Domingo, 18 de Setembro de 2011
‘Midnight in Paris’ (2011)
Há poucas coisas que são certas na vida. Mas uma delas é que Woody Allen faz um filme por ano, e que esse filme, embora pecando por possuir o mesmo tom e estilo ano após ano, terá sempre um certo nível de qualidade, e possuirá mais uma contribuição de magia (mesmo que pequena) ao grande ecrã.
Uma das vantagens de lançar filmes ‘parecidos’ todos os anos, é que quando se faz um filme menos conseguido (perífrase para mau), facilmente este é esquecido pelo público com o lançamento do seguinte. O fraco ‘Melinda and Melinda’ foi seguido do genial ‘Match Point’; os esquecidos ‘September’ e ‘Another Woman’ foram seguidos pelos muito melhores ‘Crimes and Misdemeanors’ e ‘Alice’. Da mesma forma, o (muito) fraco ‘You Will Meet a Tall Dark Stranger’ é seguido por uma das melhores contribuições recentes de Allen, ‘Midnight in Paris’, que se encaixa nos seu estilo ‘romanticismo em cidade famosas, com um toque de misticismo’.
Após ‘Alice’, ‘Scoop’, ‘A Midsummer Night's Sex Comedy’, entre outros, este é um filme que acrescenta um toque de fantástico à fórmula clássica de Allen. Owen Wilson é mais um numa longa lista de actores que tenta imitar o estilo desconexo das personagens principais interpretadas pelo próprio Allen (só Larry David chegou perto). Contudo convence, embora o seu discurso arrastado chegue a ser enervante. Representa o papel de um argumentista de Hollywood, noivo de uma Rachel MacAdams facilmente esquecida (mais uma vez!). Juntos, passam férias em Paris, na companhia dos pais dela (que não gostam dele) e de um casal amigo dela (do qual Wilson, por sua vez, não gosta). Farto de visitar museus e monumentos em tão enfadonha companhia, Wilson, algo bebido, está numa certa rua da cidade Parisiense ao bater da meia-noite, e, tal Cinderela, uma carruagem aparece transportando-o para os anos 20 da cidade boémia.
Lá conhece Cole Porter, Scott Fritzgerald, Salvador Dali (um hilariante Adrien Brody), Luis Bunuel, Picasso e muitas outras personalidades, bem como uma charmosa (desconhecida) modelo, interpretada com uma imensa joie de vivre por Marion Cotillard, por quem se apaixona. Noite após noite, Wilson regressa ao mesmo sítio, e, ao bater da meia-noite, é sempre transportado para essa era mágica, onde os famosos o ajudam a compreender-se a si próprio, a escrever o seu romance, e a ganhar uma nova paixão pela vida, que o mundo ‘real’, nem a sua noiva, lhe podiam oferecer.
Os filmes recentes de Woody Allen, e este sem excepção, são concebidos com bases de muito bons argumentos e interpretações. Contudo, as cenas são filmadas com base nestes diálogos e interpretações. A câmara aponta, filma, a cena acaba e passa-se para a seguinte. Falta uma vibração, um elo de ligação que dê um ritmo ao filme. Em muitos filmes, esse elo era o próprio Allen, cuja maneira electrizante de actuar enchia-os de ritmo. ‘Midnight in Paris’, a ter falhas, é essa, tudo se passa no mesmo comprimento de onda.
De resto, o filme é mágico, principalmente se o espectador estiver familiarizado com as várias celebridades dos anos 20 que pontilham o ecrã. Mas mesmo se não estiver, o romance ‘à antiga’ que o filme proporciona é suficiente para cativar, embora, neste caso, as partes com as celebridades e as piadas internas possam tornar-se maçadoras. Mas acima de tudo é a moral à qual o filme chega que é a sua jóia da coroa. O que define uma era? O que faz dela boa? Devemos manter-nos ligados ao passado e à riqueza que nele se criou, ou devemos encontrar a nossa própria magia e riqueza no presente, aqui e agora? Wilson chega às suas respostas no clímax do filme. O público, sem dúvida, tirará as suas próprias conclusões.
Com 76 anos, Allen não perdeu o dom. Como no passado, prova que após um filme mau, tem sempre energia e talento para fazer um bem melhor. Dos quase 50 filmes de Allen, este é certamente um daqueles que será lembrado. Tem menos piadas, menos romance, mas tem magia.
Ah, e claro, é um postal ilustrado de amor a Paris, rivalizando com o postal ilustrado de amor a Nova Iorque que era ‘Manhattan’. E, por o ser, há uma cena no cais preferido de Allen, onde já filmara com Peter Sellers em ‘What’s New Pussycat’ e a cena de dança flutuante de ‘Everyone Says I Love You’. Uma para os fãs.
Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011
The Secret of NIMH (1982)
'The Secret of NIHM' é um filme de animação cuja história é substancialmente simples e até um pouco desinteressante (apesar de altamente imaginativa), mas que possui uma incontestável riqueza visual, alternando tons sombrios com paletes de cor vividas e extremamente cativantes. Como história e apelo às crianças pode deixar algo a desejar (apesar de algumas personagens absolutamente geniais), mas como uma obra de arte do desenho e da animação está num patamar absolutamente intocável.
Não é por acaso que o seu criador, o realizador Don Bluth, aprendeu o seu ofício da Disney, e chegou a contribuir, como animador, nas produções do final dos anos 70, início dos anos 80:' Robin Hood', 'The rescuers - Bernardo e Bianca', e 'The fox and the Hound - Papuça e Dentuça'. Propondo NIHM à Disney, Bluth viu a luz verde negada, por os produtores do grande estúdio considerarem a história demasiado sombria. Ressentido, Bluth abandonou o estúdio para criar a própria Bluth Productions, levando consigo os produtores/animadores John Pomeroy e Gary Goldman, bem como mais 20 animadores, descontentes com a Disney (Tim Burton, também da Disney, abandonaria o estúdio pouco tempo depois, também insatisfeito com o facto de não o deixarem perseguir os seus intuitos mais sombrios....).
NIHM foi a primeira produção da recém criada Bluth Productions, um estúdio que, auxiliado pelo génio e qualidade gráfica de Bluth, e as capacidades produtivas de Spielberg, produziria ouro de animação nos anos 80, com 'Fievel - An American Tail' (1986) e 'Land Before Time - Em Busca do Vale Encantado' (1988), filmes que ficaram no imaginário de uma geração (a minha, por sinal!) numa altura em que a própria Disney apresentava produções menores, até renascer com 'Little Mermaid' em 1989. Aliás, Bluth foi a primeira pessoa a debater-se com a Disney no mercado da animação (que hoje conhece a Pixar, a Dreamworks, o Blu-Sky Studios,...), e NIHM foi, na altura do seu lançamento, a mais cara e maior produção de animação de sempre, que não da Disney.
A história centra-se à volta da Sra.Brisby, uma ratinha (animal preferido de Bluth?) que perdeu o marido em circunstâncias misteriosas e que agora procura criar os filhos sozinha no buraco onde vivem, debaixo de uma pedra num quintal de uma vivenda. Quando um dos filhos adoece, a sra. Brisby (auxiliada por um hilariante corvo com a voz impagável de Dom DeLuise) consulta um rato ancião, e mais tarde uma sábia coruja, para procurar a cura. Entretanto, os humanos vão arar o jardim, pondo em risco a sua casa, e o seu filho doente, que não se consegue deslocar nem sair da cama. Correndo contra o tempo, a Sra. Brisby pede auxílio aos líderes da colónia de ratos, ratos super-inteligentes (alguns com poderes mágicos) resultado de experiências genéticas na misteriosa NIHM, pouco sabendo que o seu falecido marido tem mais a ver com eles do que imagina. Quando luta para salvar o filho, o segredo de NIHM é desvendado a pouco a pouco, e o mistério por detrás da colónia de ratos, e da sua relação com os humanos das casas circundantes, torna-se clara.
