David Cornwell, mais conhecido como John LeCarré, escreve romances de
espionagem desde os anos 60. O que só se soube muitos anos mais tarde é que
Cornwell era ele próprio um agente. Daí os seus romances estarem impregnados de
realidade e dureza. Contudo, são também construídos com uma exagerada
inteligência, e ao reflectirem a realidade do espião da guerra fria
(informação, contra-informação, segredos falsos, jogo psicológico) tornam-se
eles próprios demasiados confusos. São jogos de superfície. Há sempre segredos,
há sempre intrigas, mas a maior parte delas nunca são reveladas nem explicadas,
porque ninguém é quem aparenta ser, e todos jogam os seus próprios jogos
secretos. Foi isso o que tornou o filme de DeNiro ‘The Good Sheppard’ (2006)
enfadonho até dizer chega, visto que em 3 horas há sempre suspense que nunca é
saciado e que resulta em nada no final. É isto que sucede a ‘Tinker Tailor
Soldier Spy’. É o risco de adaptar um livro de Carré, a estrutura intrincada e
o suspense na página não se adapta a uma fórmula visual de 2 horas. Os dois
últimos filmes baseados nas obras deste escritor dividiram-se. ‘Tailor of
Panama’ (2001) foi muito fraco. ‘The Constant Gardner’ (2005) resultou muito
melhor, mas a história era muito mais adequada e tinha um desfecho. Tinker
estará talvez no meio termo. É um filme cinematograficamente bem construído,
mas os desfechos ficam aquém do ritmo lento, e o filme termina no mesmo tom,
sem dar uma única surpresa.
A história pode ser resumida em duas frases. No mais alto departamento da
espionagem britânica, um de 4 homens é de certeza um agente duplo. Gary Oldman,
um agente semi-retirado, é chamado para descobrir qual deles é. Esta premissa
podia levar o filme para muitos patamares, mas não leva. Oldman tem tantas
falas como Schwarzenegger em ‘Terminator’. Vai de sítio em sítio, de pessoa em
pessoa ouvir de forma impassível as suas confissões e histórias, o que dá azo a
inúmeros flashbacks. Como está retirado e ninguém sabe que está a investigar, o
trabalho sujo é feito por Benedict Cumberbatch, que protagoniza as cenas de
maior tensão do filme, quando tentar roubar documentos do próprio MI6. Há
muitas ramificações, muita areia para os olhos, mas, por incrível que possa
parecer, pouca relacionada com os 4 homens sobre suspeita. Chega ao ponto de
parecer que o próprio Oldman é o agente duplo (o que seria um twist, não genial
por previsível, mas interessante). Mas a realidade é que não é, por isso não se
percebe o que é que o filme andou a insinuar. A verdade é que um dos 4 é,
realmente, o agente duplo, mas não há nenhuma investigação para o apanhar. Há a
história que rodeia os segredos que são passados entre o KGB e o MI6, há a
morte de pessoas que sabem quem é o ‘infiltrado’, mas há muito pouco
relacionado com o infiltrado em si. E no fim este é revelado sem qualquer
surpresa, sem qualquer entusiasmo.
É uma história nostálgica sobre os serviços secretos, na pele de Oldman,
que mesmo com poucas palavras tem uma performance muito subtil e interessante.
Mas no final de contas, por muitas voltas e camadas semi-inteligentes que possa
ter, o filme acaba por ser um ‘whodunit’ absolutamente banal, sem pistas nem
surpresas para o público.
A questão aqui é se é o problema do romance original ou do filme. O filme é
realizado por Tomas Alfredson, o sueco de ‘Let the Right One in’ (2008), e é
ponderado, artístico, e subtilmente construído e actuado, ao estilo do
gentleman espião inglês. Mas o argumento pouco revela em 2 horas. É uma antítese
que sabe a pouco. Não tive oportunidade de ver a mini-série de 1979 em 7
episódios com Alec Guiness, nem de ler o romance original, mas pela amostra de
esta obra de 2011, a história é, na realidade, pouco interessante, pelo menos
para um pacote relâmpago de entretenimento de 2 horas.

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