Odeio bacalhau. Mas odeio-o menos do que o Inov-Art, 2ª edição.
As segundas edições geralmente são mais foleiras que as originais, salvo raras excepções. O clone da Dolly era igualzinho a ela, já o Transformers 2 era bem mais fraquinho. Claro que o Transformers 2 tinha a Isabel Lucas, uma mulher que numa infinitésima de segundo eclipsa as curvas graciosas da Megan Fox. E deixem-me afirmar com frontalidade que é preciso ser muito mulher para eclipsar as curvas graciosas da Megan Fox. Infelizmente o Inov-Art, 2ª Edição, não tem a Megan Fox. Pior, não tem a Isabel Lucas. Se tivesse uma ou outra, até mesmo as duas, poderia servir para alguma coisa. Assim sendo não serve para nada.
Na terça-feira passada, um certo e determinado senhor que possui menos qualificações literárias do que eu mas que presentemente governa o país no intervalo do seu jogging (certamente as escolhas que faz advêm de estar cansado e arfante), dirigiu-se à alegre pandilha que este próximo semestre representará Portugal em tão estimado programa e avisou-os de que teriam uma tal de “experiência trepidante”. Bem, eu posso ser um mero engenheiro civil da FEUP com mestrado, a meio do doutoramento e membro efectivo da ordem dos engenheiros há dois anos, e ele pode ser um joaquinzinho que tirou o curso numa privada a um domingo e que percebe a lot de inglês, mas creio que ambos sabemos usar o dicionário do Word. O do meu diz que trepidante significa hesitante, inseguro, trémulo, vacilante, assustado. Estará o sr. Primeiro Ministro a dizer aos nossos jovens que a experiência do INOV é algo assustador e que lhes vai criar insegurança no futuro? Estará o sr. Primeiro Ministro a subtilmente dizer aos nossos jovens para não irem, ou para hesitarem muito se forem mandados para um país de terceiro mundo? Ou será que ele não sabe o que a palavra quer dizer? Contudo, se calhar o erro é meu por ter o Vista como sistema operativo no computador, e um Asus em vez de um Magalhães. Mas mesmo que, no fim de contas, se venha a descobrir que o INOV não é trepidante, certamente o processo de selecção o é!
Longas são as batalhas verbais e escritas sobre as valências e as não valências (leia-se deficiências) do INOV e do seu processo de selecção. Jornais jorram tinta sobre o assunto de seis em seis meses, blogues criticam acutilantemente a um ritmo mais constante. Eu sei correr e acutilo pelo menos uma vez por semana para manter a linha, pelo que me posso dedicar a fazer algo de semelhante. Permitam-me então que vos pegue pela mão (pelo olho talvez?) e vos conte a história fictícia de Trespássio Antunes (espero que nenhum verdadeiro Trespássio Antunes se sinta difamado), nos meandros maléficos do INOV-ART. Maléficos? Na realidade creio que não. Meramente estúpidos.
Trespássio, residente em Rio Tinto, estava prestes a completar o curso de carpintaria na escola profissional Richard & Karen, em honra dos mais famosos carpinteiros do mundo (The Carpenters), excluindo o de Nazaré, claro está. Um talento precoce na arte da escultura da madeira, e com uma tese de mestrado integrado feita em parceria com um célebre construtor finlandês, Trespássio tinha os olhos postos na Meca do cinema para o seu estágio do INOV. A sua vizinha tinha um primo, que tinha um irmão, que tinha uma sobrinha, que tinha uma amante lésbica, que tinha um tipo que lhe passeava os cães, que tinha um professor, que tinha um caso com uma menor, que tinha um dealer, que tinha um polícia a soldo, que tinha um conhecido que trabalhava na construção de cenários para a MGM. Este jovem simpático conseguiu que Trespássio se candidatasse ao INOV tendo a MGM como instituição parceira. Objectivo: passar 6 meses a estagiar em Hollywood na criação de cenários em madeira para um dos estúdios mais importantes do mundo, e com toda a probabilidade de assistir ao abrir de portas glamorosas para todo o universo cinematográfico.
Trespássio submeteu a sua candidatura feliz, ciente da importância da sua instituição de acolhimento e do seu currículo mais que perfeito na escola de carpintaria. A primeira etapa no processo de selecção foi o exame de inglês. Antes de falar com alguém sobre carpintaria ou Hollywood, teve que provar que sabia falar em estrangeiro. Parecia justo. Mas lembremo-nos deste pormenor, que será relevante mais tarde. Trespássio, por coincidências da vida (muitas coincidências tem a vida, não?) dominava inglês perfeitamente, e passou o exame com facilidade. Outros não tiveram a mesma sorte e ficaram pelo caminho, mesmo aqueles com currículos excelentes e instituições parceiras em países de língua portuguesa. Estranho… mas adiante.
