Domingo, 27 de Novembro de 2011

A Dangerous Method (2011)




O maior elogio (e talvez o único) que se pode dar ao novo filme de David Cronenberg é que passará a ser a bíblia de todos os estudantes de psicologia. Já o imagino a ser passado nas aulas da faculdade. Já imagino os alunos a terem de escrever trabalhos de 2 mil palavras sobre ele. Já imagino os alunos mais molengões a abandonarem os livros e verem o filme na véspera do exame. Contudo, não estou propriamente seguro que estes terão uma boa nota se só estudaram a partir do filme.
Cronenberg está longe dos filmes que construíram a sua reputação. Ultimamente, os seus universos surreais mas com pontas acutilantes de humanidade foram substituídos por filmes mais directos e acessíveis, mas que conseguem contudo ainda explorar as vertentes mais violentas do ser humano. ‘A History of Violence’ (2005) é indiscutivelmente uma obra prima, mas mesmo o menos conseguido ‘Eastern Promisses’ (2007) proporciona uma experiência mais recompensadora que ‘A Dangerous Method’, que ostensivamente é um estudo de personagens e da mente, mas que acaba quase como um melodrama, excessivamente a roçar o sentimentalismo barato.
Este filme, tal como os dois anteriores, conta com Viggo Mortensen, como Freud. Contudo, não é ele a personagem principal. O filme é contado da perspectiva de Carl Jung, protagonizado por Michael Fassbender, que continua a dar provas de que vai ser um dos melhores actores desta geração, e que mais cedo ou mais tarde alguém o vai convidar para ser o próximo James Bond.
O filme abre contudo com uma terceira personagem. Keira Knightly é Sabina Spielrein, uma paciente mental, cujo problema é sexual, que é admitida na clínica de Jung. As primeiras cenas, sem música e com uma câmara muito intimista, mostram as primeiras sessões entre Keira e Fassbender, onde este pretende aplicar o método experimental de psicanálise de Freud, e Keira ostensivamente tem sucessivos ataques e crises que são mais o produto do overacting do que propriamente de uma paciente realmente em dificuldades. Estas cenas são poderosas e abrem uma porta pela qual, infelizmente, o filme não penetra.
É na consequência desta paciente que Jung e Freud se encontram pela primeira vez, e muitas discussões da psicanálise ocorrem, como se de um jogo do gato e do rato existisse entre ambos. Contudo, cada vez mais que trata Keira, e se envolve com ela, Jung põe em causa aquilo que acredita, ou melhor, aquilo que poderá fazer para ter tudo, ser o melhor psicanalista do mundo, superar Freud, ter Keira e a mulher ao mesmo tempo, e mesmo assim manter os seus ideais e ajudar os seus pacientes. O filme tenta mostrar a luta de Fassbender com ele próprio enquanto articula todas estas coisas, mas substitui o pessoal pelo dramático. Ou seja, perde-se nas disputas mesquinhas entre o ariano quase egoísta Jung e o judeu ‘pai simpático mas incisivo’ Freud que se nota estar muito acima intelectualmente, e no triângulo amoroso entre Jung, a mulher dele e Keira.
A latente sexualidade sempre presente nas sessões, e muito incentivada pela breve aparição de Vincent Cassel como Otto Gross, é apenas expelida de quando em quando. A tentação e o reverter para o instinto animal (associado ao sexual) que Freud defende como causa de todos os problemas e que Jung quer negar com todas as suas forças, parece surgir quando ele capitula a Keira e parece apontar o filme para a direcção a que Cronenberg já nos habituou. Contudo Jung nega esse instinto e deixa Keira para perseguir os seus intentos pessoais, e ao nega-la e ao negar-se, nega também os pontos que o filme poderia atingir, e o filme acaba por não ter nada que lhe altere o tom moroso.
Este filme é um filme exclusivamente de diálogos, bem entendido. Mas há várias obras primas que assim são, portanto o problema não reside aí. Os caminhos possíveis de explorar neste filme eram tantos que é difícil de acreditar que não se optou por nenhum. Em vez disso, o filme debita milhares de noções de psicologia, ditas pelos próprios gurus da especialidade, e depois acaba quase no estilo telenovela, nas disputas mesquinhas entre as personagens. O filme abre prometendo, e termina não oferecendo nada. Contudo, tem excelentes interpretações (excepto as patacoadas de Keira no início), e o design de produção, em Viena no virar do século, também está muito interessante, embora o background seja estranho, e é difícil não notar na pouca naturalidade das pessoas que passam sempre atrás das personagens principais nas várias cenas. Só falta terem um autocolante na testa a dizer ‘extra!’.
O próprio título do filme parece prometer que o método é volátil e os próprios que o aplicam podem ceder às tentações que tentam suprimir. Um espectador fica sempre à espera que tal aconteça. Mas o filme retrai-se, e ao retrair-se perde todo o seu encanto. Pior mesmo é estar estruturado como o livro em que é baseado. São mandadas umas 10 cartas em todo o filme, ou mais. E temos que aturar todas elas. Pouco cinematográfico.
Um filme que os estudantes de psicologia acharão interessante, mas que lhe falta qualquer coisa para que as personagens se transcendam e universalizem para que os seus problemas sejam cativantes para o público em geral. Cronenberg sabe fazer melhor do que isto.

Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011

The Ides of March (2011)