Ao princípio é difícil perceber a história do filme. O filme perde-se entre cenas misteriosas (relatadas pelo rato velho e sábio Nicodemus- voz de Derek Jacobi), e cenas hilariantes (com o corvo). A sra. Brisby tem muita mais humanidade que a maior parte das personagens dos filmes de animação, mas a meio do filme não se torna mais que uma vítima das circunstâncias, uma espectadora dos eventos que se dividem entre a descoberta do segredo dos ratos e do papel do seu marido (por parte da Sra. Brisby, visto que os da própria colónia já o sabem) e a corrida contra o tempo para salvar o filho. O vilão está num rato que pretende que a colónia fique onde está (pois lá vivem à grande e à francesa, roubando electricidade e comida dos humanos) e que não acredita que os humanos vão arar o terreno e destruir-lhes as casas. O segredo do 'Segredo de NIHM' é magistral, um twist digno dos melhores filmes, mas esta história não será talvez a melhor maneira de o contar, divergindo o filme em tantas direcções que por vezes se torna confuso e desinteressante.
Contudo, é a nível visual que NIHM brilha. Fabuloso, e algo que Bluth não repetiu em filmes subsequentes. Como filme de estreia, Bluth queria demarcar o seu território. E demarcou-o como ninguém. É um Van Gogh, quando comparado a obras contemporâneas da Disney. Aliando-se a uma fabulosa banda sonora etérea de Jerry Goldsmith (no mesmo timbre da sua de 'Legend', 1985), NIHM é uma delícia para os olhos e para os ouvidos.
Muitas partes são sombrias para as crianças, mas a satisfação visual do todo merece o esforço e algum fechar de olhos nas partes mais assustadoras. Para os adultos, eis aqui um estimulante filme de animação, que peca por um argumento algo desconexo, que parte de uma excelente premissa mas que não a consegue revelar de uma forma interessante. De toda a carreira de Bluth, este não é certamente o filme mais bem amado. Mas é o mais belo.
Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011
Carta aberta à produção nacional
Caros senhores que produzem séries, novelas e filmes portugueses
Sendo um infeliz possuidor de uma televisão LG LCD no meu domicílio, e um infortunado assinante da MEO no mesmo domicílio supracitado, de vez em quando, por mero lapso asseguro-vos, tenho a infelicidade e/ou o infortúnio de me deparar com algumas das vossas obras. Assim sendo, e com todo o devido respeito que é devido a senhores tão acima na cadeia alimentar como são os senhores, permitam que um infeliz e/ou infortunado espectador vos faça uma série de perguntas.
Primeiro, onde encontrais os vossos actores? Tudo o que se recusa a fazer anúncios ao Pingo Doce para baixo é peixe para a vossa rede? É o jovem aspirante a actor tão fraco que não encontrais melhor? Não pode ser, visto eu fazer e ver teatro jovem há vários anos e já ter partilhado o palco com gente muito talentosa. Terão eles medo de vós, por algum motivo, e se escondam aquando das audições? Ou sereis vós estrábicos (quiçá zarolhos) em relação ao talento? Sereis vós tão subsídio-dependentes, tão desejosos de agradar a A, B ou C, tão desesperados em ter reconhecimento no Famashow, que não tendes tomates para dizer na cara das pseudo-estrelas que pontilham o vosso pequeno mundo cinematográfico que nenhuma delas sabe actuar? Não vos preocupeis, mandai-as a mim, que eu di-lo-ei por vós.
Segundo, estará o vosso processo produtivo tão corrompido que não possuís meios de dar o texto aos actores antes das filmagens? Novos e velhos, ‘experientes’ (muitas aspas) e inexperientes, todos eles parecem estar a ler os textos pela primeira vez nos cartõezinhos fora de cena, tão articulados tentam ser e tal é a dificuldade que aparentam ter em falar de uma forma fluída e natural. Serão os silêncios constantes, principalmente entre falas, fruto da vossa infelicidade financeira? Não possuis vós um teleponto, tendo tido que contratar um desgraçado barrigudo barbudo para o efeito? Terá este barrigudo barbudo que, sempre que se muda de personagem, pousar o cartão que está a segurar, agachar-se, e levantar o seguinte, originando assim a pausa que se vê no ecrã?
Terceiro, há algum problema de rigidez respeitante aos vossos actores? Certamente não lhes haveis espetado qualquer coisa (uma vassoura?!) traseiro acima antes das gravações? Assegurem-me que não por favor! Ou terão todos eles, sem excepção, sofrido um acidente de ski antes das filmagens, que os impeça de fazer movimentos de coluna? Talvez me respondeis falando-me em marcações de cena. Mas a não ser que me digam que caiu um jarro de super-cola 3, que a meio do voo se misturou com uma Tridente (já mastigada), no preciso local onde o actor devia estar, e que este não se conseguiu descolar como consequência, então não acredito que alguém possa ser tão ou mais preso de movimentos que a múmia do Boris Karloff.
Quarto, quando tendes actores que estão ombro a ombro, mas a falar um com o outro, estareis por acaso a fazer pouco dos estrábicos? Quando a meio de uma conversa ambas as personagens ficam imóveis, antes de prosseguirem, estareis a fazer pouco dos epilépticos, e das suas ausências? Ou estareis vós, com a música de fundo e os close-ups nos variados silêncios, a fazer uma grande homenagem ao Sergio Leone e o ignorante sou eu? Quando mostrais crianças de 7 anos a dizer frases com a complexidade gramatical de uma pessoa de 40, estareis a fazer pouco das crianças sobredotadas? Quando 90% das saídas de cena são feitas com as palavras (já no novo acordo ortográfico) ‘bora, bora’, estareis vós a fazer publicidade ao destino turístico da Polinésia Francesa?
Quinto, onde encontrais os vossos argumentistas? Estareis vós a ser solidários com um senhor (ou senhora) que tenha estado fechado num abrigo nuclear na Sibéria nos últimos 30 anos e desconheça como se fala no Mundo normal? Estareis vós a ser solidários com um pobre empregado fabril que após 50 anos de labuta a fazer fivelas de sapatos subitamente ficou desempregado e, infeliz, com a quarta classe, aceitou o emprego que vós lhe propusestes, mesmo não sabendo compor uma frase? Estareis vós a empregar a flor fina da nova geração de escritores portugueses, que sabem usar as palavras do dicionário, mas que se esquecem, preocupados como estão com o dicionário, que há uma diferença muito grande entre a composição frásica da linguagem escrita e a composição frásica da linguagem falada? Estareis vós tão embrenhados na busca de um estilo visual de realização tão absolutamente magnífico (que, lamento desapontá-los, não atingem), que não se conseguem aperceber o quão falso soa cada uma e todas as frases das vossas produções?
Sexto, sabeis vós como se processa uma conversa normal entre duas pessoas? Sois vós autistas? Já alguma vez haveis tentado mudar de plano enquanto uma personagem ainda esta a falar para dar um sentido de continuidade? Sabeis vós que há programas de edição, que se podem descarregar da internet sem qualquer custo, que permitem colocar o som de um plano sobre um outro? Haveis alguma vez experimentado filmar a pessoa B enquanto a A ainda está a falar, e fazer a pessoa B responder mal a A chega ao fim da sua frase, ou está na última palavra, evitando assim pausas morosas, e reproduzindo a vida real? Já alguma vez haveis experimentado editar uma sequência de uma pessoa a entrar num carro, mostrando-a apenas a colocar a mão na porta e cortando para ela a instalar-se dentro do veículo, saltando assim os planos de abrir a porta, meter uma perna, meter a outra perna, esticar o braço e fechar a porta, poupando tempo e dando fluidez à cena, visto que o público faz a ponte mentalmente? Ou achais vós que o público sofre de insónias e que tendes que mostrar tudo, fazendo com que ele adormeça antes de o carro arrancar?
