Esta semana dediquei 12 horas da minha vida a algo que nunca tinha visto: as versões expandidas em DVD da trilogia do “Senhor dos Anéis”. Até aí tudo bem. Quando uma pessoa expande, desde que não seja para os lados, geralmente é bom sinal.
Contudo, este visionamento despoletou em mim um trauma que já tinha assomado à superfície da minha pele aquando do visionamento das versões originais de cinema e da leitura dos livros. E esse trauma é o seguinte: porque diabo é que o Sam insiste em chamar Mr. Frodo ao Frodo mesmo após onze horas e meia de aventura? Mesmo após ter-lhe salvo a vida n vezes, mesmo após terem atravessado a Middle-earth de uma ponta à outra, mesmo após terem-se deparado cara a cara com os fogos de Mordor, ainda se ouve Mr. Frodo para cá, Mr. Frodo para lá. Sinceramente, há limites.
Quer dizer. Tomemos o Gandalf. Mithrandir, sábio, feiticeiro, mais de 3 mil anos, detentor de segredos milenares, em sintonia com todas as criaturas da Terra, o dom da visão do futuro, hábil com a espada e com o bastão, etéreo. Alguém lhe chama Excelentíssimo Gandalf? Gandalf, sua eminência? Supremo Feiticeiro Gandalf? No mínimo Mr. Gandalf? Não! É Gandalf e é se queres. “Ó Gandalfo… Gandalfo!, anda cá dar uma massagem à avó que as varizes estão a chateá-la!”
Tomemos o Aragorn. O herdeiro de Isildur. Empunhador da Anduril, espada mítica. Líder dos Homens na batalha derradeira. Rei da Middle-Earth. Orc-slayer. Bad-ass warrior. E acima de tudo um tipo extremamente cool. Mr. Aragorn? Rei Aragorn? Excelência Aragorn? Sua Majestade Aragorn? DJ A. R. Agorn? Não, para quê? Ele percebe que se está a falar com ele.
Mas o Frodo… Ah, o Frodo é outra tinta. Um lavrador adolescente duma terriola qualquer no meio de nenhures? Ui, ui, Mr. Frodo, Mr. Frodo. Mas que é isto, pá? Sam, andas a brincar com as pessoas ó quê? O que é que ele fez que os outros não fizeram para ter direito ao Mr.? Apanhou um anel do chão? O Bilbo também mas chamam-lhe Bilbo, não Mr. Bilbo. O Smeagol também e esse ainda é pior. Não só não lhe chamam Mr. Smeagol, como ainda gozam com uma deficiência que o jovem tem ao nível da fala e chamam-lhe Gollum. Não pode ser. Estamos na escola primária? Aí sim havia o “perneta”, o “quatro olhos”, o “tipo com a mancha no braço” e o “cabelo esquisito”. Agora na Middle-Earth? Como é?
Mesmo assim o pior não é isso. O pior é como é que o homem continua a chamar-lhe Mr. Frodo depois de tudo o que passaram juntos. Quer dizer, o Sam salva o tipo da morte mil vezes. O Sam cuida dele, dá-lhe de comer, dá-lhe as últimas gotas de água do seu cantil. O Sam volta atrás mesmo depois do Frodo berrar com ele e mandá-lo embora. O Sam protege o anel quando acha que o Frodo está morto e volta a devolvê-lo quando o reencontra. O Sam pronuncia uns discursos lamechas de incentivo e faz reminiscências da sua terra natal ao som de uma música heróica. O Sam, na realidade, é o verdadeiro herói desta história. O Frodo que faz? Nada. Apanha o anel do chão e depois é sempre apaparicado, sempre a chatear toda a gente e a tornar-se um tipo mesquinho e inconveniente. No fim nem atira o anel para o fogo. Dois mil anos antes o rei que tinha tirado o anel ao Sauron fez o mesmo. Foi lá acima, ameaçou atirar, não atirou, veio-se embora e o mal persistiu. Ai esse já é um humano mauzinho e os “corações dos homens são facilmente corrompidos”. Se virmos bem, o Frodo faz exactamente a mesma coisa. Vai lá acima, vai a atirar, não atira e volta para trás. Se não fosse o Gollum e o Sam, e depois o Gollum a tropeçar, o Sauron ganhava e o mal consumia a Terra. E é o Frodo é mauzinho e “os corações dos Hobbits são facilmente corrompidos”? Não! É Mr. Frodo e “os Hobbits são criaturas maravilhosas e heróicas” e “you should bow to no-one my friends”. Quer dizer. Acho isto de extremo mau gosto e até um certo racismo para com as outras criaturas da Middle-Earth.
Esta história bonita ajuda-nos a constatar a grande, vá, estupidez, que existe na atribuição de títulos às pessoas. Quando me licenciei (digamos, mestrei) comecei a trabalhar numa empresa onde no início me insistiam a chamar Eng. Miguel, desde as secretárias aos colegas. Logo no primeiro dia disse “Só Miguel, por favor”, e o assunto morreu imediatamente ali. Contudo, não estava ainda salvo destas distinções, pois os clientes da empresa eram Câmaras Municipais, portanto passei grande parte do meu tempo a lidar com funcionários públicos. A questão é que a maior parte destes indivíduos está demasiado ocupado nos seus diversos afazeres para perder tempo em saber que título dar a certa e determinada pessoa, por isso vai tudo a “doutor”. Portanto, para as Câmaras, eu, um paspalho que acabara de fazer 24 anos, que não percebia patavina de nada do que estava para ali a fazer, tornei-me o Dr. Miguel. O que me leva a uma única conclusão óbvia. Muito se diz mal dos funcionários públicos, mas as pessoas esquecem-se que este séquito, tal como o Gandalf, têm um poder muito especial, o poder da visão. Eles sabiam, sabiam, que eu daí a um ano iria ser convidado a tirar o doutoramento. Daí a sua cortesia no tratamento da minha pessoa.
E porque estamos numa época futebolística, porque não reflectir um bocado sobre a política de atribuição de títulos nestes meandros? Primeiro temos os jogadores, classe medíocre e pouco importante que se pode tratar com o desprezo dos escravos. Porquê? Bem, é só escrever-lhes um nome nas costas a tinta branca e toda a gente passa a tratar-lhes por “tu” e por esse nome. Esse nome pode ser de família, como por exemplo “Figo”, e os jornalistas passam então a dizer: “Figo, diz-me, o jogo correu bem!”. Ou pode ser alcunha, e aqui tudo o que vem à rede é peixe: “Martelinho, estás contente com a vitória?”. Jesus. Se o meu nome fosse Joaquim Silva e a alcunha para os meus amigos fosse “Martelinho”, não queria que um tipo seboso que nunca vi na vida se chegasse à minha beira com um micro e me tratasse não só por tu como por “Martelinho”.
Depois temos os treinadores, e aqui já há mais respeitinho, excepto se o treinador se chamar Toni. O nacionais ou são “professores” (Prof. Neca, Prof. Carlos Queiroz, Prof. Jesualdo Ferreira), ou ao menos têm direito aos dois nomes, ou no mínimo ao apelido, Mourinho, Jorge Jesus. Mesmo os mais fraquinhos, mesmo os ex-jogadores, por serem treinadores já têm direito a mais respeito. Mas se for o Toni é só Toni e não há cá mariquices. Se for estrangeiro já tem direito ao Mister, Mister Boloni. Sinceramente não sei se preferia ser mister ou professor. Talvez ambos. Mister Professor Miguel. Imaginem se o Frodo era treinador do Benfica. Mister Mister Frodo seria o seu nome. Mas, apesar de tudo, o Toni continua só Toni. Não entendo. Ao menos mostramos respeito pelos estrangeiros, fazemo-los sentir bem vindos, respeitamos a sua diversidade cultural. Excepto se for brasileiro, aí não há diversidade nenhuma a respeitar. Mister Scolari? Professor Scolari? Na… Felipão!
Se pensarmos bem, só se dá títulos pomposos a quem quer dar ares. O Felipão está-se a cagar se lhe chamam Prof. ou não. Já o Queiroz é mais picuinhas. Mas sinceramente, num Mundo em que uma empregada da limpeza passa a ser uma profissional de higiene, os restaurantes passam a ser restauro, e um lojista passa a ser um técnico de vendas, é um Mundo onde eu, um humilde eng. civil especializado em Planeamento do Território, quero ser um Sr. Dr. Salvador Universal da Humanidade Nobel da Paz Distribuidor da Boa Vontade Construtor Exemplar Criador Urbano Apaziguador Social Temerário Guerreiro do Equilíbrio Sustentável e do Desenvolvimento Etéreo da Riqueza Espiritual. E os engenheiros por esse mundo fora sabem bem de que é que eu estou a falar. E os planeadores urbanos ainda mais! (piscar de olho subtil).
Na realidade, o meu nome é Miguel e é só isso que eu quero que me chamem. Os meus amigos podem ir mais longe e chamar-me, mais carinhosamente, de Mike. Mas não passa daí. O valor está no nome e no que ele representa. As pessoas podem tremer ao som de Miguel, podem sentir-se quentes pela tremenda amizade que a memória do meu nome faz surtir nelas, podem repugnar-me, odiar-me, respeitar-me, idolatrar-me. Mas será pelo Miguel, e nunca pelo Eng. que vêm atrás.
As pessoas não se dirigem aos empregados de bar e dizem “Ó sr. empregado de bar, dê-me duas caipirinhas”. Não se dirigem às lojistas e dizem “ó sr.lojista, tem um nº 37?”. Não se dirigem a um trolha e dizem “Desculpe, sr. Trolha, tem o rêgo a ver-se”. Não se dirigem a um funcionário do cinema e dizem “Desculpe, sr. Funcionário do cinema, não encontro a minha namorada… a sala está muito escura”. Então porque diabo é que dizem Sr. Engenheiro a um engenheiro, Sr. Arquitecto a um arquitecto e assim por diante? Porque são profissões de respeito? O respeito esteve, está e sempre estará na pessoa, no ser humano, no mister vá, e não na profissão. E tenho dito!
Domingo, 27 de Junho de 2010
The Wicker Man (1973)

"The Wicker Man", the original english cult classic, is, quite simply, a brilliant film. And is a brilliant film not because it is an amazing work of art (it isn't), or because its director (Robin Hardy, in his first and almost only film), is a master director (he isn't), but because its screenplay is very powerful on the way it is structured, because the director knew just exactly how to conduct the audience through the film, and because, despite its theme, it has a very peculiar black humour which is very appealing. A lot of the english style of humour and filmmaking is here, as are major influences from the 60s sexual revolution. But the package goes beyond that, to a, one might almost say, pathetically brilliant study of mass worshipping. The movie opens with two typical, God fearing, english cops, with the usual characteristics and great accents. At the police station they receive an anonymous letter saying that a child is missing in an island. This scotish island is very peculiar, isolated, and no-one really knows what goes on there. One cop, the hero of this story, played by Edward Woodward in a brilliant so-british performance, goes to the island alone. He meets the quaint and particular characters, from the leader of the island, a masterful Christopher Lee, to the inn-keepers daughter, played by beautiful Britt Ekland. At first every-one says that they do not know the missing girl, that there never was such a person. But Woodward finds her grave and her school records and so he sets to find her and discover exactly what goes on in the island. He stands alone, in a place he cannot escape from, against an entire village. He starts to see that they are pagan worshippers, that they repel God and Christ and worships gods of sex and pleasure. He starts to think that they killed or are going to kill the girl as a sacrifice. As he uncovers the plots and gets closer to the secret, so it is revealed to the audience the extent of this free-love-pagan-worshipping-cult, until the surprising and powerful climax, which is at the same time pathetic and brilliant, mesmerizing and unbelievable. From Lee who treats every strange thing that happens as matter of fact, to Ekland and her sexy naked dances (she was pregnant so her breasts were huge, and the shots cleverly disguise her belly), to the townsfolk so brilliantly naive and deceitful, to Woodwards almost paranoid cop but always with the british and christian integrity, the movie has a great set of, more than just actors, characters. And the ending will appeal to most, and without spoiling it, let me just say, it is not a save the day good ending. It may be predictable with the course of the movie, but it is fascinatingly brilliant nonetheless. A daring and great movie about beliefs and mass hysteria, as is cleverly shown by the last shots, which 10 years before no-one would even dare think of making. After seing this, Cubby Brocolli hired Lee and Ekland for his next James Bond: "The Man with the Golden Gun". And what is really the Wicker Man? Well, you have to see the last scene to know that! The movie was remade in 2006 with Nicholas Cage and is being retold by Hardy himself in "The Wicker Tree", a movie currently in production.
