Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011
Sobre cultura
Recentemente uma jovem menina (para não lhe chamar brojeça ou simplesmente mentecapta) demonstrou na televisão a sua completa e total ignorância no campo da geografia. Isto levou rapidamente primeiro ao gozo, depois ao insulto gratuito, depois à pena, depois à tristeza perante o degredo e por fim ao apontar de dedos ao sistema de ensino por permitir que pessoas como esta se pavoneiem na praça pública e respirem o mesmo ar que o comum dos mortais.
Contudo quem é rápido a apontar o dedo não é rápido a perceber a hipocrisia de todo este fenómeno. A jovem menina (para não lhe chamar imbecil ou simplesmente estúpida) é burra que nem uma porta, é verdade, mas é a única em Portugal? Nem de perto nem de longe. E quem é rápido a apontar o dedo não é rápido a aperceber-se de que é igualmente burro que nem uma porta.
Onde está a linha que delimita a cultura geral da cultura avançada? Onde está a linha que delimita a cultura geral da verdadeira, única e total burrice de pai e mãe? O que não faltam neste país são programas diários que nos permitem tirar estas dúvidas facilmente.
Geralmente, os programas de cultura geral em horário nobre têm perguntas fáceis. Perdão, muito fáceis. Quando não o são, das duas uma. Ou estamos num nível muito avançado e a pergunta é feita para o concorrente perder e o canal não ter que lhe pagar mais dinheiro, ou estamos num nível inicial e então são dadas ajudas ou escolhas.
Sim, toda a gente passava à segunda ronda do ‘Quem Quer Ser Milionário’ na sua última versão, pomposamente apelidada de ‘alta pressão’ (que diga-se era uma desculpa para pôr as perguntas a durar menos tempo para o Malato poder grunhir mais). Mas isto porque ou as perguntas eram estupidamente simples, ou três das quatro opções eram estupidamente estúpidas. Exemplo. Posso fazer uma pergunta de dificuldade mediana como ‘Quem realizou ‘E Tudo o Vento Levou’?’. Se colocar como respostas ‘Victor Flemming, Michael Curtiz, Sam Wood, Frank Capra’ tenho a certeza que muitas pessoas que estão a ler esta crónica não sabem responder. Nem é a sua obrigação. Mas se eu colocar como opções ‘Victor Flemming, Pato Donald, António Guterres e Barak Obama’ só aquela jovem menina (para não lhe chamar acéfala ou simplesmente imbecil) é que não sabe responder.
Sim, toda a gente se ria muito com o ‘Sabes mais que um miúdo de 10 anos’. Gostaria de repor lá os miúdos de 10 anos neste momento (agora com 12 ou 13) e fazer-lhes exactamente as mesmas perguntas que acertaram na altura, a ver como se saíam agora. Isto de fazer perguntas sobre matéria que fazia parte do currículo do seu ano é muito bonito. Mas e no ano seguinte? Quem se lembra da matéria do ano anterior? Quem se lembra dela passados 30 anos? Se for de cultura geral sim senhora (ou nem isso, como já se viu). Se for sobre os ossos do joelho, bem, só se o concorrente for médico, ou o tiver decorado nesse ano para o teste de ciências da terra e da vida. Sabem muito estes miúdos? Bem, foi precisamente neste concurso que descobri uma coisa que não sabia. Aquando da pergunta ‘Quem invadiu Pearl Harbor?’, tanto o miúdo como o graúdo responderam ‘Estados Unidos da América’. Não sabia que Pear Harbor era na Normandia. Fiquei a saber.
Sim, o ‘Elo Mais Fraco’ é muito engraçadinho. Mais um concurso de perguntas fáceis, ou perguntas difíceis com duas opções de resposta. Com 50% de hipóteses, qualquer um pode ser um génio. Lá para o meio está um tipo que insulta os concorrentes, mas que provavelmente não sabe mais (quiçá até menos) do que eles. A meu ver, devia insultá-los mais, e vais veementemente. Ontem aquando da pergunta ‘Quem escreveu 20 mil léguas submarinas?’, a resposta foi ‘Jean Jacques Cousteau’. Era para rir? Daria a mesma resposta se lhe perguntassem quem escreveu o Twilight? Ou como se chama o mau do Harry Potter?