Sétimo, quando estais na sala de projecção a ver as rushes, que achais de vós próprios? Que achais do público? Achais que nós somos uma cambada de ignorantes sem vontade própria e que aguenta com tudo o que vós quereis espetar-nos pela goela abaixo? Achais que gostamos de ver múmias paralíticas a pavonearem-se de marcação em marcação a debitar frases lidas no teleponto na deixa certa mas com a entoação errada? Achais que gostamos de silêncios para podermos compreender bem o argumento menos complexo que uma história do Winnie the Pooh, mas com muito mais sexo? Achais, muito sinceramente, que o vosso produto tem qualidade? Que é produção nacional com categoria? Que é bom entretenimento? Ou sois vós apenas um conjunto de criancinhas, todas amiguinhas umas das outras, e com vontade de arranjar brincadeiras umas às outras com o dinheirinho do papá? Achais vós por bem usar o meu dinheiro, como contribuinte, para me encher a televisão de miséria, da qual não se tem nojo, apenas pena; pena da tristeza completa que são actores, argumentistas e realizadores, pena de nenhum deles se aperceber (pelo menos publicamente), da mixórdia que está a fazer, só porque as galas, as revistas e os paparazzi não os largam?
Por fim, e mais importante que tudo, achais por bem dar à vossa personagem principal do ‘Pai à Força’ o nome de Miguel Saraiva? Eu asseguro-vos que posso digerir toda a má representação. Posso aguentar os medíocres argumentos. Posso suportar a total incapacidade que os intervenientes têm em compreender o quão idiotas estão a ser. Complicado, dizeis vós? É simples, digo eu. Só preciso de mudar de canal. Mas o que não posso digerir/suportar/aguentar é que manchem a minha reputação, por mais remotamente que seja. Como as coisas estão, posso ter a infelicidade e/ou o infortúnio de alguém me confundir com uma das vossas criações. Miguel Saraiva só pode haver um. E, sinceramente, e com todo o devido respeito que é devido, que seja o melhor dos dois.
Os melhores cumprimentos
Miguel Saraiva,
(humilde espectador televisivo português)
Sendo um infeliz possuidor de uma televisão LG LCD no meu domicílio, e um infortunado assinante da MEO no mesmo domicílio supracitado, de vez em quando, por mero lapso asseguro-vos, tenho a infelicidade e/ou o infortúnio de me deparar com algumas das vossas obras. Assim sendo, e com todo o devido respeito que é devido a senhores tão acima na cadeia alimentar como são os senhores, permitam que um infeliz e/ou infortunado espectador vos faça uma série de perguntas.
Primeiro, onde encontrais os vossos actores? Tudo o que se recusa a fazer anúncios ao Pingo Doce para baixo é peixe para a vossa rede? É o jovem aspirante a actor tão fraco que não encontrais melhor? Não pode ser, visto eu fazer e ver teatro jovem há vários anos e já ter partilhado o palco com gente muito talentosa. Terão eles medo de vós, por algum motivo, e se escondam aquando das audições? Ou sereis vós estrábicos (quiçá zarolhos) em relação ao talento? Sereis vós tão subsídio-dependentes, tão desejosos de agradar a A, B ou C, tão desesperados em ter reconhecimento no Famashow, que não tendes tomates para dizer na cara das pseudo-estrelas que pontilham o vosso pequeno mundo cinematográfico que nenhuma delas sabe actuar? Não vos preocupeis, mandai-as a mim, que eu di-lo-ei por vós.
Segundo, estará o vosso processo produtivo tão corrompido que não possuís meios de dar o texto aos actores antes das filmagens? Novos e velhos, ‘experientes’ (muitas aspas) e inexperientes, todos eles parecem estar a ler os textos pela primeira vez nos cartõezinhos fora de cena, tão articulados tentam ser e tal é a dificuldade que aparentam ter em falar de uma forma fluída e natural. Serão os silêncios constantes, principalmente entre falas, fruto da vossa infelicidade financeira? Não possuis vós um teleponto, tendo tido que contratar um desgraçado barrigudo barbudo para o efeito? Terá este barrigudo barbudo que, sempre que se muda de personagem, pousar o cartão que está a segurar, agachar-se, e levantar o seguinte, originando assim a pausa que se vê no ecrã?
Terceiro, há algum problema de rigidez respeitante aos vossos actores? Certamente não lhes haveis espetado qualquer coisa (uma vassoura?!) traseiro acima antes das gravações? Assegurem-me que não por favor! Ou terão todos eles, sem excepção, sofrido um acidente de ski antes das filmagens, que os impeça de fazer movimentos de coluna? Talvez me respondeis falando-me em marcações de cena. Mas a não ser que me digam que caiu um jarro de super-cola 3, que a meio do voo se misturou com uma Tridente (já mastigada), no preciso local onde o actor devia estar, e que este não se conseguiu descolar como consequência, então não acredito que alguém possa ser tão ou mais preso de movimentos que a múmia do Boris Karloff.
Quarto, quando tendes actores que estão ombro a ombro, mas a falar um com o outro, estareis por acaso a fazer pouco dos estrábicos? Quando a meio de uma conversa ambas as personagens ficam imóveis, antes de prosseguirem, estareis a fazer pouco dos epilépticos, e das suas ausências? Ou estareis vós, com a música de fundo e os close-ups nos variados silêncios, a fazer uma grande homenagem ao Sergio Leone e o ignorante sou eu? Quando mostrais crianças de 7 anos a dizer frases com a complexidade gramatical de uma pessoa de 40, estareis a fazer pouco das crianças sobredotadas? Quando 90% das saídas de cena são feitas com as palavras (já no novo acordo ortográfico) ‘bora, bora’, estareis vós a fazer publicidade ao destino turístico da Polinésia Francesa?
Quinto, onde encontrais os vossos argumentistas? Estareis vós a ser solidários com um senhor (ou senhora) que tenha estado fechado num abrigo nuclear na Sibéria nos últimos 30 anos e desconheça como se fala no Mundo normal? Estareis vós a ser solidários com um pobre empregado fabril que após 50 anos de labuta a fazer fivelas de sapatos subitamente ficou desempregado e, infeliz, com a quarta classe, aceitou o emprego que vós lhe propusestes, mesmo não sabendo compor uma frase? Estareis vós a empregar a flor fina da nova geração de escritores portugueses, que sabem usar as palavras do dicionário, mas que se esquecem, preocupados como estão com o dicionário, que há uma diferença muito grande entre a composição frásica da linguagem escrita e a composição frásica da linguagem falada? Estareis vós tão embrenhados na busca de um estilo visual de realização tão absolutamente magnífico (que, lamento desapontá-los, não atingem), que não se conseguem aperceber o quão falso soa cada uma e todas as frases das vossas produções?
Sexto, sabeis vós como se processa uma conversa normal entre duas pessoas? Sois vós autistas? Já alguma vez haveis tentado mudar de plano enquanto uma personagem ainda esta a falar para dar um sentido de continuidade? Sabeis vós que há programas de edição, que se podem descarregar da internet sem qualquer custo, que permitem colocar o som de um plano sobre um outro? Haveis alguma vez experimentado filmar a pessoa B enquanto a A ainda está a falar, e fazer a pessoa B responder mal a A chega ao fim da sua frase, ou está na última palavra, evitando assim pausas morosas, e reproduzindo a vida real? Já alguma vez haveis experimentado editar uma sequência de uma pessoa a entrar num carro, mostrando-a apenas a colocar a mão na porta e cortando para ela a instalar-se dentro do veículo, saltando assim os planos de abrir a porta, meter uma perna, meter a outra perna, esticar o braço e fechar a porta, poupando tempo e dando fluidez à cena, visto que o público faz a ponte mentalmente? Ou achais vós que o público sofre de insónias e que tendes que mostrar tudo, fazendo com que ele adormeça antes de o carro arrancar?
Sétimo, quando estais na sala de projecção a ver as rushes, que achais de vós próprios? Que achais do público? Achais que nós somos uma cambada de ignorantes sem vontade própria e que aguenta com tudo o que vós quereis espetar-nos pela goela abaixo? Achais que gostamos de ver múmias paralíticas a pavonearem-se de marcação em marcação a debitar frases lidas no teleponto na deixa certa mas com a entoação errada? Achais que gostamos de silêncios para podermos compreender bem o argumento menos complexo que uma história do Winnie the Pooh, mas com muito mais sexo? Achais, muito sinceramente, que o vosso produto tem qualidade? Que é produção nacional com categoria? Que é bom entretenimento? Ou sois vós apenas um conjunto de criancinhas, todas amiguinhas umas das outras, e com vontade de arranjar brincadeiras umas às outras com o dinheirinho do papá? Achais vós por bem usar o meu dinheiro, como contribuinte, para me encher a televisão de miséria, da qual não se tem nojo, apenas pena; pena da tristeza completa que são actores, argumentistas e realizadores, pena de nenhum deles se aperceber (pelo menos publicamente), da mixórdia que está a fazer, só porque as galas, as revistas e os paparazzi não os largam?
