Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

Puss in Boots (2011)


Quem viu ‘Shrek 2’ (2004) certamente nunca se esqueceu da fantástica entrada da personagem do gato das botas, com os seus olhos fofos e a voz de Zorro. Uma hilariante e fascinante criação (notando o poder e o realismo que a animação por computador pode atingir), teve desde então um filme próprio em carteira na Dreamworks, primeiro pensado como directo-para-DVD, e finalmente retrabalhado para o grande ecrã.
O filme, do mesmo realizador do terceiro ‘Shrek’ (curiosamente o pior da saga), existe no mesmo universo dos filmes do ogre. O tipo de animação e o desenho das personagens segue os mesmos traços, e o tipo de história segue o mesmo padrão, ou seja, o de retrabalhar contos de fadas e torna-los modernos e com estilo, embora tomando demasiadas liberdades com as suas origens. O que eu quero dizer é que a piada resulta para quem conhece as histórias originais, mas as crianças de hoje que entram em contacto com estas histórias pela primeira vez não as vão ouvir correctamente. Será isso justo?
Aqui, três histórias clássicas intersectam-se, a do Gato das botas, a do Humpty Dumpty e a do pé de feijão e da galinha dos ovos de ouro. A primeira dá-nos o herói e a segunda o vilão, mas é a terceira que consome a grande parte da história.
Puss é-nos apresentado ao mais belo estilo latino (ou a visão que os americanos têm dos latinos), um dançarino, sedutor e lutador, mas que, diga-se em abono da verdade, é também extremamente fofinho! Este Zorro com pêlo permite que o filme tome o ar de um western (o segundo este ano de animação depois de ‘Rango’), e as cenas iniciais gozam um pouco com o género. Mas é quando Puss sabe que um casal de capangas (um deles com a extraordinária performance vocal de Billy Bob Thornton) estão na cidade com os três feijões mágicos, que a aventura começa. Puss tenta roubar os feijões (estão de alguma forma ligados ao seu passado), e é no roubo que se depara com Kitty (Selma Hayek), que tenta roubar os mesmos. Ela trabalha para Humpty (voz de Zach Galifianakis), outrora bom tornado mau, e quando Puss descobre há um flashback para a infância de Puss e Humpty, onde eram amigos. O mau deste flashback é que é a única parte morosa e com menos piada do filme. O bom deste flashback é que podemos ver um pequeno Puss, que, muito sinceramente, é a coisa mais adorável que alguma vez foi projectada numa tela de cinema.
Puss, Humpty e Kitty partem na busca da galinha dos ovos de ouro, Puss com motivos altruístas (salvar a cidade da sua infância) e os outros com motivos mais financeiros. O resto é fantasia/aventura, com twists clássicos e que um espectador mais experienciado vai facilmente detectar de antemão.
Puss é mais um filme de acção/aventura do que propriamente uma comédia. Está nas linhas das sequelas do Shrek, sem o escape cómico do Donkey. Mesmo assim resulta e é uma experiência de animação compensadora. Repito, só as imagens do Puss em pequeno valem o preço do bilhete. Os contornos são previsíveis mas não morosos, os bonecos são adoráveis, Banderas é rei e senhor da voz, e o filme (tirando o flashback), tem ritmo, ao som de uma banda sonora de western passado no México. Não está aqui o vencedor do Óscar de Melhor Filme de Animação, mas está uma experiência leve e por vezes engraçada para um sábado à noite, com um 3D fabuloso (o melhor que vi este ano), e que está acima da maior parte dos filmes de animação que saíram este ano.

Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

Drive (2011)




