Sejamos sinceros, a maior parte das coisas que se escrevem são uma parvoíce. Nos tempos que correm, qualquer indivíduo com meia dúzia de palmos de testa, que é como quem diz, um cabeçudo, acha que se consegue desembraçar na arte da palavra. Ora eu sei de boa autoridade que o Shakespeare tinha a cabeça bem pequenina, porque na realidade vi o tal filme, e o Camões tinha um olho a menos, o que certamente já retira algum volume àquela cabecinha marota. Não desfazendo outros escritores mais abonados, a minha cabeça até tem um tamanho razoável – o que também poderá ser consequência de ter cabelo a mais – mas não suficientemente grande para que seja excessivamente parvo naquilo que estou a escrever.
Mas a parvoíce não é o meu prato forte. Enveredo mais pelo embelezamento. Por exemplo, consigo transformar a épica frase de “o João gosta da Maria”, em “o João está apaixonado pela Maria”, o que não só aumenta consideravelmente o nível de eloquência do material, como aumenta também em um o número de palavras, o que dá sempre jeito em várias circunstâncias, a saber; quando se recebe à palavra, quando se tem um limite de palavras a atingir, quando se quer impressionar uma miúda e, bem sabido, quando não se tem mais nada para fazer. Contudo, a minha capacidade literária vai um pouco mais além, mas só um pouco (que eu não quero ser de maneira nenhuma apelidado de convencido ou até, quem sabe, de pedante). Talvez seja por ter um pai escritor. Talvez seja por ter visto muitos episódios do “Santo”. Talvez seja por ter estado fechado duas horas num controlo de gripe A aquando da minha visita a Macau. Ou então não fui amamentado em criança. Sinceramente não sei. Independentemente da razão, a verdade é que consigo transformar a frase supracitada em “o João acha que a Maria é o seu mais que tudo”, ou também, utilizando um estrangeirismo, “João loves Maria”. Podemos igualmente recorrer aos recursos de estilo, como o pleonasmo, “o João ama a Maria porque gosta dela” (creio que não sou o primeiro a escrever esta frase – ver Fátima Lopes), a perífrase, “o João nutre pela Maria o sentimento mais puro e mais belo que pode existir entre os descendentes de Adão, e se fosse uma beterraba seria docinho docinho”, a ironia “o João não gosta da Maria não, queres ver?”, a comparação “o João gosta da Maria como o Ruben gosta da Ana Francisca”, e a apóstrofe “Ó João, Ó Maria, Ó Cupido, estais todos numa rambóia a três que é uma loucura”. Poderia eventualmente tentar a cacofonia, mas à primeira vista parece-me um bocado complicado, e eu sou uma pessoa simples.
E estes dois belos parágrafos acima constituem o chamado “enquadramento inicial da história”. Neste momento o leitor já está ciente que existe um João, que existe uma Maria, e que estão enamorados. Vai o sábio crítico acusar-me de quebrar as regras da linguagem, da escrita, de Matusalém e assim por diante. Acuse à vontade a ver se me importo. Se há uma coisa que me apetece constantemente é escrever como me apetece. O estilo aparece depois, ou não. A maior parte das vezes é inventado a posteriori, e nem sequer é por mim. Alguém diz “eh pá caro jovem, estás a escrever com o estilo da escola pós-modernista de Figueiró dos Vinhos”. E eu abano a cabeça e digo que sim, que eu não gosto de ofender as pessoas.
Bem, o meu nome já todos o sabem, e não nos interessa minimamente repetir, porque é assim a modos que um bocado feioso. A minha idade é entre o jovem e o já não assim tão jovem. Gosto tanto de cortar a unha do dedo mindinho como dos restantes dedos, o que prova que sou altruísta e bom rapaz, e se me coçarem as costas quando tenho comichão fico eternamente agradecido a essa pessoa. Num dia bom, posso ir jogar futebol. Curiosamente, num dia mau também. Para uma ilha deserta levava um leitor de DVDs e um telemóvel, para poder encomendar os DVDs, porque como toda a gente sabe um leitor vazio não serve para nada, a não ser claro, se se é assaltado, pois aí pode ser devidamente utilizado como uma boa arma de arremesso. Mas claro, não creio que ninguém me assalte numa ilha deserta. Se alguma vez me perguntarem na televisão o que quero para o Mundo não hesitarei em dizer “world peace” (ou “piece”, não sei, confundo sempre). As minhas cores são as que existem, e se tiver de escolher um número peço antes que me dêem uma calculadora que resolva integrais de segunda ordem. Claro que a frase anterior foi uma rebuscada tentativa de insinuar que até sei o que é um integral de segunda ordem, e se o leitor está impressionado, curioso, ou ambos, então sugiro que recorra à internet, que eu tenho que avançar com a minha história e não posso perder tempo com trivialidades e parvoíces, tal como comecei por enunciar.
