O novo filme de Scorsese não é uma homenagem ao cinema mudo. É uma afronta!
A meio do filme, enfadado até dizer chega, enervado até à ponta dos cabelos com
a adulteração histórica, só me apetecia estar cara a cara com Scorsese para lhe
tirar satisfações. Dou um exemplo simples para que o público actual me entenda.
Imaginem que daqui a 50 anos alguém faz um filme de homenagem a Francis Ford
Coppola, e nomeadamente ao ‘Padrinho’. Contudo, aparecem imagens do ‘Indiana
Jones’ de Spielberg e do ‘Avatar’ de Cameron e do ‘Hugo’ de Scorsese. São todos
a cores e são todos americanos, por isso deve ser tudo a mesma coisa que o ‘Padrinho’,
pode ir tudo para o mesmo pote! Existiram filmes mudos de 1895 a 1929 e não são
todos iguais, nem são todos a mesma coisa! E é vergonhoso que Scorcese não
saiba isso.
Eu sou um historiador de cinema autodidacta. Nunca tirei um curso de
cinema, não tenho uma coluna num jornal (mas devia ter!). Em suma, sou um zé
ninguém. Mas sei a minha história do cinema. Sei que ‘Voyage das la lune’ de
George Meliés foi feito em 1902, sei que ‘Safety Last!’ com Harold Lloyd foi
feito em 1923, sei que ‘Die Büchse der Pandora’ de Pabst foi feito em 1929, e
que todos eles representam géneros e períodos diferentes da evolução do cinema.
Quando vejo imagens destes três filmes misturados na mesma montagem sobre o
título de ‘primórdios do cinema’ começo a desconfiar, especialmente porque o
filme se passa em 1931. Um filme de 1929 não estaria numa montagem de ‘primórdios
do cinema’ pois tinha acabado de ser feito. Uma personagem não exclamaria ‘mas
está a cores!’ quando vê um excerto de um filme com a celulóide pintada à mão.
Isso exclama uma miúda de 2012 que acha que tudo feito antes de 1970 foi a
preto e branco, não uma de 1931. A cena só existe para o adulto lhe responder ‘ah,
pintamos frame a frame à mão’. Mas está a explicar ao público de agora e não há miúda.
FYI, há filmes a cores em 1900! E de novo, é vergonhoso que Scorcese não saiba
isso.
‘Hugo’ está a ser aclamado como um grande filme, foi nomeado para 11
óscares (imagine-se!) única e simplesmente porque é de Scorcese e porque tem
uma pseudo-homenagem a um dos pioneiros do cinema, o francês George Meliés,
incluindo umas belas imagens dos seus filmes, datados da primeira década do
século XX. Os críticos de hoje não percebem nada de cinema se acham que ‘Hugo’
é bom. Vêm os clips dos filmes de Meliés e tiram o chapéu a Scorsese por os ter
usado num dos seus filmes! Mas qual a glória se tudo é adulterado? ‘Hugo’ tem
uma história banalíssima, cheia de falhas, e que é tão fina como uma folha de
papel. E depois a homenagem ao ‘cinema’ está cheia de incongruências
históricas.
Hugo é a história de um rapaz órfão que mora dentro da gare de comboios de
Paris, onde, após a morte do seu pai e do seu tio, arranja os relógios da
estação sem que ninguém saiba. Como ele come também ninguém sabe, visto que só
se o vê a roubar um croissant uma vez, e com alguma dificuldade, e ele mora lá
sozinho há anos. Também ninguém sabe como não morre de frio, pois passa o filme
todo, passado no inverno, de calções. A estação em 1931 certamente tem
aquecimento central. O seu pai, um relojoeiro talentoso, deixou-lhe um legado,
um boneco mecânico por arranjar. Hugo procura arranjar o boneco, pois acredita
que uma vez ‘ligado’ este lhe irá transmitir uma mensagem do pai. Com isto
envolve-se com um velho (que se assume logo ser Meliés, interpretado
pesarosamente por Ben Kingsley) que trabalha na estação numa loja de
brinquedos, e com a sua sobrinha, Isabelle, que vai ajudar Hugo a desvendar o
segredo. Na realidade não há segredo nenhum, algo que o filme parece não se
aperceber, e essa história, supostamente central do filme, acaba passado 45
minutos (ou melhor acaba aqui para o espectador que tem cérebro e sabe
raciocinar, pois o desfecho e a ‘surpresa’ só surge mais tarde). Mas o filme
tem 2h05, portanto a partir daí é ‘encher chouriços’, primeiro com os escapes
cómicos (alguns até bem cómicos, mas irrelevantes para o filme) de Sacha Baron
Coen, e com a pesudo homenagem a Meliés.