‘The Ides of March’ é um drama político ligeiro sobre a corrupção e a perda da inocência. Chamo-lhe ‘ligeiro’ porque o filme não mostra nada de novo, nada de surpreendente, e aliás nem um clímax tem. Há uma linha narrativa, há uma acção que a interrompe, e a personagem principal gera uma reacção. E eis que o filme termina. E o espectador fica aonde? Teve uns cheirinhos dos bastidores da política. O choque não foi brutal, não foi acutilante, nem incisivo. Quiçá foi realista. Mas uma coisa foi, altamente cinematográfico. Ou melhor, Hollywoodesco.
Ryan Gosling interpreta um jovem gerente de campanha de um dos candidatos democrata para as primárias; nenhum outro senão George Clooney, um congressista reputado pela sua integridade. Aliás, Gosling é um homem de ideais, que realmente vê em Clooney a salvação para os males da América. Já Philip Seymour Hoffman, o seu superior, é um animal muito mais político, tal como Paul Giamatti, que interpreta o seu homólogo do candidato concorrente. A questão central do filme prende-se com os votos do estado de Ohio, decisivos para a eleição final. Clooney aparentemente não cede a chantagens nem quer jogar sujo, e Gosling mais o admira por isso.
Contudo, quando Gosling começa a andar com a jovem estagiária, interpretada pela vibrante Evan Rachel Wood, e descobre que esta já teve um caso com Clooney, então este é o ponto de partida para o desfiar do novelo. Já nada é o que parece, e a teia começa a acercar-se de Gosling e a apertá-lo. Para sobreviver na política, terá de perder a inocência, e transformar-se num animal sem sentimentos, capaz da traição e da intriga, independentemente daquilo que possa acontecer àqueles que lhe são mais próximos.
Assim descrito, o filme está-me a parecer muito mais interessante do que o foi na sala de cinema há umas horas. As surpresas, como disse, são poucas. Mais cedo ou mais tarde, por tão ‘bonzinhos’ que possam parecer no início, todos querem ganhar, a qualquer preço. Desde os jornalistas (centralizados em Marisa Tomei, sempre excelente), aos políticos, aos angariadores de votos, ao próprio Gosling, as suas reacções são previsíveis. O filme ganha interesse e ritmo aquando do primeiro desequilíbrio da ordem natural (até lá segue a sequência clássica dos filmes sobre políticos e campanhas políticas), mas depois a contra-reacção da personagem principal ao ‘dilema’ é simples, e o filme fecha sem ter dado um clímax, ou ter aumentado ou intensificado o tom da perda da inocência de uma alma outrora pura. Dá-o como um dado adquirido. A cara de Gosling expressa essa perda, mas o filme não. Se pensarmos bem sobre o assunto, nem é tanto um problema de argumento. É mais de realização. Mas quem é que disse que Clooney sabia realizar filmes?
O filme é ostensivamente sobre a corrupção na política, de todas as esferas, de cima abaixo na hierarquia. Sim senhora, mas não teria tido muito mais impacto se fosse apenas focado num único homem, se se debruçasse sobre a sua ascensão e queda emocional? No início parecia que ia seguir esse trilho, e a figura de Clooney quase não existia, centrando-se o filme somente em Gosling. Quanto mais poderoso não seria o filme, se se passasse sempre dos bastidores, e a figura do político nem sequer aparecesse na tela? O seu rosto seria irrelevante, os gestores de campanha tentam vender uma imagem ilusória, não real, dos seus candidatos. Mas Clooney lá acaba por ganhar demasiado tempo de antena no seu filme, e capitula e vende os seus princípios por uma causa maior; ser presidente. Contudo, a sua emotividade não existe. A de Gosling é trabalhada, a de Clooney não.
O filme é sobre política, o filme é sobre as pessoas que fazem política, o filme é sobre a luta de um homem entre aquilo que acredita e o seu ganha pão. Já são temas a mais, e num filme com apenas 1h40 são claramente pouco explorados. O filme acaba por ter poucas camadas, e exprimido produz pouco sumo.
Salienta-se a fantástica performance trágica de Evan Rachel Wood. Ela é a única que não tenta dar seriedade nem intensidade. Ela é a única que não parece estar a afirmar com cada fala ‘estou num drama político’. Desse tom o filme tem a mais, mas substância a menos.

Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011

The Wild Geese (1978)



‘The Wild Geese’ é um filme de guerra de um tipo muito peculiar, que só existiu nos anos 60 e 70. Será talvez um dos últimos, senão o último do seu género. Uma missão praticamente suicida, um grupo selecto de homens, interpretados por um ensemble cast masculino, e acção animada, explosiva, e sem excessiva violência. ‘The Wild Geese’ tenta ser ‘Guns from Navarone’, ‘Dirty Dozen’, ‘Kelly’s Heroes’ ou ‘Where Eagles Dare’, todos eles expoentes do género nos anos 60. Feito em 1978, parece já um bocado desgarrado desta natureza cinematográfica, mas mesmo assim consegue ainda funcionar bem (para o género), e é um nostálgico olhar sobre uma forma de fazer cinema que morreu com o blockbuster de acção dos anos 80.
Richard Burton retorna ao seu eu de ‘Where Eagles Dare’ de 1968, interpretando mais um militar ao qual é dada mais uma missão suicida. Burton está já muito velho para ser credível no papel de um militar (vê-se as cenas em que ele corre pelo mato – é um milagre as balas não o apanharem), mas o que peca em destreza corporal, compensa em destreza verbal. O seu modo incisivo de falar está acutilante como nunca e é uma presença dominadora em todas as cenas.
Ao contrário de todos os filmes acima citados, a acção já não é a Segunda Guerra Mundial. Aqui o cenário é África. O objectivo é libertar um governante africano emprisionado. O governo inglês espera assim derrubar o actual ditador e fazer contratos de exploração das minas de cobre com o novo governo. Burton entra em cena por motivos absolutamente mercenários, e recruta Roger Moore (violento e viril como nunca foi como Bond) e Richard Harris (que luta pela causa e não pelo dinheiro). Juntos treinam um pequeno grupo militar (as clássicas cenas de treino, incluindo o sargento berrão), e pouco depois já estão a saltar de pára-quedas no meio de África.
As semelhanças como ‘Where Eagles Dare’ não se limitam a Burton e ao salto de pára-quedas. Em ambos os filmes, ao fim da primeira hora, a missão está completa. Em ambos os filmes, algo corre mal no regresso, o que leva ao verdadeiro objectivo da história; não a missão, mas como improvisar e sobreviver em climas hostis. Burton, Moore e Harris, e os restantes homens, presos na savana Africana, traídos e perseguidos, têm de conseguir salvar o ditador, salvar-se a si próprios e regressar a casa. E é aí que verdadeiramente a acção começa…
O realizador (mais conhecido por westerns) Andrew V. McLaglen gosta de nos mostrar que filmou realmente em África, e os seus zooms e pans revelam-nos os cuidados estratagemas militares ensaiados na savana. Para os parâmetros de hoje, a acção é ‘levezinha’ mas termina com o mesmo sabor amargo de ‘Dirty Dozen’ e ‘Great Escape’. A história é direita como uma recta, e tem poucas ramificações. Estas tentam ser dadas na primeira meia hora, na construção de cada uma das três personagens principais, numa tentativa desesperada (por vezes conseguida) de lhes dar uma vertente humana. A insistência na relação e Harris com o seu filho é um prenúncio pouco disfarçado do que vai acabar por acontecer… Durante toda a sequência ‘da missão’ a vertente humana é dada através da relação do governante negro salvo e do militar Boer, membro da missão de salvamento, encarregado de o proteger.
No fundo, isto é um filme de homens (aliás, só há 2 papéis femininos com falas, e diz-nos o imdb que perfazem menos de 10 frases). Deve muito aos seus antecessores dos anos 60 e, para quem está familiarizado com o género, é mais do mesmo, sem ser melhor. Contudo, e apesar de uma forma leve de encarar a guerra (como se fazia antes de ‘Deer Hunter’ e ‘Apocalypse Now’), tem 3 performances centrais muito boas, tem sequências interessantes, e no fim parece ter uma profundidade escondida que o início não deixava antever. Feito na época errada talvez, mas uma grande adição à fórmula filme-de-guerra-missão-suicida-pequeno-grupo-grandes-estrelas-masculinas. ‘Saving Private Ryan’ é realista e profundo, uma obra prima. ‘Wild Geese’, tal como os seus predecessores, poderá não o ser. Mas é entretenimento. Do bom.
Teve uma sequela menor, de 1985, sem nenhum dos actores do primeiro filme.

