Hoje, pela primeira vez em dois anos, desde que o vi no cinema, revi o
filme ‘Avatar’.
Na altura, a minha opinião não foi muito positiva. Chamei-lhe um ‘boring,
visually stunning, cliché’. Para mim era um blockbuster de verão à la Cameron, com
uma história morosa estereotipada que culminava numa boa sequência de acção ao
fim de 2 horas, e que era favorecido por um dos melhores conjuntos de efeitos
visuais que eu já tinha visto num filme. Apenas bom para ver num sábado à
tarde, disse eu, e nada mais.
Isto foi escrito logo no início, mal o filme estreou. E, se a opinião em
geral fosse de certa forma semelhante, não me surpreenderia, e seguiria em
frente contente da vida. Contudo, tal não aconteceu. Para meu espanto, de
repente o marketing (um dos fortes de Cameron) entrou em força, e vi ‘Avatar’
ser aclamado (por quem exactamente ninguém sabe) o filme mais importante de
todos os tempos, e comecei a ouvir em tudo o que era notícia que era um dever
cívico ir vê-lo, visto que iria revolucionar o cinema, a vida das pessoas, da
natureza, do planeta e quiçá da humanidade. Óscares, Globos de Ouro e afins
choveram aos pés de Cameron... Numa palavra: patético. Mas houve quem engoliu
isto muito bem engolido, e isso é que é triste.
Bem, dois anos volvidos, felizmente nenhuma dessas coisas aconteceu. Nem
havia sequer a mais remota probabilidade de tal acontecer, considerando a
qualidade do material. ‘Avatar’ agora é um número, é estatística. Não está
incutido na mente das pessoas como os clássicos, nem mesmo os clássicos mais
recentes. Nem nunca estará. Serviu o seu propósito: ganhar dinheiro. E ganhou.
Hoje vi ‘Avatar’ com olhos de ver. Atento e com um caderno de apontamentos
à frente. Fico contente por saber que a minha opinião não mudou. Vou tentar desconstruir
‘Avatar’ nas linhas que se seguem e justificar a minha opinião.
Para começar, ‘Avatar’, ao contrário do mito que se criou, não revolucionou
nada. Cameron não esperou por nenhuma tecnologia para fazer o filme. Esperou
pelo upgrade da tecnologia, que é uma coisa bem diferente. O 3D já existia há
mais de 60 anos, e o motion capture há mais de 10. Avatar é de 2009, contudo
Gollum apareceu pela primeira vez em 2001, com a mesma tecnologia. Mais
importante que isso, ‘Final Fantasy’ de 2001 apresentou todas as personagens animadas
baseadas em actores reais. Na altura, houve uma enorme controvérsia sobre a
ética deste procedimento, incluindo até processos legais de sociedades de
actores contra os criadores deste filme, temendo que o avanço da tecnologia
torna-se o seu trabalho obsoleto, tal como os trabalhadores fabris temem o
aparecimento das máquinas nas cadeias de produção. 8 anos depois, ‘Avatar’ era
louvado, e não criticado, por usar a mesma tecnologia tão realista. Como os
tempos mudam.
O que Cameron conseguiu fazer foi implementar esta tecnologia num cenário
CGI incrivelmente realista. Não nos enganemos, os efeitos visuais de Avatar são
fabulosos. Mas nunca conheci um filme que só valesse por isso. A história, o
argumento, os actores, a fotografia, cada uma destas coisas valem mil vezes
mais que os efeitos visuais. Aliás, estes só devem existir para proveito da
história, e a história, ou o estilo visual (como é o caso de ‘Sin City’ ou ‘300’),
tem que os justificar. Contudo, ‘Avatar’
depende única e exclusivamente dos seus efeitos visuais, quando grande
parte da história nem sequer o justifica.
Mas comecemos por analisar a mente criadora deste filme. Quem é Cameron realmente?
Na altura em que ‘Avatar’ saiu nos cinemas, as pessoas já nem sabiam quem ele
era. Daí a razão dos posters do filme e o trailer ostentarem a frase ‘do
realizador de Titanic’ e não ‘do realizador James Cameron’. Cameron não é um
grande autor, nem sequer um grande realizador. Cameron é um realizador de
filmes de acção. Tal como Michael Bay, Cameron não tem talento para as cenas
intimistas, nem para o argumento. Pior ainda, ao contrário de Bay, Cameron
escreve os seus próprios argumentos. O que não é bem jogado, visto que muitos
deles são de fugir. Estamos a falar de um realizador cujas histórias são na sua
maioria todas pontilhadas de clichés, e que só valem pela sua acção. Cameron
realizou dois filmes de acção muito bons (T2 e Aliens), um filme de acção
mediano (Terminator) e três filmes de acção claramente maus com argumentos
insuportáveis (True Lies, Abyss e Piranha 2).
