Estrugilda nasceu em Botabaixo de Cima, no distrito da Guarda, numa casa que não cumpria o PDM mas que foi erguida na mesma porque a mãe de Estrugilda, um belo dia em que não deram o programa da Fátima Lopes por causa do Natal dos Hospitais, cozinhou um saboroso bolo que fez as delícias da família do presidente da junta.
Estrugilda teve uma infância complicada. Não bastava ser filha de retornados da Suíça, como até aos 4 anos de idade pensou que o seu nome era Issi. Foi só quando entrou para a escola e a professora lhe começou a chamar Estrugilda que se apercebeu que afinal a mãe dizia “vem ici”. Mas os seus traumas de infância não se ficaram por aqui. O pai na construção civil na Irlanda e a mãe na prostituição fizeram com que Estrugilda fosse “oferecida” a uma família rica que não podia ter filhos. O Coronel Bodega (missões no Afeganistão zero, missões no Iraque zero, missões em Timor zero, desfiles no dia de Portugal quatro milhões seiscentos e setenta e nove mil quatrocentos e dois) criou Estrugilda com todos os confortos que uma criança portuguesa de 6 anos pode desejar (Wii, telemóvel, ver o Twilight no cinema), até ao belo dia em que a mãe, agora drogada, decidiu que tinha de reaver a criança. E assim o tribunal ordenou, até 2 meses depois quando a mãe, após uma rave, voltou a dar Estrugilda a Bodega. Escusado será dizer que isto se repetiu até a criança ter 14 anos, com o tribunal sempre a devolver, de cada vez, a criança à mãe biológica, porque não há nada como uma boa seringa quando comparada com uma Wii, nem como o amor de mãe biológica, metade do tempo “high”, e um pai que trouxe os tiques irlandeses da violência e da bebida, quando comparados com uma mãe adoptiva afectiva e presente, e um pai militar cujo único defeito é ter um bigode ridículo.
Mas Estrugilda sobreviveu, como só as crianças sabem fazer, e lentamente chegou ao liceu. Com 16 anos duas coisas aconteceram. Primeiro, sabe-se lá por alma de quem, a professora pediu-lhe, com veemência, que parasse de mexer no telemóvel. Mal sabia a professora que Estrugilda comunicava com o seu pai militar sobre um assunto de extrema urgência: a cera para o bigode tinha acabado, e era necessário Estrugilda passar pela loja de conveniência a caminho de casa, não fosse o bigode ficar flácido no treino, logo nesse dia em que os miúdos da C+S de Cova da Moura iam assistir, visto ser o dia das profissões. Contudo a professora não foi razoável e tirou-lhe o instrumento. Estrugilda retorquiu com educação; “Cara professora, lamento mas necessito de comunicar com o meu padrasto num assunto delicado, se não se importar dê-me o telemóvel por uns segundos, eu envio a dita mensagem, e depois pode usufruir dele como lhe aprouver, ou pressione em ‘enviar’ você mesma”. Mas, devido às buzinadelas de uns feirantes que estavam em greve apenas o pedaço “dá-me o telemóvel” foi ouvido, e para piorar as coisas, ao levantar-se para se chegar mais perto da professora, tropeçou na mochila e, numa tentativa de equilíbrio, esticou a mão para a frente e acabou por lhe dar uma estalada. O desfecho foi triste.
A segunda coisa foi conhecer o Nelson Michael, fã incondicional do Bruno Alves, mas com uma alma tão doce como a do Michael Carreira. O Nelson gostava da rambóia, o seu gosto adocicado pelas estirpes dos “Morangos com Açúcar”, e almejava ser o Marco do Big Brother. Infelizmente, nas aulas de educação sexual em que o preservativo foi leccionado, Nelson estava em casa, devido à dispensa por 7 dias por ter assoado o nariz durante a histeria da gripe A.
