Em 2011, pela primeira vez, decidi contabilizar os filmes que vi. Pois bem,
de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro de 2011 vi nada mais nada menos que 371
filmes. Vá, vi 369 mais duas mini-séries que, em exibições épicas, podem ser
consideradas como longas-metragens, se se tiver o estofo para as ver seguidas –
as sete horas de ‘Os Mistérios de Lisboa’ (2010) e as dez horas do polaco ‘Dekalog’
(1989) (ou quase, pois, na realidade, ainda me faltam 3 episódios). A estes
acrescem todas as séries, curtas-metragens e extras de DVDs e Blu-Rays que
ainda fui vendo. Porque na verdade a minha vida não é isto (bem que podia ser
mas ainda não arranjei o tacho), e há dias em que não há tempo para ver 2 horas
de filme, portanto 20 minutos têm que servir para saciar o vício. Em suma,
muitas horas passei em frente do ecrã.
A maior parte destes filmes vi-os no conforto de minha casa (sou um
cinéfilo casívoro). 2011 foi um ano generoso, em que troquei o meu LCD HD-ready
por um LED FULL HD 3D e um Home Cinema 5.1 Blu-ray 3D, e em que comecei a
apostar no mercado dos blu rays. Contudo, felizmente, estou ciente que a
qualidade de exibição não é tudo, e os muitos filmes que tenho nos velhos VHS
ainda me saciam (porque são bem bons!). Pouco mais de 30 vezes saí de casa para
ir ao cinema (como quem diz ao shopping, agora que o Nun’Alvares voltou a
fechar) mas isso na realidade não me tira o mérito, até porque o que
actualmente chega às salas de cinema em geral (e às portuguesas em particular)
poucos contributos dá à História do cinema. É mais estatística do que
propriamente memorável.
O que eu gosto mesmo é de alternar filmes que já vi (muitos que conheço
bem), com novas descobertas, e explorações de realizadores/actores/géneros a
que ainda me falta ‘pôr o visto’, percorrendo toda a história do cinema, que, a
pouco e pouco, preencho na minha cabeça e, a pouco e pouco, deixa de ter
segredos para mim. Por motivos óbvios (ida ao cinema, exposição ao mediatismo)
a década de 2000 (incluindo 2011) é aquela na qual foram feitos a maior parte
dos filmes que vi. Foram 133, pouco mais de 1/3. Mesmo assim, vi cerca de 30
filmes por década desde os anos 20, umas décadas mais (1920, 1960), outras
menos, consequência dos ciclos que fiz e dos realizadores que quis explorar ou
rever neste ano.
Em 2011 vi 125 filmes que já tinha visto pelo menos uma vez antes. Os
restantes (mais de 250) vi-os pela primeira vez. Para além disso, houve 3
filmes que vi duas vezes, primeiro no cinema e depois em casa (por curiosidade
foram eles o ‘Black Swan’, o ‘Rango’ e o ‘Love and other drugs’).
Foi um ano em que debrucei sobre os poucos realizadores que me faltavam
conhecer. Vi o meu primeiro Fuller, o meu primeiro Ophulus, o meu primeiro
Chabrol, o meu primeiro Lelouche, e não me desapontaram. Contudo, outros
primeiros desapontaram (Kiarostamis, Téchiné). Foi também o ano em que revi
muito da comédia muda. A minha obsessão por Chaplin é famosa e conheço bem toda
a sua filmografia, mas este ano vi praticamente todas as curtas-metragens e
filmes de Harold Lloyd, um trabalho que desconhecia quase totalmente, e revi a
maior parte dos filmes de Keaton. Fiz ciclos de clássicos velhos conhecidos
(Capra) e tive primeiros encontros (a maior parte dos filmes da Greta Garbo).