A sua filmografia fica completa com ‘Titanic’, que foi o que se pode chamar
‘um golpe de sorte’. ‘Titanic’ não reflecte o estilo de Cameron, é a excepção.
E nota-se como Cameron voltou ao seu velho eu com ‘Avatar’. ´Titanic’ tem
muitos pormenores à Cameron, mas o seu verdadeiro segredo do sucesso esteve no
facto de possuir uma fórmula que funciona (aka apela às massas), ter Leonardo DiCaprio
no pico da loucura adolescente dos anos 90, e claro, no facto de Cameron ser um
génio a realizar cenas de acção (neste caso o barco ir ao fundo). Mais que um grande
filme, TItanic foi uma moda. O mesmo se passou com Avatar. E é errado assumir
que estes são os dois filmes mais rentáveis da história do cinema. Se contarmos
com a inflação da moeda, ou os bilhetes vendidos (o que ainda é melhor, visto
que que os bilhetes de cinema, mesmo com a inflação, ficaram mais caros), ‘Gone
with the Wind’ é ainda o filme mais visto e rentável de sempre. Para além do
mais, foi feito em 1939, numa época em que os filmes demoravam 2 anos a chegar
à Europa e ao resto do Mundo, e não havia o marketing nem as estreias simultâneas
em biliões de salas. Mesmo assim, mais gente viu ‘Gone with the wind’ nos
cinemas que ‘Avatar’. Aliás, ‘Avatar’ e ‘Titanc’ estão bem lá para o fundo da
tabela, atrás de ‘Star Wars’, ‘ET’, ou até ‘101 Dalmatians’ (este se só
considerarmos o mercado americano).
Após ter visto todos estes filmes, eu tenho a impressão que Cameron não
sabe como se fala na vida real. Creio que ele aprendeu a falar nos filmes de
acção. Então quando ouvimos o Coronel a dizer, nos primeiros 10 minutos ‘If
there is a Hell, you might want to go there for a little R&R after a tour
on Pandora’, ou uns soldados a dizer, quando vêem Jake chegar numa cadeira de
rodas ‘Oh, boy, meals on wheels’, então sabemos que estamos num bom filme de
militares de Cameron, e estamos prontos para uma carrada de clichés, e muitas
frases que soam bem no papel, mas que quando pronunciadas se tornam
completamente lamechas.
A primeira meia hora de ‘Avatar’ está cheia deste argumento inconsequente. Aliás,
aqui os efeitos especiais eram completamente dispensáveis. Cenários de nave e
laboratório serviriam o mesmo propósito, e mais uma vez, tudo o que se passa é
para ‘encher’. O pior de tudo é a narração forçada de Jake, para um suposto ‘diário
de bordo’. Tem a capacidade de aparecer quando o filme se torna chato e é
preciso ganhar tempo para a próxima cena, embora a narração explica tudo o que
o público (se tiver dois dedos de testa) já sabe. E de novo, as frases que
arranham os ouvidos de tão más que são trazem à memória os mais belos (leia-se
detestáveis) one-liners de Schwarzenneger em ‘True Lies’, sem dúvida o pior
filme de Cameron.
Após 40 minutos que servem para explicar ao público variadas coisas como a
tecnologia, ou aquilo que a ‘organização’ procura em Pandora, Jake é enviado
com o seu avatar Na’vi para o meio da selva. Aqui começa uma longa série de
contradições. Anteriormente ouvimos o Coronel referir-se a Pandora com um
inferno. Esteve 3 anos na Nigéria e saiu de lá sem um arranhão. No primeiro dia
em Pandora, ficou com os arranhões que agora ostenta na cara. Mas quem os fez? Após
2 horas de filme apercebemo-nos que planeta mais pacífico que Pandora não parece
haver. Povo mais pacífico que os Na’vi não parece haver. Onde está a ameaça de
que se fala em Pandora? Porque motivo os militares ainda não destruíram o
planeta? Pelo que se vê, bem que os podiam ter aniquilado em 2 dias.
