Almodóvar. Tenho um amigo que o descreve como ‘aquele que faz filmes de
paneleiros’. Bem, Almodóvar é mais que isso, embora a marca ‘Almodóvar’, dos
seus maiores sucessos, tenha uma fórmula que é muitas vezes semelhante, e que
se recicla de filme para filme. Felizmente, existe um estilo visual e de
produção muito bom, e cada filme consegue ter pequenas surpresas. Ainda mais
felizmente Almodóvar tem-se afastado do mundo das drogas, dos travestis e dos
homossexuais, e os seus últimos filmes têm regressado a um tipo de exploração
mais básica da condição humana espanhola, que não tem de se apoiar na
espalhafatuosidade das morte, pedofilia, drogas e afins para conseguir chocar
ou ser profundo. Isto é visto pelos críticos como mau. Para mim é visto como
bom.
Para mim a melhor obra de Almodóvar não é nenhuma que tem a sua ‘chapa 5’, ‘Hable
com ella’ ou ‘Tudo sobre mi madre’, mas sim ‘Carne Trémula’ (1997). ‘La piel
que habito’ é, de todos os filmes de Almodóvar, aquele que está mais perto de o
destronar.
Almodóvar já não trabalhava com Banderas (cuja carreira havia lançado) desde
‘Átame!’ (1990). Há um tipo de relação entre captor e refém muito próxima em
ambos os filmes, mas enquanto ‘Átame!’ era um estudo semi-cómico, ‘La piel que
habito’ é frio e calculado. Assim são os planos. Assim é a construção das
cenas. Assim é o ritmo do filme. O novelo desfia-se muito lentamente. Muitas
vezes o público já percebeu há muito o que se está a passar, ou o que se vai
passar, mas a câmara continua a filmar, como se nos obrigasse a ver com um
prazer mórbido. Este tipo de calculismo está muito acima das obras anteriores
(não confundir isto com a habitual ‘lentidão’ dos filmes europeus, ao qual
Almodóvar não escapa), é o reflexo da complexidade fria da personalidade da
personagem de Banderas, e apenas falha nas últimas cenas. O filme tem claramente
mais 6 ou 7 minutos do que precisava. Já não é preciso obrigar o público a
suportar o peso da história através das imagens quando a história já está toda
revelada e o filme, para todos os efeitos, já acabou.
A história tem duas partes. Uma inicial que nos mostra Banderas como um
cirurgião plástico de prestígio, rico, com uma sala de operações na cave da sua
grande mansão. A sua mulher e filha morreram anos antes. Contudo, numa sala
totalmente fechada, Banderas detém refém uma jovem mulher, cuja pele trata
cuidadosamente (Elena Anaya), com a ajuda de uma mulher, Marisa Paredes, uma
actriz habitual de Almodóvar. Quando o filho desta, interpretado por Roberto
Álamo, aparece não convidado na mansão uma noite, e se apercebe de que existe
uma mulher prisioneira, despoleta uma série de eventos trágicos. Tal como noutro
filme de língua espanhola ‘El Secreto de sus ojos’ (2009), ao fim dos primeiros
45 minutos, há um twist/revelação e parece que já está tudo contado. Contudo,
ambos os filmes mergulham numa segunda camada e ocorre um segundo twist, muito
melhor que o primeiro, e que apanha o público de surpresa, relacionado com o
segredo da misteriosa mulher prisioneira. O segundo twist de ‘La Piel que
habito’ é uma das melhores, se não a melhor, surpresa argumental de Almodóvar,
e eleva o filme a um patamar único. O público não se apercebe dele de um
momento para o outro, numa grande surpresa dramática com música a condizer. Em
vez disso é dado progressivamente e depois, como disse, é esticado até obrigar
toda a gente a penetrar nos eventos quer queiram quer não (a não ser que saiam
da sala). Só o final do filme parece a mais. De resto o filme tem exactamente o
equilíbrio que precisa de ter.
Banderas, cujos dias como leading man de Hollywood já acabaram, está num
dos seus melhores papéis. ‘La Piel que habito’ é um dos melhores filmes de
Almodóvar, e um dos melhores filmes do ano. Almodóvar tem um dom para inventar
histórias dramáticas chocantes, e está muito melhor quando estas não envolvem
forçados marginais da sociedade, mas pessoas supostamente normais cuja sanidade
mental não é exactamente aquilo que aparenta ser. Aqui temos um conto de
Frankenstein moderno, que se mistura com uma história de vingança fria, lenta e
ponderada mas afiada como uma faca de dois gumes, que se mistura com um estudo
psicológico da síndrome de Estocolmo (relação sequestrador-sequestrado).
Almodóvar pega no melhor de ‘Átame!’ e ‘Carne Trémula’ e cria uma história
única que cativará, chocará e fará o público pensar sobre ela muito depois de
sair da sala.
Só um reparo. Alguém ensine a Almodóvar como se fala português. Os ‘brasileiros’
do filme falam uma espécie de língua qualquer. O que quer que seja, não é
português!

Vai contar os twists para outro lado, ó estraga-suspense!
ResponderEliminarNão contei nada de nada!
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