‘Drive’ consegue atingir um feito de certo modo notável. Parte de um modelo
típico de filmes de acção não muito bons dos anos 80 e transforma-o numa obra
cinematográfica com excelência, mesmo que essa excelência seja algo forçada.
‘Drive’ é uma história típica de um homem calmo, misterioso, de poucas
palavras, que devido a um conjunto de circunstâncias toma a luta contra um
‘mal’ nas suas próprias mãos e faz despoletar os horrores do inferno contra
aqueles que fizeram mal a si e às pessoas que ama. Ryan Gosling (está na moda o
homem!) é esse homem, um duplo de cinema com uma capacidade invulgar para
conduzir carros, e que às vezes participa como condutor de carros de fuga em
assaltos. A cena inicial é particularmente excitante, mesmo que de uma forma
contida (ou melhor é ainda mais excitante porque é contida), e funciona perfeitamente
para estabelecer o carácter da personagem. Nunca se percebe bem porque é que
Gosling participa em assaltos de quando em quando. Pela adrenalina talvez. Ele
não é ‘mau’. Nota-se isso logo no início, e ainda mais se prova quando ele fica
muito amigo do filho da vizinha, e da própria vizinha (interpretada por Carey
Mulligan), cujo marido está na prisão. A relação entre ambos podia acabar na
sexual, mas nunca acaba, o que mais prova o carácter erecto de Gosling, como se
fosse o homem sem nome dos velhos westerns (aliás o seu nome nunca é
pronunciado, ou é Driver, ou é the Kid).
Quando o marido da sua vizinha sai da prisão e regressa com dívidas a
mafiosos e é obrigado a fazer um assalto para as saldar, Gosling oferece-se
como condutor. Tudo dá para o torto e a vingança dos mafiosos aproxima-se de
Mulligan e do seu filho. É aí que Gosling sai do seu estado sempre calmo e
passivo e entra numa senda de vingança para proteger a mulher e a criança…
Estas histórias de vingança urbana num sub-mundo de capangas mafiosos, com
uma personagem principal enigmática e sem nome, são comuns no cinema. Aliás, o
argumento de ‘Drive’ é análogo a vários filmes do género. O que o distingue é o
estilo visual. Os americanos não estão habituados a estes tipos de filmes no
modelo europeu e ‘Drive’ já está a ser aclamado como uma obra prima. ‘Drive’
tem muito poucas falas. ‘Drive’ tem pausas gigantescas em que as personagens
ficam a olhar umas para as outras. ‘Drive’ tem planos de câmara artísticos.
‘Drive’ tem sequências em câmara lenta ao som de música. ‘Drive’ tem momentos
de violência excessivamente ‘gore’ que, supõe-se, funcionem como contraponto
chocante ao ritmo lento da construção do filme. Isto torna o filme, senão bom,
pelo menos melhor, mas um experienciado em cinema fica sempre com a sensação
que estes planos não surgem naturalmente, mas forçadamente, e muito do
‘artístico’ parece excessivo. Tudo no cinema é deliberado, obviamente, mas
quando é deliberado demais também não resulta. Não há necessidade para tanto
sangue nas cenas ‘gore’. Contrasta com o resto do filme é certo,
salientando-se, mas ao mesmo tempo não se enquadra. Não há necessidade para as
cenas iniciais entre Gosling e Mulligan, quando mal se conhecem, haver tantas
pausas e tantos olhares e tanta musiqueta. Não há necessidade para nalguns
‘ataques’ aos mafiosos Gosling usar a sua máscara de duplo, enquanto noutras
não. A diferença é que nalgumas fica bem artisticamente ele chegar em slow
motion com a máscara…
Mesmo assim ‘Drive’ é bom. Comparando com os recentes filmes americanos,
uma pessoa pode dizer até que é muito bom. Gosling encarna bem a personagem
(muito melhor do que seria Hugh Jackman inicialmente contratado para o papel) e
o rol de personagens secundários também. A crítica está a destacar Albert
Brooks. Eu destacaria Bryan Cranston. Depois de o ver como pai na série cómica
‘Malcolm in the Middle’ é surpreendente o seu papel de xoninhas deficiente.
Enquanto estava a ver o filme os paralelismos ao modelo artístico de ‘No
Country for Old Man’ não me saiam da cabeça. Se a academia deu 4 Oscares a No
Country, incluindo Filme e Realizador, então ‘Drive’ mereceria muitos mais. Mas
tal não vai acontecer. No Country era dos irmãos Coen, no pico da ‘moda’ dos
irmãos Coen. Este é de Nicolas Winding Refn, desconhecido, e cujo último filme
foi ‘Valhalla Rising’ (2009). Mas uma coisa é certa. O público em geral poderá
não perceber o modo artístico e europeu em que ‘Drive’ foi filmado, mas mesmo
assim, e mesmo sabendo que se não houvesse pausas, nem planos artísticos e
houvesse muito mais enfoque na acção isto era um filme do Steven Seagal,
‘Drive’ é mil vezes melhor que o ‘King’s Speech’. E se o ‘King’s Speech’ ganhou
Óscar Melhor Filme, então o ‘Drive’ merecia entrada directa para a biblioteca
do Congresso.

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