Logo na sua primeira incursão por Pandora, Jake encontra uma espécie de rinoceronte
e depois uma espécie de felino. Quase sozinho, com um pau, por pouco não
consegue vencer estes dois animais. Quanto mais não faria uma legião inteira de
soldados com armas topo de gama. Os Na’vi também são facilmente aniquilados no
primeiro ataque a Home Tree e não têm capacidade de defesa contra os militares.
Portanto, onde está a dificuldade de conquista? Os Na’vi ganham a batalha
final, é verdade, mas apenas porque são liderados por Jake e este pediu auxílio
à mãe natureza. Até esse ponto, não há nada de ameaçador no planeta. Até esse
ponto os militares podiam facilmente ter ganho. Porque não o fizeram?
Obviamente, porque senão não havia filme.
Aliás, toda a estratégia dos militares é esquisita. Atacam a Home Tree com
sucesso, mas a cena seguinte mostra-os de novo na base. Porque se retiraram?
Não era fácil seguir os Na’vi e aniquilá-los? Não era fácil segui-los e
descobrir a localização da árvore da vida para os destruir de vez? Excepto nos
dois ataques, nunca sinto os Na’vi sobre grande ameaça. Afinal, estão reféns
num planeta ocupado por humanos. Mas não parece. Outra coisa. Aquando do ataque
final, o Coronel mostra a imagem satélite da actividade Na’vi. Então se têm um
satélite, porque raio precisam de Jake para obter informações no terreno? O
nosso Google maps dá-nos tudo, e nem sequer conseguimos ir para além da Lua. Quando
mais não lhes poderia oferecer o satélite XPTO deles? Mesmo que não conseguissem,
Jake não retransmitiu mais nenhuma informação vital desde que foi para a base
nas montanhas suspensas. Mesmo assim, os militares esperaram 40 min de filme
até atacar? Para que? A resposta a todas estas perguntas é simples. Os
militares não atacam para dar tempo de filme a Jake para ter toda a sua
iniciação Na’vi, o que é o mesmo que dizer, para poder mostrar efeitos
especiais e a natureza selvagem. Os militares atacam ou não atacam para bem do
filme, e não para bem deles próprios. Filmes em que as acções das personagens
não são realistas porque estão condicionadas pelo argumento são, muito
sinceramente, maus filmes.
O que nos leva aos Na’vi em si.
Primeiro, falam melhor inglês que muita gente que eu conheço. Só não usam
os artigos e os determinantes. Mas sabem usar expressões idiomáticas como ‘copo
meio cheio e vazio’ e palavras com mais que 6 sílabas. Se eu disser ‘you othorinolaringologist’
em vez de ‘you are an othorinolaringologist’, isso já quer dizer que sei pior
inglês porque sou um indígena e por isso não consigo dizer ‘are’ embora consiga
dizer ‘othorinolaringologist’?
Depois vem a questão daquilo que são os Na’vi. Em Pandora há exactamente 7
espécies animais. Sim, eu contei-as. Há os Na’vi, uma espécie de rinocerontes, uma
espécie de felinos, uma espécie de dragões, uma espécie de pássaros, uma
espécie de veados, e uma espécie de libelinhas. Então, de onde surgem estes humanóides?
Quer dizer, os humanos andam em 2 patas, têm olhos e narizes e bocas e mãos
porque são o resultado de biliões de anos de evolução, sendo os primatas o
principal elo de ligação. Em Pandora não há primatas. Como andam estes Na’vi em
duas patas, têm pés e mãos com dedos, olhos, cabelos, ouvidos e narizes em tudo
semelhantes aos nossos, apenas maiores? Descenderam directamente dos dragões?
Se me dissessem ‘deixa-te de mariquices, isto é só um filme’ eu aceitaria
de bom grado e calar-me-ia. Mas um dos motivos pelo qual insisto nisto é por ‘Avatar’
ter sido aclamado como um filme ‘ecológico’ e muito importante para a preservação
a natureza e do nosso planeta. Pois bem, no outro dia vi um filme em que um
tipo plantava uma árvore. Só aí havia mais de ecológico que nas 2h40min do ‘Avatar’.