Em seguida, Trespássio viu-se num conjunto de sessões em grupo, onde teve que responder a perguntas tão interessantes como “onde se vê daqui a 10 anos?” ou “o que espera ganhar desta experiência?” ou “o que faria se lhe deixassem um ursinho de peluche cor-de-rosa em cima da cama?”. Tudo muito correcto parece-me, porque é preciso saber se estes candidatos são videntes (é preciso substituir a Maya quando ela se reformar), interesseiros (é preciso substituir toda a classe política), e acima de tudo se são sensíveis, porque claro, estamos a falar de pessoas que vão adquirir conhecimento e depois o vêm injectar neste país mal voltem, e isso às vezes pode doer. Portanto é extremamente necessário saber se daqui a 10 anos ainda estão por cá e se gostam de ursinhos de peluche cor-de-rosa. Sinceramente eu perguntava “onde se vê daqui a 2 anos?”, pois quando a economia ruir e perdermos o Euro 2012 na Polónia e na Ucrânia, aí sim precisamos que toda a gente esteja por cá, até porque, para além da crise, os ucranianos ainda se vão revoltar. 10 anos? Fogo, podem até estar em Tombuctu. Nessa altura estamos já todos entregues aos cães portanto quanto mais longe melhor. “Vão… e não voltem”, nas palavras sábias de Beatriz Batarda.
Após estas formalidades, Trespássio lá se viu frente a frente à entrevistadora. Ok, temas de conversa: estágio, Hollywood, carpintaria, certo? Naaaaa. É tudo demasiado chique para isso. A senhora entrevistadora era fã de cinema europeu e repudiava Hollywood, percebia de serralheira e não de carpintaria (a mesma coisa, certo? um serra o outro carpa) e apenas olhou de relance para o currículo do candidato. Trespássio, coitado, levara consigo blocos de madeira para mostrar a sua qualidade, fizera até um pequeno portfólio do seu trabalho, mas foi-lhe recusado exemplificar ou exibir estes artefactos. Como toda a gente sabe, é muito mais importante saber o que o candidato vai fazer no caso de uma emergência com um ursinho de peluche cor-de-rosa do que saber as suas aptidões para o estágio proposto.
Desapontado por não conseguir mostrar os seus talentos e sem saber de que forma iam avaliar o seu talento nesta arte tão manual que escritos numa folha de papel não podem reproduzir, Trespássio regressou à sua mansão ancestral e aguardou o temível e-mail que lhe diria se tinha sido contemplado ou não.
Os dias passaram nervosamente. A data de saída dos resultados foi adiada duas vezes. Trespássio suava, tremia, chateava todos os seus amigos com os traumas da entrevista. O dia chegou. Trespássio abriu o e-mail. O INOV lamentava muito, mas o candidato não tinha sido aceite. Trespássio encarou a má notícia como um homem e portanto chorou fluidamente, agarrado ao seu ursinho de peluche. Não tinha passado, não tinha passado. É a vidinha, prontos, paciência, nada a assinalar. Chora, abraça o bicho, segue em frente. Fim de história.
Fim de história? Não! A macacada estava prestes a começar! Dois dias depois, Trespássio recebeu um e-mail de alguém que se apelidava sua orientadora de estágio com vista à aprovação do plano de estudos. Como assim, plano de estudos? Tinha sido aceite afinal? Rapidamente ligou para LX. “Ah, aqui no computador diz que foi aceite!” responde uma certa e determinada voz. “Mas recebi um e-mail a dizer que não tinha passado” diz Trespássio com emoção. “Ah, tenho que ver isso, a gente depois avisa se passou ou não”, diz a senhora e desliga. Só posso imaginar que estivesse entre pausas de café a mascar uma chiclete. Não bastava Trespássio ter sofrido durante dois dias, tinha agora de esperar indefinidamente para saber se afinal tinha sido colocado ou não. Nesse dia à noite nem a um telefonema teve direito. Apenas um e-mail a dizer que não tinha sido aceite, mas devido à infinita misericórdia do INOV, que abriu mais estágios, podia ir não para Hollywood por seis meses, mas sim para Timor, por dois meses, para casa do Tinico Martunis. Quem? Como? Adonde?
