Provavelmente não sou a melhor pessoa para comentar o novo filme de David
Fincher, pois não li (ainda) o romance original de Stieg Larsson, nem vi
(ainda) a trilogia cinematográfica original sueca. Digo ‘ainda’ pois, perante a
qualidade do filme americano a que assisti, certamente vou arranjar tempo para
me enriquecer culturalmente ao sabor desta obra, pois como toda a gente sabe,
os romances são bem melhores que os filmes que inspiram (dos livros que li que
originaram filmes, apenas ‘Big Fish’, adaptado por Tim Burton, provou ser
melhor).
O poder de ‘The Girl with the Dragon Tattoo’ é precisamente o seu
argumento, portanto o romance original deve ser ainda melhor. A história é
cativante, ao bom género do policial moderno. Um dos meus romances preferidos
de Agatha Christie é ‘Five Little Pigs’, no qual Poirot resolve um crime
passados 16 anos, apenas baseado nos relatos das testemunhas. Não sei se Stieg
Larsson alguma vez leu esse livro, mas a estrutura é de certa forma semelhante.
Daniel Craig e Rooney Mara procuram uma mulher, a neta de Christopher Plummer,
desaparecida há 40 anos, que provavelmente foi vítima de um serial killer, que
provavelmente é um de um grupo muito limitado de pessoas. A investigação faz-se
através de entrevistas aos membros da família e através da pesquisa em
arquivos, fotos antigas, espionagem a computadores, etc. Esta parte da
história, embora com muitos ‘twists and turns’ é, ao mesmo tempo,
‘strighforward’. Há um problema e no fim haverá uma solução. Contudo, é
consistente, coerente com as pistas, e nunca deixa de ser interessante nem
cativante. Claro que num filme tudo se passa rápido portanto a construção do
suspense nunca é tão cativante como num romance, e a partir de certo ponto
torna-se previsível, pois há uma linha que um filme tem de seguir, mas mesmo
assim este filme consegue resultar e até surpreender.
Mas o interesse do filme reside em duas coisas mais que a história base.
Primeiro está a construção das personagens dos dois investigadores (que na
realidade só começam a trabalhar juntos no último terço do filme).
Principalmente a rapariga com a tatuagem do dragão, Rooney Mara, está
incrivelmente bem construída, uma performance bem merecedora da sua nomeação
para o Óscar. Por outro lado está a realização e o design de produção. Fincher
constrói o filme a um ritmo apressado mas metódico, que prende o espectador. Os
ambientes são gélidos, e a luz é sempre ténue (exceptuando os flashbacks, com
um simbolismo óbvio) e este é o ambiente propício para explorar a depravação
humana do argumento. Contudo, tal como ‘Social Network’ este é um filme que se
passa sempre no mesmo tom. Fincher filma tudo da mesma forma. Visto que é o
segundo filme seguido em que faz isso, começo a desconfiar…
Já Daniel Craig está igual a si próprio. Embora a sua presença como
investigador seja uma peça fulcral do filme e resulte, fá-lo com a mesma
intensidade como faz de Bond. É daqueles actores com uma ‘persona’ que não
muda. Aliás, enquanto o resto do ‘cast’ procura formular uma espécie de sotaque
sueco (o que se torna algo enervante – se assumem que todos falam inglês na
Suécia, então não importa que seja com sotaque ou não), Craig nem esforço faz e
fala com a sua voz americana normal.
O ano passado Fincher esteve nomeado para o Óscar com ‘Social Network’ e
especulou-se muito que seria o vencedor (na realidade merecia mais que Tom
Hooper – quem?! O realizador do ‘King’s Speech’). Vendo ‘The Girl with the
Dragon Tattoo’ parece incrível que não haja nomeações nem especulações. Ao
contrário de ‘Social Network’, eis aqui um thriller bem construído, com uma
história sólida e muito interessante, filmada num ambiente muito próprio que só
por si envolve o público e o absorve na história. É ‘apenas’ um thriller, sim,
é chocante por vezes mas é um dos melhores filmes de investigação
jornalística/criminal dos últimos anos. É apenas um ‘thriller’, sim, mas todos
adoramos um bom ‘thriller’. E este é um bom ‘thriller’.

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