Mas mesmo assim, cada um destes indivíduos gozou fortemente, certamente, com a jovem menina (para não lhe chamar badameca ou simplesmente cérebro de passarinho). A jovem menina não sabe onde é África? A jovem menina não sabe países da América do Sul? Pois bem, qual é a capital do Botswana? Onde se localiza a Suazilândia? Diga nomes de regiões da Austrália.
No último mês vi em dois concursos diferentes a mesma pergunta: ‘Quem ganhou a Taça do Rei de Espanha na época 2010/2011?’. Porque diabo é que não perguntam quem ganhou o campeonato? Porque diabo é que não perguntam quem ganhou a Taça na época 2009/2010? Bem, porque esta ganhou-a o Mourinho. Aliás, é o único título do Mourinho em Espanha, e só quem não vê televisão (ou não sabe dar um palpite baseado nas palavras ‘futebol’ e ‘Espanha’) é que não sabe.
Portanto a cultura existe ou faz-se? Iludir as pessoas com perguntas fáceis ou opções de resposta simples fá-las ser mais inteligentes? Se a jovem menina (para não lhe chamar de australopiteca ou simplesmente deficiente – sem querer ofender os deficientes) tivesse opções, não saberia ela responder? Onde fica África: ‘na banheira, a Sul de Portugal, na cabeça da Teresa Guilherme ou no mamilo do Cristiano Ronaldo’. Diga Países da América do Sul: ‘300, Brasil, cafeteira ou Casa dos Segredos’. Era melhor não dar ‘Portugal’ com opção, que a concorrente ainda se podia enganar…
Sim, não existe cultura neste país. Só preciso de sair à rua para constatar isso. Ver estes concursos só corrobora o degredo que é a inteligência do português mediano. Saber quem é a JK Rowling e não o HG Wells não é um sinal dos tempos. É crime.
Portanto gozar com a moça, insultar o sistema de ensino, mas depois ir para a televisão e não saber completar o provérbio ‘Não há bela sem…’ (acabei de ver enquanto escrevia esta crónica), é ser hipócrita. É ser burro que nem uma porta.
Assim sendo, caros leitores, eu fico feliz (reitero, muito feliz) pela jovem menina (para não lhe chamar besta ou simplesmente troglodita) sequer saber que há uma coisa (continente, país, aldeia, tasco?!) chamada África. Podia ser pior. Podia nunca ter ouvido falar. Temos que ver o copo meio cheio.
Domingo, 16 de Outubro de 2011
Mistérios de Lisboa (2010)
Para criticar um filme como ‘Mistérios de Lisboa’ uma pessoa tem que ser muito, mas mesmo muito, honesta, especialmente em Portugal. Porquê? Porque este é o tipo de filme cuja premissa em si, isolada e livre de qualquer outra compreensão, é suficiente para o intelectual de meia leca o considerar uma obra prima suprema e imperdível. É uma sumptuosa versão de uma obra de Camilo Castelo Branco, realizada por um conceituado realizador estrangeiro, e que tem um leque de actores internacional. O facto de Raul Ruiz sequer saber quem é Camilo Castelo Branco, de se dignar a fazer um filme sobre uma das suas obras, em português, com actores portugueses, e parcialmente filmada em Portugal, é suficientemente para a flor fina da casta cinematográfica, literária e intelectual portuguesa se pôr a arfar, e para o citar, nos jornais, revistas e programas de televisão como a maravilha que, infelizmente (pelo dinheiro e tempo gasto, quer pelos produtores, quer pelos espectadores!), não é. Para além do mais, a sua sumptuosidade, aliada ao nome do realizador, é suficiente para o fazer ganhar prémios internacionais em festivais, e a reputação cresce, de um filme que, muito honestamente, não o merece.
Senão vejamos. ‘Mistérios de Lisboa’ é realmente um filme soberbo… mas apenas a um nível. Ao nível do design de produção. Os maravilhosos cenários, as cores, o guarda-roupa, os adereços, tudo é incrivelmente realista e sem dúvida espectacular, mesmo para os parâmetros de um filme de época. Contudo, aos restantes níveis o filme falha redondamente.