Que se passou? Primeiro, é mentira sempre que dizem que o INOV abriu mais estágios. O INOV não abriu mais estágios. O INOV tem massa (não a comida, mas dinheiro, grana, cheta, guito) para 200 estágios de x meses. Claro que estes 200 estagiários não vão todos este tempo inteiro. Alguns vão x-1, outros x-2, e portanto no fim sobram meses. Eles vão atribuindo esses meses aos candidatos após o nº 200. Podiam muito bem calcular isto tudo e distribuir os resultados todos no mesmo dia, sem distinção. Quem ia saber? É tudo INOV, faz tudo parte do programa. Mas não! Isso não seria mediático. Mais vale lançar uma notícia que o INOV deu 200 estágios e uma semana depois lançar outra notícia a dizer que o INOV é bom e misericordioso, e só não ganhou o prémio Nobel da paz este ano porque tinha a concorrência do Obama, e que portanto atribuiu mais estágios. Alta treta parece-me, mas eu sou esquisito. Algum pançudo deve ter um novo furo no cinto grátis cada vez que aparece na televisão. E segundo, na realidade a orientadora de estágio de Trespássio cometeu um erro, e adiantou-se à saída da segunda notícia. “Ups, choraste muito e tiveste em stress três dias inteiros? Sorry, enganei-me no dia de mandar o e-mail. Mas olha, entraste e isso compensa tudo, não?”
“Não! Porque diabo entrei em Timor em casa do Martunis?”. “Bem, meu caro jovem, sabe, a gente esteve ao telefone com a MGM. Não nos parece o ambiente ideal para ganhar experiência profissional”. “O quê? Está maluco! Se não vou ganhar experiência de carpinteiro cinematográfico em Hollywood onde vou ganhar?”. “Sabe, o INOV considerou a MGM uma instituição académica e portanto cai fora do nosso plano de estágio”. “Académica? Como é possível?”. “Sabe, eles prometeram um plano de integração e de estágio, mas não podem afirmar com certeza de que fará cenários que efectivamente vão entrar num filme. A data de início das filmagens do novo filme do James Bond, em que ia trabalhar, foi adiada, pelo que não nos puderam dar garantias, com nove meses de antecedência, de que iria fazer uma peça de madeira que vai entrar num filme. E se não fizer isso, o INOV não considera que teve uma experiência profissional”. “Desculpe, mas isso não faz sentido nenhum. Vou estagiar em Hollywood, vão-me ensinar tudo, vou conhecer pessoas, fazer contactos, e de um momento para o outro dão luz verde ao James Bond e eu estarei lá, Daniel Craig e tudo! E mesmo que não dêem luz verde é uma oportunidade única, não vê isso?”. “Sinceramente não jovem. O INOV acha que a experiência profissional é muito importante. E não se esqueça da cláusula que diz que o INOV pode mudar a instituição de acolhimento proposta se vir razões para isso”. “Vá, já vi que estou a bater no ceguinho. Diga-me lá então quem é esse Martunis. Não foi aquele que foi salvo do tsunami com uma camisola do Cristiano Ronaldo?”. “Esse mesmo. Para começar, a principal razão, acima da experiência profissional, é que o INOV favorece países de língua portuguesa, pelo que Timor tem vantagem sobre os EUA. Segundo, Martunis prepara neste momento uma curta-metragem caseira, e portanto vemos esta oportunidade como ideal para obter uma experiência que realmente vai produzir um resultado palpável. Martunis já nos avisou que apenas precisa de uma cadeira, e essa cadeira que você fará entrará no filme. E imagine, quiçá a curta irá parar ao youtube, se o Ronaldo oferecer um portátil ao Martunis, agora que já lhe ofereceu a handy-cam”. “Ouça a voz da razão! Como quer comparar Hollywood com um miúdo de 10 anos que vai fazer uma curta-metragem caseira!?”. “Não vale a pena discutir jovem, se não quer o estágio, há muita gente que quer. Decida. Ou quer, ou não quer”. “Bem…”
Ao dizer que sim, Trespássio recebeu pouco tempo depois um e-mail a dizer que se tinha de deslocar a LX, para tirar um passaporte especial. Claro que estamos a falar de função pública, e portanto só podia ser à semana, das 10h às 12h e das 15h às 17h. Obviamente sem contar com as pausas do café, do WC, e, mais importante que tudo, da conversa. “Olhe, eu sou estudante, tenho aulas, não posso ir a LX assim sem mais. Não posso fazer isso na repartição do Porto?”. “Ah, claro que não. Tem de ser aqui. Tem que vir. Tem coisas que só pode fazer aqui”. Trespássio lá faltou às aulas, lá pagou o seu bilhete de comboio do bolso dele e lá foi. Esteve em LX 1h24min. Saiu no Oriente, pegou no metro, foi à repartição, tirou uma foto, colocou o dedo na maquineta para a impressão digital e mandaram-no embora… “É só isto? Uma foto e uma impressão digital?”. “É sim, tenha um bom dia”. Hello?! Foto… digital, impressão… digital! Há uma coisa chamada internet que liga computadores em rede, e ficheiros… wait for it… digitais!, podem ser enviados de uns para os outros. UAU… as coisas que inventam, não?
