J. Edgar é uma biografia, com classe é certo (não fosse o realizador Clint
Eastwood), mas padece do mesmo problema da maior parte das biografias. É maçadora.
A vida de uma pessoa (real) geralmente tem pouco de interesse para suster 2
horas de filme. O lugar comum é apaparicar os filmes apostando nos eventos
sociais que rodeiam essa pessoa e nos seus dramas pessoas. Ora J. Edgar era um
viciado no trabalho que detinha pouca ou nenhuma vida social, e o seu trabalho
de uma vida foi criar e consolidar o FBI. As investigações seriam
interessantes, como já se viu em milhares de filmes, mas essas são feitas pelos
investigadores. O coordenador tem sempre um trabalho muito mais maçador. Para
além do mais as ameaças fantasmas do comunistas, os segredos, as escutas, fogem
sempre ao concreto, portanto o filme na realidade pouco pode oferecer como
história e tem de se agarrar ao que lhe resta, levando-o ao exagero.
O filme começa como um documentário do canal História. Debita cena após
cena, focando-se nos eventos que levaram à ascensão de Hoover no FBI. A
narração pelo próprio Hoover (ele em velho a ditar as suas memórias) ajuda a
criar esta atmosfera. Mas o filme seria moroso assim sequencialmente, portanto
para se auto-apimentar o filme oscila entre o passado e o presente. Não tem
surpresas para contar, nem twists, portanto é na forma como se desenrola que o
filme tenta encontrar o seu ritmo. E depois apoia-se em 3 eventos para criar
suspense dramático. O primeiro é o caso que tornou popular os novos métodos de
investigação criminal do FBI: o rapto do filho do aviador Lindberg. O segundo é
o ‘drama pessoal’ de Hoover, e da sua relação homossexual com o seu nº2. E o terceiro
é a ‘queda’, devido a velhice, exaustão, e à impossibilidade de combater o
crime, visto que este já chegou à presidência (Nixon).
Contando eventos de 50 anos, ‘J. Edgar’ é pouco interessante. Durante 1
hora de filme, Leonardo DiCaprio mostra-nos um ser pouco social vidrado no
trabalho, e a sucessão de eventos históricos chave com Hoover por detrás são-nos
mostrado com a intensidade de um documentário. Depois o filme decide tornar-se
pessoal, e a sua relação homossexual vem ao de cima durante demasiado tempo.
Mas como nunca é assumida e como nunca se mostra nada o filme retrai-se e
perde-se. Por fim, o filme mostra-nos um ser impotente, impotente contra a
velhice, contra a corrupção, contra si próprio e aquilo que se tornou. Aqui é
mais delicado, mais interessante, mais humano. Mas o pano de fundo não o é, por
isso é sol de pouca dura. E como todos os filme de época recentes (‘O Aviador’
por exemplo) o filme vangloria-se de pequenos pormenores não provados mas que
estão lá para agradar às massas (ou ao próprio Clint visto que parece difícil que
as massas de hoje reconheçam estas personagens). Assim Hoover aperta a mão a
Shirley Temple, está à mesa com Ginger Rogers, e escuta uma gravação de algo
nunca explicitado mas que se poderá deduzir ser um encontro sexual entre
Kennedy e Marilyn Monroe. O que realmente se passa na vida do dia a dia de J.
Edgar é mito, portanto o filme acaba por não ser o retrato de um homem. É o
retrato de um mito. E então onde fica, se até o próprio homem se acha um mito?
Como se diz no filme de John Ford ‘The Man who Shot Liberty Valance’ de 1962
‘entre a lenda e o facto, publique-se a lenda’. J Edgar é uma lenda. E o filme
passa-se como tal, fazendo o zoom a uma série de eventos históricos ‘famosos’ e
deixando os encargos da pessoa, um menino da mamã gago e homossexual, a 3
relações apenas, a secretária Naomi Wats, a mãe Judy Dench e o amor não
assumido com Armie Hammer.
As interpretações são boas, o desenho de produção excelente, a realização
delicada e contida, pouco interventiva. Todos os aspectos técnicos são bons
(excepto a banda sonora que é uma repetição dos pianos ouvidos noutros filmes
de Clint). Mas o que o filme realmente não tem é uma história interessante,
porque a maior parte das vidas não o são. E a escolha de deixar de fora cenas
chave para se focar no homem faz mais mal ao filme que bem. Por exemplo, cada
fez que um presidente é eleito (Hoover reinou no FBI durante o mandato de 8
presidentes), há uma reunião entre ambos que nunca é mostrada. Mostra-se Hoover
na sala de espera, mas nunca se vê a reunião. Apenas é inferido o braço de
ferro, os jogos de poder, as armas que Hoover tem (os ficheiros pessoais de
toda a gente). Quando se defende perante o congresso por exemplo, aí já é uma
cerimónia pública, aí já é o mito. O homem verdadeiro raramente se vê. E quando
se vê está esticado por clichés.
O novo filme de Clint tem o mesmo ritmo lento do anterior (Hereafter) e
acaba por ser de igual modo desapontante. O velho mestre é um excelente
realizador, mas está a tentar ficar demasiado artístico até para o seu
incontestável talento.

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