Quarta-feira, 23 de Junho de 2010
9 (2009)

Top marks for the animation. Average marks for the entertainment. Poor marks for the screenplay. Whenever a trailer comes out which says "from the makers of Nightmare Before Christmas" everybody thinks the movie is directed by Tim Burton. Actually, I am glad to be one of the few people on this earth that knows that Tim Burton did not direct “Nightmare Before Christmas”. He wrote the story, produced, but did not direct. In "9" he didn't even do that, he just co-produced. "9" is actually the child of Shane Acker, who back in 2005 had made a 10 min short film also called "9", who was nominated for a short-film Oscar, but did not win. After the success of that he was invited to expand it to a full length movie. I actually don't think that was a good move. The story is exactly the same, the 10 minutes converted into 75. But 1h15min becomes too long for a story which basically becomes a repetition of itself. After a while it becomes boring. Basically this can be called Terminator 5 for children. The story is nothing new and is disclosed bit by bit during the film. Man created machines, the machines turned on man, there was a war, mankind was wiped out, the world destroyed and machines rule. Before a scientist died, he created 9 little rag dolls and gave them a spirit or a soul to make the essence of mankind survive. The movie opens with the awakening of 9 (voiced by Elijah Wood) in this post-apocalyptic future. He fumbles (like wall-e) in the debris trying to find out where he is and then he comes across the other 8. When one of them is kidnapped by the machine, he inspires the others to go after him. He uses such lame lines as "c'mon, we must go, he would do the same for us", although he actually just met him for 5 minutes. As they do they unravel little by little what has happened. They make a mistake and unleashed a deadly machine who his after their souls and the rest of the movie is just they running away from the machine and putting the small pieces of the story together. I will not disclose the ending, but let me just say, it is awful and makes no sense. No sense whatever. If that is the good up-lifting ending, then, in my point of view, mankind is doomed. Really! The movie is saved by two things. First, the animation is fantastic, with great attention to detail. And second, the voice talents are also very good, with the likes of Christopher Plummer, Martin Landau, Jennifer Connelly or John C. Reilly. It may be a good moral lesson for children, and an entertaining flick, but for thinking adults it would be better if it was just 40 minutes long, and with a way different ending.
Sábado, 19 de Junho de 2010
Pierrot le fou (1965)

Powerful. Poetic. Perfect. Today I had an incredible urge to see "Pierrot le Fou" again, and as I turned on the TV I could not help but think of the emotions it sprung on me the first time I saw it. I am a Jean-Luc Godard worshipper, namely of the movies he made in the first years of the Nouvelle Vague. Alone, he reinvented cinema, and his movies break all conventions, and despite not being straightforward and often difficult to follow, they possess a mesmerizing quality, that lingers on the viewer forever, and have a rhythm of their own made by the way he plays with colour, sound, fantasy, voice-off, poetry and the continuous breaks of the cinematic laws. "Pierrot le fou" is the top movie of such style of moviemaking, and is often considered the main masterpiece among the countless masterpieces he has made. Jean-Paul Belmondo is Ferdinand, married to a rich woman who he does not love, bored to the bone. He re-meets the forever beautiful Ana Karina, Marianne, a woman who he had had a relation before his marriage, and who insists on calling him Pierrot (like the song "mon ami Pierrot"). When she kills a man, they both run away. The killing scene is hauntingly beautiful, structured in such a poetic and balletic way that one falls in love with the cinematic technique right there and then, and the killing becomes secondary. Besides, why she kills him and the back story are never really explained, the voice-off of both lovers appear as connected fragments, dreams of voices, pieces of though heard here and there. The editing breaks all conventions also, and makes everything flow in a dream-like fashion. There are Vietnam War references throughout (a powerful critic without criticizing once, a technique in which Godard excelled), of gun smuggling, of the Algerian War... But this is backdrop, and although the critic is meant to be there, Godard makes the movie about the lovers. The second part is more slow, they escape and live near the Mediterranean Sea almost like hermits, all day in the sea and the forest, reading, reciting poetry, free, living life, as is shown by little scenes of a semi-happiness with song and colour. But then Karina gets bored of this peaceful existence, and the hoodlums also go after them again and they have to escape once more. Once again the movie becomes difficult to follow, they do a robbery and head down the road to nowhere. Are they telling the truth, is someone betraying someone? Yet all the while the dialogues and the images dwell on life, on beauty, on love, on poetry. The incredibly powerful climax, with the famous scene of Belmondo with the face covered in blue paint leaves a mark on the viewer. It may be at times incomprehensible, but the feelings speak higher than the mind. You understand this film through its emotions, not by its story. The images tell the tale for it. "Pierrot le fou" may be a study of violence, of war, and of running away from society and its conventions, but is much more than that. It is life itself, a dream of a journey to the depths of the soul, a cry for acknowledgment, a cry for the world to see the extent to which man can go, what simple pleasures he aims to achieve and the follies he eventually falls into everytime. Conventions can always be broke. Godard simply explains that in a scene where all of a sudden Belmondo speaks to the camera and Karina asks "who are you speaking to?", and he says "the audience". But something cannot be broken. The inner nature of man. Inspiring such american movies as "Bonnie and Clyde" (1967) or most notably "Badlands" (1973), "Pierrot le fou" is miles ahead of them all. Ethereal, ground-breaking, emotional, powerful, but most of all human. And all this mixed up in a kick-ass lesson in cinema. A must-see for all. You have never seen cinema until you have seen a 1960s Godard movie. You have never seen a cinematic masterpiece until you have seeen "Pierrot le fou".
Sexta-feira, 18 de Junho de 2010
Our Man Flint (1966)

After the mega success of 5 James Bond movies in the first half of the 1960s, a new kind of spy genre emerged in the second half. This kind of genre presented movies that were not exactly what today we call spoofs, in a sense that they were not assumed comedies, but the way they treated the spy and the spy game, so full of the Bond clichés, made them somewhat particular in their own sense. Along the lines of, say, "The Man From Uncle", Derek Flint is a secret agent fully aware of its cliché-like character, of his Bond mannerisms, but acts as if that is just the normal way to be. "Our Man Flint" was one of the first such spoofs to appear, and is directed by Daniel Mann, who had directed more deeper dramas such as "The Rose Tatoo" (1955) or "BUtterfield 8" (1960). James Coburn is Flint, womaniser, who lives with 4 woman, beds another during the adventure (the drop-dead gorgeous Gila Golan, who had a very small career in the cinema, and whose acting is not very good, but who his looking at her acting?!), is a great fighter, dancer, intellectual, etc, etc. When 3 bad scientists in a Vulcano-island-lair make a machine which controls the weather they hold the world for ransom. All agents sent die (including an 0008), and the world council (a bunch of hysteric sissys leaded by a Lee J Cobb, who delivers perfectly, as the great actor he was, but I think has a hard time with the lame save the world dialogue), knows that there is only one hope left: Flint. He is a sort of a mixture of McGyver and Bond. He waves away the classic Q-branch briefcase but manufactures his own arsenal, including a small lighter with 82 functions (83 if you want to light a cigar). Flint goes then to France, and then to the Vulcano Island. He is seduced but then turns Gila to his side, discovers the plot, faces bad guys, escapes from death, is kidnapped, escapes, kills the bad guys, saves the day, etc, etc. Unfortunately, the movie is slow. The scenes are lengthy and all the time in the world is wasted in the calm delivery of the dialogues and the showing of every step of the scene. A drama technique, it is not suitable for this one. A quick pace could have been given. It becomes quicker in the last 15 minutes, in the last fighting sequence at the island. The movie is not very ahaha funny, and the plot is not very compelling either. The interest may lie in Flint himself, and in the fact of the absurdity of every character, a caricature of themselves and of the cliché of the spy movie. It is also worthy as a predecessor of others and an inspiration of such as Austin Powers, although not that explicitly comical. Coburn delivers a testosterone but suave performance, cool as a cat, deadly when asked to. And, although criticised by its depiction of woman (the living with 4 women thing, and in the end some are also brainwashed by the bad guys as "pleasure units"), I don't think there is any harm really, and it is a worthy "spoof" on the age when the spy-spoof was born. It had one sequel, "In Like Flint" in 1967.
Domingo, 13 de Junho de 2010
Bastardos Gloriosos, “Bifana Bifana” e outras desportices
Como alguns de vós caros jovens saberão, existe uma equipa de basquetebol americana chamada Boston Celtics. Ora, os Boston Celtics têm uma história muito curiosa. Primeiro ganharam 11 títulos em 13 anos… isto entre 1957 e 1969. A sua equipa tinha lendas do basket como Bill Russell e K.C. Jones e, basicamente, era a maior do planeta. Infelizmente, a dinastia acabou e a divindade dos Boston Celtics perdeu-se. Passaram a ganhar o ocasional título (apenas 2 nos anos 70), até que apareceu um tal de Larry Bird, o melhor jogador branco que o basket alguma vez conheceu, que os levou 3 vezes ao título em 5 anos, lá para o meio dos eighties. Após esta retomada glória, os Boston Celtics voltaram a ser uma equipa mediana, e só 20 anos depois, em 2008, é que voltaram a ganhar um título.
Duas coisas me incomodam nesta história. A primeira é que durante todos estes 50 anos nunca ouvi os telejornais desportivos americanos começarem sempre com os Boston Celtics. Nunca ouvi durante todos os anos de interregno dos seus títulos as pessoas sussurrarem que os Boston Celtics eram, são e sempre serão os maiores. Não entendo porque é que nos anos 90, em que os Chicago Bulls com o Michael Jordan, Pippen, Rodman e companhia ganharam 6 títulos (3 mais 3 separados por 3 anos, os anos em que Air Jordan esteve no basebol, tão deliciosamente retratados no filme “Space Jam”), ninguém disse “eh pá, os Bulls ganham, mas os Celtics é que são os melhores de sempre! Porquê?! Então não ganharam 11 títulos em 13 anos nos anos 60!”. Pior, ninguém diz que os Bulls (que não voltaram a ganhar nada, aliás, são agora das piores equipas), são ainda os maiores porque tiveram o Jordan há 20 anos. A segunda coisa que me incomoda é a semelhança destas histórias a certo e determinado clube de futebol português. O que nos leva a uma terceira coisa que me incomoda: porque é que então nem os Celtics nem os Bulls são os maiores agora, se ganharam no passado tão fantasticamente? Vendo o exemplo do Glorioso, não entendo. Da maneira como o meu cérebro foi lavado neste país, pensei que era prática comum mundial.
Mas se ainda fosse só e apenas o Glorioso a usufruir da vitória “em antes” dos eventos, da divindade do passado para a sua bajulação presente, eu ainda deixava passar. Vá, coitadinhos, têm que viver em Lisboa, falar com sotaques esquisitos, arriscar-se a cruzar-se com o Sócrates, ver a equipa a perder todos os anos nas várias competições, e já tiveram como presidente o Vale e Azevedo… enfim, é complicado, e eu até tenho pena. Agora quando este bicho passa para a selecção nacional, já fico mais espevitadito.
Eu sei que o Glorioso é o clube oficial do Estado, e como em todos os outros países mundiais esse clube oficial é a selecção, é normal que no nosso país haja o mínimo de confusão. Mas a selecção não precisa destas gloriosices, e creio que é por isso que nunca chega a lado nenhum.
Que gloriosices, perguntais vós?
Gloriosice 1) Serem campeões em antes. Portugal é um país abençoado. Se pensarmos bem, as grandes potências mundiais de futebol são países poderosos: Alemanha, Itália, França, Inglaterra, ou então países predestinados por Deus para o futebol: Brasil, Argentina, tal como os Quenianos são predestinados para a corrida. Nós somos piquinitos, fraquitos, pacatos aqui no nosso canto ibérico. Damos graças por termos tido três dos maiores jogadores da história (Deusébio, Figo, Chris Rooney… como quem diz Cristiano Ronaldo)? Damos graças por de vez em quando termos uma boa geração? Damos graças por termos clubes que já ganharam competições europeias? Não! Temos a mania. Queremos mais. Somos obcecados. Temos três jornais diários de futebol (a Itália, esses malucos da bola, não têm tantos). As notícias mostram os jogadores em todo o lado menos na casa de banho (já faltou mais!). Fazemos piqueniques ao som do Tony Carreira. Pusemos bandeiras na janela quando um brazuca mandou, mas não levantamos um dedo para ajudar com a crise. Não largamos as vuvuzelas. E tudo por quem? Por uma equipa que nunca nos deu nada, nunca ganhou nada e só armou confusão em provas importantes! Na realidade acho muito bem o apoio fanático, mas acharia ainda melhor fazerem o mesmo, e mais, quando os jogadores regressam derrotados. Isso sim é patriotismo. Os ingleses cantam desalmadamente quando a equipa está a perder. Nós só cantamos quando estamos a ganhar no mínimo por três.