E este magnífico parágrafo acima constitui o chamado “enquadramento do narrador”. Os leitores mais perspicazes já se aperceberam que o narrador é um homem ciente da sua condição de narrador, o que é sempre bom nestes casos, (se é presente ou ausente ainda não se sabe, o que incute também uma nota de mistério à estória), que possui unhas e que sabe soletrar a palavra “arremesso”. Parecem-me triviais quaisquer tentativas de dar mais profundidade a esta personagem.
Estávamos num belo dia do mês de Fevereiro. A isto chama-se “enquadramento temporal da história”. E de notar a destreza do narrador, não só a referir que se estava num dia, mas que esse dia era “belo”. Estiquemos um pouco pela imaginação. A subtil brisa matinal aninhava-se em redor dos corpos que pontilhavam a rua. Nas primeiras horas da manhã os passeios ainda ostentavam pequenos espelhos de água que aqui e ali se haviam enroscado, vindos do céu, para passar a noite. Mas com o desabrochar do dia, o calor sorvera estes oásis do pavimento, e as poucas gotas que restavam eram chutadas pelos ávidos sapatos que conquistavam apressadamente a calçada. “Eh pá”, gritou de súbito uma voz do céu, “está aqui um carapau de corrida armado em Saramago. E que tal, a modos que choveu durante a noite mas agora já não chove, e diz que já há pessoas a andar na rua a esta hora da manhã? É assim tão difícil? Porque é que é preciso amaricar?”. Bem, confesso, em relação à escrita amarico um bocado. Chama-se a isto “amaricar um bocado em relação à escrita”.
Uma carrinha de mudanças contornava uma esquina sem se importar muito com o pavimento molhado nem os peões que aguardavam para atravessar. Após uma brusca travagem (daquelas que faz mal às cruzes, aos terços, e a outros artefactos), dois Zebedeus apeavam-se e polvilhavam o passeio com a imensidão nada subtil do seu escarro. “Consegues transportar a caixa?” vociferou um deles, mal contendo a pastilha elástica no interior da boca áspera. “A modos que sim, ó sócio indivíduo!” replicou o seu encorpado comparsa. “Para adonde?” concluiu. “Se não sabes para adonde, como tens a afronta de palrar que consegues?”. “Porque sei que consigo, adonde for”. “E se adonde for o 25º andar com o elebador abariado?”. “O meu tio Quim-Tó trabalha na construção civil e orienta-me uma daquelas maquinetas de tamanho familiar”. “Chama aqui o teu Tio Quim-Tó então, que eu chamo o namorado do meu cunhado Antunes Daniel, e aí vais tu ver quem é que tem o tamanho familiar…”
E assim por diante seguiu esta animada altercação, duas almas inocentes perdidas na demagogia do seu inteligente palavreado, enquanto mergiam esforços para transportar a caixa até ao seu destino.
Na realidade o “elabador” estava “abariado” naquela manhã, cedo descobriu a companhia, que só não chegava a ser um glorioso triunvirato porque o Fagundes da Silva tinha ficado na cama de ressaca, após uma noite de excessos na companhia de três perdizes e uma jovem das margens do Ipiranga. Tudo o que sobe um dia tem de descer, disse um dia o estimado Isaac. Mas os dois Zebedeus da nossa história nunca ouviram falar do estimado Isaac. Ouviram falar da Lyonce Viiktórya, mas nunca do Isaac. Pelo que se dignaram a subir, arrastando consigo o malfadado embrulho que, alheio a todas estas circunstâncias, era maltratado em cada degrau, em cada patamar e em cada aresta. E, tal como outrora as escadas de Babel eram escaladas e escaladas como se não houvesse amanhã, numa tentativa de tocar no divino, tal como Ícaro ascendeu e ascendeu, numa tentativa de beijar o calor nas faces, assim estes dois Zebedeus conquistavam degrau após degrau, andar após andar, numa tentativa de ficar cada vez mais suadinhos, e arfar o suficiente para merecerem a cerveja que certamente os esperaria no intervalo da manhã.
De súbito, uma última curva. De súbito, um último patamar. De súbito, um número, e uma porta. De súbito um estrondo que fez acordar a senhora de idade do 2º esquerdo. De súbito duas panças recostavam-se no chão, recuperando do esforço físico que já serviria para o ano todo. “Repetimos a dose em dois mil vinte sete?”, disse uma vozinha sufocada proveniente de uma face mais vermelha que uma lata de tomates do SLB. “Desde que possa repetir a dose logo à noite no Tasco do Picapau Amarelo…”, retorquiu o seu comparsa, sem se dignar a acabar a frase, por respeito aos seus pulmões. “Antes de picarmos o pau, temos que picar o ponto” retorquiu o primeiro, num raro rasgo de sagacidade. Teve um assentimento de uma cabecinha como resposta.
No minuto seguinte duas almas penadas levantaram-se, o normal equilíbrio do seu corpo restaurado, e seriamente confirmando o número da porta (porque fazer mudanças é uma profissão séria, seriamente confirmada), tocaram à campainha. O toque cristalino ressoou e apaziguou os ouvidos rudes destes dois intrépidos viajantes. A fechadura estremeceu levemente e depois cedeu. A porta abriu-se.