Mas que natureza revela Avatar, afinal? Uma natureza cuja ordem natural
está toda errada. Para começar só há 7 espécies animais em Pandora. Suponho que
plantas haja muitas mais, mas é um ecossistema um bocado limitado, não vos
parece? Há muitas mais espécies no ‘Lord of the RIngs’ e nunca ninguém lhe
chamou um ‘filme ecológico’. Sauron destrói a floresta dos Ents, mas ninguém
liga nenhuma a isso. Depois, que coisa é que diferencia os Na’vi dos humanos
afinal? A meu ver, apenas uns milhares de anos.
Os Na’vi são guerreiros. Sim, a palavra é ‘guerreiros’ e ‘guerreiros’ não é
uma palavra pacífica. Os jovens Na’vi têm iniciações guerreiras. Têm códigos guerreiros.
Aprendem a usar armas. Nada disto é pacífico. Se o povo ama tanto a paz e a
comunhão, porque treina ‘guerreiros’? Com que intuito? Guerras de clãs? Para
além do mais, vivem em comunhão com a natureza mas também têm que comer. Lá por
fazerem uma oração a um animal que acabaram de matar com uma flecha não os torna
menos caçadores. Mataram um animal inferior para o comer. O que os diferencia
dos humanos? Os próprios humanos comportavam-se como os Na’vi nos primórdios,
até a evolução os obrigar a usar mais e mais flechas e deitar as florestas
abaixo para o seu próprio conforto. Os Na’vi, a meu ver, vão pelo mesmo
caminho. Se matam uma espécie de veado com uma flecha, daqui a mil anos estão a
fazer bem pior. Se os seus jovens têm iniciações guerreiras, em breve haverá
discórdias, etc, etc. Os Na’vi são como os humanos eram nos primórdios. Não são
puros. Apenas ainda não tiveram tempo para evoluir.
Mas há pior. Tomemos a subjugação da espécie de dragões. Tal como diz
Neytiri, Jake tem de os subjugar pela força. O animal terá de tentar matar o ‘dono’
escolhido. Se for bem sucedido bem, o dono terá um problema grave. Se não for,
será seu para sempre. Será seu quê? Escravo! A espécie de dragão é subjugado
pela força, e uma vez conectado tem que capitular e servir a vontade do amo.
Sem querer, Cameron justifica a essência humana nos Na’vi. Os humanos subjugam
primeiro pela força e depois pela compreensão. O mesmo fazem os Na’vi com esta
espécie de dragões. O dragão, aparentemente, não quer subjugado, mas depois de
o ser não tem mais escolha.
Supostamente, a espécie de dragão e o Na’vi, uma vez unidos, ficam ligados
para a vida. Contudo, lá para o fim do filme, Jake tenta domar uma espécie de dragão
muito maior, o Taruk. Então e a sua ligação com o primeiro dragão? Vai para o
caneco? Uma vez domado o Taruk, o dragão anterior nunca mais aparece.
Coitadinho. Deve ter chorado muito. Mais uma vez, um Na’vi tem uma atitude
humana. Vai subindo na cadeia dos mais fortes, e descarta quem o ajudou a subir
até lá.
E as questões sobrepõem-se. Jake, tal como muitos heróis desde Luke
Skywalker, é alguém a quem as coisas acontecem injustificadamente só porque é ‘o
escolhido’. A questão é que Skywalker teve que lutar para se conseguir unir à
força. Jake, tal como Harry Potter ou o Kung Fu Panda não tem que fazer a ponta
de um corno. É o escolhido, por isso tudo gira à volta dele, quer ele se
esforce quer não. No primeiro dia na selva, é logo levado pela filha do chefe à
tribo. Eles sabem que ele não é um deles, mas não se importam, e ensinam-lhe
tudo. Mas o domar do Taruk nem sequer é uma questão de ele ser o escolhido ou
não, ou ele estar predestinado a domar o Taruk (só um ou dois sábios o tinham
feito). É uma questão de manha. E uma manha bem simples. Atacá-lo por cima e
juntar as tranças. É tão ridículo que uma pessoa surpreende-se como é que os
guerreiros Na’vi nunca pensaram nisso antes. É tão ridículo que uma pessoa
pergunta-se se é mesmo verdade. A partir daí o animal subjuga-se a Jake,
incondicionalmente. Mais uma vez, inconscientemente, Cameron fala de escravos e
donos, e de a raça mais forte domar a mais fraca. Mas o significado que o filme
força a esta situação é bem diferente, e aí está a diferença. O que o filme impõe
é diferente daquilo que o filme realmente mostra se se o analisar para além da
superfície.
