Quem viu ‘Shrek 2’ (2004) certamente nunca se esqueceu da fantástica
entrada da personagem do gato das botas, com os seus olhos fofos e a voz de Zorro.
Uma hilariante e fascinante criação (notando o poder e o realismo que a
animação por computador pode atingir), teve desde então um filme próprio em
carteira na Dreamworks, primeiro pensado como directo-para-DVD, e finalmente retrabalhado
para o grande ecrã.
O filme, do mesmo realizador do terceiro ‘Shrek’ (curiosamente o pior da
saga), existe no mesmo universo dos filmes do ogre. O tipo de animação e o
desenho das personagens segue os mesmos traços, e o tipo de história segue o
mesmo padrão, ou seja, o de retrabalhar contos de fadas e torna-los modernos e
com estilo, embora tomando demasiadas liberdades com as suas origens. O que eu
quero dizer é que a piada resulta para quem conhece as histórias originais, mas
as crianças de hoje que entram em contacto com estas histórias pela primeira
vez não as vão ouvir correctamente. Será isso justo?
Aqui, três histórias clássicas intersectam-se, a do Gato das botas, a do
Humpty Dumpty e a do pé de feijão e da galinha dos ovos de ouro. A primeira
dá-nos o herói e a segunda o vilão, mas é a terceira que consome a grande parte
da história.
Puss é-nos apresentado ao mais belo estilo latino (ou a visão que os
americanos têm dos latinos), um dançarino, sedutor e lutador, mas que, diga-se
em abono da verdade, é também extremamente fofinho! Este Zorro com pêlo permite
que o filme tome o ar de um western (o segundo este ano de animação depois de ‘Rango’),
e as cenas iniciais gozam um pouco com o género. Mas é quando Puss sabe que um
casal de capangas (um deles com a extraordinária performance vocal de Billy Bob
Thornton) estão na cidade com os três feijões mágicos, que a aventura começa.
Puss tenta roubar os feijões (estão de alguma forma ligados ao seu passado), e
é no roubo que se depara com Kitty (Selma Hayek), que tenta roubar os mesmos.
Ela trabalha para Humpty (voz de Zach Galifianakis), outrora bom tornado mau, e
quando Puss descobre há um flashback para a infância de Puss e Humpty, onde
eram amigos. O mau deste flashback é que é a única parte morosa e com menos
piada do filme. O bom deste flashback é que podemos ver um pequeno Puss, que,
muito sinceramente, é a coisa mais adorável que alguma vez foi projectada numa
tela de cinema.
Puss, Humpty e Kitty partem na busca da galinha dos ovos de ouro, Puss com
motivos altruístas (salvar a cidade da sua infância) e os outros com motivos
mais financeiros. O resto é fantasia/aventura, com twists clássicos e que um
espectador mais experienciado vai facilmente detectar de antemão.
Puss é mais um filme de acção/aventura do que propriamente uma comédia.
Está nas linhas das sequelas do Shrek, sem o escape cómico do Donkey. Mesmo
assim resulta e é uma experiência de animação compensadora. Repito, só as
imagens do Puss em pequeno valem o preço do bilhete. Os contornos são
previsíveis mas não morosos, os bonecos são adoráveis, Banderas é rei e senhor
da voz, e o filme (tirando o flashback), tem ritmo, ao som de uma banda sonora
de western passado no México. Não está aqui o vencedor do Óscar de Melhor Filme
de Animação, mas está uma experiência leve e por vezes engraçada para um sábado
à noite, com um 3D fabuloso (o melhor que vi este ano), e que está acima da
maior parte dos filmes de animação que saíram este ano.

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