Domingo, 13 de Novembro de 2011

Revisitando Pandora



Hoje, pela primeira vez em dois anos, desde que o vi no cinema, revi o filme ‘Avatar’.

Na altura, a minha opinião não foi muito positiva. Chamei-lhe um ‘boring, visually stunning, cliché’. Para mim era um blockbuster de verão à la Cameron, com uma história morosa estereotipada que culminava numa boa sequência de acção ao fim de 2 horas, e que era favorecido por um dos melhores conjuntos de efeitos visuais que eu já tinha visto num filme. Apenas bom para ver num sábado à tarde, disse eu, e nada mais.

Isto foi escrito logo no início, mal o filme estreou. E, se a opinião em geral fosse de certa forma semelhante, não me surpreenderia, e seguiria em frente contente da vida. Contudo, tal não aconteceu. Para meu espanto, de repente o marketing (um dos fortes de Cameron) entrou em força, e vi ‘Avatar’ ser aclamado (por quem exactamente ninguém sabe) o filme mais importante de todos os tempos, e comecei a ouvir em tudo o que era notícia que era um dever cívico ir vê-lo, visto que iria revolucionar o cinema, a vida das pessoas, da natureza, do planeta e quiçá da humanidade. Óscares, Globos de Ouro e afins choveram aos pés de Cameron... Numa palavra: patético. Mas houve quem engoliu isto muito bem engolido, e isso é que é triste.

Bem, dois anos volvidos, felizmente nenhuma dessas coisas aconteceu. Nem havia sequer a mais remota probabilidade de tal acontecer, considerando a qualidade do material. ‘Avatar’ agora é um número, é estatística. Não está incutido na mente das pessoas como os clássicos, nem mesmo os clássicos mais recentes. Nem nunca estará. Serviu o seu propósito: ganhar dinheiro. E ganhou.

Hoje vi ‘Avatar’ com olhos de ver. Atento e com um caderno de apontamentos à frente. Fico contente por saber que a minha opinião não mudou. Vou tentar desconstruir ‘Avatar’ nas linhas que se seguem e justificar a minha opinião.

Para começar, ‘Avatar’, ao contrário do mito que se criou, não revolucionou nada. Cameron não esperou por nenhuma tecnologia para fazer o filme. Esperou pelo upgrade da tecnologia, que é uma coisa bem diferente. O 3D já existia há mais de 60 anos, e o motion capture há mais de 10. Avatar é de 2009, contudo Gollum apareceu pela primeira vez em 2001, com a mesma tecnologia. Mais importante que isso, ‘Final Fantasy’ de 2001 apresentou todas as personagens animadas baseadas em actores reais. Na altura, houve uma enorme controvérsia sobre a ética deste procedimento, incluindo até processos legais de sociedades de actores contra os criadores deste filme, temendo que o avanço da tecnologia torna-se o seu trabalho obsoleto, tal como os trabalhadores fabris temem o aparecimento das máquinas nas cadeias de produção. 8 anos depois, ‘Avatar’ era louvado, e não criticado, por usar a mesma tecnologia tão realista. Como os tempos mudam.

O que Cameron conseguiu fazer foi implementar esta tecnologia num cenário CGI incrivelmente realista. Não nos enganemos, os efeitos visuais de Avatar são fabulosos. Mas nunca conheci um filme que só valesse por isso. A história, o argumento, os actores, a fotografia, cada uma destas coisas valem mil vezes mais que os efeitos visuais. Aliás, estes só devem existir para proveito da história, e a história, ou o estilo visual (como é o caso de ‘Sin City’ ou ‘300’), tem que os justificar. Contudo, ‘Avatar’  depende única e exclusivamente dos seus efeitos visuais, quando grande parte da história nem sequer o justifica.

Mas comecemos por analisar a mente criadora deste filme. Quem é Cameron realmente? Na altura em que ‘Avatar’ saiu nos cinemas, as pessoas já nem sabiam quem ele era. Daí a razão dos posters do filme e o trailer ostentarem a frase ‘do realizador de Titanic’ e não ‘do realizador James Cameron’. Cameron não é um grande autor, nem sequer um grande realizador. Cameron é um realizador de filmes de acção. Tal como Michael Bay, Cameron não tem talento para as cenas intimistas, nem para o argumento. Pior ainda, ao contrário de Bay, Cameron escreve os seus próprios argumentos. O que não é bem jogado, visto que muitos deles são de fugir. Estamos a falar de um realizador cujas histórias são na sua maioria todas pontilhadas de clichés, e que só valem pela sua acção. Cameron realizou dois filmes de acção muito bons (T2 e Aliens), um filme de acção mediano (Terminator) e três filmes de acção claramente maus com argumentos insuportáveis (True Lies, Abyss e Piranha 2).

A sua filmografia fica completa com ‘Titanic’, que foi o que se pode chamar ‘um golpe de sorte’. ‘Titanic’ não reflecte o estilo de Cameron, é a excepção. E nota-se como Cameron voltou ao seu velho eu com ‘Avatar’. ´Titanic’ tem muitos pormenores à Cameron, mas o seu verdadeiro segredo do sucesso esteve no facto de possuir uma fórmula que funciona (aka apela às massas), ter Leonardo DiCaprio no pico da loucura adolescente dos anos 90, e claro, no facto de Cameron ser um génio a realizar cenas de acção (neste caso o barco ir ao fundo). Mais que um grande filme, TItanic foi uma moda. O mesmo se passou com Avatar. E é errado assumir que estes são os dois filmes mais rentáveis da história do cinema. Se contarmos com a inflação da moeda, ou os bilhetes vendidos (o que ainda é melhor, visto que que os bilhetes de cinema, mesmo com a inflação, ficaram mais caros), ‘Gone with the Wind’ é ainda o filme mais visto e rentável de sempre. Para além do mais, foi feito em 1939, numa época em que os filmes demoravam 2 anos a chegar à Europa e ao resto do Mundo, e não havia o marketing nem as estreias simultâneas em biliões de salas. Mesmo assim, mais gente viu ‘Gone with the wind’ nos cinemas que ‘Avatar’. Aliás, ‘Avatar’ e ‘Titanc’ estão bem lá para o fundo da tabela, atrás de ‘Star Wars’, ‘ET’, ou até ‘101 Dalmatians’ (este se só considerarmos o mercado americano).