Já disse que Cameron é fraco a escrever diálogos. Mas o argumento de ‘Avatar’
não fica atrás. Não há uma só ideia original em todo o filme. A história da
Pocahontas é a mais saliente, mas todos os filmes de um outsider aprender os
costumes locais e depois voltar-se contra o sistema, desde ‘Last Samurai’ a ‘Dances
with Wolves’, estão bem presentes, sem nenhuma tentativa de disfarce. Cameron
até rouba dos seus próprios filmes, mais propriamente de Aliens, em toda a
parte dos militares. Pior que tudo, é o, chamemos-lhe plágio, do filme de
animação italiano ‘Aida’ (ver http://www.focus.it/Tecnologia/speciali/avatar---aida-due-film-e-tante-analogie.aspx#lista).
Até o ‘Highlander’ é referenciado, o quickening muito parecido com a relação
dos Na’vi com a natureza. Também se lhe pode chamar ‘a força’!
Quando olhei para o contador e ia em 1h45 (ainda 50 minutos faltavam) a
palavra que me vinha à cabeça era ‘enfadonho’. A história é batida e
desenvolve-se lentamente sem surpresas, e o desenrolar do filme está todo
condicionado pelo facto de que ainda não se terem acabado de mostrar todos os
efeitos especiais. Felizmente, há uma grande cena de acção, digna de Cameron,
mas quando ela chega, após as 2h de filme, chega tarde de mais.
Em relação a outras características cinematográficas há pouco a assinalar.
O filme tem sempre o mesmo tom visual. O mesmo que existe num jogo de
computador. E após 2h, por brilhantes que sejam os visuais, ficam repetitivos,
e nada na história os catapulta para o extraordinário.
Resumindo e concluindo, ‘Avatar’ não é um filme que deva ser sujeito às
camadas a que o subjuguei agora. Há falhas em todas estas camadas simplesmente
porque estas camadas não existem. Os blokbusters não têm camadas. Apresentam as
coisas ‘face value’ e o que interessa é o entretenimento, o visual, a acção e o
espectáculo disponibilizado. ‘Avatar’ disponibiliza todas estas coisas, mas ‘Aliens’
e ‘T2: Judgment Day’ disponibilizam-no de uma forma muito mais satisfatória.
Cameron criou uma história de entretenimento baseada em visuais apelativos, e
será de supor que ambicionava pouco mais. O marketing é que inventou todas
estas camadas para vender o filme e, infelizmente, as massas caíram que nem uns
patinhos.
‘Avatar’ é um filme de acção razoável com excelentes efeitos especiais.
Nunca será nada mais que isso. Um bom filme é bom em tudo, é original, cativa,
e não precisa de artifícios para ser bom. ‘Avatar’ é moroso, copiosamente
copiado, tem diálogos péssimos, e o seu maior trunfo é o artifício visual, que
para o olho cinematográfico treinado não é suficiente para disfarçar o facto de
não ter história, e a que tem ter mais buracos que um queijo suíço. As sequelas
aproximam-se perigosamente. ‘Avatar 2’ e ‘Avatar 3’ já têm datas marcadas. Deus
nos livre de mais loucura e excitação e ‘o Mundo vai ser salvo’. Não fazem isto
cada vez que estreia um novo ‘Piratas das Caraíbas’. Vão vê-lo, torna-se um dos
20 filmes mais rentáveis, e pronto. Toda a gente fica feliz. Não há cá tretas
de ‘o Mundo agora vai ser um lugar melhor agora que as pessoas viram os ’Piratas
das Caraíbas’. E, para registo, alguns dos ‘Piratas das Caraíbas’ são bem
melhores que o ‘Avatar’.
O ‘Avatar’ é um filme de acção com umas árvores e uns extra-terrestres. E
depois? Árvores e extra-terrestres nunca foram suficientes para fazer bons
filmes. É preciso algo mais. O filme ‘E.T.’ também tinha extraterrestres e inclusive
o ET salvava uma planta. Mas nunca ninguém disse que o ‘E.T.’ era um filme
ecológico importante para o futuro da humanidade. O ‘E.T.’ é um grande filme.
Mas nunca na vida o Cameron vai fazer um filme como o ‘E.T.’. Para isso é
preciso ser um grande realizador.
E o ET também tem árvores, há que dizê-lo!
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