Gloriosice 2) Ter uma visão distorcida da história. Se pensarmos bem, nos primeiros 70 anos da competição “Mundial”, só fomos lá duas vezes. Numa tínhamos o Deusébio e chegamos ao 3º lugar. Na outra tínhamos as putas mexicanas, 4 treinadores, jogadores em greve e perdemos contra Marrocos e a Polónia. Quem somos nós para acharmos que somos bons? Respeitinho é muito bonito e recomenda-se. Aliás, a nossa geração de ouro (a que ganhou o mundial de juniores em 1989 e 1991) não conseguiu chegar lá nos anos 90. Claro que os treinadores são de culpar (entre eles um tal de Carlos Queirós), mas qualquer que seja a razão o facto a reter é que não chegamos lá. Só fomos agora em 2002 e 2006 (até os EUA foram a mais Mundiais que nós), e em 2002 nem passamos da 1ª fase. Portanto, hello?! Sou eu o único a achar que a nossa história e as nossas prestações recentes não justificam o acharmos que somos os maiores. Ok, perdemos uma final de um Euro em casa e ficamos em 4º em 2006… mas mesmo assim… títulos zero! Até a Grécia tem um. Até a Grécia!
Gloriosice 3) A culpa é sempre do macaco. Mas é mesmo? Desde 1994 que nos acontece sempre qualquer coisa. Em 1994 a coisa que nos aconteceu chamava-se Carlos Queirós. Em 1996 foi o golo do Poborsky. Em 1998 foi o Marc Batta a expulsar o Rui Costa quando ele ia a ser substituído, por demorar muito tempo a sair. Em 2000 foi a mão do Abel, e a minha preferida: o Rui Bento a baixar o braço ao árbitro. Em 2002 podemos ficar aqui até amanhã: foi o Oliveira a treinador, foram os Beach Boys e as putas de Macau, foi o soco do João Pinto, foi o Baia jogar depois do Ricardo ter jogado todos os jogos de qualificação e o de treino em Macau, foi o empate servir contra a Coreia, e o Jorge Costa e o Fernando Couto passarem 2/3 do jogo (até sofrerem o golo, claro está) a passarem a bola um ao outro na defesa. Em 2004 foi a coisa mais inglória da nossa História, e estou a incluir batalhas medievais perdidas e músicas do festival da canção. Havia um tal de Ferreirinha e o facto de acharmos que estava no papo, mesmo depois da UEFA ter assinado o papel secreto a dizer que esse ano o canudo era nosso. Em 2006 foi o cabeçudo Zidane, e em 2008, por incrível que pareça, acho que não se passou nada de mais. Estou ansioso por saber a escandaleira deste Mundial. Já temos uma: Nani, drogas ou lesão? Mas prefiro uma em campo… já estou a ver: “pá não nos conseguíamos concentrar com o som das vuvuzelas”…
Gloriosice 4) O nome. Uns são gloriosos. Outros, ora são os “tugas”, ora são os “navegadores”, ora são não sei o quê. Eu cá imitava a equipa da casa, os “Bafana Bafana”, mas optava por uma sonoridade mais portuguesa. Se eles se chamassem “Bifana Bifana” não só elevava a moral, como elevava as exportações de carne portuguesa para o estrangeiro, ajudando assim com a história da crise. Cristiano Ronaldo, o Bifana Bifana. Soa bem.
Gloriosice 5) Só o futebol é que conta. O Benfica acabou com inúmeras actividades e fechou até o futebol júnior de alguns escalões. As notícias e os jornais só vomitam futebol. O Comité Desportivo de Portugal só dá massa ao futebol. Os conselheiros fiscais deles devem ser os Lehman Brothers ou o Maddof. Porquê continuar a apostar numa modalidade que há 114 anos ainda não nos deu um único título? Porque não apostar no atletismo, que parcas alegrias nos dá… mas dá-nos! Um décimo da massa dada ao futebol injectada no atletismo transformava este país numa máquina de fazer corredores e saltadores. Só o dinheiro gasto nas putas em Macau dava para este país formar corredores que batiam os quenianos ao pé coxinho. Só me vem à cabeça o desaire dos últimos Jogos Olímpicos como exemplo desta mentalidade. Portugal ganhou na sua história 22 medalhas, 4 delas de ouro. Só o Phelps sozinho, por exemplo, ganhou 16 medalhas, 14 delas de ouro. Aliás, o jovem em 24h ganhou o dobro das medalhas de ouro que Portugal em 114 anos. É triste. Mas mesmo assim, à partida para Pekin, de quem é que ouvíamos falar? Dos futebolistas e dos que já tinham ganho qualquer coisa em antes, porque claro, tirando o futebol, só nos interessam os campeões. Os outros esquece. Mas, sinceramente, se tirei 20 a matemática no 11º ano, quem me diz que vou tirar no 12º? Se fui para a cama com a Maria ontem, quem me diz que consigo ir para a cama com ela hoje? Portanto, porquê só apoiar os vencedores do passado? Mas em Pekin todos estes desgraçados falharam e então, toca a arranjar bodes expiatórios. Mas quais? Os do futebol? Não, claro que não! Intocáveis! Obikwelo? Não! O moço é estrangeiro e treina em Espanha, não se pode ferir os seus sentimentos. A Naide Gomes que tanto prometia e nem se qualificou? Na… Vamos lá culpar os desgraçados que nem eram favoritos à partida… Vá, o Marco “Caminha” Fortes podem culpar, mas o homem também foi para lá sem nenhuma expectativa, e só pronunciou essas declarações sobre pressão, porque as supostas glórias nacionais falharam todas na véspera. Recordo o desgraçado do Gustavo Lima, da vela, um verdadeiro herói nacional, algo que alguém tipo Nani nunca será. O homem ficou em 6º em Sidney, em 5º em Atenas e em 4º em Pekin. Com um pouco de ajuda ia às medalhas em Londres. Mas não! Só o fazem chorar acusando-o de falta de amor à camisola, levando ao desgraçado anunciar que se vai retirar…. Portanto o que se faz? Vão feitos loucos aos novos vencedores, tipo Nelson Évora, e transformam-nos nos novos heróis… É bonito e estranhamente cíclico…
Gloriosice 6) o feeling. Temos sempre o feeling que vamos ganhar e surpresa, surpresa, nunca ganhamos. Eu cá não tenho feelings. Eu cá não acredito em vencedores à partida. Eu cá não acredito que os atletas são bons pelo nome que têm na camisola, mas sim pelo suor que deixam em campo. A minha camisola pode dizer CR7, mas se eu no campo não jogar à CR7 então é igual à ovelhinha mémé. Cada competição é uma competição. Pode haver favoritos, ou tipos em melhor forma, mas não há vencedores à partida. Tipos que pensam assim geralmente falham. E é por isso que Portugal falha sempre.
Sou um adepto ferrenho. Vejo os jogos religiosamente, berro, salto, e sou meio deficiente porque devo achar que a televisão me responde. Quero como os demais que os portugas ganhem. Mas façam-me um favor. Não exerçam pressão nos atletas. Já pensaram que eles falham porque não saem de cima deles, sempre a fazer perguntas estúpidas e a segui-los para todo o lado? Já pensaram que eles falham porque não lhes dão tempo para se concentrarem tão em cima deles estão? Caros amigos, façam o que quiserem e o que bem entenderem. Mas despois, ok? Façam a reportagem normal em antes. Só despois é que façam lá os piqueniques todos que quiserem. Ganhem ou não ganhem. Isso é a marca do verdadeiro adepto. Neste momento, os atletas só se sentem amados quando ganham! Não é isso mau para a sua moral? Que o diga o Gustavo Lima!
Um Glorioso já nos chega, e até faz bem. É assim tipo mascote nacional, que metade do país pode idolatrar e a outra gozar saudavelmente. Agora deixem os “Bifana Bifana” e o resto dos atletas portugueses em paz. Mudem a mentalidade e pode ser que tenham resultados no sapatinho.
Os “Bifana Bifana” estreiam-se na terça. Força Portugal! Tenho um feeling? Não. Podia ter um feeling? Podia, mas não seria a mesma coisa. Porquê? De momento defendo as cores da selecção, mas não defendo o conteúdo. O conteúdo tem de convencer para ser amado. Os jogadores têm que merecer o respeito e não assumir que o têm à partida. Como tudo na vida, diria eu. Glorioso só há um. A ele as Gloriosices. Os outros devem debater-se com sangue, suor e lágrimas. Mesmo! E o povo deve estar pronto para um novo piquenique, Tony Carreira, João Baião e tudo, mesmo que os meninos percam na 1ª fase. Os campeões não crescem de geração espontânea. Criam-se. Que os digam os Boston Celtics, que antes dos 11 em 13, estiveram os anos 50 todos a criar a equipa lentamente. Que o diga o Porto na era Zé Mourinho. Que o digam os chinocas que gastaram milhões em promover tudo o que eram actividades desportivas não praticadas na China para ganharem mais medalhas. E não é que ganharam mesmo?! Capice? Ah, e já agora….esqueçam filmar os desgraçados a jogar bilhar ou Playstation, ok?
Força “Bifana Bifana”!
Duas coisas me incomodam nesta história. A primeira é que durante todos estes 50 anos nunca ouvi os telejornais desportivos americanos começarem sempre com os Boston Celtics. Nunca ouvi durante todos os anos de interregno dos seus títulos as pessoas sussurrarem que os Boston Celtics eram, são e sempre serão os maiores. Não entendo porque é que nos anos 90, em que os Chicago Bulls com o Michael Jordan, Pippen, Rodman e companhia ganharam 6 títulos (3 mais 3 separados por 3 anos, os anos em que Air Jordan esteve no basebol, tão deliciosamente retratados no filme “Space Jam”), ninguém disse “eh pá, os Bulls ganham, mas os Celtics é que são os melhores de sempre! Porquê?! Então não ganharam 11 títulos em 13 anos nos anos 60!”. Pior, ninguém diz que os Bulls (que não voltaram a ganhar nada, aliás, são agora das piores equipas), são ainda os maiores porque tiveram o Jordan há 20 anos. A segunda coisa que me incomoda é a semelhança destas histórias a certo e determinado clube de futebol português. O que nos leva a uma terceira coisa que me incomoda: porque é que então nem os Celtics nem os Bulls são os maiores agora, se ganharam no passado tão fantasticamente? Vendo o exemplo do Glorioso, não entendo. Da maneira como o meu cérebro foi lavado neste país, pensei que era prática comum mundial.
Mas se ainda fosse só e apenas o Glorioso a usufruir da vitória “em antes” dos eventos, da divindade do passado para a sua bajulação presente, eu ainda deixava passar. Vá, coitadinhos, têm que viver em Lisboa, falar com sotaques esquisitos, arriscar-se a cruzar-se com o Sócrates, ver a equipa a perder todos os anos nas várias competições, e já tiveram como presidente o Vale e Azevedo… enfim, é complicado, e eu até tenho pena. Agora quando este bicho passa para a selecção nacional, já fico mais espevitadito.
Eu sei que o Glorioso é o clube oficial do Estado, e como em todos os outros países mundiais esse clube oficial é a selecção, é normal que no nosso país haja o mínimo de confusão. Mas a selecção não precisa destas gloriosices, e creio que é por isso que nunca chega a lado nenhum.
Que gloriosices, perguntais vós?
Gloriosice 1) Serem campeões em antes. Portugal é um país abençoado. Se pensarmos bem, as grandes potências mundiais de futebol são países poderosos: Alemanha, Itália, França, Inglaterra, ou então países predestinados por Deus para o futebol: Brasil, Argentina, tal como os Quenianos são predestinados para a corrida. Nós somos piquinitos, fraquitos, pacatos aqui no nosso canto ibérico. Damos graças por termos tido três dos maiores jogadores da história (Deusébio, Figo, Chris Rooney… como quem diz Cristiano Ronaldo)? Damos graças por de vez em quando termos uma boa geração? Damos graças por termos clubes que já ganharam competições europeias? Não! Temos a mania. Queremos mais. Somos obcecados. Temos três jornais diários de futebol (a Itália, esses malucos da bola, não têm tantos). As notícias mostram os jogadores em todo o lado menos na casa de banho (já faltou mais!). Fazemos piqueniques ao som do Tony Carreira. Pusemos bandeiras na janela quando um brazuca mandou, mas não levantamos um dedo para ajudar com a crise. Não largamos as vuvuzelas. E tudo por quem? Por uma equipa que nunca nos deu nada, nunca ganhou nada e só armou confusão em provas importantes! Na realidade acho muito bem o apoio fanático, mas acharia ainda melhor fazerem o mesmo, e mais, quando os jogadores regressam derrotados. Isso sim é patriotismo. Os ingleses cantam desalmadamente quando a equipa está a perder. Nós só cantamos quando estamos a ganhar no mínimo por três.