Após ter visto todos estes filmes, eu tenho a impressão que Cameron não sabe como se fala na vida real. Creio que ele aprendeu a falar nos filmes de acção. Então quando ouvimos o Coronel a dizer, nos primeiros 10 minutos ‘If there is a Hell, you might want to go there for a little R&R after a tour on Pandora’, ou uns soldados a dizer, quando vêem Jake chegar numa cadeira de rodas ‘Oh, boy, meals on wheels’, então sabemos que estamos num bom filme de militares de Cameron, e estamos prontos para uma carrada de clichés, e muitas frases que soam bem no papel, mas que quando pronunciadas se tornam completamente lamechas.

A primeira meia hora de ‘Avatar’ está cheia deste argumento inconsequente. Aliás, aqui os efeitos especiais eram completamente dispensáveis. Cenários de nave e laboratório serviriam o mesmo propósito, e mais uma vez, tudo o que se passa é para ‘encher’. O pior de tudo é a narração forçada de Jake, para um suposto ‘diário de bordo’. Tem a capacidade de aparecer quando o filme se torna chato e é preciso ganhar tempo para a próxima cena, embora a narração explica tudo o que o público (se tiver dois dedos de testa) já sabe. E de novo, as frases que arranham os ouvidos de tão más que são trazem à memória os mais belos (leia-se detestáveis) one-liners de Schwarzenneger em ‘True Lies’, sem dúvida o pior filme de Cameron.

Após 40 minutos que servem para explicar ao público variadas coisas como a tecnologia, ou aquilo que a ‘organização’ procura em Pandora, Jake é enviado com o seu avatar Na’vi para o meio da selva. Aqui começa uma longa série de contradições. Anteriormente ouvimos o Coronel referir-se a Pandora com um inferno. Esteve 3 anos na Nigéria e saiu de lá sem um arranhão. No primeiro dia em Pandora, ficou com os arranhões que agora ostenta na cara. Mas quem os fez? Após 2 horas de filme apercebemo-nos que planeta mais pacífico que Pandora não parece haver. Povo mais pacífico que os Na’vi não parece haver. Onde está a ameaça de que se fala em Pandora? Porque motivo os militares ainda não destruíram o planeta? Pelo que se vê, bem que os podiam ter aniquilado em 2 dias.

Logo na sua primeira incursão por Pandora, Jake encontra uma espécie de rinoceronte e depois uma espécie de felino. Quase sozinho, com um pau, por pouco não consegue vencer estes dois animais. Quanto mais não faria uma legião inteira de soldados com armas topo de gama. Os Na’vi também são facilmente aniquilados no primeiro ataque a Home Tree e não têm capacidade de defesa contra os militares. Portanto, onde está a dificuldade de conquista? Os Na’vi ganham a batalha final, é verdade, mas apenas porque são liderados por Jake e este pediu auxílio à mãe natureza. Até esse ponto, não há nada de ameaçador no planeta. Até esse ponto os militares podiam facilmente ter ganho. Porque não o fizeram? Obviamente, porque senão não havia filme.

Aliás, toda a estratégia dos militares é esquisita. Atacam a Home Tree com sucesso, mas a cena seguinte mostra-os de novo na base. Porque se retiraram? Não era fácil seguir os Na’vi e aniquilá-los? Não era fácil segui-los e descobrir a localização da árvore da vida para os destruir de vez? Excepto nos dois ataques, nunca sinto os Na’vi sobre grande ameaça. Afinal, estão reféns num planeta ocupado por humanos. Mas não parece. Outra coisa. Aquando do ataque final, o Coronel mostra a imagem satélite da actividade Na’vi. Então se têm um satélite, porque raio precisam de Jake para obter informações no terreno? O nosso Google maps dá-nos tudo, e nem sequer conseguimos ir para além da Lua. Quando mais não lhes poderia oferecer o satélite XPTO deles? Mesmo que não conseguissem, Jake não retransmitiu mais nenhuma informação vital desde que foi para a base nas montanhas suspensas. Mesmo assim, os militares esperaram 40 min de filme até atacar? Para que? A resposta a todas estas perguntas é simples. Os militares não atacam para dar tempo de filme a Jake para ter toda a sua iniciação Na’vi, o que é o mesmo que dizer, para poder mostrar efeitos especiais e a natureza selvagem. Os militares atacam ou não atacam para bem do filme, e não para bem deles próprios. Filmes em que as acções das personagens não são realistas porque estão condicionadas pelo argumento são, muito sinceramente, maus filmes.

O que nos leva aos Na’vi em si.

Primeiro, falam melhor inglês que muita gente que eu conheço. Só não usam os artigos e os determinantes. Mas sabem usar expressões idiomáticas como ‘copo meio cheio e vazio’ e palavras com mais que 6 sílabas. Se eu disser ‘you othorinolaringologist’ em vez de ‘you are an othorinolaringologist’, isso já quer dizer que sei pior inglês porque sou um indígena e por isso não consigo dizer ‘are’ embora consiga dizer ‘othorinolaringologist’?

Depois vem a questão daquilo que são os Na’vi. Em Pandora há exactamente 7 espécies animais. Sim, eu contei-as. Há os Na’vi, uma espécie de rinocerontes, uma espécie de felinos, uma espécie de dragões, uma espécie de pássaros, uma espécie de veados, e uma espécie de libelinhas. Então, de onde surgem estes humanóides? Quer dizer, os humanos andam em 2 patas, têm olhos e narizes e bocas e mãos porque são o resultado de biliões de anos de evolução, sendo os primatas o principal elo de ligação. Em Pandora não há primatas. Como andam estes Na’vi em duas patas, têm pés e mãos com dedos, olhos, cabelos, ouvidos e narizes em tudo semelhantes aos nossos, apenas maiores? Descenderam directamente dos dragões?

Se me dissessem ‘deixa-te de mariquices, isto é só um filme’ eu aceitaria de bom grado e calar-me-ia. Mas um dos motivos pelo qual insisto nisto é por ‘Avatar’ ter sido aclamado como um filme ‘ecológico’ e muito importante para a preservação a natureza e do nosso planeta. Pois bem, no outro dia vi um filme em que um tipo plantava uma árvore. Só aí havia mais de ecológico que nas 2h40min do ‘Avatar’.

Mas que natureza revela Avatar, afinal? Uma natureza cuja ordem natural está toda errada. Para começar só há 7 espécies animais em Pandora. Suponho que plantas haja muitas mais, mas é um ecossistema um bocado limitado, não vos parece? Há muitas mais espécies no ‘Lord of the RIngs’ e nunca ninguém lhe chamou um ‘filme ecológico’. Sauron destrói a floresta dos Ents, mas ninguém liga nenhuma a isso. Depois, que coisa é que diferencia os Na’vi dos humanos afinal? A meu ver, apenas uns milhares de anos.