Dias depois, de novo teve que faltar às aulas, de novo teve de pagar um bilhete de comboio, para passar o dia em LX. Bilhete de comboio? Não! Foi o dia da greve nacional. Mas como o metro da LX não fez greve ninguém viu inconveniente em manter a data, pelo que todos os marmelos que não têm a divina honra de morar em LX e arredores tiveram de ir de jacto privado. Não tem jacto privado? Pena, venha de carro. Não tem carro? Pena, então proteja o ambiente e venha a pé, todos amamos o ar livre, não? Foi então em LX que Trespássio se viu ameaçado pelo sr. Primeiro Ministro e a sua capacidade vocabular. Deveras trepidante… Ao menos desta vez ofereceram um coffee break. Nada mau.
Há muita coisa aqui que eu podia dizer, mas acho que todo este retrato, embora fictício, fala por si. Na sexta fui ver o “Iron Man 2”, um filme horrível que não faz jus ao primeiro. Nele, Scarlett Johansson deita 10 capangas por terra numa cena de luta espectacular para conseguir chegar a um computador. Este controla os maus Iron Man, que o vilão da fita tinha criado antes. Scarlett, génia dos pcs, desliga apenas um deles que convém para o herói conseguir sobreviver naquele instante, mas não desliga os outros, que continuam a fazer ruindade pela cidade. Como desligou um facilmente desligava os outros, não? Mas o filme acabaria logo aí e creio que foi por isso que ela não o fez. Não há outra explicação. O botão estava ali mesmo à frente dela! Deste relato do INOV uma coisa igualmente estúpida também me chama à atenção. Trespássio vai para onde se fala português. Tem amigos que vão para o Brasil ou para Angola. Mas todos eles tiveram que passar no exame de inglês. “O INOV privilegia instituições de língua portuguesa” disse o cabrão. Parece-me bem, mas então… hey, estão a ouvir, vou contar um segredo… “QUAL A LÓGICA DO EXAME DE INGLÊS SER A PRIMEIRA ETAPA DE SELECÇÃO?”. Como mencionei antes, sou esquisito, e se calhar casmurro também. Alguém com cursos tirados em privadas ao domingo deve perceber isto mais facilmente do que eu.
Trespássio, que não se chama Trespássio, vai para Timor, que não se chama Timor, fazer uma curta foleira, que não é curta, com o Martunis, que não se chama Martunis. Conheço o Trespássio e acompanhei-o por esta experiência traumatizante e, sinceramente, muito esgotante, física, psicológica e financeiramente. Vai com a minha bênção e espero que na realidade aprenda muito e que traga um bocadinho disso para Portugal, mesmo que seja só durante o tempo suficiente para lavar a roupa, refazer a mala e partir outra vez. O sonho de ir para Hollywood, que não é Hollywood, desfez-se, mas hey, pode ser que descubra um diamante na rocha.
Nada como querer o melhor para os nossos jovens, e roubá-los das oportunidades para irem para os mais prestigiados locais do Mundo, em prol de países onde se fala português, que como todos sabemos, são o ex-líbris da cultura e da inovação, e onde se domina o inglês a dar com o pau. Muito me alegrou esta semana ver no Canal 1 a Sílvia Alberto perguntar num concurso “Que país atacou Pearl Harbor na 2ª Guerra Mundial?”, e o jovem, futuro da nação, responder: “Estados Unidos da América”. Ao menos aprendi uma coisa que não sabia, que Pearl Harbor é na Normandia. Alguém se esqueceu de mencionar isso ao Michael Bay e ao Ben Affleck.
Em suma… INOV... sois uns filhos da puta maltrapilhos cornudos que cheiram mal dos pés, que os vossos rostos se encham de acne borbulhento e que o Clearasil vos provoque impotência e queda de cabelo. Ah, e que a seguir a cada refeição os vossos intestinos tenham uma experiência trepidante, ou, usando o português dos países lusófonos de acordo com o dicionário INOV: a shaking experience.