Gloriosice 2) Ter uma visão distorcida da história. Se pensarmos bem, nos primeiros 70 anos da competição “Mundial”, só fomos lá duas vezes. Numa tínhamos o Deusébio e chegamos ao 3º lugar. Na outra tínhamos as putas mexicanas, 4 treinadores, jogadores em greve e perdemos contra Marrocos e a Polónia. Quem somos nós para acharmos que somos bons? Respeitinho é muito bonito e recomenda-se. Aliás, a nossa geração de ouro (a que ganhou o mundial de juniores em 1989 e 1991) não conseguiu chegar lá nos anos 90. Claro que os treinadores são de culpar (entre eles um tal de Carlos Queirós), mas qualquer que seja a razão o facto a reter é que não chegamos lá. Só fomos agora em 2002 e 2006 (até os EUA foram a mais Mundiais que nós), e em 2002 nem passamos da 1ª fase. Portanto, hello?! Sou eu o único a achar que a nossa história e as nossas prestações recentes não justificam o acharmos que somos os maiores. Ok, perdemos uma final de um Euro em casa e ficamos em 4º em 2006… mas mesmo assim… títulos zero! Até a Grécia tem um. Até a Grécia!
Gloriosice 3) A culpa é sempre do macaco. Mas é mesmo? Desde 1994 que nos acontece sempre qualquer coisa. Em 1994 a coisa que nos aconteceu chamava-se Carlos Queirós. Em 1996 foi o golo do Poborsky. Em 1998 foi o Marc Batta a expulsar o Rui Costa quando ele ia a ser substituído, por demorar muito tempo a sair. Em 2000 foi a mão do Abel, e a minha preferida: o Rui Bento a baixar o braço ao árbitro. Em 2002 podemos ficar aqui até amanhã: foi o Oliveira a treinador, foram os Beach Boys e as putas de Macau, foi o soco do João Pinto, foi o Baia jogar depois do Ricardo ter jogado todos os jogos de qualificação e o de treino em Macau, foi o empate servir contra a Coreia, e o Jorge Costa e o Fernando Couto passarem 2/3 do jogo (até sofrerem o golo, claro está) a passarem a bola um ao outro na defesa. Em 2004 foi a coisa mais inglória da nossa História, e estou a incluir batalhas medievais perdidas e músicas do festival da canção. Havia um tal de Ferreirinha e o facto de acharmos que estava no papo, mesmo depois da UEFA ter assinado o papel secreto a dizer que esse ano o canudo era nosso. Em 2006 foi o cabeçudo Zidane, e em 2008, por incrível que pareça, acho que não se passou nada de mais. Estou ansioso por saber a escandaleira deste Mundial. Já temos uma: Nani, drogas ou lesão? Mas prefiro uma em campo… já estou a ver: “pá não nos conseguíamos concentrar com o som das vuvuzelas”…
Gloriosice 4) O nome. Uns são gloriosos. Outros, ora são os “tugas”, ora são os “navegadores”, ora são não sei o quê. Eu cá imitava a equipa da casa, os “Bafana Bafana”, mas optava por uma sonoridade mais portuguesa. Se eles se chamassem “Bifana Bifana” não só elevava a moral, como elevava as exportações de carne portuguesa para o estrangeiro, ajudando assim com a história da crise. Cristiano Ronaldo, o Bifana Bifana. Soa bem.
Gloriosice 5) Só o futebol é que conta. O Benfica acabou com inúmeras actividades e fechou até o futebol júnior de alguns escalões. As notícias e os jornais só vomitam futebol. O Comité Desportivo de Portugal só dá massa ao futebol. Os conselheiros fiscais deles devem ser os Lehman Brothers ou o Maddof. Porquê continuar a apostar numa modalidade que há 114 anos ainda não nos deu um único título? Porque não apostar no atletismo, que parcas alegrias nos dá… mas dá-nos! Um décimo da massa dada ao futebol injectada no atletismo transformava este país numa máquina de fazer corredores e saltadores. Só o dinheiro gasto nas putas em Macau dava para este país formar corredores que batiam os quenianos ao pé coxinho. Só me vem à cabeça o desaire dos últimos Jogos Olímpicos como exemplo desta mentalidade. Portugal ganhou na sua história 22 medalhas, 4 delas de ouro. Só o Phelps sozinho, por exemplo, ganhou 16 medalhas, 14 delas de ouro. Aliás, o jovem em 24h ganhou o dobro das medalhas de ouro que Portugal em 114 anos. É triste. Mas mesmo assim, à partida para Pekin, de quem é que ouvíamos falar? Dos futebolistas e dos que já tinham ganho qualquer coisa em antes, porque claro, tirando o futebol, só nos interessam os campeões. Os outros esquece. Mas, sinceramente, se tirei 20 a matemática no 11º ano, quem me diz que vou tirar no 12º? Se fui para a cama com a Maria ontem, quem me diz que consigo ir para a cama com ela hoje? Portanto, porquê só apoiar os vencedores do passado? Mas em Pekin todos estes desgraçados falharam e então, toca a arranjar bodes expiatórios. Mas quais? Os do futebol? Não, claro que não! Intocáveis! Obikwelo? Não! O moço é estrangeiro e treina em Espanha, não se pode ferir os seus sentimentos. A Naide Gomes que tanto prometia e nem se qualificou? Na… Vamos lá culpar os desgraçados que nem eram favoritos à partida… Vá, o Marco “Caminha” Fortes podem culpar, mas o homem também foi para lá sem nenhuma expectativa, e só pronunciou essas declarações sobre pressão, porque as supostas glórias nacionais falharam todas na véspera. Recordo o desgraçado do Gustavo Lima, da vela, um verdadeiro herói nacional, algo que alguém tipo Nani nunca será. O homem ficou em 6º em Sidney, em 5º em Atenas e em 4º em Pekin. Com um pouco de ajuda ia às medalhas em Londres. Mas não! Só o fazem chorar acusando-o de falta de amor à camisola, levando ao desgraçado anunciar que se vai retirar…. Portanto o que se faz? Vão feitos loucos aos novos vencedores, tipo Nelson Évora, e transformam-nos nos novos heróis… É bonito e estranhamente cíclico…
Gloriosice 6) o feeling. Temos sempre o feeling que vamos ganhar e surpresa, surpresa, nunca ganhamos. Eu cá não tenho feelings. Eu cá não acredito em vencedores à partida. Eu cá não acredito que os atletas são bons pelo nome que têm na camisola, mas sim pelo suor que deixam em campo. A minha camisola pode dizer CR7, mas se eu no campo não jogar à CR7 então é igual à ovelhinha mémé. Cada competição é uma competição. Pode haver favoritos, ou tipos em melhor forma, mas não há vencedores à partida. Tipos que pensam assim geralmente falham. E é por isso que Portugal falha sempre.
Sou um adepto ferrenho. Vejo os jogos religiosamente, berro, salto, e sou meio deficiente porque devo achar que a televisão me responde. Quero como os demais que os portugas ganhem. Mas façam-me um favor. Não exerçam pressão nos atletas. Já pensaram que eles falham porque não saem de cima deles, sempre a fazer perguntas estúpidas e a segui-los para todo o lado? Já pensaram que eles falham porque não lhes dão tempo para se concentrarem tão em cima deles estão? Caros amigos, façam o que quiserem e o que bem entenderem. Mas despois, ok? Façam a reportagem normal em antes. Só despois é que façam lá os piqueniques todos que quiserem. Ganhem ou não ganhem. Isso é a marca do verdadeiro adepto. Neste momento, os atletas só se sentem amados quando ganham! Não é isso mau para a sua moral? Que o diga o Gustavo Lima!
Um Glorioso já nos chega, e até faz bem. É assim tipo mascote nacional, que metade do país pode idolatrar e a outra gozar saudavelmente. Agora deixem os “Bifana Bifana” e o resto dos atletas portugueses em paz. Mudem a mentalidade e pode ser que tenham resultados no sapatinho.
Os “Bifana Bifana” estreiam-se na terça. Força Portugal! Tenho um feeling? Não. Podia ter um feeling? Podia, mas não seria a mesma coisa. Porquê? De momento defendo as cores da selecção, mas não defendo o conteúdo. O conteúdo tem de convencer para ser amado. Os jogadores têm que merecer o respeito e não assumir que o têm à partida. Como tudo na vida, diria eu. Glorioso só há um. A ele as Gloriosices. Os outros devem debater-se com sangue, suor e lágrimas. Mesmo! E o povo deve estar pronto para um novo piquenique, Tony Carreira, João Baião e tudo, mesmo que os meninos percam na 1ª fase. Os campeões não crescem de geração espontânea. Criam-se. Que os digam os Boston Celtics, que antes dos 11 em 13, estiveram os anos 50 todos a criar a equipa lentamente. Que o diga o Porto na era Zé Mourinho. Que o digam os chinocas que gastaram milhões em promover tudo o que eram actividades desportivas não praticadas na China para ganharem mais medalhas. E não é que ganharam mesmo?! Capice? Ah, e já agora….esqueçam filmar os desgraçados a jogar bilhar ou Playstation, ok?
Força “Bifana Bifana”!
The Three Musketeers (1973) and The Four Musketeers (1974)

Nowadays it is common for movies to be shot back to back and be released a few months from each other (Matrix, LOTR), but back in the 1970s it was not that common. Richard Lester (veteran Beatle's director of such follies as "Hard Day's Nigh", 1964, or "Help!", 1965), tackled the subject of Alexandre Dumas' novel not on one, but on two 100 minute movies shot together and released one year apart. This roused a funny story, as the all star cast was hired for one movie, and when they found out it would be split in two, they put the producers in court to receive a two movie fee. These stories aside one thing distinguishes this particular adaptation from others. Basically, it has its very own particular and very special kind of humour. It was like watching George Lazemby's take on James Bond. It was a serious movie (that is, not an assumed comedy), but it was treated in such a way that the characters were all aware of the mockery they made of themselves. Furthermore, the movie is indeed very funny, and never in a cliché way. Every scene has always a very amusing detail, ingeniously though and never gratuitous, that makes you laugh several times. The cast, off course, is a jewel. Michael York is an illiterate D'Artagnan, who looks like a spy from a spy spoof, meaning that he is clumsy, a little dumb, appeals to the ladies with very horrible bed-side lines, but is valiant and fights well, and saves the day often without almost knowing how. Richard Chamberlain is a suave Aramis, Frank Finlay is Porthos, Oliver Reed shines as Athos, Christopher Lee is Rochefort but is overshadowed completely by Charlton Heston's snake-like Richelieu. The ladies are Rachel Welch, as a very idiotic Constance (very idiotic indeed), Geraldine Chaplin as the Queen, and Faye Dunaway as Milady, one of the best in the picture. Unfortunately, I do not know if its the 17th century hairs, or the large clothes (although the director focuses more than often on the breasts...), or the enormous amount of make-up, but none of these sexy screen goddesses from the 60s looked very sexy here... Anyway, this all star cast gives credibilityvto the usual story. The first movie sees D'Artagnan go to Paris, meet the three musketeers, etc, etc. The plot centres around the relation of the Queen with the Duke of Buckingham, and the plans Richelieu has of using that to his advantage in his influence with the King. There is a necklace that the king has given the queen and she in turn gave to the Duke, that she must get back to avoid the affair from being found. So the musketeers go back and fourth from England and France, face Milady and win, and D'Artagnan ends the movie gaining his spot as musketeer. The second movie revolves around war between England and France, the plot to kill the Duke, and Milady's revenge with the kidnapping of Constance. But well, actually the movies have very simple plots, very easy to follow, that are presented and then easily thrown aside. What overlaps are the various fighting and chase scenes that keep on coming, all of them filled with funny elements that never let one take the movie seriously. The musketeers are all children that never grew up, basically, and the movie is set on its own parallel universe of intelligent humour. Only in the end of the second does the movie have a darker tone, but the last scene quickly takes ones mind of that. So, in the end, these two movies are a very original and entertaining adaptation of the novel. They are a blockbuster at a time when that didn't exist, and display lightly action and comedy to a very appealing effect. As a work of art not a masterpiece, but very entertaining 200 minutes, which will let you laugh a lot. I am sure that "Pirates of the Caribbean" must have inherited something from here. Best line: when D'Artagnan enters a room with 4 guards standing on a carpet, he, like a magician, tries to pull the carpet under them to make them trip. He ends up just tearing a piece of it. As D'Artagnan looks astonished at the piece of carpet in his hand, one of the guards, looking incredulously at the other three, just says in the most stupid voice: "He tore our carpet!"... Faithful to the novel but yet with a particularity that makes it unique and very funny. Beats by far another entertaining adaptation: Disney's 1993 with Chris 0'Donnel. Just one more thing, in 1989, the director and most of the cast returned not too successfully in "The Return of the Musketeers" with a young Kim Cattrall (Sex and the City's Samantha) as the daughter of Milady, in a movie set really 20 years later with the old musketeers being called to a new adventure. Haven't seen that one yet but if it retains the essence of these two then it should be worth it...
