O maior elogio (e talvez o único) que se pode dar ao novo filme de David
Cronenberg é que passará a ser a bíblia de todos os estudantes de psicologia.
Já o imagino a ser passado nas aulas da faculdade. Já imagino os alunos a terem
de escrever trabalhos de 2 mil palavras sobre ele. Já imagino os alunos mais
molengões a abandonarem os livros e verem o filme na véspera do exame. Contudo,
não estou propriamente seguro que estes terão uma boa nota se só estudaram a
partir do filme.
Cronenberg está longe dos filmes que construíram a sua reputação. Ultimamente,
os seus universos surreais mas com pontas acutilantes de humanidade foram
substituídos por filmes mais directos e acessíveis, mas que conseguem contudo
ainda explorar as vertentes mais violentas do ser humano. ‘A History of
Violence’ (2005) é indiscutivelmente uma obra prima, mas mesmo o menos
conseguido ‘Eastern Promisses’ (2007) proporciona uma experiência mais
recompensadora que ‘A Dangerous Method’, que ostensivamente é um estudo de
personagens e da mente, mas que acaba quase como um melodrama, excessivamente a
roçar o sentimentalismo barato.
Este filme, tal como os dois anteriores, conta com Viggo Mortensen, como
Freud. Contudo, não é ele a personagem principal. O filme é contado da
perspectiva de Carl Jung, protagonizado por Michael Fassbender, que continua a
dar provas de que vai ser um dos melhores actores desta geração, e que mais
cedo ou mais tarde alguém o vai convidar para ser o próximo James Bond.
O filme abre contudo com uma terceira personagem. Keira Knightly é Sabina
Spielrein, uma paciente mental, cujo problema é sexual, que é admitida na
clínica de Jung. As primeiras cenas, sem música e com uma câmara muito
intimista, mostram as primeiras sessões entre Keira e Fassbender, onde este
pretende aplicar o método experimental de psicanálise de Freud, e Keira
ostensivamente tem sucessivos ataques e crises que são mais o produto do
overacting do que propriamente de uma paciente realmente em dificuldades. Estas
cenas são poderosas e abrem uma porta pela qual, infelizmente, o filme não
penetra.
É na consequência desta paciente que Jung e Freud se encontram pela
primeira vez, e muitas discussões da psicanálise ocorrem, como se de um jogo do
gato e do rato existisse entre ambos. Contudo, cada vez mais que trata Keira, e
se envolve com ela, Jung põe em causa aquilo que acredita, ou melhor, aquilo
que poderá fazer para ter tudo, ser o melhor psicanalista do mundo, superar
Freud, ter Keira e a mulher ao mesmo tempo, e mesmo assim manter os seus ideais
e ajudar os seus pacientes. O filme tenta mostrar a luta de Fassbender com ele
próprio enquanto articula todas estas coisas, mas substitui o pessoal pelo
dramático. Ou seja, perde-se nas disputas mesquinhas entre o ariano quase egoísta
Jung e o judeu ‘pai simpático mas incisivo’ Freud que se nota estar muito acima
intelectualmente, e no triângulo amoroso entre Jung, a mulher dele e Keira.
A latente sexualidade sempre presente nas sessões, e muito incentivada pela
breve aparição de Vincent Cassel como Otto Gross, é apenas expelida de quando
em quando. A tentação e o reverter para o instinto animal (associado ao sexual)
que Freud defende como causa de todos os problemas e que Jung quer negar com
todas as suas forças, parece surgir quando ele capitula a Keira e parece
apontar o filme para a direcção a que Cronenberg já nos habituou. Contudo Jung
nega esse instinto e deixa Keira para perseguir os seus intentos pessoais, e ao
nega-la e ao negar-se, nega também os pontos que o filme poderia atingir, e o
filme acaba por não ter nada que lhe altere o tom moroso.
Este filme é um filme exclusivamente de diálogos, bem entendido. Mas há
várias obras primas que assim são, portanto o problema não reside aí. Os
caminhos possíveis de explorar neste filme eram tantos que é difícil de
acreditar que não se optou por nenhum. Em vez disso, o filme debita milhares de
noções de psicologia, ditas pelos próprios gurus da especialidade, e depois
acaba quase no estilo telenovela, nas disputas mesquinhas entre as personagens.
O filme abre prometendo, e termina não oferecendo nada. Contudo, tem excelentes
interpretações (excepto as patacoadas de Keira no início), e o design de
produção, em Viena no virar do século, também está muito interessante, embora o
background seja estranho, e é difícil não notar na pouca naturalidade das pessoas
que passam sempre atrás das personagens principais nas várias cenas. Só falta
terem um autocolante na testa a dizer ‘extra!’.
O próprio título do filme parece prometer que o método é volátil e os
próprios que o aplicam podem ceder às tentações que tentam suprimir. Um
espectador fica sempre à espera que tal aconteça. Mas o filme retrai-se, e ao
retrair-se perde todo o seu encanto. Pior mesmo é estar estruturado como o
livro em que é baseado. São mandadas umas 10 cartas em todo o filme, ou mais. E
temos que aturar todas elas. Pouco cinematográfico.
Um filme que os estudantes de psicologia acharão interessante, mas que lhe
falta qualquer coisa para que as personagens se transcendam e universalizem
para que os seus problemas sejam cativantes para o público em geral. Cronenberg
sabe fazer melhor do que isto.

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