Vi os preferidos que tento rever todos os anos (‘Quiet Man’, ‘Arsenic and Old
Lace’), e tentei tirar a teima de filmes ‘famosos’ que na primeira visualização
não me tinham saciado (‘Avatar’, ‘Fight Club’), ambos sem sucesso. Revi muita
animação (o meu ‘guilty pleasure’), da Pixar, da Disney, dos estúdios Ghibli, e
acabei o ano com Don Bluth. Vi (os poucos que me faltavam) e revi muitos dos restantes
filmes que ganharam Óscar de Melhor Filme. Até arranjei tempo para ver os
clássicos de ficção científica dos anos 50 (‘Invasion of the body snatchers’ é
brutal) e os 4 filmes do Matt Helm (imaginem!). E no Verão comecei a (re)ver
todos os filmes do Hitchcock, um por semana, por ordem cronológica. Ainda vou a
meio da sua carreira, mas os filmes que me faltam já os conheço bem. Hitchcock
tornou-se o segundo realizador de carreira extensa, depois de Woody Allen
(qualquer um consegue ver todos os filmes de Leone, Mallick ou Kubrick), do
qual eu já vi todos (e eu quero dizer todos) os filmes.
Foi um ano de (poucas) surpresas e de (muitas) desilusões. O filme ‘The
Dresser’ (1983) de Peter Yates foi a maior e melhor surpresa, um filme absolutamente
brilhante e poderoso que entrou directamente para o meu top dos melhores de
sempre. Obras como ‘Vivre pour vivre’ (1967) ou ‘Man of the West’ (1958) foram
filmes que vi pela primeira vez e que eram tão bons, mas tão bons, que me
ficaram marcados. Vi pela primeira vez outros filmes muito bons como ‘Harold
and Maud’ (estranho mas num patamar incrível), ‘Little Big Man’ (hilariante),
‘The Lodger’ (tecnicamente perfeito), ‘Salaire de la peur’ (o filme que
(re)inventou a tensão), ‘Moon’ (boa estreia de um realizador contemporâneo),
‘Don’t look now’ (inquietante), ‘Dead of Night’ (Ealing nunca desaponta), ‘Kiki’s
delivery service’ (uma pérola escondida de Miyasaki) ou ‘Bedazzled’ (o original
dos anos 60, claro, para quem aprecia o bom humor inglês). Vi também a
filmografia completa de Wallace and Gromit. Numa palavra: genial.
Outros foram uma decepção enorme. O filme ‘Bullit’ (1968), tão reputado e
que eu, por uma razão ou por outra, nunca tinha visto, mas pelo qual sempre
havia ansiado, provou ser um enorme e valente cura para insónias, com uma
‘famosa’ cena de perseguição automóvel que, nas palavras da minha namorada,
‘parecia um par de velhinhas a conduzir’. O filme ‘Winter’s Bone’, nomeado para
os Óscares em Fevereiro de 2011, foi outra decepção, dengoso, moroso e com
muito pouco conteúdo (ai academia, academia…). Outros filmes péssimos que vi
este ano foram ‘Vertical Limit’ (diálogos para atrasados mentais), ‘Sherlock
Homes’ (deturpar um clássico com falta de qualidade e, pior, com falta de
classe), ‘Dinossaur’ (forte candidato ao pior filme da Disney), ‘The Fighter’
(meu deus, que cambada de clichés para americano ver), ‘Mistérios de Lisboa’
(actores péssimos, filme filmado como um livro, história incompreensível),
‘Caramel’ (é sempre mau um filme que me obrigara a fazer outras coisas enquanto
o estou a ver pelo canto do olho), ‘Caravagio’ (uma coisa é arte, outra coisa é
nada) ou ‘Jumper’ (o quão baixo Hollywood pode ir). E para não me acusarem de
dizer mal só de filmes modernos, tenho a dizer que vi dois filmes do grande
realizador Fritz Lang, cujo trabalho adoro (M, Metropolis, Woman in the Window),
que eram péssimos. Verdade que foram os últimos da sua carreira, 20 anos depois
das suas obras-primas, mas mesmo assim eram horríveis. ‘Der Tiger von Eschnapur’
e a sua sequela ‘Das indische Grabmal’ (ambos 1959) são filmes que certamente
não reverei.