Quinta-feira, 10 de Junho de 2010
Atlantic City (1980)

Louis Malle will always retain a special place in my cinematographic heart. Without resorting to climaxes or high emotional situations, he always succeeds in plunging deep in human emotions, and show the true nature of his characters. He just has to film them, and the shots are always enough for one to understand. No words, just the shots. In the 50's, Malle was Jacques Cousteau's assistant, but later in the decade, at the dawn of the glorious french Nouvelle Vague, he was right there where it mattered. Early on in my teens I fell in love with great early pieces such as "Ascenseur pour l'échafaud" (1958) or later films such as "Au revoir les enfants" (1987), and, most of all, "Lacombe Lucien" (1974) an incredible masterpiece and one of my favorite movies. "Atlantic City", not of course reaching Lacombe's status, it is still a very good and important movie. It was Malle's greatest take in America (although it was a French-Canadian production), and ended up being nominated for the top 5 Oscars (Picture, Director, Actor, Actress and Screenplay), despite having won none. It is set in a decrepit and run-down sea-side Atlantic City. A sleezy small-timer (Robert Joy) and his pregnant girlfriend steal a bag full of drugs and run away to Atlantic City, to hide in the apartment of ex-wife (and sister of the girlfriend) Susan Sarandon, who works at the casino, has dreams of going to Monaco and who is unaware of the fortune they hold. Actually, the first minutes are excellent, as there is no dialogue, and we see with great fluidity the robbery and the relation of Surandon to her neighbor, an old Burt Lancaster, who voyeuristically watches her through the window. Without talking, in the first few minutes we know everything about these 3 major characters. Brilliant. Lancaster is an old small time crook who aspired to be a great mobster, and who now is just an old man. When all of a sudden Joy is killed for the drugs, Lancaster sees himself with all that money (because Joy had stashed the bag in his apartment), and his dreams of behaving like a big gangster seem to come true. He takes care of Sarandon and despite the age different she falls for him, and both seem to have a bright future. All this takes place in just 2 days but off course the drug dealers won't leave them alone, and go after the money and them. So, they have to confront their lives and their dreams in the shadow of this threat, that becomes more real and more powerful as the hours pass... The entire movie is decrepit and attuned to the sleaziness of its characters and the ugliness of the town it is set in. But in this dirt Lancaster shines, as a has been that never was, a child with dreams of gangster that never grew up, a small-racketeer that ultimately has a good heart. Sarandon (at the time Malle's girlfriend) was blooming into a brilliant actress and it shows perfectly. There are also other side characters, as Kate Reid and an appearance by the great Michel Piccoli. In the end, the movie runs through the consequences of low-life and old age, of finding a place in life if you are a nobody, but has lighter tones than other Malle’s movies. Brilliantly stared and directed, "Atlantic City" is a character study, and ends up being all about Lancaster. The man was one of the greatest personalities the screen ever knew, and this movie shows that to perfection. 20 years after his greatest performances in the 50s and 60s, Burt Lancaster proved that he was still one of the best in the game, and paved the way for other great old-age 80s performances in “Local Hero” (1983) or “Field of Dreams” (1989), before his sad passing in 1994.
Quarta-feira, 9 de Junho de 2010
Prince of Persia: The Sands of Time (2010)

Every summer producer Jerry Bruckheimer and Walt Disney Studious team up to give us a nice little blockbuster. This time, they also brought along a very experienced director, Mike Newell (Four Wedding and a Funeral, Mona Lisa Smile, one of the Harry Potters,...), which was a good move. But one must judge this as a summer blockbuster, as a movie clearly intended for money-making entertainment and not for going down in the books as a memorable one. Actually, I have mixed feelings about Prince of Persia. As all late blockbusters, its story is a complete repetition of everything that has been seen before. Fortunately, unlike "Robin Hood", for example (which I hated), the actual dialogues were bearable, the characters were ok, the action and fighting scenes were very good (with a flavor of parkour), and kept coming at a constant pace and good rhythm so that one might actually excuse, and momentarily forget, the usual mambo jambo story, and just relax to a sort of quality summer entertainment. The storyline was a totally worn out one with the usual characters. The orphan from the street which is adopted by the king and grows to be a fine warrior (easy-going Jake Gyllenhaal), the spoiled princess from the occupied city who is also a guardian of an ancient artifact (beautiful and talented ex-Bond Girl Gemma Arterton), the evil uncle seeking the throne (Ben Kingsley), and the rightful heir and his other brother who both distrust constantly Gyllenhaal, just because he is their half-brother. Incredibly, they never believe him, even when the evidence is right in their face! The story of the invasion of a city by the persian army, the killing of the Persian king, etc, are set against the quest for the mysterious artifact, which keeps falling in the wrong hands. Gyllenhaal, wrongfully accused of killing the king, and Arterton, who escapes with him, go the entire movie after the artifact, while they clear their names, save the day, and see their hate towards each other melt into love. The artifact is a dagger which also doubles as a time-machine, and may unleash Armageddon if used by the bad guys. This has been done before, notably on the first Tomb Raider (2001). And you knew, just knew, that in the end someone would die and they would use the dagger to turn back time and bring him back. Usual stuff. But this back and forth of time and treason is mingled with various appealing fight scenes, chase sequences and a particular funny character played by Alfred Molina. So, in the end, Prince of Persia was not dull, nor boring, and gives you a good enough entertainment. It was like the first "Mummy", but substituting all the funny parts that "Mummy" had with action. Only in the beginning the CGI seemed very forced (maybe an homage to the video game?), but then it got better. Just three more things. First, why do they all try to speak with english accents? Why do they try to give that hint of an ancient language spoken more solemnly? Either they speak in arabic or persian, or else, converting to english, is all the same, no? Second, the conclusion, the last 5 or 10 minutes, is awful! What a horrible story ending. Couldn't they come up with something better? And third: I know this is a blockbuster, I know the audience does not want to think much, but c'mon, you did a good job in the movie, the screenplay had enough brains to go by, so why, WHY, when Gyllenhaal first finds the power of the dagger, he has to explain everything as if he is talking to the audience "Ah, this dagger turns back time, and only the person who has the dagger in his hand knows about it, etc, etc". We had just seen it happen guys, no need to explain. The movie has one or two more such explaining scenes, totally unnecessary. Worse, Gyllenhaal is so smart that he knows the plan of the villain just by small pieces of evidence, which really mean nothing until Gyllenhaal makes a far-fetched connection. We never hear the villain himself tell of his plan. Never! So, Gyllenhaal may be wrong! We never know!… All in all, Prince of Persia, my friend, as blockbusters go, you have my approval. Within your limitations, you are much better than Robin Hood or Iron Man 2. Congratulations, you are a king (or shall I say a Prince) among an entertaining but poor form of cinema. To see with friends on a Saturday night.
Sexta-feira, 4 de Junho de 2010
Profissão do outro lado do sonho
(tempo estimado de leitura: vá, é grandinho, uns 12-13 min... mas vale a pena)
Como muitos dos meus amigos (que até deviam ser muitos mas não são) já me ouviram dizer repetidas vezes, tenho uma profissão de sonho. Claro que não pretendo mostrar nenhum desrespeito à arte engenheirosa civilosa, nem à imodesta disciplina do planeamento urbano a que chamo casa (ahaha, pior piada da história), nem à graciosa e delicada arte literária, nem à gloriosa, sublime e perfeita sétima arte, nem mesmo aos devaneios teatrais a que me dedico amadoramente. Todas estas têm, claro, o seu lugar no meu gigantesco coração, mas nenhuma ocupa um espaço tão extenso no meu portfolio emocional como a que seguidamente apresento.
Estou a falar, obviamente, da insuperável profissão de tradutor de títulos de filmes. Não, não estou a gozar. Imaginem só. O trabalho consiste em ver à pala todos os novos filmes que estão a estrear e dar-lhes, basicamente, o título que me apetece, de acordo com a disposição emocional e a inspiração que sinto na altura. Ver filmes, liberdade poética, e receber ao fim do mês! Pode haver alguma coisa melhor que isso?
O desenvolvimento desta nobre profissão nos meandros portugueses encontra-se delimitada por duas vertentes. A primeira vertente é a chamada fase espanhola, que reinou até a meados dos anos 80. Se se reparar com atenção, um grande número de filmes que têm títulos assim, vá, mais para o esquisito, ou seja, títulos que não são exactamente uma tradução literal ou suficientemente parecida do original, são semelhantes ao dito título esquisito na versão espanhola. Simples: ou se traduz literalmente do original, ou se vai à espanhola e aportuguesa-se. Yupi. Seguem-se maravilhosos exemplos que me vêm assim de repente à cabeça. Temos o grande filme do Preston Sturges de 1942 chamado “The Palm Beach Story”, ao qual os espanhóis chamaram “Un marido rico” e ao qual nós chamamos… “Um Marido Rico”. Surpresa, surpresa, só mudamos um “n” por um “m”. Genial. Creio que a “Estória de Palm Beach” nunca passou pela cabeça de ninguém. Também temos o filme de 1976 do Mel Brooks chamado “Silent Movie” ao qual os espanhóis chamaram “La última locura”, e nós, sempre à coca de copiar mas bater os espanhóis em tudo, inovamos e chamamos ao dito “A última loucura de Mel Brooks”, só para que não haja dúvidas de quem é o realizador. De novo, “Filme Mudo” não passou pela cabeça de ninguém. Há outro Sturges, John Sturges, que em 1955 fez o fabuloso “Bad Day at Black Rock”. Os espanhóis chamaram-lhe “Conspiración de silencio” e nós… (tambores)… “A Conspiração do Silêncio”. Palavras para quê? Um dos filmes da Ealing de 1955 chama-se “The Ladikillers”. Espanhol: El Quinteto de la Muerte. Português: O quinteto era de cordas. Fogo, nem do espanhol conseguimos traduzir direito!
Os exemplos são eternos. Experimentemos “Mildred Pierce”, uma obra-prima, um dos 20 melhores filmes de sempre, realizado por Michael Curtiz dois anos após o “Casablanca”. Espanhol: “Alma en suplicio”. Português “Alma em suplício”. De novo a táctica do “n” pelo “m”. Deve ser moda. Para isso davam à Joan Crawford (que ganhou Oscar de actriz por esta personagem) o nome de “Nildred Pierce”, não? John Ford deu-nos no ano seguinte “My Darling Clementine”. Nuestros irmanos dizem “Pasion de los fuertes”, nós dizemos “Paixão dos Fortes”. Clementina, fortes, já estou a ver a relação. Num exemplo mais recente, o “Far and Away” de 1992 com o Tom Cruise, em espanhol chama-se “Un horizonte muy lejano” e nós, abéculas, chamamos-lhe “Horizonte longínquo”. Eu posso ser meio escanifobético, mas não vi ninguém em inglês falar em horizonte. Far, sim, away, sim, mas não vi horizon em lado nenhum.
Deve haver exemplos mais engraçados, mas dêem-me um desconto, não vou vasculhar nos 1200 filmes que tenho aqui em casa em prol de uma crónica que ninguém lê. Desgraçados! Mesmo assim, da parte dos espanhóis ainda percebo, os marmanjos traduzem tudo, nunca ouviram a verdadeira voz nem a entoação do Pacino, do Cruise, da Penelope, do Mat Damon, da Nicole… enfim, portanto se não virem o título original do filme também pouco se lhes importa, porque basicamente só estão a ver imagens iguais, se alguma coisa do resto for semelhante é mera coincidência. Agora nós, portugas, país abençoado a par da Holanda por termos a legendagem?! Não entendo.
E muito menos entendo esta seita secreta que foi criada com este propósito. Não sei quem são, se andam entre nós, comendo a nossa comida, andando no metro connosco, se são da nossa família, se são nossos amigos. Nunca ouvi falar de tais pessoas. Nunca ouvi ninguém dizer “O que faço da vida, perguntas tu? Eu traduzo títulos de filmes, pá!”. Já conheci pessoas que fazem legendagem. Já conheci pessoas que fazem dobragem. Mas nunca conheci pessoas que fazem tradução de títulos. Onde andam elas? Existem realmente? Vão às reuniões encapuçados e fazem rituais pagãos ao som de cantigas maçónicas? É um programa informático que as faz? Esta gente acorda de manhã, veste-se e vai para o emprego como os demais? Sai à noite, casa, tem filhos, vai ver a bola? E como é o seu dia-a-dia? Sentam-se numa sala envidraçada do último andar do edifício-sede da Lusomundo ou da Castelo Lopes e, debruçados sobre uma mesa, fazem um brainstorming, mostrando gráficos e usando aquelas canetinhas dos chineses que dão luzinhas vermelhas?
