Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

Tower Heist (2011)


Quando eu digo que Brett Ratner é um dos melhores realizadores da nova geração, as pessoas riem-se ou coçam a cabeça. A verdade é que os velhos autores estão a ficar velhos e, com a clara excepção de Christopher Nolan, não surgiu na década de 2000 nenhum grande cineasta americano. Para mim, Ratner pertence a um grupo selecto de novas promessas. A questão, e o motivo pelo qual nem ele, nem eu, somos levados a sério, é que Ratner apenas fez um filme sério (‘Red Dragon’). O resto são comédias de acção/aventura. Aliás, este é dos poucos realizadores que conseguiu transportar com sucesso para o novo milénio o género tão em voga no final dos anos 80, início dos anos 90.

Ratner pode não ser nenhum ‘autor’, mas tem uma qualidade invulgar a lidar com actores, e essa cumplicidade transporta-se para o ecrã. Para além do mais, ele é capaz de pegar em histórias banais blockbusterizadas e torná-las divertidas e dinâmicas. Mas há mais do que isso. É só comparar o péssimo ‘Hannibal’ do conceituado autor Riddley Scott, que praticamente matou o franchise Hannibal Lector, com o surpreendente ‘Red Dragon’ de Ratner, apenas um ano depois. Se o argumento diz ‘e então o autocarro explode’, sabemos que Michael Bay o vai filmar muito melhor que Godard, Scorcese ou Ozu. O mesmo se passa com comédias de acção dirigidas por Ratner.

Começando a carreira como realizador de videoclips, muitas divas como Maddona, Mariah Carey e Jessica Simpson agora dificilmente fazem um videoclip sem ele. O seu trabalho tem sido praticamente todo na televisão (é o produtor de ‘Prision Break’), mas no grande ecrã realizou os 3 ‘Rush Hour’, bem como o terceiro X-Men (‘Last Stand’ – o melhor da saga), e o animado ‘After the Sunset’ com Pierce Brosnan e Sela Hayek. ‘Tower Heist’ é o seu mais recente trabalho.

Ben Stiller é o gerente de uma torre de apartamentos de luxo em Nova Iorque. Lá mora Alan Alda, um gestor milionário, aparente muito amigo dos seus empregados. Mas Alda é um investidor de risco fraudulento, e quando é indiciado pelo FBI, o staff descobre que todo o seu dinheiro (que de boa fé, mas estupidamente, tinham dado a Alda para investir) foi perdido. Stiller jura vingança, o que faz com que seja despedido. Então, forma um plano. Assaltar a própria penthouse da torre (visto que o dinheiro que Alda roubou, e que nem o FBI conseguiu encontrar, só pode estar lá escondido).

A pandilha de ladrões invulgares conta também com Casey Affleck, Mathew Broderick (é estranho vê-lo já na meia idade), Gabourey Sidibe (do filme ‘Precious’), e Eddie Murphy, um ladrão fala-barato de meia leca, vizinho de Stiller. Juntos, assaltam a torre no último terço do filme.

Este é um filme com mais camadas do que poderá parecer. Verdade que o primeiro acto demora mais de uma hora e é demasiado extenso para o tipo de filme que este pretende ser. Contudo, isso dá uma (certa) profundidade às personagens que é raro ver nestes filmes, e dá umas achegas de consciência social, nestes tempos de crise financeira em que os gestores são os principais culpados. Contudo, a ‘profundidade’ não passa muito disto, e o resultado é que tempo a mais é perdido. O filme só verdadeiramente despoleta com o passar da primeira hora, quando Murphy entra em cena e 'treina' a equipa de ladrões. A química Murphy-Stiller é hilariante, e trás à memória a dupla Shrek-Donkey. Stiller está mais contido do que o habitual, mas forma o contraponto ideal com Murphy, que faz o que sabe fazer melhor… falar desalmadamente com uma piada por segundo. Contudo, o assalto já é menos conseguido. Claro que tem cenas hilariantes, e termina com uma sequência brilhante de suster a respiração, tirando partido da altura elevada a que se passa o assalto, durante toda a qual eu literalmente tinha os olhos colados no ecrã. Mas após uma hora de construção, sabe a pouco. Este é um filme que possui uma distribuição normal – vai crescendo, atinge o seu pico a meio e depois volta a descer de intensidade. Os extremos, o início e o fim, estão muito menos trabalhados que o miolo.

Como de costume nestes filmes, há várias coisas difíceis de acreditar, claro, (um elevador suster o peso de várias toneladas, empregados comuns conseguirem ludibriar agentes do FBI), e no fim nota-se que o filme tem alguns ‘buracos’ no argumento, com o seu final tudo está bem quando acaba ‘quase’ bem. O ‘quase’, como não podia deixar de ser, deixa a janela aberta para a sequela. Contudo, é um filme de acção/comédia que funciona. Não passa disso, mas para o que é funciona, e bem. Ratner é sempre uma lufada de ar fresco do género, e o rol de actores secundários (incluindo uma Tea Leoni como agente de FBI, com química romântica com Stiller) é da mais alta qualidade.

Este vai ser descartado pelos críticos, é certo, como ‘mais um’. Há muito filme de acção/roubo/comédia por aí. Contudo, se é isso que pretende, caro leitor, então vá ver este. Para o género, está bem acima. Rir-se-á um pouco, agarrar-se-á ao seu assento um pouco, e não terá que pensar muito, enquanto torce pelos zé ninguéns que atacam o clichézado investidor mauzão. Um reflexo daquilo que todos nós queríamos fazer, no actual estado das coisas. Não chega a ser pungente, mas brinca traquinamente com coisas sérias.

Espero pacientemente que Ratner fique mais velho uns aninhos, e comece a fazer filmes sérios…

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