Por fim, e mais importante que tudo, achais por bem dar à vossa personagem principal do ‘Pai à Força’ o nome de Miguel Saraiva? Eu asseguro-vos que posso digerir toda a má representação. Posso aguentar os medíocres argumentos. Posso suportar a total incapacidade que os intervenientes têm em compreender o quão idiotas estão a ser. Complicado, dizeis vós? É simples, digo eu. Só preciso de mudar de canal. Mas o que não posso digerir/suportar/aguentar é que manchem a minha reputação, por mais remotamente que seja. Como as coisas estão, posso ter a infelicidade e/ou o infortúnio de alguém me confundir com uma das vossas criações. Miguel Saraiva só pode haver um. E, sinceramente, e com todo o devido respeito que é devido, que seja o melhor dos dois.
Os melhores cumprimentos
Miguel Saraiva,
(humilde espectador televisivo português)
Sábado, 10 de Setembro de 2011
Colombiana (2011)

Na categoria de filmes de 'assassinos profissionais', 'Colombiana' é, sem dúvida, uma das melhores entradas recentes. Isto não será sem dúvida por acaso, o argumento é assinado por Luc Besson, que sozinho inventou o formato moderno deste género com 'Nikita' e 'Leon'. Talvez não escolhendo os melhores dos seus argumentos para realizar ('Artur e os Minimeus'?!), Besson tem produzido nos últimos anos argumento atrás de argumento de acção, apesar de muito inconstante (é só comparar 'Bandidas' com 'Taken'). E 'Columbiana' não tem escrúpulos nenhuns em retirar influências claras das melhores destas entradas. A surpresa de 'Colombiana' no entanto, não está nas suas cenas de acção. Tirando o final climático de bailado balístico e explosivo, há muitas poucas cenas de acção nua e cura dignas de registo ou que já não foram feitas antes. Por outro lado, a assassina, Cataleya, interpretada com um quase profundo instinto felino por uma deslumbrante Zoe Saldana, não tem a impetuosidade nem a dedicação de outras personagens de Besson, como Liam Neeson em 'Taken'. Mas 'Colombiana' tem uma (quase) credível história base, uma profundidade emocional claramente superior a outras entradas do género, e as acções da 'assassina' bem como o desenrolar das cenas não são gratuitas, mas perfeitamente justificáveis. Para além do mais, é dos poucos filmes do género em que as causas e as consequências dos actos da 'assassina', dos polícias que a perseguem e dos mauzões são ponderadas e reflectidas no ecrã. A história é uma de vingança. Cataleya viu os seus pais (da mafia colombiana) serem mortos à sua frente. Consegue fugir e ir ter com o tio na América (embora seja pouco credível como é que uma miúda de 10 anos consegue escapar a 50 capangas com metralhadores pelas ruas de Bogotá!). Treina como assassina e, 15 anos mais tarde, deixa um rasto grande de cadáveres, à medida que aperta o cerco aos assassinos de seus pais. Por um lado, O FBI persegue-a, por outro, o contrabalanço emocional é dado pela relação fugaz que mantém com Michael Vartan, que desconhece a sua verdadeira identidade. São estas cenas que tornam a personagem credível, já que os seus feitos como assassina não o fazem assim tanto. Contudo, o argumento de Besson é sempre inventivo. O filme tem mais interesse na forma como Cataleya entra e sai dos locais bem guardados (uma prisão, uma mansão ultra-vigiada) onde as suas vítimas estão, do que propriamente nas cenas de luta em si. 'Colombiana' convence como um bom filme de acção de sábado à tarde. Apresenta convincentemente os motivos que levam a assassina profissional a agir (tal como 'Leon' o fizera), mas falta-lhe uma pitada de adrenalina, e mais ligação emocional do público à personagem central. O público sabe que Cataleya vai vingar os pais, e torce por ela quando desfila pelas cenas de acção. Mas não está a berrar para o ecrã como estava em 'Taken', nem a sentir cada passo atrás como se fosse um golpe na sua própria cara. O realizador Olivier Megaton convence como um realizador de acção, e não se esquece das cenas mais pessoais, que, sinceramente, estão muito acima das clássicas chapas 5 que pontilham os filmes de acção. Um espectador que espera muita acção não vai tê-la. Mas terá entretenimento com (alguma) substância, no estilo clássico (não para todos) de Besson. Ah, e já ninguém usava tantas condutas de ar para escapar desde os Aliens e do John MacLaine.
Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011
Sobre bons filmes
Há três tipos de bons filmes. Os bons filmes das massas, os bons filmes dos pseudo-intelectuais e os bons filmes.
Por muito que se possa debater esta questão, o cinema é um fenómeno de massas, para o bem ou para o mal. Foi criado como uma fonte de entretenimento (e consequentemente de riquezas), e o público-alvo desse entretenimento (e consequentemente o principal gerador dessa riqueza), não é o artista intelectual filantropo. Nem é o crítico de cinema. Nem é o amador bem intencionado com sensibilidade para a arte. O público-alvo é constituído por massas e massas de pessoas que não amam o cinema, que não o respiram a cada segundo, que não o consomem com cada batida do seu coração, que não têm um vasto conhecimento de géneros, técnicas e estilos, e que se estão marimbando para o estilo visual, para o fluir do argumento, para o facto de o filme já ter sido ou não feito há 50 anos (e melhor), e que só pretendem uma boa dose de entretenimento durante 2 horas. E ainda bem para eles. São eles que dão de comer (e as casas nas Hills) àquela gente toda lá na Califórnia.
Portanto, quem produz filmes, por muita ambição artística que possa ter, quer comer ao fim do mês (e ter a tal casa nas Hills). Ao contrário da crença geral, a maior parte dos filmes não faz (muito) dinheiro. Anda ela por ela na relação custo-receita. Contudo, um filme de grande sucesso pode, com esse lucro, não só dar as respectivas casas nas Hills, como igualmente financiar uma série de outros filmes, e compensar o desaire financeiro dos restantes. Com os biliões que o Cameron recebeu das receitas do ‘Titanic’ e do ‘Avatar’, pode, muito honestamente, fazer fiascos de bilheteira até ao fim da vida, sem deixar de ser multimilionário.
E é precisamente aqui que entram os bons filmes das massas. Se eu consigo atrair uma quantidade inusitada de indivíduos crentes a uma sala de cinema, então ainda bem para mim, porque então o meu filme só pode ser bom… bem, pelo menos para o propósito a que me proponho, que é, sejamos sinceros, fazer dinheiro. E até pode ser que o dito até tenha (alguma) qualidade cinematográfica. Quando tem, todos ficam contentes. O público fica contente, os críticos ficam contentes, os tipos que querem a casa nas Hills ficam contentes, e eu fico contente. É uma festa!
Mas se não tiver, não há problema. A partir do momento em que se compra um bilhete, o negócio está feito. A qualidade é irrelevante. O estimado comprador desse bilhete pode nem gostar do filme. Não interessa, já comprou o bilhete. O estimado comprador pode até nem entrar na sala, pode ter uma crise intestinal e ir para casa. Não interessa, já comprou o bilhete. Antigamente (como quem diz, até ao final dos anos 80), um filme podia ficar mais de 6 meses nas salas do cinema. Clássicos recentes como o “Regresso ao Futuro” ou “O Silêncio dos Inocentes” levaram meses nas salas até serem notados e ganharem momento. Agora, os filmes estão nas salas 3 semanas, e todo o seu futuro rege-se à volta do fim de semana da abertura. Três dias definem o sucesso ou o insucesso de um projecto que demorou 3 anos a conceber. Já não há o descobrir de um filme pelo público. Já não há a palavra de boca. Não, tudo se desenvolve à priori. Deste modo, um filme já é lançado como sendo bom ou mau. Já é lançado um fiasco ou um estrondoso sucesso de bilheteira. Voltando ao exemplo dos bicharocos azuis do Avatar, é fidedigno dizer que antes do filme estrear já o burburinho à volta do filme era colossal, já era obrigatório ir vê-lo, já era o maior e mais espectacular filme de todos os tempos, e quem não fosse vê-lo ia viver uma vida infeliz e miserável.