Começando pela realização, Raul Ruiz escolhe sempre planos longos e afastados. Raramente há um close-up. A câmara está sempre à distância. Isto é satisfatório para marcar uma posição, para pontuar o distanciamento da arte cinematográfica da literal, para permitir ao público sorver as belas localizações onde o filme foi filmado. Contudo, não se vê a expressão de um único actor, não há emoção, a câmara, tal como os actores, é impassível. O seu movimento (muito frequente à volta dos cenários) não é balético, apenas mecânico. Não chega a ser teatro filmado (porque não é teatro, é romance), e não chega a ser filme. Então é o quê? É romance filmado, o que nos leva ao segundo ponto: o argumento. Peter Jackson disse que se filmasse o ‘Senhor dos Anéis’ página a página seria o caos. Certamente Ruiz não ouviu essas declarações. ‘Mistérios de Lisboa’ é (ou deve ser, nunca li o livro), o romance filmado página a página. As cenas sucedem-se dengosas, de diálogos morosos e confusos. Não há um encadeamento lógico. Não há uma legenda que nos mostre o local e a data do que está a acontecer. O filme muda de França para Portugal, de Portugal para o Brasil, para a frente no tempo, para trás no tempo, e nada o dá a entender. Só a meio das cenas, devido ao diálogo, à menção do nome de uma personagem, nos apercebemos do que se está a passar. Mas, por essa altura, devido ao tempo que a cena demorou a lá chegar, já não nos importamos. A história, tal como está apresentada, é impossível de seguir. Só para quem leu o romance e, e… Para além do mais, a história não tem interesse nenhum. A personagem principal (ou suposta principal), Pedro da Silva, um miúdo num orfanato que desconhece as suas origens, é esquecida logo no início e só é retomada no último acto. Passamos 4 ou 5 horas a ver histórias paralelas do padre que o criou, do sem abrigo (tornado posteriormente rico), que o salvou, dos amores de sua mãe, e de outras personagens que só muito remotamente têm a ver com o miúdo. E as suas acções não se vertem nele. Se se vertessem, ainda teria alguma lógica. Mas isto são histórias de vida destas personagens, que depois não tem nenhuma consequência para a acção. Isto não são ‘mistérios de Lisboa’. Isto são ‘histórias de vida, dos amores e das desgraças de pessoas que remotamente têm a ver com Pedro da Silva’, raramente entrelaçadas (excepto pelo Padre, que parece ser o elo de ligação entre tudo). Mas então, porque não é ele a personagem principal? Porque é que no último acto o filme abandona todas as personagens que passou as últimas 6 horas a construir (desconhecemos como termina a sua história) e se foca de novo no miúdo, agora já adulto, e aí sabemos como termina a sua história, que contudo não foi construída de forma alguma!
Falar da actuação é levar as mãos à cabeça. Não há um pingo de expressividade em 7 horas de filme (ou 4h30, se virem a versão curta – eu, infelizmente, vi a longa). Será devido à solenidade do material? E é esta a razão para o tempo que demoram a dizer cada frase, para as pausas entre diálogos, para aqueles momentos em que ambos os actores ficam mudos e quietos, como se tivessem uma ausência, para largos segundos depois recomeçarem a falar? Estariam a fazer vénias mentais à mestria da linguagem de Camilo? Ou seria o facto de serem péssimos actores? Felizmente havia um ou outro actor estrangeiro nesta produção.
Bem, podia estar aqui até depois de amanhã a dizer porque é que ‘Mistérios de Lisboa’ é pomposo, enfadonho e, se não incompreensível, pelo menos sem dinâmica alguma que faça o espectador querer compreender, mas não me apetece. Já perdi 7 horas da minha vida em vão.
Dizer ‘baseado numa obra de Camilo Castelo Branco’ e filmá-lo no interior de palácios sumptuosos com um estrangeiro ao leme da produção não significa ‘bom filme’. Quem viu o filme, viu-o realmente, viu mais além destes factores que geralmente seduzem os críticos, mais além do design de produção, não poderá dizer que o filme é bom. Honestamente. Não é. É um romance filmado. De longe e sem paixão nenhuma, sem sabor, sem emoção. Frio e insosso.
