Que eu saiba só se lançaram 3 grandes longas-metragens ao estilo do cinema
mudo desde o advento do som em 1929. Chaplin fez ‘City Lights’ em 1931, um
filme condenado à partida (por ser mudo na época de explosão do sonoro) mas que
provou ser um grande filme e um estrondoso sucesso de bilheteira. Depois Mel
Brooks fez ‘Silent Movie’ em 1976, uma comédia de homenagem ao cinema, mas que
contudo é um dos trabalhos menores deste excelente cómico. E agora chega ‘The
Artist’ pelas mãos do realizador Michel Hazanavicius.
É engraçado notar que cada um destes filmes foi feito por cómicos. Só um
cómico é que, nos tempos modernos, tem a capacidade de pensar ao estilo dos
filmes mudos, e tem a coragem de os fazer. Só um cómico, nesta época de 3D e
CGI e full HD é que pode exibir a delicadeza necessária para um projecto
ambicioso como este. Cómicos raramente são levados a sério, e quando fazem
grandes obras de arte são sempre olhados de lado. Mas Jerry Lewis e Chaplin e
Jim Carrey e Robin Williams e tantos outros provaram ao longo dos tempos que o
olhar dos cómicos sobre a vida pode ser muito mais pungente, muito mais
intenso, e não precisa de nenhum artifício senão a imagem para o demonstrar.
‘The Artist’ é a preto e branco, é no rácio 1:33, é mudo, tem intertítulos,
e é acompanhado por música não directamente relacionada com a acção, e que
apenas proporciona uma atmosfera (como se tivesse a ser tocada por uma
orquestra não relacionada com a criação do filme, como se fazia nas salas de
espectáculo dos anos 20, já que os filmes mudos eram enviados para as salas sem
som algum). Assim é mais ousado que ‘City Lights’ e mais ousado que ‘Silent
Movie’. A questão é se esta ousadia é suficiente para justificar a qualidade do
filme. Ou seja, o filme é feito e lançado. É mudo, é a preto e branco, e ganha
montes de prémios e provavelmente ganhará os óscares. Ganha-os porque alguém
teve a ousadia de fazer um filme mudo, ganha-os apenas pela maneira como foi concebido,
ou ganha-os porque realmente o filme, o conteúdo, o merece? A resposta é sim,
merece. E ainda bem.
Em 2006 tive a felicidade de conhecer o trabalho de Michel Hazanavicius quando
ele fez ‘OSS 117: Le Caire, nid d'espions’ e em 2009 chegou a sequela ‘OSS 117:
Rio ne répond plus’. Estas comédias de espiões são realmente engraçadas
(especialmente a primeira) e a sua mestria reside na incrível performance cómica
de Jean Dujardin. Na altura escrevi na crónica que ‘Dujardin é um autêntico
génio cómico, e as expressões da sua face são impagáveis’ e que ‘vou continuar
a ver filmes do OSS 117 desde que Jean Dujardin continue a fazê-los’. E eis que
o projecto seguinte do realizador e do actor não é uma comédia, mas um filme
mudo!
‘The Artist’ segue uma história que na realidade não é nova. É uma lição de
história para quem nunca viu um filme mudo e não faz ideia do que foi a
passagem para o sonoro em 1929. Relembra ‘Singing in the Rain’, por exemplo.
Dujardin é o maior actor de Hollywood (então chamada Hollywoodland, algo que o
filme não se esquece de mencionar) uma espécie de Douglas Fairbanks (aliás vê-se
cenas de ‘The Mark of Zorro’ de 1920, em que Dujardin substitui Fairbanks nos
close ups). No alto da fama, descobre um talento, Bérénice Bejo, que se vê
desde cedo que secretamente o ama. Com o advento do sonoro, a carreira de
Dujardin cai a pique, enquanto a de Bejo sobe até ao estrelato. Depois de muito
desespero, acarinhado pelo amor de Bejo, há uma redenção final.
A história, como disse, não é nova, e na primeira metade do filme tive
sentimentos contraditórios. O filme, tecnicamente, estava a ser excelente, a
fotografia, o design de produção, o rol de actores secundários com excelentes
expressividades (incluindo John Goodman como o realizador, James Cromwell como
o motorista e até o cãozinho Uggie). Aliás, o filme parecia encaixar como uma
luva na década de 20, mas nessa década diluir-se-ia como mais um. Um dos bons
note-se, mas apenas mais um desses. Parecia mais uma exibição do que era o
cinema da altura para o público de agora (a maior parte das pessoas que eu
conheço nunca viu um filme mudo). Estava a ser bom, mas não excelente.
Mas então o filme desdisse-me. Adoro quando os filmes me fazem isso. Um
filme deve funcionar como um todo. Às vezes só a cena final dá significado a
tudo o resto. Às vezes apenas uma frase. Em ‘The Artist’, a segunda metade do
filme dá sentido ao todo. Quando finalmente a ‘homenagem ao cinema’ foi
ultrapassada, então o filme pode finalmente focar-se na personagem de Dujardin,
e aí sim, aí subiu a patamares excelentes. Não só (mas também) por ser mudo,
não só (mas também) por Dujardin ter uma expressividade facial incrível, o seu
drama pessoal é focado de uma forma universal. E como não há nada que distraia a
atenção do público, a câmara em 4:3 não larga a face de Dujardin, e a
fotografia a preto e branco faz o resto. O único senão foi ter-se usado a
música de ‘Vertigo’ para a cena final, de resto foi quase perfeito.
E no fim, já não importa se ‘The Artist’ é mudo ou a preto e branco.
Importa apenas o drama da personagem, que é universal, como o cinema. E se esse
drama é dado de uma forma pura e verdadeira, com a magia que associamos a
Chaplin, por exemplo, então ainda melhor.
Em 1931 Chaplin provou que, numa época em que já ninguém queria ver filmes
mudos, e em que muitas das estrelas do mudo se tinham afundado, um filme mudo
de excelente qualidade ainda podia atrair público e tornar-se uma obra prima. ‘The
Artist’, 80 anos depois (80! Incrível!), prova exactamente o mesmo. Não interessa
como o filme é apresentado. Interessa apenas o conteúdo. Claro que este
marketing todo relacionado com ‘The Artist’ advém da forma como foi concebido,
e o Óscar de Melhor Filme parece um bocado exagerado, mas que o filme é bom e
se sustem sozinho não haja dúvidas.
Cannes fez bem em dar a Palma a ‘Tree of Life’. É a celebração do cinema
como forma de arte. Há outros filmes que são obras primas não como formas de
arte, mas como formas de entretenimento e espectáculo. ‘The Artist’ é uma obra
prima na forma de celebração do próprio cinema e da sua maior qualidade; a de
contar histórias. E era isso que o cinema mudo tinha de melhor. Contava histórias
universais. Não havia dobragens, nem traduções. As imagens eram tudo. Em ‘The
Artist’ as imagens são tudo, captadas pela câmara sem qualquer tipo de
adulteração. E não há nada que consiga bater isso. Chaplin estaria orgulhos de ‘The
Artist’.
E Dujardin é um actor do caneco!

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