‘Drive’ consegue atingir um feito de certo modo notável. Parte de um modelo típico de filmes de acção não muito bons dos anos 80 e transforma-o numa obra cinematográfica com excelência, mesmo que essa excelência seja algo forçada.
‘Drive’ é uma história típica de um homem calmo, misterioso, de poucas palavras, que devido a um conjunto de circunstâncias toma a luta contra um ‘mal’ nas suas próprias mãos e faz despoletar os horrores do inferno contra aqueles que fizeram mal a si e às pessoas que ama. Ryan Gosling (está na moda o homem!) é esse homem, um duplo de cinema com uma capacidade invulgar para conduzir carros, e que às vezes participa como condutor de carros de fuga em assaltos. A cena inicial é particularmente excitante, mesmo que de uma forma contida (ou melhor é ainda mais excitante porque é contida), e funciona perfeitamente para estabelecer o carácter da personagem. Nunca se percebe bem porque é que Gosling participa em assaltos de quando em quando. Pela adrenalina talvez. Ele não é ‘mau’. Nota-se isso logo no início, e ainda mais se prova quando ele fica muito amigo do filho da vizinha, e da própria vizinha (interpretada por Carey Mulligan), cujo marido está na prisão. A relação entre ambos podia acabar na sexual, mas nunca acaba, o que mais prova o carácter erecto de Gosling, como se fosse o homem sem nome dos velhos westerns (aliás o seu nome nunca é pronunciado, ou é Driver, ou é the Kid).
Quando o marido da sua vizinha sai da prisão e regressa com dívidas a mafiosos e é obrigado a fazer um assalto para as saldar, Gosling oferece-se como condutor. Tudo dá para o torto e a vingança dos mafiosos aproxima-se de Mulligan e do seu filho. É aí que Gosling sai do seu estado sempre calmo e passivo e entra numa senda de vingança para proteger a mulher e a criança…
Estas histórias de vingança urbana num sub-mundo de capangas mafiosos, com uma personagem principal enigmática e sem nome, são comuns no cinema. Aliás, o argumento de ‘Drive’ é análogo a vários filmes do género. O que o distingue é o estilo visual. Os americanos não estão habituados a estes tipos de filmes no modelo europeu e ‘Drive’ já está a ser aclamado como uma obra prima. ‘Drive’ tem muito poucas falas. ‘Drive’ tem pausas gigantescas em que as personagens ficam a olhar umas para as outras. ‘Drive’ tem planos de câmara artísticos. ‘Drive’ tem sequências em câmara lenta ao som de música. ‘Drive’ tem momentos de violência excessivamente ‘gore’ que, supõe-se, funcionem como contraponto chocante ao ritmo lento da construção do filme. Isto torna o filme, senão bom, pelo menos melhor, mas um experienciado em cinema fica sempre com a sensação que estes planos não surgem naturalmente, mas forçadamente, e muito do ‘artístico’ parece excessivo. Tudo no cinema é deliberado, obviamente, mas quando é deliberado demais também não resulta. Não há necessidade para tanto sangue nas cenas ‘gore’. Contrasta com o resto do filme é certo, salientando-se, mas ao mesmo tempo não se enquadra. Não há necessidade para as cenas iniciais entre Gosling e Mulligan, quando mal se conhecem, haver tantas pausas e tantos olhares e tanta musiqueta. Não há necessidade para nalguns ‘ataques’ aos mafiosos Gosling usar a sua máscara de duplo, enquanto noutras não. A diferença é que nalgumas fica bem artisticamente ele chegar em slow motion com a máscara…
Mesmo assim ‘Drive’ é bom. Comparando com os recentes filmes americanos, uma pessoa pode dizer até que é muito bom. Gosling encarna bem a personagem (muito melhor do que seria Hugh Jackman inicialmente contratado para o papel) e o rol de personagens secundários também. A crítica está a destacar Albert Brooks. Eu destacaria Bryan Cranston. Depois de o ver como pai na série cómica ‘Malcolm in the Middle’ é surpreendente o seu papel de xoninhas deficiente.
Enquanto estava a ver o filme os paralelismos ao modelo artístico de ‘No Country for Old Man’ não me saiam da cabeça. Se a academia deu 4 Oscares a No Country, incluindo Filme e Realizador, então ‘Drive’ mereceria muitos mais. Mas tal não vai acontecer. No Country era dos irmãos Coen, no pico da ‘moda’ dos irmãos Coen. Este é de Nicolas Winding Refn, desconhecido, e cujo último filme foi ‘Valhalla Rising’ (2009). Mas uma coisa é certa. O público em geral poderá não perceber o modo artístico e europeu em que ‘Drive’ foi filmado, mas mesmo assim, e mesmo sabendo que se não houvesse pausas, nem planos artísticos e houvesse muito mais enfoque na acção isto era um filme do Steven Seagal, ‘Drive’ é mil vezes melhor que o ‘King’s Speech’. E se o ‘King’s Speech’ ganhou Óscar Melhor Filme, então o ‘Drive’ merecia entrada directa para a biblioteca do Congresso.

