Domingo, 16 de Outubro de 2011

Mistérios de Lisboa (2010)

Para criticar um filme como ‘Mistérios de Lisboa’ uma pessoa tem que ser muito, mas mesmo muito, honesta, especialmente em Portugal. Porquê? Porque este é o tipo de filme cuja premissa em si, isolada e livre de qualquer outra compreensão, é suficiente para o intelectual de meia leca o considerar uma obra prima suprema e imperdível. É uma sumptuosa versão de uma obra de Camilo Castelo Branco, realizada por um conceituado realizador estrangeiro, e que tem um leque de actores internacional. O facto de Raul Ruiz sequer saber quem é Camilo Castelo Branco, de se dignar a fazer um filme sobre uma das suas obras, em português, com actores portugueses, e parcialmente filmada em Portugal, é suficientemente para a flor fina da casta cinematográfica, literária e intelectual portuguesa se pôr a arfar, e para o citar, nos jornais, revistas e programas de televisão como a maravilha que, infelizmente (pelo dinheiro e tempo gasto, quer pelos produtores, quer pelos espectadores!), não é. Para além do mais, a sua sumptuosidade, aliada ao nome do realizador, é suficiente para o fazer ganhar prémios internacionais em festivais, e a reputação cresce, de um filme que, muito honestamente, não o merece. Senão vejamos. ‘Mistérios de Lisboa’ é realmente um filme soberbo… mas apenas a um nível. Ao nível do design de produção. Os maravilhosos cenários, as cores, o guarda-roupa, os adereços, tudo é incrivelmente realista e sem dúvida espectacular, mesmo para os parâmetros de um filme de época. Contudo, aos restantes níveis o filme falha redondamente. Começando pela realização, Raul Ruiz escolhe sempre planos longos e afastados. Raramente há um close-up. A câmara está sempre à distância. Isto é satisfatório para marcar uma posição, para pontuar o distanciamento da arte cinematográfica da literal, para permitir ao público sorver as belas localizações onde o filme foi filmado. Contudo, não se vê a expressão de um único actor, não há emoção, a câmara, tal como os actores, é impassível. O seu movimento (muito frequente à volta dos cenários) não é balético, apenas mecânico. Não chega a ser teatro filmado (porque não é teatro, é romance), e não chega a ser filme. Então é o quê? É romance filmado, o que nos leva ao segundo ponto: o argumento. Peter Jackson disse que se filmasse o ‘Senhor dos Anéis’ página a página seria o caos. Certamente Ruiz não ouviu essas declarações. ‘Mistérios de Lisboa’ é (ou deve ser, nunca li o livro), o romance filmado página a página. As cenas sucedem-se dengosas, de diálogos morosos e confusos. Não há um encadeamento lógico. Não há uma legenda que nos mostre o local e a data do que está a acontecer. O filme muda de França para Portugal, de Portugal para o Brasil, para a frente no tempo, para trás no tempo, e nada o dá a entender. Só a meio das cenas, devido ao diálogo, à menção do nome de uma personagem, nos apercebemos do que se está a passar. Mas, por essa altura, devido ao tempo que a cena demorou a lá chegar, já não nos importamos. A história, tal como está apresentada, é impossível de seguir. Só para quem leu o romance e, e… Para além do mais, a história não tem interesse nenhum. A personagem principal (ou suposta principal), Pedro da Silva, um miúdo num orfanato que desconhece as suas origens, é esquecida logo no início e só é retomada no último acto. Passamos 4 ou 5 horas a ver histórias paralelas do padre que o criou, do sem abrigo (tornado posteriormente rico), que o salvou, dos amores de sua mãe, e de outras personagens que só muito remotamente têm a ver com o miúdo. E as suas acções não se vertem nele. Se se vertessem, ainda teria alguma lógica. Mas isto são histórias de vida destas personagens, que depois não tem nenhuma consequência para a acção. Isto não são ‘mistérios de Lisboa’. Isto são ‘histórias de vida, dos amores e das desgraças de pessoas que remotamente têm a ver com Pedro da Silva’, raramente entrelaçadas (excepto pelo Padre, que parece ser o elo de ligação entre tudo). Mas então, porque não é ele a personagem principal? Porque é que no último acto o filme abandona todas as personagens que passou as últimas 6 horas a construir (desconhecemos como termina a sua história) e se foca de novo no miúdo, agora já adulto, e aí sabemos como termina a sua história, que contudo não foi construída de forma alguma! Falar da actuação é levar as mãos à cabeça. Não há um pingo de expressividade em 7 horas de filme (ou 4h30, se virem a versão curta – eu, infelizmente, vi a longa). Será devido à solenidade do material? E é esta a razão para o tempo que demoram a dizer cada frase, para as pausas entre diálogos, para aqueles momentos em que ambos os actores ficam mudos e quietos, como se tivessem uma ausência, para largos segundos depois recomeçarem a falar? Estariam a fazer vénias mentais à mestria da linguagem de Camilo? Ou seria o facto de serem péssimos actores? Felizmente havia um ou outro actor estrangeiro nesta produção. Bem, podia estar aqui até depois de amanhã a dizer porque é que ‘Mistérios de Lisboa’ é pomposo, enfadonho e, se não incompreensível, pelo menos sem dinâmica alguma que faça o espectador querer compreender, mas não me apetece. Já perdi 7 horas da minha vida em vão. Dizer ‘baseado numa obra de Camilo Castelo Branco’ e filmá-lo no interior de palácios sumptuosos com um estrangeiro ao leme da produção não significa ‘bom filme’. Quem viu o filme, viu-o realmente, viu mais além destes factores que geralmente seduzem os críticos, mais além do design de produção, não poderá dizer que o filme é bom. Honestamente. Não é. É um romance filmado. De longe e sem paixão nenhuma, sem sabor, sem emoção. Frio e insosso.

1 comentários:

  1. A verdade é que esse Ruiz não é nenhum AP Vasconcelos...

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