‘The Ides of March’ é um drama político ligeiro
sobre a corrupção e a perda da inocência. Chamo-lhe ‘ligeiro’ porque o filme
não mostra nada de novo, nada de surpreendente, e aliás nem um clímax tem. Há
uma linha narrativa, há uma acção que a interrompe, e a personagem principal
gera uma reacção. E eis que o filme termina. E o espectador fica aonde? Teve uns
cheirinhos dos bastidores da política. O choque não foi brutal, não foi
acutilante, nem incisivo. Quiçá foi realista. Mas uma coisa foi, altamente
cinematográfico. Ou melhor, Hollywoodesco.
Ryan Gosling interpreta um jovem gerente de
campanha de um dos candidatos democrata para as primárias; nenhum outro senão
George Clooney, um congressista reputado pela sua integridade. Aliás, Gosling é
um homem de ideais, que realmente vê em Clooney a salvação para os males da
América. Já Philip Seymour Hoffman, o seu superior, é um animal muito mais
político, tal como Paul Giamatti, que interpreta o seu homólogo do candidato
concorrente. A questão central do filme prende-se com os votos do estado de
Ohio, decisivos para a eleição final. Clooney aparentemente não cede a
chantagens nem quer jogar sujo, e Gosling mais o admira por isso.
Contudo, quando Gosling começa a andar com a jovem
estagiária, interpretada pela vibrante Evan Rachel Wood, e descobre que esta já
teve um caso com Clooney, então este é o ponto de partida para o desfiar do
novelo. Já nada é o que parece, e a teia começa a acercar-se de Gosling e a
apertá-lo. Para sobreviver na política, terá de perder a inocência, e
transformar-se num animal sem sentimentos, capaz da traição e da intriga,
independentemente daquilo que possa acontecer àqueles que lhe são mais
próximos.
Assim descrito, o filme está-me a parecer muito mais
interessante do que o foi na sala de cinema há umas horas. As surpresas, como
disse, são poucas. Mais cedo ou mais tarde, por tão ‘bonzinhos’ que possam
parecer no início, todos querem ganhar, a qualquer preço. Desde os jornalistas
(centralizados em Marisa Tomei, sempre excelente), aos políticos, aos
angariadores de votos, ao próprio Gosling, as suas reacções são previsíveis. O
filme ganha interesse e ritmo aquando do primeiro desequilíbrio da ordem
natural (até lá segue a sequência clássica dos filmes sobre políticos e
campanhas políticas), mas depois a contra-reacção da personagem principal ao ‘dilema’
é simples, e o filme fecha sem ter dado um clímax, ou ter aumentado ou
intensificado o tom da perda da inocência de uma alma outrora pura. Dá-o como
um dado adquirido. A cara de Gosling expressa essa perda, mas o filme não. Se
pensarmos bem sobre o assunto, nem é tanto um problema de argumento. É mais de
realização. Mas quem é que disse que Clooney sabia realizar filmes?
O filme é ostensivamente sobre a corrupção na
política, de todas as esferas, de cima abaixo na hierarquia. Sim senhora, mas
não teria tido muito mais impacto se fosse apenas focado num único homem, se se
debruçasse sobre a sua ascensão e queda emocional? No início parecia que ia
seguir esse trilho, e a figura de Clooney quase não existia, centrando-se o
filme somente em Gosling. Quanto mais poderoso não seria o filme, se se
passasse sempre dos bastidores, e a figura do político nem sequer aparecesse na
tela? O seu rosto seria irrelevante, os gestores de campanha tentam vender uma
imagem ilusória, não real, dos seus candidatos. Mas Clooney lá acaba por ganhar
demasiado tempo de antena no seu filme, e capitula e vende os seus princípios
por uma causa maior; ser presidente. Contudo, a sua emotividade não existe. A
de Gosling é trabalhada, a de Clooney não.
O filme é sobre política, o filme é sobre as
pessoas que fazem política, o filme é sobre a luta de um homem entre aquilo que
acredita e o seu ganha pão. Já são temas a mais, e num filme com apenas 1h40
são claramente pouco explorados. O filme acaba por ter poucas camadas, e exprimido
produz pouco sumo.
Salienta-se a fantástica performance trágica de
Evan Rachel Wood. Ela é a única que não tenta dar seriedade nem intensidade.
Ela é a única que não parece estar a afirmar com cada fala ‘estou num drama
político’. Desse tom o filme tem a mais, mas substância a menos.

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