Os Na’vi são guerreiros. Sim, a palavra é ‘guerreiros’ e ‘guerreiros’ não é uma palavra pacífica. Os jovens Na’vi têm iniciações guerreiras. Têm códigos guerreiros. Aprendem a usar armas. Nada disto é pacífico. Se o povo ama tanto a paz e a comunhão, porque treina ‘guerreiros’? Com que intuito? Guerras de clãs? Para além do mais, vivem em comunhão com a natureza mas também têm que comer. Lá por fazerem uma oração a um animal que acabaram de matar com uma flecha não os torna menos caçadores. Mataram um animal inferior para o comer. O que os diferencia dos humanos? Os próprios humanos comportavam-se como os Na’vi nos primórdios, até a evolução os obrigar a usar mais e mais flechas e deitar as florestas abaixo para o seu próprio conforto. Os Na’vi, a meu ver, vão pelo mesmo caminho. Se matam uma espécie de veado com uma flecha, daqui a mil anos estão a fazer bem pior. Se os seus jovens têm iniciações guerreiras, em breve haverá discórdias, etc, etc. Os Na’vi são como os humanos eram nos primórdios. Não são puros. Apenas ainda não tiveram tempo para evoluir.

Mas há pior. Tomemos a subjugação da espécie de dragões. Tal como diz Neytiri, Jake tem de os subjugar pela força. O animal terá de tentar matar o ‘dono’ escolhido. Se for bem sucedido bem, o dono terá um problema grave. Se não for, será seu para sempre. Será seu quê? Escravo! A espécie de dragão é subjugado pela força, e uma vez conectado tem que capitular e servir a vontade do amo. Sem querer, Cameron justifica a essência humana nos Na’vi. Os humanos subjugam primeiro pela força e depois pela compreensão. O mesmo fazem os Na’vi com esta espécie de dragões. O dragão, aparentemente, não quer subjugado, mas depois de o ser não tem mais escolha.

Supostamente, a espécie de dragão e o Na’vi, uma vez unidos, ficam ligados para a vida. Contudo, lá para o fim do filme, Jake tenta domar uma espécie de dragão muito maior, o Taruk. Então e a sua ligação com o primeiro dragão? Vai para o caneco? Uma vez domado o Taruk, o dragão anterior nunca mais aparece. Coitadinho. Deve ter chorado muito. Mais uma vez, um Na’vi tem uma atitude humana. Vai subindo na cadeia dos mais fortes, e descarta quem o ajudou a subir até lá.

E as questões sobrepõem-se. Jake, tal como muitos heróis desde Luke Skywalker, é alguém a quem as coisas acontecem injustificadamente só porque é ‘o escolhido’. A questão é que Skywalker teve que lutar para se conseguir unir à força. Jake, tal como Harry Potter ou o Kung Fu Panda não tem que fazer a ponta de um corno. É o escolhido, por isso tudo gira à volta dele, quer ele se esforce quer não. No primeiro dia na selva, é logo levado pela filha do chefe à tribo. Eles sabem que ele não é um deles, mas não se importam, e ensinam-lhe tudo. Mas o domar do Taruk nem sequer é uma questão de ele ser o escolhido ou não, ou ele estar predestinado a domar o Taruk (só um ou dois sábios o tinham feito). É uma questão de manha. E uma manha bem simples. Atacá-lo por cima e juntar as tranças. É tão ridículo que uma pessoa surpreende-se como é que os guerreiros Na’vi nunca pensaram nisso antes. É tão ridículo que uma pessoa pergunta-se se é mesmo verdade. A partir daí o animal subjuga-se a Jake, incondicionalmente. Mais uma vez, inconscientemente, Cameron fala de escravos e donos, e de a raça mais forte domar a mais fraca. Mas o significado que o filme força a esta situação é bem diferente, e aí está a diferença. O que o filme impõe é diferente daquilo que o filme realmente mostra se se o analisar para além da superfície.

Já disse que Cameron é fraco a escrever diálogos. Mas o argumento de ‘Avatar’ não fica atrás. Não há uma só ideia original em todo o filme. A história da Pocahontas é a mais saliente, mas todos os filmes de um outsider aprender os costumes locais e depois voltar-se contra o sistema, desde ‘Last Samurai’ a ‘Dances with Wolves’, estão bem presentes, sem nenhuma tentativa de disfarce. Cameron até rouba dos seus próprios filmes, mais propriamente de Aliens, em toda a parte dos militares. Pior que tudo, é o, chamemos-lhe plágio, do filme de animação italiano ‘Aida’ (ver http://www.focus.it/Tecnologia/speciali/avatar---aida-due-film-e-tante-analogie.aspx#lista). Até o ‘Highlander’ é referenciado, o quickening muito parecido com a relação dos Na’vi com a natureza. Também se lhe pode chamar ‘a força’!

Quando olhei para o contador e ia em 1h45 (ainda 50 minutos faltavam) a palavra que me vinha à cabeça era ‘enfadonho’. A história é batida e desenvolve-se lentamente sem surpresas, e o desenrolar do filme está todo condicionado pelo facto de que ainda não se terem acabado de mostrar todos os efeitos especiais. Felizmente, há uma grande cena de acção, digna de Cameron, mas quando ela chega, após as 2h de filme, chega tarde de mais.

Em relação a outras características cinematográficas há pouco a assinalar. O filme tem sempre o mesmo tom visual. O mesmo que existe num jogo de computador. E após 2h, por brilhantes que sejam os visuais, ficam repetitivos, e nada na história os catapulta para o extraordinário.

Resumindo e concluindo, ‘Avatar’ não é um filme que deva ser sujeito às camadas a que o subjuguei agora. Há falhas em todas estas camadas simplesmente porque estas camadas não existem. Os blokbusters não têm camadas. Apresentam as coisas ‘face value’ e o que interessa é o entretenimento, o visual, a acção e o espectáculo disponibilizado. ‘Avatar’ disponibiliza todas estas coisas, mas ‘Aliens’ e ‘T2: Judgment Day’ disponibilizam-no de uma forma muito mais satisfatória. Cameron criou uma história de entretenimento baseada em visuais apelativos, e será de supor que ambicionava pouco mais. O marketing é que inventou todas estas camadas para vender o filme e, infelizmente, as massas caíram que nem uns patinhos.