Então, a opinião do público em geral (e de muitos críticos infelizmente) fica totalmente condicionada ‘em antes’ de ver o filme propriamente dito. Como? Se se mostrar um filme a alguém e se disser, ‘este filme não presta, não ganhou prémio nenhum e eu não gostei nem tu vais gostar’, uma pessoa vê-o sem espectativas, pode ser surpreendida por um ou outro pormenor, mas não os retém, porque só se vai fixar nos aspectos maus de que ouviu falar. Por outro lado se mostrar o mesmo filme e disser ‘este filme é muito bom, é uma obra prima, vai ganhar os Óscares’, uma pessoa vai vê-lo cheia de espectativas e vai-se agarrar ao tal um ou outro pormenor para corroborar a ideia pré-concebida, e não se vai fixar nos aspectos maus, de que nunca ouviu falar, mesmo que este os tenha em demasia.
Mesmo assim, há certamente bons filmes de massas. Servem o seu propósito e divertem. E fazer muitos milhões não é sinónimo de ser mau. O ‘Avatar’ era um filme com fabulosos efeitos especiais, mas cujo argumento era mais batido que uma mousse de chocolate estragado. Mas isso não o impediu de quase ganhar os Óscares. Porquê? Porque era um bom filme das massas, isso não haja dúvidas, e porque foi distribuído como um filme vencedor. E viva o entretenimento.
Do mesmo modo, ‘O Discurso do Rei’ era um filme banalíssimo, que foi distribuído como a nona maravilha do mundo moderno nestes tempos de crise (a oitava dos tempos de crise foi o ‘Slumdog Millionaire’). Filmes como ‘O Discurso do Rei’ são feitos três ou quatro vezes por ano há cerca de 80 anos (um terço deles com o Geoffrey Rush como mentor). Desde nadadores deficientes a chegarem a medalhistas olímpicos, a pessoas disfuncionais a encontrarem a felicidade, a soldados amputados a arranjarem forças para ir a público falar dos horrores da guerra, a reis gagos a aprenderem a falar, este tipo de filme de inspiração é um dos géneros chave da história do cinema. O que distingue esta obra de 2010 das restantes? Talvez o facto de as pessoas não verem filmes antigos e desconhecerem o género? Talvez o seu set-design, que era fabuloso? Talvez os seus actores, que eram dos melhores ‘in the business’? Poderia ser, mas ‘O Discurso do Rei’ ganhou Óscar de melhor argumento! Argumento! Um argumento que, para além de ser mais batido que uma mousse de chocolate estragado, é compartimentado em 4 cenas que se repetem em círculo: 1) rei chateia-se com professor, 2) cena histórica/revista cor-de-rosa-bastidores-dos-famosos para encher, 3) rei perde perdão a professor, 4) cena a exibir a actual rainha em criança; e volta a 1). No fim do tal filme oscarizado, um Rei gago, nascido num berço de ouro, faz um discurso banal à sua nação (algo que não é mais que a sua obrigação note-se – não é como se fosse um zé ninguém a tentar inspirar um povo, um William Wallace ou um Michael Collins; ele é o rei, e tinha de o fazer, mesmo que não quisesse, tal como se outro qualquer fosse o rei teria de o fazer, gago ou não, e provavelmente com as mesmas frases, visto que há assessores de imprensa que escrevem estes discursos) – faz um discurso banal à nação, dizia eu, e o filme leva-nos a crer que tudo está bem. Hitler vai conquistar a Europa, Hitler vai matar 6 milhões de judeus? Não há crise, está tudo bem, estamos salvos, o Rei fez o discurso sem gaguejar…. Patético!
Mas ‘O Discurso do Rei’ foi aclamado em todo o lado como a melhor coisa desde que o homem pisou a Lua. Porquê? Porque, mais uma vez, era um bom filme das massas, mesmo sem ter os bonequinhos azuis.
Um bom filme dos pseudo-intelectuais é um daqueles filmes que são feitos no reverso da medalha dos anteriores. Os das massas têm como objectivos o lucro e o entretenimento. Os dos pseudo-intelectuais não. São animais de festivais, de reputação artística, de expressão egocêntrica. Mesmo assim, não há crime nisso. Cada um expressa-se como quiser. E o cinema é uma forma de arte como qualquer outra. Demy, Fellini, Mizogushi criaram os seus próprios universos e não se saíram nada mal, diga-se de passagem. O crime está quando o filme não é bom e é impingido a um público como uma obra-prima só porque não é convencional. Isso é que eu já não suporto.
A maioria dos filmes não convencionais americanos é independente. Esses não devem nada a ninguém e servem como uma plataforma de partida para actores e realizadores. Como ninguém é conhecido, o filme, por consequência, também não pode ser. E se é bom, é ‘surpreendente’, e não uma ‘obra-prima’. Os filmes não convencionais que são feitos em Hollywood servem para dar reputação aos actores, para que quando entrem nos das massas, a massa a entrar seja maior. E os que resultam são descartados como ‘um bom esforço’ e nada mais, embora muitos deles sejam até muito (mas mesmo muito) bons. Mas quando falamos dos filmes não convencionais europeus… bem, isso é bem diferente. Qualquer estudo visual e de argumento desconexo que surja de Israel, Turquia ou Kosovo já é um ‘exercício belíssimo de união entre o ser e o etéreo’. O filme é julgado por o realizador ser um animal de festivais, por viver num país em guerra, por fazer o filme sem um orçamento estupidamente elevado, e por ter um burro a pastar. Na realidade é julgado por tudo menos pelo filme em si. E isso não está bem.
Há aqui um pequeno pormenor que escapa à maior parte das pessoas. Na América, os estúdios têm que se auto-financiar. Portanto, os filmes das massas têm que fazer dinheiro para que possam subsidiar os filmes artísticos que se possam fazer eventualmente. Mesmo assim, nenhum produtor vai querer injectar dinheiro num filme arriscado, mesmo que esteja concebido como uma belíssima obra, que perdurará para sempre nos anais do cinema. Geralmente, os famosos, quando fazem estes ‘filmes-fora’, usam o seu nome ou influência para realizar os seus projectos do coração, e muitas vezes fazem acordos com os estúdios para conseguirem levar a sua avante. Já nos anos 50, John Ford fez ‘Rio Grande’ contra sua vontade para o estúdio lhe financiar a obra-prima ‘The Quiet Man’ de 1952. Mel Gibson usou os infindáveis lucros da ‘Paixão de Cristo’ para fazer ‘Apocalypto’. Até a Selma Hayek e o Kevin Spacey pedincharam a todas as portas e cobraram todos os favores que podiam para fazerem, respectivamente a ‘Frida’ e o ‘Beyond the Sea’.
Contudo, na Europa não há sistema de estúdios. A maior parte dos filmes é realizado a fundo perdido, e o realizador está-se a marimbar se o filme é um sucesso financeiro ou não. O patrocínio dos governos, dos fundos europeus e das televisões estatais que todos os anos são dados aos amiguinhos degeneraram a qualidade de apelo às massas que os filmes poderiam ter. Claro que fizeram aumentar o seu foro artístico, como é óbvio, mas anos e anos deste vício, sem controlo (visto que os fundos aos amiguinhos permanecem sempre, inclusive cá em Portugal), levou progressivamente a estudos cada vez mais egocêntricos de arte que em Hollywood nunca seriam permitidos. O que começou como uma excelente atitude de dar liberdade artística e visual e criar obras de arte cinematográfica chegou ao topo da sua distribuição normal, e agora é sempre a descer, porque embrenhados, desdenharam o mais importante… desdenharam o público. Se eu posso gastar X num filme com total liberdade, sem me preocupar se vou vender 1 ou 100 mil bilhetes, porque o dinheiro gasto não é meu, então eu vou fazer o que me apetece. E os realizadores europeus (e portugueses) estão há demasiado tempo a fazer o que lhes apetece.