A segunda vertente encontra-se marcada por um afastamento da literatura dos nossos vizinhos geográficos, dos nossos irmãos ibéricos. Nesta fase, a independência na tradução dos filmes mais modernos alia-se a uma herança de meia dúzia de anciãos que, certamente há rebeldia dos espanhóis, traduziram os filmes no passado há medida que foram chegando e deixaram pastas bafientas e poeirentas numa cave que foram reivindicadas por este sangue novo. Digo isto porque há títulos de filmes bem antiguinhos cuja tradução espanhola é literal e a nossa inventa forte.
Temos o “White Heat” de 1949. Os espanhóis esmeraram-se com “Al rojo vivo”. Nós enveredamos pelo apelativo “Fúria Sangunária”. Temos o “To Kill a Mockingbird” que valeu o Oscar ao Gregory Peck. Espanhol: “Matar um ruisenor”, sim senhora. Português: “Na sombra e no silêncio”. Provavelmente estavam numa sala de cinema a ver Fellini quando fizeram esta tradução… “Yankee Doodle Dandy” de 1942. Os espanhóis quase que chegam lá com “Yanqui Dandy”, mas nós somos o povo de Camões e Pessoa, pelo que nada menos que “Canção triunfal” nos serve. Qual o problema do nome do filme ser o nome da canção? É preciso traduzir? “The Paleface” de 1948 com o Bob Hope. Os espanhóis fazem a literal, nós vamos para o Guiness com “O Valentão das Dúzias”. Não sei se hei-de rir ou chorar. O maior filme de natal de sempre “It’s a Wonderful Life” de 1946 do Capra com o Jimmy. Os espanhóis usam o duplo ponto de exclamação “¡Qué bello es vivir!”, mas nós optamos pelo cósmico “Do céu caiu uma estrela”. Deduzo que tenha caído mas é outra coisa do céu…. Os Arqueiros deram-nos em 1947 “Black Narcisus”. Os espanhóis fazem a literal, nós dizemos “Quando os Sinos dobram”, o que mais estúpido é quando se sabe que 3 anos antes houve o “For Whom the Bell Tolls” que nós (milagre) traduzimos bem: “Por quem os sinos dobram”. Então porquê a tradução de cima?! Houve greve do sindicato? “Sulivan’s Travels”, de novo do Preston Sturges (o homem era um desgraçado), é traduzido por “Quimera do Riso”. “Duck Soup” dos irmãos Marx por “Os grandes aldrabões”. Quem foi aldrabado fui eu! “The Maltese Falcon” com o Boggie por “Relíquia Macabra”, e até o grande, considerado por muitos o melhor filme de sempre, “Citizen Kane” de 1941 do Orson Wells, que os espanhóis tratam afectuosamente por “Ciudadano Kane”, nós dizemos, como quem não quer a coisa, “O Mundo a seus Pés”. Eu sei quem é que cheira mal dos pés, ou quem merece levar com os pés…
Continuando. “Chariots of Fire”, o famosos filme de 1981 sobre as olimpíadas que ganhou os prémios todos. Os espanhóis abordam a questão com “Carros de Fuego”. Nós optamos pela abordagem mais subtil de “Momentos de Glória”. Claro que a associação ao poema “Jerusalém” de William Blake que possui a estrofe “Bring me my bow of burning gold! Bring me my arrows of desire! Bring me my spear! O clouds, unfold! Bring me my chariot of fire!” e que constitui a essência do filme se perde, mas que interessa isso, quando podemos dizer “momentos de glória”? 1955 apresenta-nos “The Man from Laramie”. Os espanhóis optam pela tradução literal. Nós dizemos “O Homem que veio de longe”. Ok, eu sei que o povo português não sabe onde é Laramie, mas não sei até que ponto a dica de que é longe será relevante. Laramie é longe, ok, nice. E se o filme se chamar “The Man from New Zeland”? Será “O Homem que veio de ainda mais longe”? Hummm… “The Big Sleep” do Howard Hawks com o Boggie, de 1946. Os espanhóis variam com “El sueno eterno”. Mas nós não somos maricas. É logo “À beira do abismo”, como quem diz, se sonhas, é para caíres. Deixo a melhor desta leva para o fim, e de novo recorro ao Mel Brooks. “The Producers”, 1968. Os espanhóis, impecs, vão pela literal. Nós batemos tudo e não damos um, mas dois nomes ao filme. O primeiro nome, quando o filme saiu, deve ter sido tão vaiado que a seita secreta se sentiu obrigada a dar-lhe um segundo aquando da TV e do VHS. Claro que durante este longo processo ninguém se lembrou de dizer “Os Produtores”, o que é algo triste, diga-se de passagem. Portanto, nada como “Por favor não mexam nas velhinhas”. Não serve, este? Ah, então mudamos para “O falhado amoroso”…
Na realidade não sei o que se passa com esta gente. Será que eles acham que o público português é burgesso e estúpido e não vai perceber os títulos? Estarão eles a insultar-nos? Ou é uma imposição das salas de cinema portuguesas, que pensam que terão mais saída se os títulos forem apimentados um bocadinho? Será que ninguém vai ver um filme chamado “Dear John” (que eu traduziria por Querido John)? Chamá-lo “Juntos ao Luar” fará ter realmente mais bilhetes vendidos? Dar aos filmes do James Bond títulos como “Agente Secreto” (Dr. No), “Missão ultra-secreta” (For Your Eyes Only), “Ordem para Matar” (From Russia With Love), ou “Risco Imediato” (The Living Daylights), vai fazer as pessoas correrem para as salas do cinema? Eh pá, desta vez o James é agente secreto, está numa missão de alto risco ultra-secreta e tem ordem para matar! Yupi! Deve ser bom!... Give me a break. O meu cérebro aguenta a eloquência.
Estudando este fenómeno a fundo, chego à conclusão que presentemente há três grandes escolas.
A primeira escola é a lei do menor esforço, que basicamente consiste em não traduzir o título. Ou seja, usar o mesmo título tal e qual como ele está, sem tirar nem pôr. Creio ser este o exemplo clássico do atirar as folhas ao ar e aquelas que caem em cima do sofá ficam com o mesmo título. Isto poderá resultar para palavras inventadas ou coisas que não significam nada, como o “Stalker” de 1979 do Tarkovsky, ou nomes, como o “Frankenstein” de 1931 ou o mais recente “Tsotsi”. Agora, porque diabo é que o “Big” de 1988 com o Tom Hanks, se chama em português “Big”? Faltou a inspiração para traduzir a palavra complicada? Porque é que o “Dancer in the Dark” com a Bjork mantém o seu nome de “Dancer in the Dark”? Motivos de copyright? “Apocalypse Now” chama-se em português “Apolcalypse Now”. “Sideways” chama-se em português “Sideways”. “Memento” chama-se em português “Memento”. Ninguém se recorda de nada? “Shutter Island” em português é “Shutter Island”! O mesmo se passa com o “Shinning” do Kubrick. Até os espanhóis optaram por “El resplandor”. A minha única interpretação é porque tem estilo. “Eh pá, ontem vi o Shinning”! “O Memento é mesmo fixe, não é”? “E o Apocalypse Now do Coppolla? Que filme!” Do mesmo modo, o clássico (cof cof) de 1998 chamado “Armageddon” tem o surpreendente título em português de “Armageddon”. Não sei se esta gente sabe que existe uma palavra portuguesa tida como “armagedão” que tem o mesmo significado, por incrível que possa parecer. Mas dizer “pessoal, vamos ao cinema ver o Armagedão” não tem tanto estilo como dizer “pessoal, vamos ao cinema ver o Armageddon”. Ui, até sinto a glória nos lábios ao pronunciá-lo. Armageddon, Armageddon. Até me dá calafrios.
A segunda escola é manter o mesmo título mas colocar um traço com um acrescento à frente. Esta escola mantém o estilo cool da palavra original, mas permite também dar asas à imaginação. É a chamada escola meio-termo. “Traffic” transforma-se em “Traffic – ninguém sai ileso”. “Frenzy” do Hitchcock traduz-se por “Frenzy – Perigo na noite”. Uuuuu, fear. O clássico negro “Shaft” de 1971 ganha o cognome de “Shaft – Mafia em Nova Iorque”. Claro que o Shaft é o polícia que salva o dia e luta precisamente contra a máfia, mas não há de ser nada. “Scarface” de 1983 do Brian de Palma com o Pacino é agora “Scarface – A força do Poder”. O fabuloso “Blade Runner” vai para a posteridade com o nome de “Blade Runner – Perigo Iminente”. Até o clássico de 1931 “M” do Fritz Lang teve o acrescento de 4 letras: “Matou”. Que simpáticos são ao não só clarificarem a história, como avisarem sobre os perigos, os maus e os horrores que o filme poderá conter. Muito melhor do que a restrição “maiores de 16 anos”. Põe-se no título a ameaça e já está. O “Brockeback Mountain” é outro exemplo. Só que em vez do apêndice fizeram uma prequela: “O Segredo de Brockeback Mountain”. Mas aqui foram injustos, deviam ter avisado que o filme era uma merda: “A bosta de Borckeback Mountain” ou “O nojo de Brockeback Mountain”. Mas se calhar o acrescento do “segredo” era esse. “Pode vir ver o filme, mas terá um segredo… o filme não presta, foi só marketing pelo tema controverso”. Mais recentemente temos o “Shine” de 1996 que ficou “Shine – Simplesmente Genial”, o “Toy Story” que ficou “Toy Story – Os Rivais”, e até o Mel Gibson viu o seu menino tornar-se “Braveheart – O Desafio do Guerreiro”. E isto para não falar de todos os filmes do Alien…. Até o “Brazil” de 1985 do ex-Monty Python Terry Guilliam, é vítima deste fenómeno! Jesus, título mais simples que este para traduzir não há! Especialmente para Portugueses. Agora não há desculpas de que o público não ia entender o título! Mas não, passa a ser “Brasil – o outro lado do sonho”. O outro lado do sonho?! Tomaste ácido ó badameco? A tua mulher não te satisfaz? Enfia o sonho pelo traseiro acima a ver se acordas para a vida.
Por fim, o mais esperado estilo moderno de tradução, completamente livre das amarras espanholas, e que dá valor à vida incipiente destas abéculas, é o chamado estilo livre. Imagino como anseiam pelo dúbio título em inglês, ou pelo título que o comité de avaliação decida que o público português, estúpido como é, não irá entender. Imagino como anseiam a chegada dessa hora divinal para libertarem a sua veia poética e criarem pequenos versos inspirados que perdurarão nos corações do povo lusitano. Camões pode viver uma eternidade em nós, mas “O Amor é um lugar estranho” como tradução de “Lost in Translation” vai viver uma eternidade mais um dia. Sempre sonhei fazer um filme em Hollywood chamado “Love is a Strange Place” só para saber como é que iria ser traduzido em Portugal. Sugiro “A porca e a alavanca” ou “Um Natal genial” ou “O pai está nú porque a mãe está na cozinha”. Dou dois exemplos, um mais antigo e um mais moderno. O filme (horrível já agora) “McCabe e Mrs Miller” de 1971, traduzido pelos espanhóis como “Los Vividores” chama-se entre nós “A noite fez-se para Amar”. “Rushmore” do Wes Anderson de 1998 (que os espanhóis traduziram por “Academia Rushmore”) chama-se em português “Todos Gostam da Mesma”. Eu é que não gosto disto.
E para que não me acusem de ir buscar só os exemplos que me convêm, abro o jornal (leia-se cinema.sapo.pt) e vejo as estreias recentes. Para além do “Dear John” já referido, alegro-me em dizer que “Edge of Darkness” é “Fora de Controlo” (o descontrolo desta gente afecta-me), “The Blind Side” é “Um Sonho Possível” (eu tenho um sonho de dar uma tareia a estes indivíduos, será possível?), “It’s Complicated” é “Amar… é complicado” (é complicado não acrescentarem nada!), “The Imaginarium of Doctor Parnassus” é “Parnassus - O Homem que queria enganar o Diabo” (alguém me está a enganar mas é), “John Rabe” é “O Negociador” (o que há com o nome de pessoas? o publico não saberá eventualmente que todas as pessoas têm um nome?), “The Backup Plan” é o “Plano B…ébé” (bom trocadilho mas no original ninguém pensou nisso ó badamecos, se querem ser tão espertos como os de Hollywood façam filmes bons e não títulos bons), “The Fourth Kind” é “Encontros Imediatos de 4º Grau” (mais uma tentativa de serem espertos), “The Bounty Hunter” é “Ex-mulher procura-se” (uau! Que nome não darão ao Boba Fett – piada para StarWars geeks), “Shrink” (que, que eu saiba é psiquiatra) passa a ser “A mente dos famosos”, “The Answer Man” passa a ser “Eu e Deus”… deve ter sido certamente por causa da visita do Papa.