‘Avatar’ é um filme de acção razoável com excelentes efeitos especiais. Nunca será nada mais que isso. Um bom filme é bom em tudo, é original, cativa, e não precisa de artifícios para ser bom. ‘Avatar’ é moroso, copiosamente copiado, tem diálogos péssimos, e o seu maior trunfo é o artifício visual, que para o olho cinematográfico treinado não é suficiente para disfarçar o facto de não ter história, e a que tem ter mais buracos que um queijo suíço. As sequelas aproximam-se perigosamente. ‘Avatar 2’ e ‘Avatar 3’ já têm datas marcadas. Deus nos livre de mais loucura e excitação e ‘o Mundo vai ser salvo’. Não fazem isto cada vez que estreia um novo ‘Piratas das Caraíbas’. Vão vê-lo, torna-se um dos 20 filmes mais rentáveis, e pronto. Toda a gente fica feliz. Não há cá tretas de ‘o Mundo agora vai ser um lugar melhor agora que as pessoas viram os ’Piratas das Caraíbas’. E, para registo, alguns dos ‘Piratas das Caraíbas’ são bem melhores que o ‘Avatar’.

O ‘Avatar’ é um filme de acção com umas árvores e uns extra-terrestres. E depois? Árvores e extra-terrestres nunca foram suficientes para fazer bons filmes. É preciso algo mais. O filme ‘E.T.’ também tinha extraterrestres e inclusive o ET salvava uma planta. Mas nunca ninguém disse que o ‘E.T.’ era um filme ecológico importante para o futuro da humanidade. O ‘E.T.’ é um grande filme. Mas nunca na vida o Cameron vai fazer um filme como o ‘E.T.’. Para isso é preciso ser um grande realizador.

Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

Tower Heist (2011)


Quando eu digo que Brett Ratner é um dos melhores realizadores da nova geração, as pessoas riem-se ou coçam a cabeça. A verdade é que os velhos autores estão a ficar velhos e, com a clara excepção de Christopher Nolan, não surgiu na década de 2000 nenhum grande cineasta americano. Para mim, Ratner pertence a um grupo selecto de novas promessas. A questão, e o motivo pelo qual nem ele, nem eu, somos levados a sério, é que Ratner apenas fez um filme sério (‘Red Dragon’). O resto são comédias de acção/aventura. Aliás, este é dos poucos realizadores que conseguiu transportar com sucesso para o novo milénio o género tão em voga no final dos anos 80, início dos anos 90.

Ratner pode não ser nenhum ‘autor’, mas tem uma qualidade invulgar a lidar com actores, e essa cumplicidade transporta-se para o ecrã. Para além do mais, ele é capaz de pegar em histórias banais blockbusterizadas e torná-las divertidas e dinâmicas. Mas há mais do que isso. É só comparar o péssimo ‘Hannibal’ do conceituado autor Riddley Scott, que praticamente matou o franchise Hannibal Lector, com o surpreendente ‘Red Dragon’ de Ratner, apenas um ano depois. Se o argumento diz ‘e então o autocarro explode’, sabemos que Michael Bay o vai filmar muito melhor que Godard, Scorcese ou Ozu. O mesmo se passa com comédias de acção dirigidas por Ratner.

Começando a carreira como realizador de videoclips, muitas divas como Maddona, Mariah Carey e Jessica Simpson agora dificilmente fazem um videoclip sem ele. O seu trabalho tem sido praticamente todo na televisão (é o produtor de ‘Prision Break’), mas no grande ecrã realizou os 3 ‘Rush Hour’, bem como o terceiro X-Men (‘Last Stand’ – o melhor da saga), e o animado ‘After the Sunset’ com Pierce Brosnan e Sela Hayek. ‘Tower Heist’ é o seu mais recente trabalho.

Ben Stiller é o gerente de uma torre de apartamentos de luxo em Nova Iorque. Lá mora Alan Alda, um gestor milionário, aparente muito amigo dos seus empregados. Mas Alda é um investidor de risco fraudulento, e quando é indiciado pelo FBI, o staff descobre que todo o seu dinheiro (que de boa fé, mas estupidamente, tinham dado a Alda para investir) foi perdido. Stiller jura vingança, o que faz com que seja despedido. Então, forma um plano. Assaltar a própria penthouse da torre (visto que o dinheiro que Alda roubou, e que nem o FBI conseguiu encontrar, só pode estar lá escondido).

A pandilha de ladrões invulgares conta também com Casey Affleck, Mathew Broderick (é estranho vê-lo já na meia idade), Gabourey Sidibe (do filme ‘Precious’), e Eddie Murphy, um ladrão fala-barato de meia leca, vizinho de Stiller. Juntos, assaltam a torre no último terço do filme.

Este é um filme com mais camadas do que poderá parecer. Verdade que o primeiro acto demora mais de uma hora e é demasiado extenso para o tipo de filme que este pretende ser. Contudo, isso dá uma (certa) profundidade às personagens que é raro ver nestes filmes, e dá umas achegas de consciência social, nestes tempos de crise financeira em que os gestores são os principais culpados. Contudo, a ‘profundidade’ não passa muito disto, e o resultado é que tempo a mais é perdido. O filme só verdadeiramente despoleta com o passar da primeira hora, quando Murphy entra em cena e 'treina' a equipa de ladrões. A química Murphy-Stiller é hilariante, e trás à memória a dupla Shrek-Donkey. Stiller está mais contido do que o habitual, mas forma o contraponto ideal com Murphy, que faz o que sabe fazer melhor… falar desalmadamente com uma piada por segundo. Contudo, o assalto já é menos conseguido. Claro que tem cenas hilariantes, e termina com uma sequência brilhante de suster a respiração, tirando partido da altura elevada a que se passa o assalto, durante toda a qual eu literalmente tinha os olhos colados no ecrã. Mas após uma hora de construção, sabe a pouco. Este é um filme que possui uma distribuição normal – vai crescendo, atinge o seu pico a meio e depois volta a descer de intensidade. Os extremos, o início e o fim, estão muito menos trabalhados que o miolo.

Como de costume nestes filmes, há várias coisas difíceis de acreditar, claro, (um elevador suster o peso de várias toneladas, empregados comuns conseguirem ludibriar agentes do FBI), e no fim nota-se que o filme tem alguns ‘buracos’ no argumento, com o seu final tudo está bem quando acaba ‘quase’ bem. O ‘quase’, como não podia deixar de ser, deixa a janela aberta para a sequela. Contudo, é um filme de acção/comédia que funciona. Não passa disso, mas para o que é funciona, e bem. Ratner é sempre uma lufada de ar fresco do género, e o rol de actores secundários (incluindo uma Tea Leoni como agente de FBI, com química romântica com Stiller) é da mais alta qualidade.

Este vai ser descartado pelos críticos, é certo, como ‘mais um’. Há muito filme de acção/roubo/comédia por aí. Contudo, se é isso que pretende, caro leitor, então vá ver este. Para o género, está bem acima. Rir-se-á um pouco, agarrar-se-á ao seu assento um pouco, e não terá que pensar muito, enquanto torce pelos zé ninguéns que atacam o clichézado investidor mauzão. Um reflexo daquilo que todos nós queríamos fazer, no actual estado das coisas. Não chega a ser pungente, mas brinca traquinamente com coisas sérias.

