Vamos esclarecer uma coisa logo à cabeça. ‘Carnage’, o novo filme de
Polanski, é genial. É uma ‘tour de force’ de actuação, com um argumento muito
bem construído (baseado na peça de teatro com o mesmo nome da escritora Yasmina
Reza que ganhou o Tony de melhor peça original em 2009), e só se pode
compreender que esteja fora da presente época de prémios pelo facto de ainda
não ter estreado em Inglaterra e só ter tido uma distribuição praticamente
limitada a festivais nos Estados Unidos. É uma pena, pois daqui a um ano, na
próxima época de prémios, já ninguém se lembrará que este filme existe (é a
sina dos filmes estreados em Janeiro e Fevereiro, tal como o brilhante ‘Gran
Torino’ que não foi nomeado para um único prémio importante), e estava aqui um
potencial melhor filme, melhor actor e melhor actriz.
Filmes baseados em peças de teatro (muitos filmados ostensivamente como
tal) foram comuns em Hollywood praticamente até 1980, mas depois com o aumento
da espectacularidade das produções caíram em desuso. Já em 1966, ‘Who's Afraid
of Virginia Woolf?’, da peça de Edward Albee, vencedor de 5 Óscares, fica para
a história por ter os seus únicos 4 actores nomeados para o óscar (as 2
mulheres ganharam). Na realidade não é bem assim visto que havia mais meia
dúzia de actores em papéis minúsculos (empregado de café, etc). Filmes baseados
em peças de Neil Simon (Barefoot in the Park, Odd Couple) ou até ‘Dial M for
Murder’ de Hitchcock, funcionam com poucos actores e com a acção praticamente confinada
a uma única divisão. Não deixam de ser grandes filmes, e para funcionarem
precisam de 2 coisas: de grandes actores que consigam cativar, e de um
realizador inventivo que consiga criar infinitos planos de câmara numa pequena
sala.
Pois bem, ‘Carnage’ tem 4 actores geniais (ou melhor 3 mais 1, visto que
John C. Reilly está um passo atrás de Jodie Foster, Kate Winslet e do glorioso
Christoph Waltz – como foi possível esperar 25 anos de carreira para o resto do
mundo fora da Alemanha saber que existia um actor assim!). E para além disso
tem um realizador que sabe muito bem o que faz e um argumento que literalmente
fala por si. Com apenas 75 minutos, o pacote é incrível e não há um momento em
que o público perca a atenção.
Tirando os créditos iniciais, em que vemos ao longe uma discussão de dois
miúdos de 10 anos num parque e em que um por fim acaba por agredir outro, todo
o filme se passa num apartamento e com apenas 4 actores. Foster e Reilley são
os pais da criança agredida. Winslet e Waltz são os pais da criança agressora.
Encontram-se para que Winslet e Waltz assinem uma declaração amigável de culpa
e de pagamento dos tratamentos dentários. Contudo, a progressão da conversa
impede-os de ir embora, uma vez tratados os documentos. Primeiro é a decência e
a conveniência social que os impede de sair. Depois, algo comicamente,
ostensivamente querem ir-se embora. Chegam até a ir até ao elevador 2 ou 3
vezes. Mas um ponto qualquer da conversa, uma discussão que não pode ficar a
meio, faz com que regressem sempre ao apartamento e que a conversa continue.
Inicialmente a conversa é algo cliché, o ‘fazer sala’. Depois os ânimos vão-se
exaltando, e aí sim o argumento ganha ritmo, a qualidade dos actores vem ao de
cima, e a discussão vai muito mais além dos miúdos e de quem tem a culpa, para
se infiltrar directamente nos pais e na sua própria maneira de ser, das suas
crenças e convicções. Foster é uma dona de casa obsessiva com ideias nobres de
ajudar as crianças em África, e noções muito estereotipadas do bem e do mal.
Reilley é um pau mandado que trabalha na indústria dos equipamentos do lar.
Winslet é de famílias ricas, mas Waltz é o mais brilhante de todos, como o
advogado que não consegue largar o telefone, e que tem um olhar cínico sobre
toda a situação. Em linguagem corrente ‘é o rei de toda aquela macacada’. À medida
que a situação e a discussão entram em proporções épicas (com alguns escapes
cómicos inesperados e realmente engraçados) cada um dos 4 capitula ao seu
verdadeiro eu e resignam-se uns aos outros…
‘Carnage’ é um espectacular estudo de personalidade, da forma como as
pessoas evoluem e se tornam máscaras na sociedade, da forma como uma série
inesperada de eventos pode revelar a sua verdadeira forma de ser, e da forma
como as conversas mais banais podem denegrir muito facilmente, com uma frase
mal colocada, uma palavra errada. Ver ‘Carnage’ é ver 4 actores a demonstrarem
as suas melhores qualidades. Mas, felizmente, não é só um estudo verbal e de
argumento. Os escapes cómicos e as situações inesperadas que se passam dentro
do apartamento, à medida que a forma de ser social das personagens se degreda,
são suficientes para satisfazer o público que não tenha ‘estofo’ para as
convencionais ‘teatralidades’.
Um êxito em todas as vertentes.

0 comentários:
Enviar um comentário