Por outro lado encontrei surpresas onde nunca esperaria, cortesia das novas
tecnologias. Rever ‘The Sound of Music’ em Blu-ray, em full HD e com som 7.1,
foi uma experiência única e fabulosa. Parecia que estava a ver o filme pela
primeira vez. ‘Dr. No’, nas mesmas circunstâncias (substituindo o meu velho VHS
original comprado há mais de 10 anos), provou ser uma incrível experiência
visual. Outros filmes já não os revia há tanto tempo que praticamente me tinha
esquecido o quão bons eram. ‘American Tail’, um filme que já não via desde a
minha infância, foi uma experiência lindíssima, que só o cinema pode
proporcionar.
E quanto aos filmes portugueses o nível baixo mantém-se (‘Second Life,
‘Outra Margem’, ‘Mistérios de Lisboa’). Vá, tive uma boa surpresa com ‘Call
Girl’, mas foi pequenina.
Por fim falo dos filmes de 2011. Como disse, fui cerca de 30 vezes ao
cinema. Não é muito, mas tentei ver os supostos grandes êxitos do ano, embora
recentemente pouca vontade tenho de me deslocar até um cinema. A qualidade
americana decresce cada vez mais, e do que as nossas salas estão cheias é desta
suposta qualidade, que na realidade é medíocre. É o chamado nivelamento por
baixo. Pior ainda é chegar agora à época de prémios e ver filmes banais como
‘Idles of March’ nomeados para melhor filme! E ver ‘Cars 2’ nomeado para melhor
filme de animação é um ataque à inteligência, das crianças e dos adultos!
Sim, este ano teve obras primas, mais precisamente 4 (poderá eventualmente
ter tido mais, como disse nem uma vez por semana fui ao cinema): ‘Tree of
Life’, ‘Black Swan’, ‘La Piel que Habito’, e ‘Drive’. Estes são os filmes do
ano. Quatro é um número patético, para uma indústria que se auto congratula
pela sua qualidade. Mas já deixei de me preocupar. Porque posso chegar a casa e
pegar num dos meus 1500 VHS, DVDs ou Blu-rays e maravilhar-me com uma pérola
feita há 60 anos que poucos agora sabem que existe. Mas eu sei. E isso é
suficiente. E se puder compartilhar um pouco desse conhecimento com aqueles à
minha volta que não se importam de me aturar, até durmo um pouco mais feliz.
Apresento o ranking de todos os filmes que fui ver ao cinema em 2011, por
ordem decrescente de qualidade.
1. Tree of Life 2. Black Swan 3. La Piel que Habito 4. Drive 5. Midnight
in Paris 6. Rango 7. Habemos Papam 8. Transformers 3: Dark of the Moon 9. Tropa
de Elite 2: O Inimigo agora é outro 10.Winnie the Pooh 11.Rise of the Planet of
the Apes 12.Love and other Drugs 13.Hereafter 14.Colombiana 15.Johnny English
Reborn 16.Tower Heist 17.Puss in Boots 18. X Men: First Class 19. The
Adventures of Tintin: the Secret of the Unicorn 20. Kung Fu Panda 2 21. Source
Code 22. 127 Hours 23. Rio 24. King’s Speech 25. The Idles of March 26. A
Dangerous Method 27. Scream 4 28. Pirates of the Carebean 4: On Stranger Tides 29.
Captain America: the First Avenger 30. Morning Glory 31.Cars 2 32. You Will Meet a Tall Dark Stranger
2012 entra com poucas promessas. A maior parte dos filmes em carteira são
sequelas. Duas prometem, o terceiro Batman de Nolan e o ‘Hobbit’. E a estes
acresce ‘The Artist’, que já estreou pelo Mundo mas não em Portugal. É triste
quando se entra num ano com a expectativa de ver apenas 3 filmes no cinema.
Bem, no ano passado entrei com a expectativa de ver apenas 2 (Tree of Life e
Black Swan) e descobri mais 2. Portanto, pode ser que no fim deste ano a
contagem já suba para 6. Isso já me faria feliz. Mas faz-me ainda mais feliz
saber que ainda tenho maravilhas para descobrir nos quase 100 anos do Cinema.
Falta-me descobrir poucos é verdade, mas mesmo quando esses acabarem há uma
coisa que nunca me faz perder a fé. É sempre bom rever um bom filme. E um bom
filme é sempre bom.
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