Sinceramente, e digo isto com toda a honestidade que minha sinceridade permite, há desportos que me enervam sobremaneira.
Fui, sou, e, se a saúde me permitir, sempre serei um desportista. Um desportista de desportos a sério, bem entendido. Porque se é para me divertir, exercitar e quiçá tonificar (quiçá porque o meu corpo enfezadito continua enfezadito), então que seja com alguma actividade minimamente lógica, interessante, satisfatória e que, acima de tudo, não enerve sobremaneira rapazes honestos e simpáticos como eu.
Tomemos a marcha, essa magnífica modalidade do atletismo. Sem me permitem uma questão: mas o que é aquilo? Sinceramente, o que é aquilo? Correr, sim senhora, tem toda a lógica do mundo. Estou com pressa, corro. Quero dar uma volta à pista mais depressa que os meus adversários, corro. Tenho obstáculos à frente, salto barreiras. Mas em que circunstâncias da vida é que uma pessoa faz um movimento de locomoção apressado onde, e passo a citar, ‘se executa uma progressão de passos de maneira que se mantenha sempre contacto com o solo com, pelo menos, um dos pés, sendo que a perna que avança tem que estar recta, (ou seja, não flectida) desde o momento do primeiro contacto com o solo até que se encontre em posição vertical’? Que eu saiba nunca! Se querem andar depressa que corram, não façam um movimento completamente amaricado! Porque diabo é que não podem tirar um dos pés do chão? Porque diabo é que têm de ter a perna recta (ou seja, não flectida)? Só posso concluir que o tipo que inventou a marcha era um corredor que, coitadinho, um dia partiu a perna. Engessado, desgraçado, e não podendo flectir a perna, lá inventou o raio do desporto, para se divertir. E por muito espanto seu, tenho a certeza, a moda pegou. Mas qual é a piada disto? Qual é a lógica? É para seduzir as miúdas aquele dar de ancas? Se é isso, não me parece que resulte. Então só pode ser aquele prazer macabro da perna partida. Qual de nós não pediu as muletas a um amigo engessado, para dar umas curvas? E fizeram disso desporto!
Tomemos o curling, um desporto magnífico, apenas atrás em magnificência do bóccia. O curling poderá ter os maiores conceitos físicos alguma vez aplicados a um desporto. Para jogá-lo poderá ser preciso andar em Harvard, Oxford, Yale, no MIT e na C+S do Cartaxo (por esta ordem). Poderá fazer a delícia das pessoas que fazem exames nacionais: “um jogador de curling lança um peso a 3 km/h que bate noutro localizado a 20 metros de distância, em estado de repouso, sendo que o atrito do chão é…”. Mas se, por breves segundos, esquecermos todas estas considerações, chegamos à rápida conclusão que o curling consiste única e simplesmente em limpar o chão com uma vassoura. Resumindo, é um desporto de limpar o chão. Provavelmente foi inventado por uma empregada da limpeza (perdão, profissional de limpeza). ‘Que fazes com essa vassoura, Clodoalda, hoje não é o teu dia de folga’? ‘É sim, mas vou jogar Curling’! ‘Ah, bom’! Nunca percebi porque é que Portugal não tem uma equipa de curling. Talvez porque os portugueses, orgulhosos como são, não querem ir para a praça pública limpar o chão. Muito menos receber medalhas por isso. Só pode. Os Noruegueses e os Suecos podem. Mas nós não. Estamos acima disso. Mas provavelmente daqui a alguns anos vamos estar em condições de mandar uma equipa. Toda com Ucranianos e PALOPs, que é quem anda a fazer as nossas limpezas. Ou gestores dos bancos. Esses também limpam bem.
Tomemos os desportos oficiais americanos, o basebol e o futebol americano. Dizem que o golfe é o desporto dos reformados. Não concordo. No golfe, entre tacadas, ainda se anda a pé, ou se não a pé, ainda se mexe os pulso a conduzir o carrinho. No basebol e no futebol americano, entre jogadas, nem se anda a pé, nem se mexe os pulsos. Não se mexe absolutamente nada. Por cada 5 segundos de jogada há 5 minutos de pausa. Sem dúvida porque os 5 segundos devem ser extremamente esgotantes. Mexer num chapéu e fazer sinais com o nariz é deveras esgotante. Ah, e cuspir para o chão. Esgota as glândulas. Não admira que os americanos sejam lentos de raciocínio. Até no desporto precisam de largos períodos de pausa antes de passar à acção. Contudo essa acção é sempre intensa. O desporto é que não. Mas os americanos sabem sempre ser eficientes. Por exemplo, o desporto é concebido de maneira ao público poder descansar. Cura insónias. E ainda dizem mal do seu sistema de saúde.
Tomemos o futebol. Sim, o futebol, nomeadamente o futebol das classes mais jovens. As esperanças dizem eles. As esperanças que não são contratados por clubes da primeira divisão portuguesa. As esperanças que ninguém conhece, ninguém sabe, nem quer saber. As esperanças que não têm esperança. As esperanças que não recebem homenagens no Parque Eduardo Sétimo antes de partir. As esperanças que não têm direito a bandeiras nas janelas. As esperanças que não são Nani, nem Ronaldo, nem Miguel Veloso, essa maravilhosa geração que fez maravilhas no último mundial de juniores, essa maravilhosa geração que fez maravilhas nos últimos jogos Olímpicos, com exibições maravilhosamente vergonhosas. As esperanças cujos primeiros jogos na Colômbia nem sequer foram publicitados. As esperanças cujos resumos nem sequer davam no telejornal no dia seguinte. Até ao dia em que se qualificam. E aí tudo muda. E aí já são a geração coragem. Aí já são a selecção das estrelas do colectivo. Aí já há reportagens de analogia com a geração de ouro de 89 e 91. Aí já a TMN apoia a selecção. Onde estava a TMN quando partiram? Onde estavam os jornais, as bandeiras, as homenagens no Parque Eduardo Sétimo? Estes rapazes fizeram mais do que qualquer selecção de esperanças nos últimos 20 anos. Estes rapazes fizeram aquilo que os Nanis, os Coentrões, os Velosos nunca fizeram. A estes rapazes ninguém dá cavaco. Podem jogar pouco, mas jogam com garra. Não são umas sanguessugas que se agarram ao mérito que não têm, nem ao nome que adquiriram porque conhecem A, B ou C, ou jogam aqui ou ali. Estes rapazes deviam mandar todas as sanguessugas de jornalistas, comentadores, TMNs, empresários dar a volta ao bilhar grande, porque sem apoios, sem nome, sem publicidade, sem homenagens conseguiram verdadeiramente ser campeões. E provaram-no no campo. Não na conferência de imprensa. Não no Parque Eduardo Sétimo. Força Portugal! Esta noite, espetem o campeonato pela goela abaixo desses mafarricos. E que vão para o diabo essas sanguessugas, porque esses sim, sinceramente, enervam-me sobremaneira.
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