Quando eu digo que Brett Ratner é um dos melhores realizadores da nova
geração, as pessoas riem-se ou coçam a cabeça. A verdade é que os velhos
autores estão a ficar velhos e, com a clara excepção de Christopher Nolan, não
surgiu na década de 2000 nenhum grande cineasta americano. Para mim, Ratner
pertence a um grupo selecto de novas promessas. A questão, e o motivo pelo qual
nem ele, nem eu, somos levados a sério, é que Ratner apenas fez um filme sério
(‘Red Dragon’). O resto são comédias de acção/aventura. Aliás, este é dos
poucos realizadores que conseguiu transportar com sucesso para o novo milénio o
género tão em voga no final dos anos 80, início dos anos 90.
Ratner pode não ser nenhum ‘autor’, mas tem uma qualidade invulgar a lidar
com actores, e essa cumplicidade transporta-se para o ecrã. Para além do mais,
ele é capaz de pegar em histórias banais blockbusterizadas e torná-las
divertidas e dinâmicas. Mas há mais do que isso. É só comparar o péssimo
‘Hannibal’ do conceituado autor Riddley Scott, que praticamente matou o
franchise Hannibal Lector, com o surpreendente ‘Red Dragon’ de Ratner, apenas
um ano depois. Se o argumento diz ‘e então o autocarro explode’, sabemos que
Michael Bay o vai filmar muito melhor que Godard, Scorcese ou Ozu. O mesmo se
passa com comédias de acção dirigidas por Ratner.
Começando a carreira como realizador de videoclips, muitas divas como
Maddona, Mariah Carey e Jessica Simpson agora dificilmente fazem um videoclip
sem ele. O seu trabalho tem sido praticamente todo na televisão (é o produtor
de ‘Prision Break’), mas no grande ecrã realizou os 3 ‘Rush Hour’, bem como o
terceiro X-Men (‘Last Stand’ – o melhor da saga), e o animado ‘After the
Sunset’ com Pierce Brosnan e Sela Hayek. ‘Tower Heist’ é o seu mais recente
trabalho.
Ben Stiller é o gerente de uma torre de apartamentos de luxo em Nova
Iorque. Lá mora Alan Alda, um gestor milionário, aparente muito amigo dos seus
empregados. Mas Alda é um investidor de risco fraudulento, e quando é indiciado
pelo FBI, o staff descobre que todo o seu dinheiro (que de boa fé, mas
estupidamente, tinham dado a Alda para investir) foi perdido. Stiller jura
vingança, o que faz com que seja despedido. Então, forma um plano. Assaltar a
própria penthouse da torre (visto que o dinheiro que Alda roubou, e que nem o
FBI conseguiu encontrar, só pode estar lá escondido).
A pandilha de ladrões invulgares conta também com Casey Affleck, Mathew
Broderick (é estranho vê-lo já na meia idade), Gabourey Sidibe (do filme
‘Precious’), e Eddie Murphy, um ladrão fala-barato de meia leca, vizinho de
Stiller. Juntos, assaltam a torre no último terço do filme.
Este é um filme com mais camadas do que poderá parecer. Verdade que o
primeiro acto demora mais de uma hora e é demasiado extenso para o tipo de
filme que este pretende ser. Contudo, isso dá uma (certa) profundidade às
personagens que é raro ver nestes filmes, e dá umas achegas de consciência
social, nestes tempos de crise financeira em que os gestores são os principais
culpados. Contudo, a ‘profundidade’ não passa muito disto, e o resultado é que
tempo a mais é perdido. O filme só verdadeiramente despoleta com o passar da
primeira hora, quando Murphy entra em cena e 'treina' a equipa de ladrões. A
química Murphy-Stiller é hilariante, e trás à memória a dupla Shrek-Donkey. Stiller
está mais contido do que o habitual, mas forma o contraponto ideal com Murphy,
que faz o que sabe fazer melhor… falar desalmadamente com uma piada por
segundo. Contudo, o assalto já é menos conseguido. Claro que tem cenas
hilariantes, e termina com uma sequência brilhante de suster a respiração, tirando
partido da altura elevada a que se passa o assalto, durante toda a qual eu
literalmente tinha os olhos colados no ecrã. Mas após uma hora de construção,
sabe a pouco. Este é um filme que possui uma distribuição normal – vai
crescendo, atinge o seu pico a meio e depois volta a descer de intensidade. Os
extremos, o início e o fim, estão muito menos trabalhados que o miolo.
Como de costume nestes filmes, há várias coisas difíceis de acreditar,
claro, (um elevador suster o peso de várias toneladas, empregados comuns
conseguirem ludibriar agentes do FBI), e no fim nota-se que o filme tem alguns
‘buracos’ no argumento, com o seu final tudo está bem quando acaba ‘quase’ bem.
O ‘quase’, como não podia deixar de ser, deixa a janela aberta para a sequela.
Contudo, é um filme de acção/comédia que funciona. Não passa disso, mas para o
que é funciona, e bem. Ratner é sempre uma lufada de ar fresco do género, e o
rol de actores secundários (incluindo uma Tea Leoni como agente de FBI, com química
romântica com Stiller) é da mais alta qualidade.
Este vai ser descartado pelos críticos, é certo, como ‘mais um’. Há muito
filme de acção/roubo/comédia por aí. Contudo, se é isso que pretende, caro
leitor, então vá ver este. Para o género, está bem acima. Rir-se-á um pouco,
agarrar-se-á ao seu assento um pouco, e não terá que pensar muito, enquanto
torce pelos zé ninguéns que atacam o clichézado investidor mauzão. Um reflexo
daquilo que todos nós queríamos fazer, no actual estado das coisas. Não chega a
ser pungente, mas brinca traquinamente com coisas sérias.
Espero pacientemente que Ratner fique mais velho uns aninhos, e comece a
fazer filmes sérios…

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