E quando finalmente aparece um título à portuguesa “The Bad Lieutenant – Port of Call: New Orleans” com traços e tudo, que fazem? Chamam-lhe “Polícia sem Lei”… Tristeza, que insipiência. E que tal “Polícia sem Lei – o massacre de Nova Orleães”? Soa bem, não? “Polícia sem Lei – Chamada para a Vingança”? E por falar em vingança, esqueci-me de todos os filmes do Stallone e do Chuck Norris. Os filmes “Delta Force” chamados “Desaparecido em Combate”, os filmes do “Rambo” portuguesmente chamados “A Fúria do Herói”…
Bem, podia ficar aqui para sempre, e isto já vai longo. Estes tipos são os meus heróis, pela maneira como criaram todo um novo estilo literário aliado a uma arte que adoro. O sonho da minha vida é um dia poder ser como eles, e brindar as audiências com motivos alargados de discussão para além do filme e das personagens. Contudo, por vezes fico desapontado e boquiaberto. O novo filme do Tom Cruise que chega no Verão chama-se “Knight and Day”, num bem conseguido trocadilho. E estes artistas da palavra, que tanto nos dão, o máximo que conseguem produzir desta vez é “Dia e Noite”?! Estou pesaroso. Preciso de entrar eu na seita para espevitar a coisa um bocadinho.
Profissão de sonho sem dúvida, e receberei qualquer oferta que me seja proposta. Faço tudo menos arrancar olhos para conseguir essa posição. Mas só em Portugal. No Brasil recuso-me. Bem me lembro de estar lá numa loja e ver que a “Musica no Coração” (a nossa abordagem a Sound of Music… onde eles foram desencantar o coração não sei já que em espanhol é “Sonrisas y lágrimas” – nem vou comentar o espanhol) se chama “A Noviça Rebelde”. Não, no Brasil não. Mas em Portugal sim. Só não conseguimos baixar o défice e ganhar uma competição internacional de futebol. Mas conseguimos dar ao grande vencedor dos Oscares de 1945 “The Lost Weekend” o grandioso nome de “Farrapo Humano”. Eu sei que é assim que todos nós nos sentimos após um lost weekend, especialmente se for de Queima, mas enfim, a mudança de nome não vai contribuir muito para a felicidade do país, muito menos para a minha… a não ser que seja EU a fazê-la, e a receber por isso!
Como muitos dos meus amigos (que até deviam ser muitos mas não são) já me ouviram dizer repetidas vezes, tenho uma profissão de sonho. Claro que não pretendo mostrar nenhum desrespeito à arte engenheirosa civilosa, nem à imodesta disciplina do planeamento urbano a que chamo casa (ahaha, pior piada da história), nem à graciosa e delicada arte literária, nem à gloriosa, sublime e perfeita sétima arte, nem mesmo aos devaneios teatrais a que me dedico amadoramente. Todas estas têm, claro, o seu lugar no meu gigantesco coração, mas nenhuma ocupa um espaço tão extenso no meu portfolio emocional como a que seguidamente apresento.
Estou a falar, obviamente, da insuperável profissão de tradutor de títulos de filmes. Não, não estou a gozar. Imaginem só. O trabalho consiste em ver à pala todos os novos filmes que estão a estrear e dar-lhes, basicamente, o título que me apetece, de acordo com a disposição emocional e a inspiração que sinto na altura. Ver filmes, liberdade poética, e receber ao fim do mês! Pode haver alguma coisa melhor que isso?
O desenvolvimento desta nobre profissão nos meandros portugueses encontra-se delimitada por duas vertentes. A primeira vertente é a chamada fase espanhola, que reinou até a meados dos anos 80. Se se reparar com atenção, um grande número de filmes que têm títulos assim, vá, mais para o esquisito, ou seja, títulos que não são exactamente uma tradução literal ou suficientemente parecida do original, são semelhantes ao dito título esquisito na versão espanhola. Simples: ou se traduz literalmente do original, ou se vai à espanhola e aportuguesa-se. Yupi. Seguem-se maravilhosos exemplos que me vêm assim de repente à cabeça. Temos o grande filme do Preston Sturges de 1942 chamado “The Palm Beach Story”, ao qual os espanhóis chamaram “Un marido rico” e ao qual nós chamamos… “Um Marido Rico”. Surpresa, surpresa, só mudamos um “n” por um “m”. Genial. Creio que a “Estória de Palm Beach” nunca passou pela cabeça de ninguém. Também temos o filme de 1976 do Mel Brooks chamado “Silent Movie” ao qual os espanhóis chamaram “La última locura”, e nós, sempre à coca de copiar mas bater os espanhóis em tudo, inovamos e chamamos ao dito “A última loucura de Mel Brooks”, só para que não haja dúvidas de quem é o realizador. De novo, “Filme Mudo” não passou pela cabeça de ninguém. Há outro Sturges, John Sturges, que em 1955 fez o fabuloso “Bad Day at Black Rock”. Os espanhóis chamaram-lhe “Conspiración de silencio” e nós… (tambores)… “A Conspiração do Silêncio”. Palavras para quê? Um dos filmes da Ealing de 1955 chama-se “The Ladikillers”. Espanhol: El Quinteto de la Muerte. Português: O quinteto era de cordas. Fogo, nem do espanhol conseguimos traduzir direito!
Os exemplos são eternos. Experimentemos “Mildred Pierce”, uma obra-prima, um dos 20 melhores filmes de sempre, realizado por Michael Curtiz dois anos após o “Casablanca”. Espanhol: “Alma en suplicio”. Português “Alma em suplício”. De novo a táctica do “n” pelo “m”. Deve ser moda. Para isso davam à Joan Crawford (que ganhou Oscar de actriz por esta personagem) o nome de “Nildred Pierce”, não? John Ford deu-nos no ano seguinte “My Darling Clementine”. Nuestros irmanos dizem “Pasion de los fuertes”, nós dizemos “Paixão dos Fortes”. Clementina, fortes, já estou a ver a relação. Num exemplo mais recente, o “Far and Away” de 1992 com o Tom Cruise, em espanhol chama-se “Un horizonte muy lejano” e nós, abéculas, chamamos-lhe “Horizonte longínquo”. Eu posso ser meio escanifobético, mas não vi ninguém em inglês falar em horizonte. Far, sim, away, sim, mas não vi horizon em lado nenhum.
Deve haver exemplos mais engraçados, mas dêem-me um desconto, não vou vasculhar nos 1200 filmes que tenho aqui em casa em prol de uma crónica que ninguém lê. Desgraçados! Mesmo assim, da parte dos espanhóis ainda percebo, os marmanjos traduzem tudo, nunca ouviram a verdadeira voz nem a entoação do Pacino, do Cruise, da Penelope, do Mat Damon, da Nicole… enfim, portanto se não virem o título original do filme também pouco se lhes importa, porque basicamente só estão a ver imagens iguais, se alguma coisa do resto for semelhante é mera coincidência. Agora nós, portugas, país abençoado a par da Holanda por termos a legendagem?! Não entendo.
E muito menos entendo esta seita secreta que foi criada com este propósito. Não sei quem são, se andam entre nós, comendo a nossa comida, andando no metro connosco, se são da nossa família, se são nossos amigos. Nunca ouvi falar de tais pessoas. Nunca ouvi ninguém dizer “O que faço da vida, perguntas tu? Eu traduzo títulos de filmes, pá!”. Já conheci pessoas que fazem legendagem. Já conheci pessoas que fazem dobragem. Mas nunca conheci pessoas que fazem tradução de títulos. Onde andam elas? Existem realmente? Vão às reuniões encapuçados e fazem rituais pagãos ao som de cantigas maçónicas? É um programa informático que as faz? Esta gente acorda de manhã, veste-se e vai para o emprego como os demais? Sai à noite, casa, tem filhos, vai ver a bola? E como é o seu dia-a-dia? Sentam-se numa sala envidraçada do último andar do edifício-sede da Lusomundo ou da Castelo Lopes e, debruçados sobre uma mesa, fazem um brainstorming, mostrando gráficos e usando aquelas canetinhas dos chineses que dão luzinhas vermelhas?
A segunda vertente encontra-se marcada por um afastamento da literatura dos nossos vizinhos geográficos, dos nossos irmãos ibéricos. Nesta fase, a independência na tradução dos filmes mais modernos alia-se a uma herança de meia dúzia de anciãos que, certamente há rebeldia dos espanhóis, traduziram os filmes no passado há medida que foram chegando e deixaram pastas bafientas e poeirentas numa cave que foram reivindicadas por este sangue novo. Digo isto porque há títulos de filmes bem antiguinhos cuja tradução espanhola é literal e a nossa inventa forte.
Temos o “White Heat” de 1949. Os espanhóis esmeraram-se com “Al rojo vivo”. Nós enveredamos pelo apelativo “Fúria Sangunária”. Temos o “To Kill a Mockingbird” que valeu o Oscar ao Gregory Peck. Espanhol: “Matar um ruisenor”, sim senhora. Português: “Na sombra e no silêncio”. Provavelmente estavam numa sala de cinema a ver Fellini quando fizeram esta tradução… “Yankee Doodle Dandy” de 1942. Os espanhóis quase que chegam lá com “Yanqui Dandy”, mas nós somos o povo de Camões e Pessoa, pelo que nada menos que “Canção triunfal” nos serve. Qual o problema do nome do filme ser o nome da canção? É preciso traduzir? “The Paleface” de 1948 com o Bob Hope. Os espanhóis fazem a literal, nós vamos para o Guiness com “O Valentão das Dúzias”. Não sei se hei-de rir ou chorar. O maior filme de natal de sempre “It’s a Wonderful Life” de 1946 do Capra com o Jimmy. Os espanhóis usam o duplo ponto de exclamação “¡Qué bello es vivir!”, mas nós optamos pelo cósmico “Do céu caiu uma estrela”. Deduzo que tenha caído mas é outra coisa do céu…. Os Arqueiros deram-nos em 1947 “Black Narcisus”. Os espanhóis fazem a literal, nós dizemos “Quando os Sinos dobram”, o que mais estúpido é quando se sabe que 3 anos antes houve o “For Whom the Bell Tolls” que nós (milagre) traduzimos bem: “Por quem os sinos dobram”. Então porquê a tradução de cima?! Houve greve do sindicato? “Sulivan’s Travels”, de novo do Preston Sturges (o homem era um desgraçado), é traduzido por “Quimera do Riso”. “Duck Soup” dos irmãos Marx por “Os grandes aldrabões”. Quem foi aldrabado fui eu! “The Maltese Falcon” com o Boggie por “Relíquia Macabra”, e até o grande, considerado por muitos o melhor filme de sempre, “Citizen Kane” de 1941 do Orson Wells, que os espanhóis tratam afectuosamente por “Ciudadano Kane”, nós dizemos, como quem não quer a coisa, “O Mundo a seus Pés”. Eu sei quem é que cheira mal dos pés, ou quem merece levar com os pés…
Continuando. “Chariots of Fire”, o famosos filme de 1981 sobre as olimpíadas que ganhou os prémios todos. Os espanhóis abordam a questão com “Carros de Fuego”. Nós optamos pela abordagem mais subtil de “Momentos de Glória”. Claro que a associação ao poema “Jerusalém” de William Blake que possui a estrofe “Bring me my bow of burning gold! Bring me my arrows of desire! Bring me my spear! O clouds, unfold! Bring me my chariot of fire!” e que constitui a essência do filme se perde, mas que interessa isso, quando podemos dizer “momentos de glória”? 1955 apresenta-nos “The Man from Laramie”. Os espanhóis optam pela tradução literal. Nós dizemos “O Homem que veio de longe”. Ok, eu sei que o povo português não sabe onde é Laramie, mas não sei até que ponto a dica de que é longe será relevante. Laramie é longe, ok, nice. E se o filme se chamar “The Man from New Zeland”? Será “O Homem que veio de ainda mais longe”? Hummm… “The Big Sleep” do Howard Hawks com o Boggie, de 1946. Os espanhóis variam com “El sueno eterno”. Mas nós não somos maricas. É logo “À beira do abismo”, como quem diz, se sonhas, é para caíres. Deixo a melhor desta leva para o fim, e de novo recorro ao Mel Brooks. “The Producers”, 1968. Os espanhóis, impecs, vão pela literal. Nós batemos tudo e não damos um, mas dois nomes ao filme. O primeiro nome, quando o filme saiu, deve ter sido tão vaiado que a seita secreta se sentiu obrigada a dar-lhe um segundo aquando da TV e do VHS. Claro que durante este longo processo ninguém se lembrou de dizer “Os Produtores”, o que é algo triste, diga-se de passagem. Portanto, nada como “Por favor não mexam nas velhinhas”. Não serve, este? Ah, então mudamos para “O falhado amoroso”…
Na realidade não sei o que se passa com esta gente. Será que eles acham que o público português é burgesso e estúpido e não vai perceber os títulos? Estarão eles a insultar-nos? Ou é uma imposição das salas de cinema portuguesas, que pensam que terão mais saída se os títulos forem apimentados um bocadinho? Será que ninguém vai ver um filme chamado “Dear John” (que eu traduziria por Querido John)? Chamá-lo “Juntos ao Luar” fará ter realmente mais bilhetes vendidos? Dar aos filmes do James Bond títulos como “Agente Secreto” (Dr. No), “Missão ultra-secreta” (For Your Eyes Only), “Ordem para Matar” (From Russia With Love), ou “Risco Imediato” (The Living Daylights), vai fazer as pessoas correrem para as salas do cinema? Eh pá, desta vez o James é agente secreto, está numa missão de alto risco ultra-secreta e tem ordem para matar! Yupi! Deve ser bom!... Give me a break. O meu cérebro aguenta a eloquência.