Estrugilda, tal Lorelai, engravidou em tenra idade. Mas nada a demoveu da sua demanda por uma vida feliz, inspirada pelas páginas da “Maria” e pelo “Jornal Nacional”. Desistiu da escola, arranjou um emprego e teve a criança, a bela Viviana Sofia Michael. Claro que o parto de Viviana foi todo ele envolto de comicidade trágica. Botabaixo de Cima não é propriamente o local onde exista uma maternidade. Existe um barracão que está aberto das 11h às 13h, onde dois médicos espanhóis se pavoneiam um par de horas e ainda tiram pausas a meio para café e cigarros. Para além do mais, nos dias em que joga o glorioso, é declarada tolerância de ponto, não só no dia, mas na véspera e no subsequente. Como toda a gente sabe, há três ocasiões em que as pessoas não ficam doentes: à tarde, à noite, e nos dias em que joga o glorioso. Eis senão portanto que, quando Viviana começou a espernear na barriguita, Nelson e Estrugilda se fizeram à estrada. Valha-nos que a auto-estrada era nova, visto que ligar Botabaixo de Cima com Botabaixo de Baixo por auto-estrada era uma prioridade deste país a par do TGV e do novo aeroporto. O problema foi que quando se acabou a gasolina a meio, o bebé teve que nascer ali mesmo, ao quilómetro 24, e o próximo carro a passar demorou mais de 48 horas a aparecer. Parece que a ligar Botabaixo de Cima e de Baixo há também uma scut, uma estrada-nacional, uma auto-estrada sem portagens, e uma auto-estrada com portagens, para além do secular caminho de bois.
Mas Estrugilda nunca se deixou abater. Prosseguiu, de cabeça erguida. Qual crise, quais problemas financeiros, quais gestores a receber prémios que míseros 10% do valor podiam alimentar os pobres de Portugal durante 2 anos. Quando existe o “amore”, tudo é conquistado. Alguém tentou comprar a TVI? Isso que tem? Estrugilda no dia seguinte tentou comprar uma garrafa de vinho na drogaria e também não a deixaram. Podia já ter um filho e trabalhar na indústria do calçado, mas ainda não tinha 18 anos! O primeiro-ministro não é licenciado? Isso que tem? Ela também não, e ambos viviam felizes. O Manuel Alegre vai-se candidatar à presidência da república? E depois? Estrugilda também é presidente do clube do jogo da malha lá do bairro. As pessoas não devem ser julgadas pelas aparências, mas pela veracidade do seu coração.
Alguns anos mais tarde a fábrica de calçado fechou e mudou-se para Taiwan. Claro que quando isto acontece é muito fácil culpar os empresários. “Ah, querem é meter ao bolso, querem é mão-de-obra barata, querem, querem, querem!”. Nunca pensaram que são seres humanos, com necessidades, com filhos para criar. Quem diz que o indivíduo não se apaixonou por uma Taiwanesa e vendeu tudo para ir atrás dela? Quem diz que o seu sonho de criança sempre foi viver em Taiwan e mal poupou dinheiro suficiente mudou-se para lá? Quem diz que o coitado não sofre de uma doença incurável que só pode ser apaziguada por um mosquito que só existe em Taiwan? As pessoas são muito fáceis a fazer assumpções. Greves, insultos, vigílias e telejornais cheios de escândalo ruminante, enquanto o coitado só queria ir para Taiwan ter com o irmão gémeo separado à nascença….