E depois, estes filmes morosos, incompreensíveis, visualmente interessantes são sempre uma obra de arte para o crítico. Então se for ‘cinema verité’ (ou um suposto ‘cinema verité’, que nunca é), então… ui, nem se fala! Esquece o argumento, a coerência ou os actores. Qualquer um destes pode ser execrável. Só a atmosfera – sim, é esta a palavra correcta – a atmosfera do filme é que conta, para um filme ser um bom filme dos pseudo-intelectuais. E como adoram arranjar paralelismos filosóficos que o realizador nunca imaginou! E ele, bom menino que é, abana a cabeça em assentamento quando o confrontam com a sua própria magnificência.
Pior, a maior parte dos filmes bons dos pseudo-intelectuais tem um tema. Se é sobre o aborto, é uma obra-prima. Se tem drogados pedófilos é imortal. Se uma mãe adolescente tem SIDA é magnífico. Se tem dois cowboys gays é do caneco. Reitero… PATÉTICO. Um tema não faz um filme, tanto como um actor não o faz, nem um director de fotografia. Se o filme tem dois cowboys gays, mas é mais moroso que um burro perneta, e tem um argumento mais forçado que uma telenovela brasileira de dia de semana à tarde, então não é o facto do tratamento da homossexualidade, nem os momentos em que o filme pausa para mostrar paisagem ao som da guitarrinha do Santaolala que lhe dão a sua qualidade. Salta à vista? Não, não salta! Pois o público em geral (e muitos críticos, infelizmente) só têm atenção para metade das coisas (consequência destes tempos modernos, sem dúvida) e geralmente o tema ofusca qualquer compreensão do resto.
Por fim, há os bons filmes. E não me interpretam mal, os bons filmes podem surgir de qualquer dos meios anteriormente citados. Não é como é feito, nem quando, nem onde, nem por quem, que faz de um bom filme um bom filme. É o que ele é! Pode ser um blockbuster de Hollywood ou um estudo de burros pernetas feito na Pérsia. Se é bom, é bom! Mas não é bom mediante a condição geográfica, o tema ou o nome associado. É bom porque é bom, e o resto é conversa, ou como quem diz….treta.
Quando eu vejo um filme, vejo-o sempre como um ente isolado (sequelas, prequelas e remakes exclusive). E faço o meu julgamento livre de qualquer preconceito, bom ou mau. Não me interessa que não goste de um determinado actor. Não me interessa que o realizador só tenha feito maus filmes até então. Não me interessa que o filme tenha ganho Óscar de Melhor Filme ou a Palma D’Ouro. Não me interessa se o filme foi feito durante a guerra do Kosovo, ou se é o primeiro filme do Afeganistão livre. Não me interessa o que diz o Mourinha ou o Augusto. Eu sou o melhor crítico daquilo que eu gosto. Porque é que o primeiro filme do Afeganistão livre tem que ser uma obra prima, só porque é o primeiro filme do Afeganistão livre. Que é que vão fazer a um crítico se ele admitir ‘desculpem, meus caros amigos, isto pode ser o primeiro filme do Afeganistão livre, mas é uma seca do caneco, e a minha filha de 10 anos com a handycam da minha mulher fazia um filme melhor e mais humano’. Vão-lhe bater? E se ele disser ’desculpem, meus caros amigos, lamento imenso que o filme com os bicharocos azuis tenha ganho 3 biliões de dólares na bilheteira, mas foi apenas uma manobra de marketing muito bem feita, porque o filme, como filme, é tão bom como o “Verdade da Mentira”’? O mais provável é ele deixar de fazer parte do clube dos ‘bons’. E quem é o crítico que, após estar bem aninhado no seu tacho, quer deixar de fazer parte do clube dos ‘bons’? Os críticos que o fazem geralmente acabam em realizadores, ou então morrem de fome debaixo da ponte, ostracizados e esquecidos. E um deles ganhou o Pulitzer. Os restantes só posso deduzir que tenham medo de deixar o poleiro.
Creio que o maior problema deles é verem demasiados filmes modernos. Todas as semanas lá têm que ir ver montes e montes de tralhas que estreiam e que estão a anos-luz da produção cinematográfica de há 50 anos. Portanto, até posso compreender que o que vem do Irão seja uma lufada de ar fresco quando comparada com o remake do ‘Conan o Bárbaro’. E depois aparecem os da Empire com a edição dos seus 500 filmes 5 estrelas e ainda têm a lata de dizer que as décadas de 1990 e 2000 são as que têm mais filmes 5 estrelas. Simplesmente porque a revista tem 20 anos! Mas é óbvio! É mais fácil dar 5 estrelas a outsiders contemporâneos com alguma qualidade que daqui a 10 anos ninguém se lembra que existiram, e que eles viram porque foram ao cinema em magote com uma resma de convites, do que dar 5 estrelas a um filme mil vezes melhor feito há 60 anos, mas que não é daqueles que vem nos livros e que foi esquecido, e por isso não o viram... Se vissem todos os bons filmes dos anos 40, davam 5 estrelas a todos sem dúvida. Para informação, há filmes nos anos 40 para além do ‘Citizen Kane’ e do ‘Casablanca’. Para informação, os menosprezados filmes do Orson Wells (que não têm 5 estrelas na Empire), ou o ‘Rashomon’ do Kurosawa (que, escandalosamente, não tem 5 estrelas na Empire) estão cazigliões de anos-luz do ‘Discurso do Rei’ (que tem 5 estrelas na Empire).
Eu não vi tudo destas últimas duas décadas, e só vou ao cinema uma vez por semana ou de 15 em 15 dias, porque não me pagam nem me arranjam passes à borla. Mas há duas coisas que eu sei. Primeiro que o meu conhecimento sobre filmes ascende o de qualquer um desses marmelos. Posso não ter visto os filmes do Irão ou do Afeganistão, mas sei, por exemplo, quem é o Sam Wood (e esse gaijo fazia filmes do caneco). E segundo, sei que um filme é bom porque é bom, e não porque alguém diz que ele é bom.
Gostava de poder mostrar o ‘O Discurso do Rei’ a alguém que nunca tenha ouvido falar dele, para saber o que realmente pensa, sem ser condicionada. Mas infelizmente não posso.
Por muito que se possa debater esta questão, o cinema é um fenómeno de massas, para o bem ou para o mal. Foi criado como uma fonte de entretenimento (e consequentemente de riquezas), e o público-alvo desse entretenimento (e consequentemente o principal gerador dessa riqueza), não é o artista intelectual filantropo. Nem é o crítico de cinema. Nem é o amador bem intencionado com sensibilidade para a arte. O público-alvo é constituído por massas e massas de pessoas que não amam o cinema, que não o respiram a cada segundo, que não o consomem com cada batida do seu coração, que não têm um vasto conhecimento de géneros, técnicas e estilos, e que se estão marimbando para o estilo visual, para o fluir do argumento, para o facto de o filme já ter sido ou não feito há 50 anos (e melhor), e que só pretendem uma boa dose de entretenimento durante 2 horas. E ainda bem para eles. São eles que dão de comer (e as casas nas Hills) àquela gente toda lá na Califórnia.
Portanto, quem produz filmes, por muita ambição artística que possa ter, quer comer ao fim do mês (e ter a tal casa nas Hills). Ao contrário da crença geral, a maior parte dos filmes não faz (muito) dinheiro. Anda ela por ela na relação custo-receita. Contudo, um filme de grande sucesso pode, com esse lucro, não só dar as respectivas casas nas Hills, como igualmente financiar uma série de outros filmes, e compensar o desaire financeiro dos restantes. Com os biliões que o Cameron recebeu das receitas do ‘Titanic’ e do ‘Avatar’, pode, muito honestamente, fazer fiascos de bilheteira até ao fim da vida, sem deixar de ser multimilionário.