Estudando este fenómeno a fundo, chego à conclusão que presentemente há três grandes escolas.
A primeira escola é a lei do menor esforço, que basicamente consiste em não traduzir o título. Ou seja, usar o mesmo título tal e qual como ele está, sem tirar nem pôr. Creio ser este o exemplo clássico do atirar as folhas ao ar e aquelas que caem em cima do sofá ficam com o mesmo título. Isto poderá resultar para palavras inventadas ou coisas que não significam nada, como o “Stalker” de 1979 do Tarkovsky, ou nomes, como o “Frankenstein” de 1931 ou o mais recente “Tsotsi”. Agora, porque diabo é que o “Big” de 1988 com o Tom Hanks, se chama em português “Big”? Faltou a inspiração para traduzir a palavra complicada? Porque é que o “Dancer in the Dark” com a Bjork mantém o seu nome de “Dancer in the Dark”? Motivos de copyright? “Apocalypse Now” chama-se em português “Apolcalypse Now”. “Sideways” chama-se em português “Sideways”. “Memento” chama-se em português “Memento”. Ninguém se recorda de nada? “Shutter Island” em português é “Shutter Island”! O mesmo se passa com o “Shinning” do Kubrick. Até os espanhóis optaram por “El resplandor”. A minha única interpretação é porque tem estilo. “Eh pá, ontem vi o Shinning”! “O Memento é mesmo fixe, não é”? “E o Apocalypse Now do Coppolla? Que filme!” Do mesmo modo, o clássico (cof cof) de 1998 chamado “Armageddon” tem o surpreendente título em português de “Armageddon”. Não sei se esta gente sabe que existe uma palavra portuguesa tida como “armagedão” que tem o mesmo significado, por incrível que possa parecer. Mas dizer “pessoal, vamos ao cinema ver o Armagedão” não tem tanto estilo como dizer “pessoal, vamos ao cinema ver o Armageddon”. Ui, até sinto a glória nos lábios ao pronunciá-lo. Armageddon, Armageddon. Até me dá calafrios.
A segunda escola é manter o mesmo título mas colocar um traço com um acrescento à frente. Esta escola mantém o estilo cool da palavra original, mas permite também dar asas à imaginação. É a chamada escola meio-termo. “Traffic” transforma-se em “Traffic – ninguém sai ileso”. “Frenzy” do Hitchcock traduz-se por “Frenzy – Perigo na noite”. Uuuuu, fear. O clássico negro “Shaft” de 1971 ganha o cognome de “Shaft – Mafia em Nova Iorque”. Claro que o Shaft é o polícia que salva o dia e luta precisamente contra a máfia, mas não há de ser nada. “Scarface” de 1983 do Brian de Palma com o Pacino é agora “Scarface – A força do Poder”. O fabuloso “Blade Runner” vai para a posteridade com o nome de “Blade Runner – Perigo Iminente”. Até o clássico de 1931 “M” do Fritz Lang teve o acrescento de 4 letras: “Matou”. Que simpáticos são ao não só clarificarem a história, como avisarem sobre os perigos, os maus e os horrores que o filme poderá conter. Muito melhor do que a restrição “maiores de 16 anos”. Põe-se no título a ameaça e já está. O “Brockeback Mountain” é outro exemplo. Só que em vez do apêndice fizeram uma prequela: “O Segredo de Brockeback Mountain”. Mas aqui foram injustos, deviam ter avisado que o filme era uma merda: “A bosta de Borckeback Mountain” ou “O nojo de Brockeback Mountain”. Mas se calhar o acrescento do “segredo” era esse. “Pode vir ver o filme, mas terá um segredo… o filme não presta, foi só marketing pelo tema controverso”. Mais recentemente temos o “Shine” de 1996 que ficou “Shine – Simplesmente Genial”, o “Toy Story” que ficou “Toy Story – Os Rivais”, e até o Mel Gibson viu o seu menino tornar-se “Braveheart – O Desafio do Guerreiro”. E isto para não falar de todos os filmes do Alien…. Até o “Brazil” de 1985 do ex-Monty Python Terry Guilliam, é vítima deste fenómeno! Jesus, título mais simples que este para traduzir não há! Especialmente para Portugueses. Agora não há desculpas de que o público não ia entender o título! Mas não, passa a ser “Brasil – o outro lado do sonho”. O outro lado do sonho?! Tomaste ácido ó badameco? A tua mulher não te satisfaz? Enfia o sonho pelo traseiro acima a ver se acordas para a vida.
Por fim, o mais esperado estilo moderno de tradução, completamente livre das amarras espanholas, e que dá valor à vida incipiente destas abéculas, é o chamado estilo livre. Imagino como anseiam pelo dúbio título em inglês, ou pelo título que o comité de avaliação decida que o público português, estúpido como é, não irá entender. Imagino como anseiam a chegada dessa hora divinal para libertarem a sua veia poética e criarem pequenos versos inspirados que perdurarão nos corações do povo lusitano. Camões pode viver uma eternidade em nós, mas “O Amor é um lugar estranho” como tradução de “Lost in Translation” vai viver uma eternidade mais um dia. Sempre sonhei fazer um filme em Hollywood chamado “Love is a Strange Place” só para saber como é que iria ser traduzido em Portugal. Sugiro “A porca e a alavanca” ou “Um Natal genial” ou “O pai está nú porque a mãe está na cozinha”. Dou dois exemplos, um mais antigo e um mais moderno. O filme (horrível já agora) “McCabe e Mrs Miller” de 1971, traduzido pelos espanhóis como “Los Vividores” chama-se entre nós “A noite fez-se para Amar”. “Rushmore” do Wes Anderson de 1998 (que os espanhóis traduziram por “Academia Rushmore”) chama-se em português “Todos Gostam da Mesma”. Eu é que não gosto disto.
E para que não me acusem de ir buscar só os exemplos que me convêm, abro o jornal (leia-se cinema.sapo.pt) e vejo as estreias recentes. Para além do “Dear John” já referido, alegro-me em dizer que “Edge of Darkness” é “Fora de Controlo” (o descontrolo desta gente afecta-me), “The Blind Side” é “Um Sonho Possível” (eu tenho um sonho de dar uma tareia a estes indivíduos, será possível?), “It’s Complicated” é “Amar… é complicado” (é complicado não acrescentarem nada!), “The Imaginarium of Doctor Parnassus” é “Parnassus - O Homem que queria enganar o Diabo” (alguém me está a enganar mas é), “John Rabe” é “O Negociador” (o que há com o nome de pessoas? o publico não saberá eventualmente que todas as pessoas têm um nome?), “The Backup Plan” é o “Plano B…ébé” (bom trocadilho mas no original ninguém pensou nisso ó badamecos, se querem ser tão espertos como os de Hollywood façam filmes bons e não títulos bons), “The Fourth Kind” é “Encontros Imediatos de 4º Grau” (mais uma tentativa de serem espertos), “The Bounty Hunter” é “Ex-mulher procura-se” (uau! Que nome não darão ao Boba Fett – piada para StarWars geeks), “Shrink” (que, que eu saiba é psiquiatra) passa a ser “A mente dos famosos”, “The Answer Man” passa a ser “Eu e Deus”… deve ter sido certamente por causa da visita do Papa.
E quando finalmente aparece um título à portuguesa “The Bad Lieutenant – Port of Call: New Orleans” com traços e tudo, que fazem? Chamam-lhe “Polícia sem Lei”… Tristeza, que insipiência. E que tal “Polícia sem Lei – o massacre de Nova Orleães”? Soa bem, não? “Polícia sem Lei – Chamada para a Vingança”? E por falar em vingança, esqueci-me de todos os filmes do Stallone e do Chuck Norris. Os filmes “Delta Force” chamados “Desaparecido em Combate”, os filmes do “Rambo” portuguesmente chamados “A Fúria do Herói”…
Bem, podia ficar aqui para sempre, e isto já vai longo. Estes tipos são os meus heróis, pela maneira como criaram todo um novo estilo literário aliado a uma arte que adoro. O sonho da minha vida é um dia poder ser como eles, e brindar as audiências com motivos alargados de discussão para além do filme e das personagens. Contudo, por vezes fico desapontado e boquiaberto. O novo filme do Tom Cruise que chega no Verão chama-se “Knight and Day”, num bem conseguido trocadilho. E estes artistas da palavra, que tanto nos dão, o máximo que conseguem produzir desta vez é “Dia e Noite”?! Estou pesaroso. Preciso de entrar eu na seita para espevitar a coisa um bocadinho.
Profissão de sonho sem dúvida, e receberei qualquer oferta que me seja proposta. Faço tudo menos arrancar olhos para conseguir essa posição. Mas só em Portugal. No Brasil recuso-me. Bem me lembro de estar lá numa loja e ver que a “Musica no Coração” (a nossa abordagem a Sound of Music… onde eles foram desencantar o coração não sei já que em espanhol é “Sonrisas y lágrimas” – nem vou comentar o espanhol) se chama “A Noviça Rebelde”. Não, no Brasil não. Mas em Portugal sim. Só não conseguimos baixar o défice e ganhar uma competição internacional de futebol. Mas conseguimos dar ao grande vencedor dos Oscares de 1945 “The Lost Weekend” o grandioso nome de “Farrapo Humano”. Eu sei que é assim que todos nós nos sentimos após um lost weekend, especialmente se for de Queima, mas enfim, a mudança de nome não vai contribuir muito para a felicidade do país, muito menos para a minha… a não ser que seja EU a fazê-la, e a receber por isso!
Quarta-feira, 2 de Junho de 2010
24 Hour Party People (2002)

"24 Hour Party People" is not really a movie and is not really a documentary. This being so, and although the movie is good, the sum of its parts is bigger than the whole, and the movie becomes unbalanced in its narrative. It basically describes the late 70s, early 80s, movement occurring in Manchester where a new kind of music emerged through Joy Division, New Order and Happy Mondays, and the man that made it happen: Tony Wilson, played by Steve Coogan, a natural for the part. But the movie chooses to present the story by breaking the 4th dimension. Coogan speaks many times directly to the camera, being an omniscient character who knows everything. He says thinks like: "he is so and so, in a year he will create a new band and will eventually sleep with my wife", as the action is occurring behind him. Also, he presents the cameos: this is the real guitar player making a cameo as a waiter, who was played in this film by that guy. This is funny a couple of times but makes the movie loose its reality. Even so, I believe the movie is aware of it. Most flaws the movie has are excused by comments on Coogan's part. There's one point where he quotes "The Man who Shot Liberty Valence" by saying that between the legend and the fact, print the legend. And the movie is a lot of small scenes, small legends, about the three major bands portrayed, about the sex, the drugs, the drums and the rock and roll, and about Wilson himself. The gigs, the record deals, the rise to fame and the fall from grace, all are displayed in a never deep nor serious way, with funny sketches from TV shows Wilson did to gain money stuck in between. There is one point where all of a sudden his grown son appears for the first time, and he turns to the camera and says "ah, forgot to mention I had a son". But later he says that the movie is not about him, its about the music and the bands and the venues. And it really is so, but it is given in such a dream-like fashion that it is just legend and entertainment, not a very worth documentary of the real 24 hour party people. But it flows well, and mixes live footage in the scenes. Unfortunately, the photography was the worse, every shot seemed to have a different colour setting, from black and white footage, to fuzzy TV footage, to perfect studio cinematography, to greyish exteriors usual in 70s movies. It does not go down well indeed such constant changes. In the end, the movie is more of an homage and a private joke, as it had the involvement of many of the real characters. It keeps to the rhythm of the movement, and not even Ian Curtis' death (Joy Division's lead singer at 24 years of age) breaks the movie's light tone. Fans of the bands will love, other will enjoy a music history lesson but beware, I am sure most of that is just made up. Example: before Curtis dies he has a discussion with Wilson about the glory of dying young. Convenient, no? As I said, an homage to one of the last great musical movements.
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