Antes do grande final de ‘Giù la testa’ há uma longa série de sequências
sem diálogo, onde as duas personagens principais passam por um período de
reclusão e desespero. O silêncio de falas (pois há muita música e sons de
batalha) é quebrado quando um pássaro liberta os seus dejectos sobre Rod
Steiger e ele diz chateado ‘mas para os ricos cantas’. É aí que James Coburn
solta uma longa gargalhada, que fica a ecoar pelo filme. E de repente
apercebemo-nos do significado do filme, e aquela gargalhada permanece, para
além da tela, a ecoar na mente do espectador…
‘Fistfull of Dynamite’ (para fazer a associação à trilogia dos dólares)
também chamado ‘Once Upon a Time in the Revolution’ (para fazer a associação à
outra trilogia de Leone, a da América), também chamado ‘Duck, You Sucker’ (que
vem do título original italiano) é um dos filmes de Sergio Leone mais
esquecidos e menos considerados. Apareceu em 1971 depois do fabuloso ‘The Good,
the Bad and the Ugly’ (1966) e do ainda melhor ‘Once Upon a Time in the West’
(1968) e é o ultimo que Leone realizou até à sua derradeira obra-prima em 1984
(Once Upon a Time in America). Depois de dois westerns tão bons, a fasquia
seria difícil de ultrapassar, e é geralmente considerado que Leone não esteve
no seu melhor em ‘Giù la testa’. Isso é verdade, o filme não é tão bom. Mas
para um realizador da categoria de Leone, dizer que um filme dele não é tão bom
é dizer que é, no mínimo, excelente. A questão com ‘Giù la testa’ é que o seu
tema central não é o mesmo dos westerns anteriores de Leone, e é preciso encará-lo
com outro tipo de maturidade.
A trilogia dos dólares apresenta um oeste de anti-heróis, com sequências
lentas e elaboradas que vão construindo um climático final. Aí, tal como em
todos os filmes de Leone, as personagens interessavam mas que a acção, mas os
seus motivos eram na maior parte das vezes egoístas, como a vingança ou o
dinheiro, e só por si justificavam essa acção. O objectivo de ‘The Good, the Bad
and the Ugly’ é o tesouro enterrado. E o filme possui uma épica construção de
uma qualidade indescritível, mas se o decompormos descobrimos que estamos
apenas perante o tema clássico de busca por dinheiro. ‘Once Upon a Time in the
West’ tinha outros valores, e era uma carta de amor à conquista do Oeste, visto
pela perspectiva de 4 personagens que representam cada um dos arquétipos que
associamos aos westerns. Uma delas procura dinheiro, uma reputação, a outra
vingança, a outra a nova vida que só o oeste pode proporcionar. Mas em ‘Giù la
testa’, por mais incrível que possa parecer, o tema central é a amizade, os
valores pessoais e a traição entre amigos. A amizade entre Blondie e Tuco em ‘The
Good, the Bad and the Ugly’ era apenas de conveniência. A amizade entre Juan e
Sean é algo bem diferente.
Juan (Rod Steiger) é um ladrãozeco mexicano, porco e analfabeto, que se
ocupa a roubar diligências com os seus muitos filhos, e sonha com assaltar o
banco de Mesa Verde. Sean (James Coburn) é um irlandês, ex-IRA, especialista em
explosivos, com um passado que procura esconder. A introdução destas duas
personagens é meia hora clássica de Leone. Quando se encontram, Juan chantageia
Sean a assaltar o Banco de Messa Verde. Quando tentam fazê-lo, envolvem-se na
revolução Mexicana, e ficam embrenhados nela até ao fim do filme.
Na realidade, não há muita história em ‘Giù la testa’. Dois homens
distintos vêm-se envoltos em algo que é muito maior que eles, e que não
conseguem compreender. Este já é um Oeste decrépito, muito contrário ao representado
nos clássicos e heróicos westerns. Estamos já no século 20. Já há quem se
desloque de carro ou mota. Já há armas automáticas. Mas há homens fora do seu
tempo que ainda andam de arma de 6 balas no coldre, que ainda se deslocam a
cavalo. O novo e o velho confundem-se e os valores da revolução são o pano de
fundo para os conflitos internos destas duas personagens. Mas enquanto que a
Guerra Civil Americana é mostrada em ‘The Good, the Bad and the Ugly’ como um catalisador
de mais acção, um pano de fundo da história principal, a revolução mexicana é
uma parte integrante de ‘Giù la testa’, e a câmara foca em variadas ocasiões os
horrores da guerra, e esse peso é sentido pelos dois protagonistas.