Eu tenho uma caixa de DVDs dos filmes de Meliés. No livrete, que li mal
cheguei a casa vindo do cinema, diz que Meliés trabalhou esquecido na gare de comboios
nos anos 20, e que a sua homenagem de re-descoberta foi 1929. No filme, isso
passa-se tudo em 1931. O livrete também nos diz que no ano da morte de Meliés,
em 1938, achava-se que só 8 dos seus filmes tinham sobrevivido. Os restantes foram
encontrados depois entre os anos 40 e 60 pela fundação que se criou. Em ‘Hugo’,
em 1931, só 1 filme de Meliés existe, o famoso ‘Voyage das la lune’ e na sua
gala de redescoberta, no mesmo ano no final do filme, diz-se que todos os seus
filmes já foram redescobertos e mostra-se um clip resumo da maioria. Esta cena,
como aliás o flashback da vida de Meliés no fim do filme, são realmente
interessantes e mágicos, e são as únicas cenas de interesse do filme. A questão
é que duram 5 minutos, e têm interesse de um ponto de vista histórico, para o
público de agora que não possui a caixa que eu tenho e que nunca ouviu falar de
Meliés. Mas o filme, como filme, não tem nada de jeito para além desses 5
minutos.
A história de ‘Hugo’ é enfadonha. Hugo procura desesperadamente um segredo
que não existe, mas depois quando descobre Meliés, parece esquecer-se que
passou metade do filme à procura do segredo do pai. O filme tem uma história
que se esgota passado meio filme e depois arrasta-se até ao final muito, mas
mesmo muito, lentamente. O 3D é muito bom e o desenho de produção também,
embora incongruente (este 1931 parece o final do século XIX, quer nos cenários,
quer nas referencias literárias de Isabelle, que adora ler). A química entre
Hugo (o actor Asa Butterfield) e Isabelle (Chloë Grace Moretz) é nula, e parece
a do Harry Potter e da Hermoíne (Isabelle é enervante, convencida e fala com um
sotaque inglês forçado e pouco convincente). Há personagens secundárias que
fazem bons papéis (Emily Mortimer, Christopher Lee, Jude Law), mas o resultado
é qual? Hugo é sobre quê? É um filme de natal sobre um miúdo que tenta
encontrar uma família e resolver um segredo forçado? Metade do filme parece que
sim, e nesse caso parece-se com milhares de filmes banais de natal para a
família. Dizer ‘Scorcese’ não significa ‘bom’. Mas depois isto mistura-se com
uma homenagem ao cinema mudo e à vida de Meliés. É por isso que é bom? É bom só
porque se mostram clips de filmes mudos? Se eu fizer um filme que é uma porcaria
e não tem ponta por onde se lhe pegue, mas depois puser lá para o meio clips do
Chaplin vou ganhar Óscar de melhor realizador?
Numa cena, Hugo e Isabelle vão ao cinema. Estamos em 1931, relembre-se,
onde o sonoro já existia. Contudo, não parecem saber isso em Paris, e só há exibição
de filmes mudos. Vêm ‘Safety Last!’ de Lloyd que é de 1927 (ok, podia ser uma
reposição, embora isso quase não existisse na altura, a maior parte dos filmes
não eram guardados) e há posters do cinema indiscriminados de clássicos dos 30
anos anteriores. ‘Hugo’ diz que foi ver ‘Robin Hood’ com Fairbanks ao cinema
com o pai e que é uma grande memória que tem. Visto que ‘Robin Hood’ é de 1922
e Hugo tem 11 ou 12 anos, com 2 ou 3 anos acho difícil que se recorde assim tão
bem…
‘The Artist’ homenageia os filmes mudos, com algumas liberdades que são
justificáveis por motivos dramáticos e cinematográficos. Em ‘Hugo’ a
adulteração não é justificável e é, até, ofensiva, e a história base não
presta. ‘Hugo’, tal como por exemplo o péssimo ‘Chaplin’ de 1992, homenageia partindo
de clichés, e vendo as coisas da perspectiva de um público actual, com uma
visão completamente adulterada.
Saí da sala de cinema muito perturbado e quase a tremer. Amo cinema e
custa-me muito vê-lo a ser atacado desta maneira, especialmente por um dos seus
principais autores. Scorsese devia ter vergonha. ‘Hugo’ não deve ser visto.

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