E Estrugilda prosseguiu, certa e segura, a sua vida, apesar de todas estas intempéries. Quatro filhos, um divórcio, o subsídio de desemprego a entrar todos os meses ali certinho, e uma vida pacata passada à conversa à porta do Lidl sempre foram a noção de felicidade para muitos. Nunca se queixou, nunca se resignou. Mulher de coragem, amante da novela, perdia uma batida do coração sempre que ouvia a palavra “Tony”, e a vida continuava, na sua efemeridade cíclica, desbravando as suas surpresas e os seus momentos cativantes, tal como mais um espectáculo do LaFéria. Nada como haver um homem que nos ensina o quão fácil é a vida. É só pegar num espectáculo já existente, traduzir as músicas a cuspo, ver o DVD do espectáculo inglês e copiar passo a passo a coreografia e painel a painel o cenário, pôr um disco a tocar (para não cometer o sacrilégio de ter uma orquestra num fosso à frente do palco), fazer playback (para não cometer o sacrilégio maior de forçar a voz delicada das marionetes que pelo palco desfilam) e depois pôr um cartaz onde apenas se lê “um espectáculo de LaFéria”. É que assim de repente uma pessoa sem ser de bem até pode pensar que foi o LaFeira quem escreveu o Feiticeiro de Oz, ou o Violino no Telhado, ou o Música no Coração. Deduzo que a frase “ripanço de LaFéria” era capaz de infringir qualquer regra de copyright, daí não ter sido usada. E Estrugilda, tal como muitos portugueses, aprendeu bem esta lição, e fez dela um mote de vida.
Muito sobre Estrugilda podia este narrador ainda contar, mas carece de tempo e talento. Mas devo mencionar um momento importante da sua vida. Estrugilda resignou-se à sua existência desempregada e em crise na glória portuguesa sem um único queixume. Viveria assim e continuaria a viver, não tivesse acontecido algo que a abalou profundamente. Um belo dia solarengo ligou a televisão e ouviu que “I gotta a feeeling” dos Black Eyed Peas, era o hino oficial da selecção para o Mundial. Mudou de canal, comprou o jornal, foi à internet, numa tentativa desesperada de desmentir esta notícia. Não, era mesmo verdade. Não, não conseguia suportar tal coisa. Podia ser desempregada. Podia não ter dinheiro ao fim do mês. Podia viver num país de gente pacata sem imaginação e classe política corrupta. Podia viver num país onde não se consegue pagar um subsídio a quem não tem de comer, mas milhões a quem gere bem os que já tem, onde não se consegue dar uma casa de jeito a quem mora em barracos, mas que dá subsídios de residência milionários a quem está no parlamento europeu e só lá vai de 15 em 15 dias e fica em casa de amigos e guarda esse dinheiro para uso próprio, por exemplo para comprar um mata-ratos. Podia viver num país onde a justiça prende o polícia que mata o ladrão e deixa ir em liberdade o ladrão que mata o polícia. Podia viver num país que consegue perder contra a Grécia em Lisboa depois de a UEFA ter feito tudo para ganharmos a merda do Europeu. Podia viver num país onde não se consegue fazer um filme de jeito e em que a nossa glória literária é um marmelo que nem sequer mora cá. Podia viver num país onde há pedófilos e falcatruas e ruindade a dar com o pau. Podia viver num país em que os gato fedorento conseguem fazer um anúncio novo à MEO todas as semanas, mas já não fazem um programa novo há meses. Podia viver num país onde a música do Pingo Doce toca mais vezes que o hino nacional. Podia viver num país que se baba todo com uma desgraça natural e que me fez ter vergonha de ter a mesma nacionalidade que a classe jornalística. Podia viver num país onde os seguranças dos shoppings andam de segway. Mas não, definitivamente NÃO, podia viver num país onde a música oficial da selecção é o “I Gotta Feeling”.
Estrugilda partiu no dia seguinte para a Suíça, fazendo o percurso inverso de seus pais. Ao menos na Suíça continuaria a ter o seu glorioso no Verão, e o seu Tony Carreira o ano todo. Quem tem glorioso e Tony Carreira não precisa de mais nada. Quem tem glorioso e Tony Carreira tem a essência de uma nação no peito, tem o sabor de Portugal nos lábios. Quem tem glorioso e Tony Carreira é feliz. E Estrugilda é feliz, e continuará a ser, nas paisagens helvéticas…