Domingo, 11 de Dezembro de 2011

Habemos Papam (2011)



O novo filme de Nanni Moretti é hilariante. O problema é que não era suposto. Ou melhor, é suposto ter cenas hilariantes, mas não é suposto ser isso que o espectador se lembra quando sai da sala. Portanto, embora o filme possa ser classificado como ‘bom’ (ao menos é melhor do que aquilo que nos chega da América recentemente) há um desequilíbrio em ‘Habemos Papam’. Moretti já nos habituou em filmes com declarações socio-políticas incisivas que têm contrapontos cómicos, tais como ‘Il Caimano’ ou ‘Palombella Rossa’. Em ‘Habemos Papa’ esses dois níveis existem, mas funcionam como extremos, nunca se tocam, e a pouco e pouco, a parte cómica toma conta e o drama pessoal é esquecido até quase deixar de ter importância.
O filme abre com a morte de um Papa. O conclave é convocado, e os cardiais fecham-se numa sala do Vaticano para escolher o seu sucessor. Logo à cabeça, há uma série de sequências cómicas que ocorrem durante a votação. Logo à cabeça, os líderes da religião católica são tratados não como tal, mas simplesmente como seres humanos.
O grande Michel Piccoli, agora com 86 anos, prova que não perdeu nenhuma das suas qualidades. É eleito o novo Papa, mas segundos antes de ser anunciado aos milhares de fiéis que o aguardam na Praça de S. Pedro tem um ataque de pânico. Recusa-se a aceitar o cargo e fecha-se nos seus aposentos. Enquanto o povo aguarda, o assessor de imprensa do Vaticano chama Nanni Moretti, um psicanalista de renome. Quando não o pode ajudar (pois não há privacidade) manda-o anonimamente à sua esposa, também psicanalista. É aí que o Papa foge, e tem uma espécie de ‘Férias em Roma’, em que tenta redescobrir uma liberdade que há anos não possui, e procurar forças para enfrentar o cargo que o aguarda.
Enquanto isso os restantes cardeais não podem sair do Vaticano, pois tecnicamente o conclave ainda está convocado, visto o Papa ainda não ter sido anunciado ao Mundo. E com eles ‘preso’ também está Moretti, visto que, devido à confidencialidade dos devaneios do Papa, também é impedido de sair. As cenas do Papa a vaguear por Roma e a interagir com diversas personagens são intercaladas com as cenas dentro do Vaticano, em que os Cardeais e Moretti tentam arranjar formas de passar o tempo (incluindo um hilariante torneio de vólei), enquanto esperam que a polícia encontre o Papa e o traga de volta.
É devido a esta estrutura que o filme se desequilibra. O Papa e o psicanalista apenas se encontram numa única cena. A partir daí os seus caminhos separam-se. As cenas dentro do Vaticano são hilariantes, mas apenas contribuem para a história como forma de mostrar o lado humano dos cardeais e a loucura de Moretti. Mas nada têm a ver com o caminho de redenção que o Papa está a ter pelas ruas de Roma. As duas histórias não estão relacionadas. Por outro lado o drama do Papa está pouco desenvolvido. Picolli dá uma expressividade dramática incrível ao papel, mesmo com poucas falas, mas as suas cenas diluem-se cada vez mais, à medida que são mais e mais interrompidas pela comédia dentro do Vaticano. O clímax do filme, em vez de existir durante os eventos que levam ao Papa tomar a sua decisão de retornar ao Vaticano e fazer as pazes consigo próprio, existe durante o torneio de vólei, que toma completamente conta do filme. O escape cómico torna-se o mais importante do filme, e parece-me que isso não era suposto.
Mesmo assim, ‘Habemos Papa’ convence. Tem piada e Picolli faz um desempenho dramático muito bom. Talvez o último sopro da sua brilhante carreira. E Moretti tem sempre um ritmo de diálogo muito interessante.
‘Habemos Papa’ não é polémico, nem me parece que o Vaticano vá levantar alguma objecção. Parte de um princípio simples, mas cinematograficamente ousado. Trata os mais elevados membros da igreja simplesmente como homens normais, ao qual se mistura o charme cómico de Moretti. 

Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

La piel que habito (2011)



Almodóvar. Tenho um amigo que o descreve como ‘aquele que faz filmes de paneleiros’. Bem, Almodóvar é mais que isso, embora a marca ‘Almodóvar’, dos seus maiores sucessos, tenha uma fórmula que é muitas vezes semelhante, e que se recicla de filme para filme. Felizmente, existe um estilo visual e de produção muito bom, e cada filme consegue ter pequenas surpresas. Ainda mais felizmente Almodóvar tem-se afastado do mundo das drogas, dos travestis e dos homossexuais, e os seus últimos filmes têm regressado a um tipo de exploração mais básica da condição humana espanhola, que não tem de se apoiar na espalhafatuosidade das morte, pedofilia, drogas e afins para conseguir chocar ou ser profundo. Isto é visto pelos críticos como mau. Para mim é visto como bom.
Para mim a melhor obra de Almodóvar não é nenhuma que tem a sua ‘chapa 5’, ‘Hable com ella’ ou ‘Tudo sobre mi madre’, mas sim ‘Carne Trémula’ (1997). ‘La piel que habito’ é, de todos os filmes de Almodóvar, aquele que está mais perto de o destronar.
Almodóvar já não trabalhava com Banderas (cuja carreira havia lançado) desde ‘Átame!’ (1990). Há um tipo de relação entre captor e refém muito próxima em ambos os filmes, mas enquanto ‘Átame!’ era um estudo semi-cómico, ‘La piel que habito’ é frio e calculado. Assim são os planos. Assim é a construção das cenas. Assim é o ritmo do filme. O novelo desfia-se muito lentamente. Muitas vezes o público já percebeu há muito o que se está a passar, ou o que se vai passar, mas a câmara continua a filmar, como se nos obrigasse a ver com um prazer mórbido. Este tipo de calculismo está muito acima das obras anteriores (não confundir isto com a habitual ‘lentidão’ dos filmes europeus, ao qual Almodóvar não escapa), é o reflexo da complexidade fria da personalidade da personagem de Banderas, e apenas falha nas últimas cenas. O filme tem claramente mais 6 ou 7 minutos do que precisava. Já não é preciso obrigar o público a suportar o peso da história através das imagens quando a história já está toda revelada e o filme, para todos os efeitos, já acabou.
A história tem duas partes. Uma inicial que nos mostra Banderas como um cirurgião plástico de prestígio, rico, com uma sala de operações na cave da sua grande mansão. A sua mulher e filha morreram anos antes. Contudo, numa sala totalmente fechada, Banderas detém refém uma jovem mulher, cuja pele trata cuidadosamente (Elena Anaya), com a ajuda de uma mulher, Marisa Paredes, uma actriz habitual de Almodóvar. Quando o filho desta, interpretado por Roberto Álamo, aparece não convidado na mansão uma noite, e se apercebe de que existe uma mulher prisioneira, despoleta uma série de eventos trágicos. Tal como noutro filme de língua espanhola ‘El Secreto de sus ojos’ (2009), ao fim dos primeiros 45 minutos, há um twist/revelação e parece que já está tudo contado. Contudo, ambos os filmes mergulham numa segunda camada e ocorre um segundo twist, muito melhor que o primeiro, e que apanha o público de surpresa, relacionado com o segredo da misteriosa mulher prisioneira. O segundo twist de ‘La Piel que habito’ é uma das melhores, se não a melhor, surpresa argumental de Almodóvar, e eleva o filme a um patamar único. O público não se apercebe dele de um momento para o outro, numa grande surpresa dramática com música a condizer. Em vez disso é dado progressivamente e depois, como disse, é esticado até obrigar toda a gente a penetrar nos eventos quer queiram quer não (a não ser que saiam da sala). Só o final do filme parece a mais. De resto o filme tem exactamente o equilíbrio que precisa de ter.
Banderas, cujos dias como leading man de Hollywood já acabaram, está num dos seus melhores papéis. ‘La Piel que habito’ é um dos melhores filmes de Almodóvar, e um dos melhores filmes do ano. Almodóvar tem um dom para inventar histórias dramáticas chocantes, e está muito melhor quando estas não envolvem forçados marginais da sociedade, mas pessoas supostamente normais cuja sanidade mental não é exactamente aquilo que aparenta ser. Aqui temos um conto de Frankenstein moderno, que se mistura com uma história de vingança fria, lenta e ponderada mas afiada como uma faca de dois gumes, que se mistura com um estudo psicológico da síndrome de Estocolmo (relação sequestrador-sequestrado). Almodóvar pega no melhor de ‘Átame!’ e ‘Carne Trémula’ e cria uma história única que cativará, chocará e fará o público pensar sobre ela muito depois de sair da sala.
Só um reparo. Alguém ensine a Almodóvar como se fala português. Os ‘brasileiros’ do filme falam uma espécie de língua qualquer. O que quer que seja, não é português!