Espero pacientemente que Ratner fique mais velho uns aninhos, e comece a fazer filmes sérios…

Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011

Carta de Miguel Saraiva ao Gabinete do Munícipe, por ocasião do reboque da sua viatura automóvel na passada Segunda-feira


Porto, 4 de Novembro de 2011
Caros Senhores,

Na passada segunda-feira, dia 31 de Outubro de 2011, cerca das 9h00 da manhã, desloquei-me ao local onde tinha aparcado a minha viatura automóvel, na Rua de Agramonte, para descobrir que ela lá não se encontrava, tendo sido substituída por um arcaico stand de flores.

Devo referir que este local, tal como aliás praticamente toda a rua, permite legalmente e sem parquímetro o estacionamento. Para além do mais eu, como morador de longa data, estou familiarizado com todos os sinais de trânsito do arruamento e aparco a minha viatura ao longo deste eixo (inclusive até, varias vezes, no próprio lugar agora em causa) numa base diária, sem alguma vez ter incorrido em qualquer infracção da lei.

Mal verifiquei a ocorrência, dirigi-me respeitosamente a um dos vários agentes da autoridade que se encontravam na rua a rebocar outras viaturas. Este, em abono da verdade, dirigiu-se a mim de uma forma muito menos respeitosa.

Quando lhe afirmei que a minha viatura se encontrava anteriormente naquele local, ele rapidamente me soube dizer a marca e a cor, de uma forma condescendente. Quando lhe perguntei se tinha sido rebocada, ele respondeu-me para ir olhar para o sinal, que se encontrava na curva a poucos metros, e retomou o que estava a fazer, que era conversar com os vendedores de flores. Visto eu saber, por morar naquela rua há vários anos, que o sinal se referia unicamente ao assinalar de uma passadeira, fiquei um pouco surpreendido. Perguntei-lhe porque é que a minha viatura tinha sido rebocada, e ele, com ar de escárnio, enfadado por mais uma vez lhe interromper a conversa, respondeu-me que não me dizia até eu ir olhar para o sinal. Resignado, lá fui, enquanto o sr. agente de autoridade gozava, literalmente, com a minha cara. Atado (!) ao sinal da passadeira estava algo que, eu sei e posso jurar, nunca lá tinha estado, um sinal de proibição de estacionamento, com um autocolante (mínimo) colado (!) a dizer que se aplicava aos dias 31 de Outubro e 1 de Novembro.

Sobre este sinal há vários pontos a considerar (ver figuras anexas).

O primeiro ponto é que o sinal de proibição nunca existiu naquele local. Aquele sempre foi um sinal de passadeira. Pelo menos, até àquela manhã, ou poucos dias antes disso. A inserção deste sinal, num único local, e sem aviso dos moradores, é, no mínimo, discutível. Mais discutível é ainda a forma como foi inserido. Sinais provisórios são geralmente amarelos. Aqui temos um poste atado a um poste já existente, com uma corda, e com um papel autocolante a referenciar 2 datas. Tudo quanto sei, isto bem que podia ser um acto de vandalismo (ver figura 1).

Em segundo lugar podemos debater a localização do sinal (ver figura 2). O sinal encontra-se voltado para o interior do cruzamento, que devido a sinalizações recentes se tornou uma rotunda (com estacionamento no meio), alterando a forma de circulação. Para além do mais, ao longo dos anos, a rua tem sofrido várias alterações de sentido. Isto contribui para que o sinal de passadeira, outrora de frente para o tráfego, se encontre agora de lado (paralelo) relativamente ao sentido de circulação. Um veículo automóvel já não aborda o arruamento de frente, mas de lado. A isto acresce a existência de arvoredo e os lugares de estacionamento da própria curva, tornando o sinal em causa praticamente impossível de ver. Reitero, é possível de ver, se se desviar os olhos da estrada e se olhar para o passeio, mas assumo que não queiram que se opte por essa via.

A curvatura desenhada no pavimento faz com que uma viatura a realizar a curva passe pelo sinal paralelamente a este (ou seja, só se se olhar pela janela do passageiro é que se o pode ver). Após o veículo transpor a curva encontra a passadeira imediatamente à sua frente, e o condutor está mais preocupado com os peões do que propriamente virar a cabeça 90º para poder olhar para o sinal, que não está voltado para ele.

Mas a última questão é a mais relevante. Visto a rua ter dois sentidos, é impossível de ver o sinal se se vier no sentido oposto, devido ao arvoredo e ao facto da notificação estar, obviamente, de costas. Visto que o arruamento não apresenta risco contínuo, posso estacionar o carro num sentido, estando a vir do oposto e invertendo a marcha!

Para referência, o sentido oposto da Rua de Agramonte também possuía um segundo sinal de proibição ‘provisório’, embora esse, claro, se referia unicamente aos lugares de estacionamento desse lado, o que não era o meu caso. Este sinal estava atado a um poste de iluminação, do passeio e não do arruamento. Faço notar que ambos os sinais não estavam em locais visíveis para um condutor. Estavam atados ao poste mais próximo disponível, visíveis apenas para quem saiba onde procurar, ou quem está a conduzir a olhar para o passeio. Ora um morador da rua de longa data e um bom condutor não fará nenhuma destas coisas.

Em terceiro lugar discute-se a notificação das datas aplicáveis. De novo, as letras que constituem o papel colado sobre o sinal são tão pequenas que só são visíveis a olho nu na sua proximidade. Para as ler, teria de parar o carro em plena curva (se viesse num sentido), ou nem sequer teria oportunidade de as ver (se viesse do outro).

Em quarto lugar está a altura em que o sinal foi colocado. O sr. agente da autoridade referiu que ele já estava ali ‘há alguns dias’. Mas precisamente quantos? Por lei, posso aparcar a minha viatura num local de espaço público (que, relembre-se, não possuía parquímetro) até 30 dias até ser considerado estacionamento abusivo. Pois bem, posso, por exemplo, tê-lo lá deixado 28 dias antes, ter ido de férias e regressado apenas nessa segunda-feira de manhã, pelas 9h00, tendo ainda 2 dias para levantar o carro, precisamente os mesmos da proibição. Estou seguro que o sinal não foi colocado com 30 dias de antecedência, portanto, a ser este o caso, como poderia saber da proibição de antemão?

Em quinto lugar está a extensão da aplicação do sinal. O sinal foi colocado no início do arruamento, e, como está, supostamente aplica-se a todo ele, ou seja, até à Avenida da Boavista. Contudo, apenas foram rebocados os veículos automóveis dos primeiros 3 ou 4 espaços para dar lugar aos stands de flores (os mais perto do cemitério). Tivesse eu estacionado no quinto, no décimo ou no vigésimo lugar ao invés do primeiro, estaria de novo seguro de reboque. Mais uma vez se realça a fraca credibilidade da sinalização colocada.