À imagem da personagem de Charles Bronson em ‘Once Upon a Time in the West’,
existem flashbacks para o passado na Irlanda de James Coburn. Aqui a beleza
destas sequências em slow motion são enfatizadas pela belíssima banda sonora de
Ennio Morricone. O tema central é a traição. Sean foi traído na Irlanda pelo melhor
amigo (Leone adorava John Ford, e ontem, a ver o filme, perguntei-me se o tema
da traição no IRA não teria sido inspirado no filme ‘The Informer’ de 1935).
Agora, numa nova revolução, com um novo melhor amigo, Sean sabe que não será
traído. Estes homens têm uma amizade que vai para além das armas (sim, eu sei o
que estão a pensar, também não é homossexual). É uma amizade de dois homens que
se vêm ultrapassados pelo tempo, e que juntos, quase sem querer, juntam-se ao
movimento que libertará o povo mexicano da opressão. Mas na realidade o
objectivo da revolução não lhes interessa muito. Quando a família de Juan é
morta, só lhe resta Sean. E Sean também não tem ninguém senão Juan. Quando
estão escondidos num vagão, pensando que a revolução está perdida, cercados por
tropas inimigas e a caca de pássaro cai e Sean se ri, vemos os dois homens a
entenderem-se, da mesma forma como se entendem Robert Redford e Paul Newman em
‘Butch Cassidy and the Sundance Kid’, como se entendem Morgan Freeman e Tim Robbins
em ‘The Shawshank Redemption’. Nenhum dos homens trairá o outro. E sabendo isso
partem para o assalto suicida final que define os últimos 20 minutos de filme.
‘Giù la testa’ tem uma história mais difícil de seguir, já que muito pouco
é explicitado. Por um lado tem sequências de acção fabulosas, à Leone. O
assalto ao banco, o ataque na ponte. Mas por outro o conteúdo do filme está
entre as linhas, está nas longas sequências sem falas com a música de
Morricone, está nos olhares trocados, está no segredo de Sean, e na união dos
dois homens. É um filme que se entende melhor à medida que os anos passam e as
visualizações se multiplicam (esta foi a minha 3 ou 4a visualização e gostei
muito mais). É o meio termo entre a acção e a construção operática de cenas dos
westerns anteriores de Leone e o complicado estudo das relações humanas
presente em ‘Once Upon a time in America’, 13 anos depois.
Se é para ver ‘Giù la testa’, por favor veja-o na sua versão de 150 min. As
várias versões cortadas do estúdio já desapareceram mas restam duas em DVD, uma
de 147 e uma de 150 min. A questão é se 3 minutos fazem a diferença. A resposta
é sim. Os 3 minutos em questão consistem no último dos flashbacks, e foram
cortados mesmo mesmo no final do filme (o flashback encaixa 30 segundos antes
do final do filme). Quem o cortou deve ter achado o flashback supérfluo (é na
realidade um pouco polémico, daí a razão de ter sido cortado). Eu acho que não.
Acho que o filme não faz sentido sem ele. Esse flashback justifica todo o filme
e fecha a compreensão daquilo que é Sean, uma das mais complicadas personagens criadas
por Leone (se não a mais, rivalizando com a de DeNiro em Once Upon a Time in America).
‘Giù la testa’ poderá ser o pior filme de Leone. Mas é um grande filme. Os
jovens podem vê-lo pelas sequências à Leone, mas acharão o seu ritmo mais lento
e menos explícito. Mas à medida que os anos passam ficarão surpreendidos em
encontrar elementos no filme que nunca tinham descoberto. Só um filme bom
proporciona estas camadas e não se esgota com a sua primeira visualização.

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