Domingo, 18 de Setembro de 2011
‘Midnight in Paris’ (2011)
Há poucas coisas que são certas na vida. Mas uma delas é que Woody Allen faz um filme por ano, e que esse filme, embora pecando por possuir o mesmo tom e estilo ano após ano, terá sempre um certo nível de qualidade, e possuirá mais uma contribuição de magia (mesmo que pequena) ao grande ecrã.
Uma das vantagens de lançar filmes ‘parecidos’ todos os anos, é que quando se faz um filme menos conseguido (perífrase para mau), facilmente este é esquecido pelo público com o lançamento do seguinte. O fraco ‘Melinda and Melinda’ foi seguido do genial ‘Match Point’; os esquecidos ‘September’ e ‘Another Woman’ foram seguidos pelos muito melhores ‘Crimes and Misdemeanors’ e ‘Alice’. Da mesma forma, o (muito) fraco ‘You Will Meet a Tall Dark Stranger’ é seguido por uma das melhores contribuições recentes de Allen, ‘Midnight in Paris’, que se encaixa nos seu estilo ‘romanticismo em cidade famosas, com um toque de misticismo’.
Após ‘Alice’, ‘Scoop’, ‘A Midsummer Night's Sex Comedy’, entre outros, este é um filme que acrescenta um toque de fantástico à fórmula clássica de Allen. Owen Wilson é mais um numa longa lista de actores que tenta imitar o estilo desconexo das personagens principais interpretadas pelo próprio Allen (só Larry David chegou perto). Contudo convence, embora o seu discurso arrastado chegue a ser enervante. Representa o papel de um argumentista de Hollywood, noivo de uma Rachel MacAdams facilmente esquecida (mais uma vez!). Juntos, passam férias em Paris, na companhia dos pais dela (que não gostam dele) e de um casal amigo dela (do qual Wilson, por sua vez, não gosta). Farto de visitar museus e monumentos em tão enfadonha companhia, Wilson, algo bebido, está numa certa rua da cidade Parisiense ao bater da meia-noite, e, tal Cinderela, uma carruagem aparece transportando-o para os anos 20 da cidade boémia.
Lá conhece Cole Porter, Scott Fritzgerald, Salvador Dali (um hilariante Adrien Brody), Luis Bunuel, Picasso e muitas outras personalidades, bem como uma charmosa (desconhecida) modelo, interpretada com uma imensa joie de vivre por Marion Cotillard, por quem se apaixona. Noite após noite, Wilson regressa ao mesmo sítio, e, ao bater da meia-noite, é sempre transportado para essa era mágica, onde os famosos o ajudam a compreender-se a si próprio, a escrever o seu romance, e a ganhar uma nova paixão pela vida, que o mundo ‘real’, nem a sua noiva, lhe podiam oferecer.
Os filmes recentes de Woody Allen, e este sem excepção, são concebidos com bases de muito bons argumentos e interpretações. Contudo, as cenas são filmadas com base nestes diálogos e interpretações. A câmara aponta, filma, a cena acaba e passa-se para a seguinte. Falta uma vibração, um elo de ligação que dê um ritmo ao filme. Em muitos filmes, esse elo era o próprio Allen, cuja maneira electrizante de actuar enchia-os de ritmo. ‘Midnight in Paris’, a ter falhas, é essa, tudo se passa no mesmo comprimento de onda.
De resto, o filme é mágico, principalmente se o espectador estiver familiarizado com as várias celebridades dos anos 20 que pontilham o ecrã. Mas mesmo se não estiver, o romance ‘à antiga’ que o filme proporciona é suficiente para cativar, embora, neste caso, as partes com as celebridades e as piadas internas possam tornar-se maçadoras. Mas acima de tudo é a moral à qual o filme chega que é a sua jóia da coroa. O que define uma era? O que faz dela boa? Devemos manter-nos ligados ao passado e à riqueza que nele se criou, ou devemos encontrar a nossa própria magia e riqueza no presente, aqui e agora? Wilson chega às suas respostas no clímax do filme. O público, sem dúvida, tirará as suas próprias conclusões.
Com 76 anos, Allen não perdeu o dom. Como no passado, prova que após um filme mau, tem sempre energia e talento para fazer um bem melhor. Dos quase 50 filmes de Allen, este é certamente um daqueles que será lembrado. Tem menos piadas, menos romance, mas tem magia.
Ah, e claro, é um postal ilustrado de amor a Paris, rivalizando com o postal ilustrado de amor a Nova Iorque que era ‘Manhattan’. E, por o ser, há uma cena no cais preferido de Allen, onde já filmara com Peter Sellers em ‘What’s New Pussycat’ e a cena de dança flutuante de ‘Everyone Says I Love You’. Uma para os fãs.
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Costumo ler as tuas criticas a filmes que já vi. Após ver este, vim cá ver o que achaste dele. Veio-me à cabeça uma critica que fizeste recentemente, onde referias, mais uma vez o teu desagrado pelo "discurso do rei". E é sobre isso que venho deixar o meu comentário. Eu sou uma dessas pessoas que viu o filme tendo ouvido falar pouco dele, é assim que vejo quase todos. E também sou uma pessoa que o viu, não tendo visto uma data de outros filmes que se assemelham a esse. E assim sendo, surgiu para mim como um filme bem feito, bem estruturado,com bons actores, um filme daqueles em que se nota que se gastou dinheiro mas também tempo. Não é marcante, não é entusiasmante, mas é agradável de ver. Já por exemplo o Cisne Negro, e pegando numa caracteristica que sentiste no "Meia-noite em Paris", o Cisne Negro é sempre no mesmo tom, mas um tom acelerado, de suspense e quase horror psicologico, pelo menos se nos deixarmos conduzir pela loucura da personagem principal, essa energia constante esgota o filme, sem compensar suficientemente com uma história, acaba por ser uma colagem de imagens de loucura. E comparo um a outro, porque me lembro de também o teres feito, mas no sentido oposto ao meu.
ResponderEliminarQuanto a este, concordo contigo em tudo o que uma audiência culturalmente mediana(zinha) a nível cinematográfico pode concordar. Vi-o ontem à noite, e hoje, ao acordar, parecia que tinha regressado da minha lune de miel à Paris.