A razão para esta suspensão provisória do estacionamento prende-se com o facto de a rua possuir um cemitério e esta Segunda e Terça-feira terem sido dias religiosos. Estou certo e seguro que os vendedores de flores fizeram qualquer tipo de requerimento ao município e que foram atendidos. Contudo, como poderá o cidadão comum, ou o morador, saber destas coisas? Foi notificado nas caixas do correio? Não! Foram vedados os lugares no dia útil anterior (sexta-feira)? Não! A imposição começou a uma hora após a maioria das pessoas saírem das suas habitações para trabalhar (9h00)? Não!

Eu saí de casa para trabalhar eram 8h55. Cheguei à minha viatura uns minutos depois. Aparentemente, a multa foi passada às 8h30, e a viatura rebocado às 8h55. Tivesse eu saído de casa 5 minutos mais cedo a minha viatura já não teria sido rebocada. Tivesse eu que estar no trabalho às 8h30 nada disto teria acontecido. Tenho eu culpa que o dia dos polícias comece mais cedo do que o meu? E se estivesse doente? E se estivesse no estrangeiro? Quando foi aparcada, a minha viatura estava a cumprir a lei. A lei foi mudada entretanto. A culpa é minha?

Trabalho perto de outro cemitério (o de Paranhos). Aí, os stands de flores estavam nos passeios (muito mais curtos que os da rua de Agramonte), e nenhuma das viaturas aparcadas estava a ser removida. Porquê então, com tanto espaço nos passeios em Agramonte, houve a necessidade de retirar lugares livres de estacionamento para acomodar meia dúzia de stands, especialmente quando estes existem todos os fins de semanas, desde que me lembro, nos passeios à entrada do cemitério? Se fosse um recinto de feira, compreenderia. Assim sendo, não. Com que direito retira o município, num dia de semana, um lugar de espaço público, livre de ser usufruído por qualquer cidadão, (e que aliás é seu direito usufruí-lo), e o dá a um privado, para realizar comércio de iniciativa privada, obtendo lucros com isso?

Aquele espaço onde repousava a minha viatura é um lugar de espaço público, que estava a ser usado por mim de uma forma legal. Foi usurpado de uma forma rude e violenta e oferecida a um privado para exploração própria (e obtenção de lucros, diga-se!), sem a mínima notificação à minha pessoa.

Eu contudo, não obtive lucros, muito pelo contrário. Tive de pagar 93 euros para retirar a viatura do parque para onde foi rebocada. 77€ de multa mais 16€ que constituem a avença diária do parque. Ora a minha viatura esteve no parque menos de meia hora (pois fui imediatamente buscá-la). Paguei contudo um dia inteiro.

Foi a má gestão do processo que levou a este ponto. Má gestão na sinalização e no tratamento das viaturas estacionadas, apenas para servir os interesses de um grupo de vendedores de flores, por ocasião de um feriado católico.

Não sei se os caros senhores são versados em cinema, mas no filme ‘The Big Store’ de 1941, dos comediantes irmãos Marx, Harpo quer estacionar em frente de um armazém comercial mas não encontra lugar. Tira uma boca-de-incêndio da mala, coloca-a em frente de uma viatura qualquer e chama um polícia. O polícia passa uma multa a essa viatura, reboca-a e vai-se embora. Harpo estaciona então nesse lugar e volta a colocar a boca-de-incêndio na sua mala. Pois bem, caros senhores, foi assim que me senti. Um sinal foi colocado para servir um interesse, a minha viatura foi imediatamente rebocada, e quando a venda de flores acabou o sinal foi removido. Este país ainda é livre, ou não?

Resumindo, serve o presente para protestar veementemente com a forma como todo este processo foi conduzido, requerendo o reembolso da quantia em questão. Apresento 10 breves razões.

Primeiro porque quando aparquei a viatura fi-lo de uma forma legal.

Segundo porque não houve uma notificação própria nem cuidada, especialmente aos moradores da rua.

Terceiro porque a sinalização não está visível nem legível, em qualquer dos sentidos, e a sua legalidade é discutível, bem como pouco credível (atado a um poste com uma corda e duas datas em papel autocolante?!).

Quarto porque, por lei, a minha viatura podia estar estacionada naquele local muito antes da proibição ser ‘afixada’, e portanto haver a possibilidade de eu a desconhecer. Do mesmo modo o agente da autoridade não tem maneira de saber se aparquei ou não a viatura antes da colocação da sinalização provisória.

Quinto porque o tratamento dado pelo agente da autoridade a quem tive a infelicidade de me dirigir não foi o mais correcto; condescendente e com tentativa de me humilhar publicamente.

Sexto porque o espaço público, ao qual tenho direito por ser cidadão português, foi usurpado para uma iniciativa privada (o que já de si é discutível, por envolver lucros), e que facilmente se poderia ter localizado em qualquer outro local, sem detrimento da circulação pedonal ou automóvel.

Sétimo porque a viatura foi removida antes das 9h00 da manhã, que para muitos é o início do horário de trabalho.

Oitavo porque tive de me deslocar por conta própria até ao parque onde a viatura foi rebocada (o que não foi fácil, visto ser portador de deficiência, embora isto seja irrelevante para este caso).

Nono porque tive que desembolsar 93€, por uma irregularidade que não cometi.

Décimo porque se hoje estacionar naquele mesmo local, estarei de novo dentro da lei.

Protesto portanto porque está no meu direito constitucional, e, nestes tempos de crise, apelo para que a quantia de 93€ me seja devolvida, porque tive o infortúnio de sair de casa 5 minutos mais tarde do que devia, e porque alguém se lembrou de vedar os lugares de estacionamento público para usufruto próprio, atando sinais de proibição poucos dias antes (ou no próprio dia), ao sítio mais à mão para si, e não para os condutores. Acrescenta a isso o dinheiro perdido (para mim e para o país) por ter faltado a uma manhã de trabalho, embora esse, infelizmente, não mo possam reembolsar.

É vergonhoso
Respeitosamente,

Eng. Miguel Saraiva

Figura 1


 Figura 2 -  A viatura estava estacionada no primeiro lugar do lado direito, após o contentor do lixo e a árvore, onde agora se vê o stand de flores. A figura permite igualmente ver o posicionamento do sinal em relação ao contorno da curva, e o seu afastamento em relação à faixa de circulação. Para além do mais, compreende-se que uma viatura abordando o lugar de estacionamento do sentido oposto (ou seja, vindo da faixa do lado esquerdo), poderia fazer legalmente inversão de marcha e estacionar, sem ver o sinal, devido à mesma árvore, e ao facto do sinal estar na curva e não na proximidade da faixa de rodagem.