, toda a arte, literária e não só, tinha como propósito fazer-nos desejáveis e destacados perante os nossos pares. E essa conclusão é aqui reforçada, escreves em busca do reconhecimento e lêm-te em busca das emoções que esse reconhecimento tem em vista... A parte da violência só oferece um comentario com um tom desprezista (que por acaso nao tenho)... men!

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