‘A tua missão, Tom, caso decidas aceitá-la, é, agora que já não tens
carreira e vives da tua reputação, fazer um filme da Missão Impossível de 5 em
5 anos, sempre que quiseres ganhar uma pipa de massa e que o público se lembre
que tu ainda estás vivo’.
A coisa mais extraordinária do primeiro filme da Missão Impossível foi
tornar o herói de 143 episódios da famosa série de televisão num vilão, só para
que a personagem nova de Tom Cruise pudesse ser o herói e continuar a fazer
sequelas por aí fora. Só há partida isto denigre qualquer ligação com a série
original, mas os filmes da MI foram evoluindo e, sinceramente, tornando-se cada
vez melhores. O primeiro (1996), de Brian dePalma, tentou ser um intrincado e
inteligente thriller de espionagem, que acabou por ser demasiado confuso e
complicado. O segundo (2000) para balançar, tinha uma história banalíssima, e
os momentos altos vinham apenas das cenas de acção artísticas coreografadas
pelo reputado realizador John Woo. O terceiro (2006), do guru televisivo J.J.
Abrahams, foi um filme que resultou muito melhor, não só porque tinha muito
menos pretensões artísticas, mas também porque dava ao público aquilo que ele
queria, acção, acção e acção. E da boa. Não é por acaso que o melhor pormenor
de todos do terceiro filme é o facto de nunca se saber o que é o ‘rabitt’s
foot’, o segredo que todos querem roubar. Isso na realidade não interessa. O
que interessa é a acção e a tensão que o rodeia. É o conceito do ‘McGuffin’ de
Hitchcock levado ao extremo máximo. A melhor cena surge quando Ethan vai roubar
a rabbit’s foot. Não se vê o assalto, e isso vai contra toda a suposta premissa
estipulada nos filmes anteriores. Não há cá cabos, nem computadores, nem
máscaras. Ethan vai roubar o artefacto, e a câmara acompanha a tensão dos
membros da equipa à sua espera. 2 minutos depois Ethan aparece num salto, já
com o rabbit’s foot. Genial.
O quarto filme parece que se esqueceu desta construção, e na realidade os
piores momentos do filme são os primeiros 20 minutos, e os últimos 10, em que a
‘plot’ tem de ser muito bem explicadinha. Isto, claro, dá azo a incongruências
para o espectador que pense. Pelo meio existem 3 grandes ‘set pieces’ de acção,
em Moscovo, no Dubai e por fim em Bombaim, que misturam a explosividade e ritmo
acelerado bondiano do período Daniel Craig, com os clássicos estratagemas,
infiltrações e mascaradas da MI. É nestas três sequências que está concentrado
todo o interesse do filme, especialmente quando a história se torna irrelevante
e o que interessa é a acção. O momento mais cativante do filme é a escalada de
Cruise pelo exterior do maior edifício do mundo no Dubai. O que ele vai roubar
não interessa. A tensão da escalada, isolada, é suficiente para agarrar o
público às cadeiras. E isto repete-se, em maior ou menor escala, o que dá
pontos ao filme, mas não o torna exactamente em algo propriamente brilhante.
A história tenta pegar nas estratégias clássicas da MI e perguntar: e se
falharem? Há uma primeira missão que corre mal, uma traição de certeza, e o
Kremlin explode. Portanto, a frase clássica ‘se algum dos seus membros for
apanhado, o governo não reconhece a vossa existência’ finalmente torna-se
realidade, e a equipa que sobra, Cruise, Renner, Simon Pegg (que vem da MI 3, e
que é o escape cómico do filme), e Paula Patton (a menina produzida que sempre
tem que existir nestas coisas), ficam sozinhos, sem apoio, sem retirada, e sem
material. Contudo, a ameaça do lançamento de mísseis nucleares continua
iminente, portanto sozinhos têm que salvar o dia, saltando entre 3 continentes.
Mas mesmo assim o filme tenta enganar sem conseguir. Supostamente estão sem
apoio, dinheiro, e são abandonados pela agência. Contudo, Cruise só tem que
fazer um telefonema a ‘amigos’ da candonga e logo arranja o equipamento e uma
pipa de massa para as máscaras, o material ultra-sofisticado, e arrendar suites
no hotel mais caro do mundo. Estão ‘queimados’ mas mesmo assim conseguem
arranjar convites para festas, as plantas de tudo o que é palácio ou fábrica, e
entrar e sair de condutas de ar sem problemas. Bem, são os luxos de Hollywood,
e na realidade estas partes muito mal explicadas não interessam. Vá, a máquina
de fazer máscaras não funciona, por isso têm que ir sem elas. Mas de novo, o
enfoque tem que ser a acção. E essa, MI 4 dá-a muito melhor que qualquer MI
anterior.
MI 4: Ghost Protocol, tem muitas incongruências, o argumento é previsível e
algo banal, e a construção das partes mais emocionais não é grande coisa (como
explicar a não existência da mulher de Cruise, que foi o centro do filme 3).
Mas o que MI 4 dá é acção, e pela acção vale muito. Mais, a introdução de
Renner é algo interessante (Renner foi contratado e a sua personagem foi criada
do zero para substituir Cruise para o dia em que ele se farte de fazer de Ethan
Hunt), embora, mais uma vez, haja muitos buracos na psicologia desta nova personagem.
Pegg (o cómico de Shaun of the Dead, Hot Fuzz e Paul), tem aqui muita mais
liberdade para os seus escapes cómicos do que teve no filme 3. E não vale a
pena falar de Tom Cruise, está fiel ao seu eu.
MI 4 pode não é um grande filme, mas é bom entretenimento. Surpreendente se
soubermos que foi o primeiro filme com ‘pessoas’ realizado por Brad Bird, o
menino da Pixar que realizou ‘The Incredibles’ e ‘Ratatouille’ (e ganhou 2
oscars de melhor filme de animação por estes). Que transição estranha, mas
interessante, e que ajuda a explicar a por vezes super teatralidade das cenas
de acção, e também do genérico inicial.

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