E é precisamente aqui que entram os bons filmes das massas. Se eu consigo atrair uma quantidade inusitada de indivíduos crentes a uma sala de cinema, então ainda bem para mim, porque então o meu filme só pode ser bom… bem, pelo menos para o propósito a que me proponho, que é, sejamos sinceros, fazer dinheiro. E até pode ser que o dito até tenha (alguma) qualidade cinematográfica. Quando tem, todos ficam contentes. O público fica contente, os críticos ficam contentes, os tipos que querem a casa nas Hills ficam contentes, e eu fico contente. É uma festa!
Mas se não tiver, não há problema. A partir do momento em que se compra um bilhete, o negócio está feito. A qualidade é irrelevante. O estimado comprador desse bilhete pode nem gostar do filme. Não interessa, já comprou o bilhete. O estimado comprador pode até nem entrar na sala, pode ter uma crise intestinal e ir para casa. Não interessa, já comprou o bilhete. Antigamente (como quem diz, até ao final dos anos 80), um filme podia ficar mais de 6 meses nas salas do cinema. Clássicos recentes como o “Regresso ao Futuro” ou “O Silêncio dos Inocentes” levaram meses nas salas até serem notados e ganharem momento. Agora, os filmes estão nas salas 3 semanas, e todo o seu futuro rege-se à volta do fim de semana da abertura. Três dias definem o sucesso ou o insucesso de um projecto que demorou 3 anos a conceber. Já não há o descobrir de um filme pelo público. Já não há a palavra de boca. Não, tudo se desenvolve à priori. Deste modo, um filme já é lançado como sendo bom ou mau. Já é lançado um fiasco ou um estrondoso sucesso de bilheteira. Voltando ao exemplo dos bicharocos azuis do Avatar, é fidedigno dizer que antes do filme estrear já o burburinho à volta do filme era colossal, já era obrigatório ir vê-lo, já era o maior e mais espectacular filme de todos os tempos, e quem não fosse vê-lo ia viver uma vida infeliz e miserável.
Então, a opinião do público em geral (e de muitos críticos infelizmente) fica totalmente condicionada ‘em antes’ de ver o filme propriamente dito. Como? Se se mostrar um filme a alguém e se disser, ‘este filme não presta, não ganhou prémio nenhum e eu não gostei nem tu vais gostar’, uma pessoa vê-o sem espectativas, pode ser surpreendida por um ou outro pormenor, mas não os retém, porque só se vai fixar nos aspectos maus de que ouviu falar. Por outro lado se mostrar o mesmo filme e disser ‘este filme é muito bom, é uma obra prima, vai ganhar os Óscares’, uma pessoa vai vê-lo cheia de espectativas e vai-se agarrar ao tal um ou outro pormenor para corroborar a ideia pré-concebida, e não se vai fixar nos aspectos maus, de que nunca ouviu falar, mesmo que este os tenha em demasia.
Mesmo assim, há certamente bons filmes de massas. Servem o seu propósito e divertem. E fazer muitos milhões não é sinónimo de ser mau. O ‘Avatar’ era um filme com fabulosos efeitos especiais, mas cujo argumento era mais batido que uma mousse de chocolate estragado. Mas isso não o impediu de quase ganhar os Óscares. Porquê? Porque era um bom filme das massas, isso não haja dúvidas, e porque foi distribuído como um filme vencedor. E viva o entretenimento.
Do mesmo modo, ‘O Discurso do Rei’ era um filme banalíssimo, que foi distribuído como a nona maravilha do mundo moderno nestes tempos de crise (a oitava dos tempos de crise foi o ‘Slumdog Millionaire’). Filmes como ‘O Discurso do Rei’ são feitos três ou quatro vezes por ano há cerca de 80 anos (um terço deles com o Geoffrey Rush como mentor). Desde nadadores deficientes a chegarem a medalhistas olímpicos, a pessoas disfuncionais a encontrarem a felicidade, a soldados amputados a arranjarem forças para ir a público falar dos horrores da guerra, a reis gagos a aprenderem a falar, este tipo de filme de inspiração é um dos géneros chave da história do cinema. O que distingue esta obra de 2010 das restantes? Talvez o facto de as pessoas não verem filmes antigos e desconhecerem o género? Talvez o seu set-design, que era fabuloso? Talvez os seus actores, que eram dos melhores ‘in the business’? Poderia ser, mas ‘O Discurso do Rei’ ganhou Óscar de melhor argumento! Argumento! Um argumento que, para além de ser mais batido que uma mousse de chocolate estragado, é compartimentado em 4 cenas que se repetem em círculo: 1) rei chateia-se com professor, 2) cena histórica/revista cor-de-rosa-bastidores-dos-famosos para encher, 3) rei perde perdão a professor, 4) cena a exibir a actual rainha em criança; e volta a 1). No fim do tal filme oscarizado, um Rei gago, nascido num berço de ouro, faz um discurso banal à sua nação (algo que não é mais que a sua obrigação note-se – não é como se fosse um zé ninguém a tentar inspirar um povo, um William Wallace ou um Michael Collins; ele é o rei, e tinha de o fazer, mesmo que não quisesse, tal como se outro qualquer fosse o rei teria de o fazer, gago ou não, e provavelmente com as mesmas frases, visto que há assessores de imprensa que escrevem estes discursos) – faz um discurso banal à nação, dizia eu, e o filme leva-nos a crer que tudo está bem. Hitler vai conquistar a Europa, Hitler vai matar 6 milhões de judeus? Não há crise, está tudo bem, estamos salvos, o Rei fez o discurso sem gaguejar…. Patético!
Mas ‘O Discurso do Rei’ foi aclamado em todo o lado como a melhor coisa desde que o homem pisou a Lua. Porquê? Porque, mais uma vez, era um bom filme das massas, mesmo sem ter os bonequinhos azuis.
Um bom filme dos pseudo-intelectuais é um daqueles filmes que são feitos no reverso da medalha dos anteriores. Os das massas têm como objectivos o lucro e o entretenimento. Os dos pseudo-intelectuais não. São animais de festivais, de reputação artística, de expressão egocêntrica. Mesmo assim, não há crime nisso. Cada um expressa-se como quiser. E o cinema é uma forma de arte como qualquer outra. Demy, Fellini, Mizogushi criaram os seus próprios universos e não se saíram nada mal, diga-se de passagem. O crime está quando o filme não é bom e é impingido a um público como uma obra-prima só porque não é convencional. Isso é que eu já não suporto.
A maioria dos filmes não convencionais americanos é independente. Esses não devem nada a ninguém e servem como uma plataforma de partida para actores e realizadores. Como ninguém é conhecido, o filme, por consequência, também não pode ser. E se é bom, é ‘surpreendente’, e não uma ‘obra-prima’. Os filmes não convencionais que são feitos em Hollywood servem para dar reputação aos actores, para que quando entrem nos das massas, a massa a entrar seja maior. E os que resultam são descartados como ‘um bom esforço’ e nada mais, embora muitos deles sejam até muito (mas mesmo muito) bons. Mas quando falamos dos filmes não convencionais europeus… bem, isso é bem diferente. Qualquer estudo visual e de argumento desconexo que surja de Israel, Turquia ou Kosovo já é um ‘exercício belíssimo de união entre o ser e o etéreo’. O filme é julgado por o realizador ser um animal de festivais, por viver num país em guerra, por fazer o filme sem um orçamento estupidamente elevado, e por ter um burro a pastar. Na realidade é julgado por tudo menos pelo filme em si. E isso não está bem.