Terça-feira, 4 de Outubro de 2011
Johnny English Reborn (2011)
Sejamos sinceros. O primeiro ‘Johnny English’ (2003) era (muito) fraquinho. Surpreendentemente, foi escrito pela dupla Neal Purvis e Robert Wade (responsáveis pelos filmes do James Bond desde ‘The World is not Enough’), mas estes senhores, tão versados na acção e espionagem, claramente percebem menos de comédia. A sua tentativa de parodiar todos os seus próprios clichés foi demasiado exagerada e tornou o filme uma paródia de si mesmo, num argumento ridículo a roçar o patético (John Malkovich um francês que quer ser rei de Inglaterra?!), e sequências que apesar de engraçadinhas, tinham pouca piada.
Contudo, tal como o genial ‘Mr. Bean’s Holiday’ (2007) redimiu a imagem cinematográfica de Mr. Bean depois do desastre que foi ‘Bean’ (1997), esse sell-out Hollywoodesco de fraquíssima qualidade, assim também ‘Johnny English Reborn’ redime a imagem de ‘Johnny English’. E não será por acaso que o argumentista de ambas as redenções seja o mesmo (Hamish McColl).
Para começar, ‘Johnny English Reborn’ tem um argumento que (exceptuando, obviamente, as partes de comédia), poderia perfeitamente encaixar num filme de acção/espionagem de mediana qualidade. Isto torna o filme interessante (apesar de muito previsível), e dá-lhe uma consistência de base que falta à maioria das paródias. A misteriosa organização Vortex, com agentes infiltrados nas melhores agências do mundo (CIA, MI7,…), está a planear uma tentativa de assassinato ao primeiro-ministro chinês. Um contacto apenas falará com Johnny English, pelo que o MI7, que o dispensara anos antes por incompetência, vai buscá-lo ao Tibete. De volta, English pavoneia-se hilariantemente, dando a volta ao Mundo para resolver o mistério e impedir o assassinato. Desde uma Macau confundida com Hong Kong (um erro natural mas que não cai bem aos Portugueses), aos subúrbios Londrinos, a uma mansão muito bondesca no topo de uma montanha na Suiça, English, auxiliado pelo novo agente Daniel Kaluuya, pela psicóloga Rosamund Pike (bond girl de ‘Die Another Day’), e chateado muitas vezes pela chefe Gillian ‘Skully’ Anderson, tem um dia em cheio.
Tal como alterar as personalidades de Baldrick e Blackadder da primeira para a segunda série de ‘BlackAdder’ fez toda a diferença, aqui também dar a English a inteligência que faltava no primeiro filme tornou o espião muito mais hilariante. English já não é o pateta que salva o Mundo sem saber como. Desde o seu renascimento no Tibete, English é agora muito mais maduro. Os seus métodos de trabalho (e alguma incredulidade) é que são hilariantes. E o público responde muito melhor a isso do que a uma assumida incompetência. Para além do mais, a comédia é mais física e visual do que propriamente falada, e as múltiplas hilariantes sequências não se apoiam na paródia directa à espionagem para funcionar, mas sim na forma como se estruturam, o que é sempre uma lufada de ar fresco.
Contudo, apenas um punhado de vezes é o filme verdadeiramente engraçado (a sequência da perseguição nos telhados de Macau a melhor delas todas, embora haja outras, como o saco da morgue aos saltos), e há varias sequências à la Bond sem uma única piada (ou se existem, não me ri). Vistas sozinhas, bem podiam estar num filme Bond que ninguém notaria a diferença. Na sua demanda por consistência e seriedade, o realizador Oliver Parker (que até faz um bom trabalho) esqueceu-se que estava a fazer uma comédia. Uma mais cuidada união das cenas de enquadramento e de comédia tornaria o filme melhor, mas não podemos ser muito exigentes. ‘Johnny English Reborn’ já é suficiente melhor que ‘Johnny English’ para uma pessoa se dar por satisfeita, e rir a bom rir umas quantas de vezes.
