Domingo, 2 de Outubro de 2011

La mariée était en noir (1968)

Não, não foi o Quentin Tarantino quem inventou ‘A Noiva’. Foi Truffaut, no clássico de 1968 ‘La mariée était en noir’, e quem a encarnou foi a magnífica Jeanne Moreau. Truffaut já tinha bruscamente mudado de estilo ao fazer ‘Fahrenheit 451’ em 1966, e não foi por acaso que ‘a Noiva’ surgiu depois das famosas entrevistas que fez a Hitchcock mais ou menos pela mesma altura. Nem foi por acaso que quem compôs a banda sonora do filme foi Bernard Herrmann, nem que o filme se baseie num romance do mesmo escritor de ‘Rear Window’. Truffaut queria fazer um filme à Hitchcock. Mas embora o estilo possa ser superficialmente análogo, Hitchcock nunca poderia ter feito um filme como este, tal como Truffaut nunca poderia fazer, verdadeiramente, um filme como Hitchcock. ‘A Noiva’ é uma história de vingança. Quando Jeanne Moreau descia as escadas da igreja saída do seu próprio casamento, uma bala perdida matou o seu noivo. Em cinco sequências distintas, o filme mostra Moreau a matar cada um dos 5 homens que estava no quarto de onde a bala foi disparada. Não é a forma como os mata (Tarantino) que interessa. Nem tão pouco a construção da sequência, o suspense criado (Hitchcock). O público já sabe que Moreau os vai mandar de esta para melhor, de uma forma ou de outra. Para Truffaut, o que interessa é a alma destas personagens, que são tratadas com o mesmo desprezo superficial corriqueiro da sua restante obra. As pessoas, os acontecimentos, são reais, pelo que devem ser tratadas como nada de mais. Acontecem e pronto. Avança-se. De um lado está a Noiva. Jeanne Moreau era a musa do cinema francês. Não a mais bonita das actrizes, era sem dúvida a mais talentosa, e aquela que trabalhou com a flor fina da geração de cineastas dos anos sessenta (Demy, Truffaut, Malle, Bunuel, Godard). Mas aqui, com 40 anos, já parece demasiado envelhecida para o papel. As suas formas mais cheias, a cara mais enrugada, fazem-na de certa forma pouco credível para seduzir os homens com um olhar, para ser uma femme fatale. Mas a sua aura existe, e de que maneira. Contudo, a sua cruzada assassina é uma de incertezas e de dúvidas. Constantemente hesita. Embora o seu plano esteja bem urdido (matar!), tudo parece surgir de improviso. A única coisa definida são 5 nomes. O resto aparece como aparecer, excepto quando chega a hora decisiva de matar. Quando o faz, é a sangue frio, sem remorsos, sem dúvidas. Prometeu vingar o noivo. Vinga-o. Do outro estão as 5 vítimas. A cada uma delas é dada uma construção cuidada de carácter, mas cada uma delas é suficientemente crente e descuidada para deixar infiltrar a noiva na sua vida. Aqui está a riqueza do filme. Para cada sequência, para cada morte, há uma longa interacção entre assassino e vítima. A noiva precisa de conhecer o lado humano das suas vítimas, não só para saber como chegar o suficientemente perto para as poder matar, como também para, quando o fizer, essa morte ser o mais dolorosa possível. ‘La mariée était en noir’ não é um filme sobre 5 assassinatos. É um filme sobre 5 personagens (mais uma). O argumento é demasiado realista no estudo das vítimas para não se tornar desinteressante nas longas sequências, mas suficientemente irrealista na personagem etérea da Noiva, para dar aquela magia cinematográfica e apelo universal ao filme. E a fluidez da filmagem de Truffaut, espirituosamente realista, minimiza o impacto de cada cena, de forma a que o clímax (já esperado), possa ser mesmo assim chocante. Não é por acaso que este é um dos grandes sucessos de bilheteira de Truffaut. É raro um filme tão bom ser tão simples.

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