Há aqui um pequeno pormenor que escapa à maior parte das pessoas. Na América, os estúdios têm que se auto-financiar. Portanto, os filmes das massas têm que fazer dinheiro para que possam subsidiar os filmes artísticos que se possam fazer eventualmente. Mesmo assim, nenhum produtor vai querer injectar dinheiro num filme arriscado, mesmo que esteja concebido como uma belíssima obra, que perdurará para sempre nos anais do cinema. Geralmente, os famosos, quando fazem estes ‘filmes-fora’, usam o seu nome ou influência para realizar os seus projectos do coração, e muitas vezes fazem acordos com os estúdios para conseguirem levar a sua avante. Já nos anos 50, John Ford fez ‘Rio Grande’ contra sua vontade para o estúdio lhe financiar a obra-prima ‘The Quiet Man’ de 1952. Mel Gibson usou os infindáveis lucros da ‘Paixão de Cristo’ para fazer ‘Apocalypto’. Até a Selma Hayek e o Kevin Spacey pedincharam a todas as portas e cobraram todos os favores que podiam para fazerem, respectivamente a ‘Frida’ e o ‘Beyond the Sea’.
Contudo, na Europa não há sistema de estúdios. A maior parte dos filmes é realizado a fundo perdido, e o realizador está-se a marimbar se o filme é um sucesso financeiro ou não. O patrocínio dos governos, dos fundos europeus e das televisões estatais que todos os anos são dados aos amiguinhos degeneraram a qualidade de apelo às massas que os filmes poderiam ter. Claro que fizeram aumentar o seu foro artístico, como é óbvio, mas anos e anos deste vício, sem controlo (visto que os fundos aos amiguinhos permanecem sempre, inclusive cá em Portugal), levou progressivamente a estudos cada vez mais egocêntricos de arte que em Hollywood nunca seriam permitidos. O que começou como uma excelente atitude de dar liberdade artística e visual e criar obras de arte cinematográfica chegou ao topo da sua distribuição normal, e agora é sempre a descer, porque embrenhados, desdenharam o mais importante… desdenharam o público. Se eu posso gastar X num filme com total liberdade, sem me preocupar se vou vender 1 ou 100 mil bilhetes, porque o dinheiro gasto não é meu, então eu vou fazer o que me apetece. E os realizadores europeus (e portugueses) estão há demasiado tempo a fazer o que lhes apetece.
E depois, estes filmes morosos, incompreensíveis, visualmente interessantes são sempre uma obra de arte para o crítico. Então se for ‘cinema verité’ (ou um suposto ‘cinema verité’, que nunca é), então… ui, nem se fala! Esquece o argumento, a coerência ou os actores. Qualquer um destes pode ser execrável. Só a atmosfera – sim, é esta a palavra correcta – a atmosfera do filme é que conta, para um filme ser um bom filme dos pseudo-intelectuais. E como adoram arranjar paralelismos filosóficos que o realizador nunca imaginou! E ele, bom menino que é, abana a cabeça em assentamento quando o confrontam com a sua própria magnificência.
Pior, a maior parte dos filmes bons dos pseudo-intelectuais tem um tema. Se é sobre o aborto, é uma obra-prima. Se tem drogados pedófilos é imortal. Se uma mãe adolescente tem SIDA é magnífico. Se tem dois cowboys gays é do caneco. Reitero… PATÉTICO. Um tema não faz um filme, tanto como um actor não o faz, nem um director de fotografia. Se o filme tem dois cowboys gays, mas é mais moroso que um burro perneta, e tem um argumento mais forçado que uma telenovela brasileira de dia de semana à tarde, então não é o facto do tratamento da homossexualidade, nem os momentos em que o filme pausa para mostrar paisagem ao som da guitarrinha do Santaolala que lhe dão a sua qualidade. Salta à vista? Não, não salta! Pois o público em geral (e muitos críticos, infelizmente) só têm atenção para metade das coisas (consequência destes tempos modernos, sem dúvida) e geralmente o tema ofusca qualquer compreensão do resto.
Por fim, há os bons filmes. E não me interpretam mal, os bons filmes podem surgir de qualquer dos meios anteriormente citados. Não é como é feito, nem quando, nem onde, nem por quem, que faz de um bom filme um bom filme. É o que ele é! Pode ser um blockbuster de Hollywood ou um estudo de burros pernetas feito na Pérsia. Se é bom, é bom! Mas não é bom mediante a condição geográfica, o tema ou o nome associado. É bom porque é bom, e o resto é conversa, ou como quem diz….treta.
Quando eu vejo um filme, vejo-o sempre como um ente isolado (sequelas, prequelas e remakes exclusive). E faço o meu julgamento livre de qualquer preconceito, bom ou mau. Não me interessa que não goste de um determinado actor. Não me interessa que o realizador só tenha feito maus filmes até então. Não me interessa que o filme tenha ganho Óscar de Melhor Filme ou a Palma D’Ouro. Não me interessa se o filme foi feito durante a guerra do Kosovo, ou se é o primeiro filme do Afeganistão livre. Não me interessa o que diz o Mourinha ou o Augusto. Eu sou o melhor crítico daquilo que eu gosto. Porque é que o primeiro filme do Afeganistão livre tem que ser uma obra prima, só porque é o primeiro filme do Afeganistão livre. Que é que vão fazer a um crítico se ele admitir ‘desculpem, meus caros amigos, isto pode ser o primeiro filme do Afeganistão livre, mas é uma seca do caneco, e a minha filha de 10 anos com a handycam da minha mulher fazia um filme melhor e mais humano’. Vão-lhe bater? E se ele disser ’desculpem, meus caros amigos, lamento imenso que o filme com os bicharocos azuis tenha ganho 3 biliões de dólares na bilheteira, mas foi apenas uma manobra de marketing muito bem feita, porque o filme, como filme, é tão bom como o “Verdade da Mentira”’? O mais provável é ele deixar de fazer parte do clube dos ‘bons’. E quem é o crítico que, após estar bem aninhado no seu tacho, quer deixar de fazer parte do clube dos ‘bons’? Os críticos que o fazem geralmente acabam em realizadores, ou então morrem de fome debaixo da ponte, ostracizados e esquecidos. E um deles ganhou o Pulitzer. Os restantes só posso deduzir que tenham medo de deixar o poleiro.
Creio que o maior problema deles é verem demasiados filmes modernos. Todas as semanas lá têm que ir ver montes e montes de tralhas que estreiam e que estão a anos-luz da produção cinematográfica de há 50 anos. Portanto, até posso compreender que o que vem do Irão seja uma lufada de ar fresco quando comparada com o remake do ‘Conan o Bárbaro’. E depois aparecem os da Empire com a edição dos seus 500 filmes 5 estrelas e ainda têm a lata de dizer que as décadas de 1990 e 2000 são as que têm mais filmes 5 estrelas. Simplesmente porque a revista tem 20 anos! Mas é óbvio! É mais fácil dar 5 estrelas a outsiders contemporâneos com alguma qualidade que daqui a 10 anos ninguém se lembra que existiram, e que eles viram porque foram ao cinema em magote com uma resma de convites, do que dar 5 estrelas a um filme mil vezes melhor feito há 60 anos, mas que não é daqueles que vem nos livros e que foi esquecido, e por isso não o viram... Se vissem todos os bons filmes dos anos 40, davam 5 estrelas a todos sem dúvida. Para informação, há filmes nos anos 40 para além do ‘Citizen Kane’ e do ‘Casablanca’. Para informação, os menosprezados filmes do Orson Wells (que não têm 5 estrelas na Empire), ou o ‘Rashomon’ do Kurosawa (que, escandalosamente, não tem 5 estrelas na Empire) estão cazigliões de anos-luz do ‘Discurso do Rei’ (que tem 5 estrelas na Empire).
Eu não vi tudo destas últimas duas décadas, e só vou ao cinema uma vez por semana ou de 15 em 15 dias, porque não me pagam nem me arranjam passes à borla. Mas há duas coisas que eu sei. Primeiro que o meu conhecimento sobre filmes ascende o de qualquer um desses marmelos. Posso não ter visto os filmes do Irão ou do Afeganistão, mas sei, por exemplo, quem é o Sam Wood (e esse gaijo fazia filmes do caneco). E segundo, sei que um filme é bom porque é bom, e não porque alguém diz que ele é bom.
Gostava de poder mostrar o ‘O Discurso do Rei’ a alguém que nunca tenha ouvido falar dele, para saber o que realmente pensa, sem ser condicionada. Mas infelizmente não posso.
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