A mim convenceu-me. Poderá até ser a melhor comédia do ano. É este o Johnny English que eu vou recordar. O primeiro filme está completamente apagado na minha cabeça.
Domingo, 2 de Outubro de 2011
La mariée était en noir (1968)
Não, não foi o Quentin Tarantino quem inventou ‘A Noiva’. Foi Truffaut, no clássico de 1968 ‘La mariée était en noir’, e quem a encarnou foi a magnífica Jeanne Moreau.
Truffaut já tinha bruscamente mudado de estilo ao fazer ‘Fahrenheit 451’ em 1966, e não foi por acaso que ‘a Noiva’ surgiu depois das famosas entrevistas que fez a Hitchcock mais ou menos pela mesma altura. Nem foi por acaso que quem compôs a banda sonora do filme foi Bernard Herrmann, nem que o filme se baseie num romance do mesmo escritor de ‘Rear Window’. Truffaut queria fazer um filme à Hitchcock. Mas embora o estilo possa ser superficialmente análogo, Hitchcock nunca poderia ter feito um filme como este, tal como Truffaut nunca poderia fazer, verdadeiramente, um filme como Hitchcock.
‘A Noiva’ é uma história de vingança. Quando Jeanne Moreau descia as escadas da igreja saída do seu próprio casamento, uma bala perdida matou o seu noivo. Em cinco sequências distintas, o filme mostra Moreau a matar cada um dos 5 homens que estava no quarto de onde a bala foi disparada. Não é a forma como os mata (Tarantino) que interessa. Nem tão pouco a construção da sequência, o suspense criado (Hitchcock). O público já sabe que Moreau os vai mandar de esta para melhor, de uma forma ou de outra. Para Truffaut, o que interessa é a alma destas personagens, que são tratadas com o mesmo desprezo superficial corriqueiro da sua restante obra. As pessoas, os acontecimentos, são reais, pelo que devem ser tratadas como nada de mais. Acontecem e pronto. Avança-se.
De um lado está a Noiva. Jeanne Moreau era a musa do cinema francês. Não a mais bonita das actrizes, era sem dúvida a mais talentosa, e aquela que trabalhou com a flor fina da geração de cineastas dos anos sessenta (Demy, Truffaut, Malle, Bunuel, Godard). Mas aqui, com 40 anos, já parece demasiado envelhecida para o papel. As suas formas mais cheias, a cara mais enrugada, fazem-na de certa forma pouco credível para seduzir os homens com um olhar, para ser uma femme fatale. Mas a sua aura existe, e de que maneira. Contudo, a sua cruzada assassina é uma de incertezas e de dúvidas. Constantemente hesita. Embora o seu plano esteja bem urdido (matar!), tudo parece surgir de improviso. A única coisa definida são 5 nomes. O resto aparece como aparecer, excepto quando chega a hora decisiva de matar. Quando o faz, é a sangue frio, sem remorsos, sem dúvidas. Prometeu vingar o noivo. Vinga-o.
Do outro estão as 5 vítimas. A cada uma delas é dada uma construção cuidada de carácter, mas cada uma delas é suficientemente crente e descuidada para deixar infiltrar a noiva na sua vida. Aqui está a riqueza do filme. Para cada sequência, para cada morte, há uma longa interacção entre assassino e vítima. A noiva precisa de conhecer o lado humano das suas vítimas, não só para saber como chegar o suficientemente perto para as poder matar, como também para, quando o fizer, essa morte ser o mais dolorosa possível.
‘La mariée était en noir’ não é um filme sobre 5 assassinatos. É um filme sobre 5 personagens (mais uma). O argumento é demasiado realista no estudo das vítimas para não se tornar desinteressante nas longas sequências, mas suficientemente irrealista na personagem etérea da Noiva, para dar aquela magia cinematográfica e apelo universal ao filme. E a fluidez da filmagem de Truffaut, espirituosamente realista, minimiza o impacto de cada cena, de forma a que o clímax (já esperado), possa ser mesmo assim chocante.
Não é por acaso que este é um dos grandes sucessos de bilheteira de Truffaut. É raro um filme tão bom ser tão simples.
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