“Senhora Menina?”. “Sim, é a própria”. “Assim a modos que temos aqui uma encomenda para a Senhora Menina”. “Mas eu não encomendei nada!”. “Se não encomendou alguém encomendou por si, e olhe que parece valer a pena, é bem pesada, aqui o Gervásio quase que nem podia com ela, se não fosse eu e a minha musculatura…”. “Hey!” indignou-se Gervásio. “Mas que queres?” indignou-se ainda mais o outro. “Eu não quero nada”. “Então tá bem!”. Verdade seja dita, se algum deles se soubesse indignar mais ainda, o faria, mas assim sendo por aqui ficaram. Uma tossesinha levou-os de novo a concentrar-se na tarefa em mãos, e a jovem rapariga lá ficou com o embrulho, que foi audivelmente arrastado para dentro da divisão. As costumeiras despedidas formais foram efectuadas, e as duas criaturas desapareceram quer da sala, quer da nossa história, sem antes desfilarem a pança com que vieram ao mundo, seguido, quando se voltaram, da roupa interior que a calça descaída deixava antever, perante os belos olhos da incrédula rapariga.
Enfim sós. Só ela e o caixote. Mas que poderia conter tão rude embrulho, tão audivelmente arrastado, tão irritantemente pesado? Esta era uma miúda despachada que não estava para meias medidas e que não gostava de engonhar. Para além do mais, o narrador está ciente que depressa tem de chegar a algum lado, antes que perca clientes. A soma destes engenhos leva-nos aos parágrafos seguinte, onde o embrulho é aberto, a história concluída e a moral obtida.
Enfim sós. Lá fora rugia a selva urbana. Cá dentro batia o coração curioso da rapariga. Aproximou-se do caixote, escolhendo o melhor ângulo de aproximação. Alguma coisa não estava bem. O embrulho era suficientemente vulgar, mas os seus sentidos apurados reconheciam alguma falha no equilíbrio da situação. Talvez lá fora, com a azáfama da rua, aquele sopro indistinto seria inaudível aos dois Zebedeus. Talvez lá fora, com toda a mestria verbal que demonstraram e a aventurosa escalada, aquele pequeno oscilar das faces da caixa passassem despercebidas. Mas não para a bela rapariga. “Por favor abre-me com jeitinho, que sou fofinho” dizia o rótulo. Ela levantou ligeiramente uma sobranceira e aproximou-se. Inclinou-se sobre a caixa. Os seus dedos esticaram-se. Tocou no cartão…
Um movimento brusco fê-la sobressaltar-se e retrair-se. A caixa abriu-se, as suas quatro faces caíram simultaneamente e a tampa saltou sem se importar com a sua trajectória. Ela gritou, levou as mãos à boca e ficou, dois ou três passos recuada, a olhar espantada para o que se deparava à sua frente.
A sua incredulidade demorou apenas meio segundo. Quase instantaneamente, as mãos que cobriram a boca descaíram e o ar de espanto converteu-se num sorriso cada vez maior, até que explodiu em risota e todo o seu rosto se iluminou com o canto da felicidade. “Parvo”, sussurrou de mansinho, o olhar tentando reprovar mas não escondendo o brilho translúcido de emoção, de emoção apaixonada.
“Não sei se já mencionei hoje o quão gira és!” disse o rapaz que se erguia à frente dela.
“Parvo…” voltou a sussurrar, rendida àquela surpresa, enquanto se aproximavam um do outro, os seus braços suplicavam pelo toque, e os lábios ardiam com o sopro que havia de ser, em breves momentos.
“Esta é a minha prenda, ofereço-me a ti” disse ele, olhando-a, entrando no seu círculo de luz…
Chama-se a isto “clímax da história”, mas também “censura”, pois o que se passou a seguir pertence ao segredo dos deuses, ou mais provavelmente Afrodite, visto ser ela a deusa do amor. E portanto o narrador aproveita esta oportunidade para não só se despedir, como para salientar uma série de pontos, a saber, (i) o amor é a maior parvoíce de todas; (ii) o narrador é o maior especialista em parvoíce que anda por aí; (iii) seguindo o silogismo de Aristóteles então o narrador está parvo de amores. Quem pode argumentar com Aristóteles? A solução? Capitular. Chama-se a isto “diluir o egocentrismo da escrita e sufocar em parvoíce”. Não é de admirar que metade da população mundial ande aí pelos cantos completamente abananada. E é a abananar que a gente se entende, como este texto abertamente o prova.
O meu conselho? Crescei, abananai e multiplicai-vos. Neste momento estão nas bocas de todo o país as palavras “Mundo parvo” e “geração parva”. Encontrem outro termo, que a parvoíce é um sublime estado de ser e recomenda-se. Sou parvo, quero ser parvo e vou continuar a ser parvo. Contudo, nunca se esqueçam que não só toda a parvoíce está injectada de verdade, como até o maior talento empalidece perante perfeita beleza. Sou prova viva. O meu maior talento deixou de ser só meu. Posso ser parvo, mas acima de tudo sou pálido. O espectro do amor eriçou-me os cabelos… and I feel fine.